Rogue One se inspira no heroísmo dos anônimos para contar sua própria história Star Wars

Rogue One lembra das pessoas comuns que resistem à tirania e ousam enfrentá-la, arriscando suas vidas em guerras e conflitos para poderem viver em um mundo mais justo, mas que nunca terão um monumento ou nome de rua em seu tributo por isso.

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Star Wars se consagrou tendo como o centro da trama a família Skywalker, da qual vem tanto o protagonista Luke Skywalker, um garoto fazendeiro do desértico planeta Tatooine, que descobre ser a pessoa predestinada a salvar sua galáxia; quanto o antagonista Anakin Skywalker, também um predestinado, porém seduzido pelo lado sombrio da Força, tornando-se Darth Vader, o principal vilão da série. Ambos representavam de forma bem definida o bem (Jedi) e o mal (Sith), o lado luminoso da Força (Ashla) e seu lado sombrio (Bogan).

Mas como seria Star Wars caso sua história fosse contada a partir de guerreiros comuns, de soldados anônimos, que se encontram totalmente fora da mitologia dos personagens clássicos da série? É esse tipo de abordagem que o filme Rogue One: Uma História Star Wars, dirigido pelo inglês Gareth Edwards e roteirizado pelos norte-americanos Christopher John Weitz e Tony Gilroy, tenta desenvolver, usando como pano de fundo a Guerra Civil Galáctica, um período da saga em que os Jedis haviam sido praticamente extintos (o que torna ainda mais coerente a nova proposta de narrativa).

Como em Star Wars VII – O Despertar da Força, em Rogue One novamente uma mulher é a protagonista,  a combatente  Jyn Erso, interpretada por Felicity Jones (A Teoria de Tudo). Com exceção da atriz britânica Jones, do ator dinamarquês Mads Mikkelsen (do seriado Hannibal), que interpreta o pai da protagonista, o cientista do Império Galen Erso, e do ator australiano Ben Mendelsohn no papel do antagonista da trama, o Almirante Orson Krennic,  o restante do elenco principal é formado por atores que dão um aspecto “multicultural” ao filme, tendo o ator mexicano Diego Luna como o oficial de inteligência da Aliança Rebelde Cassian Andor;  o ator britânico de origem paquistanesa Riz Ahmed, como o piloto desertor do Império Bohdi Rook; e os atores chineses Donnie YenJiang Wen, respectivamente como o guerreiro-monge (e cego) Chirrut Imwe e o assassino de aluguel e amigo de Imwe, Baze Malbus.  O único papel de destaque feito por um ator norte-americano ficou para Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia), que interpreta o líder rebelde extremista Saw Guerrera.

O fato de Rogue One ser um filme Star Wars novamente protagonizado por uma mulher, apresentar um elenco multicultural (evidentemente a Disney também está de olho no público não branco e fora dos EUA, principalmente o chinês), ter um ator negro como o único representante da nacionalidade norte-americana no filme, e no qual os atores brancos, com exceção de Jones, interpretam os personagens de menor destaque e ainda representando o Império; enfureceu os extremistas de direita norte-americanos, que chegaram a promover um boicote contra o filme.

Star Wars 3.5

Poucos sabem, mas Rogue One na verdade é o terceiro spin-off da série Star Wars. Antes dele foram lançados nos anos 80 dois filmes que faziam parte do mesmo universo, porém focados em histórias paralelas: A Caravana da Coragem – Aventura Ewok (1984) e a sua sequência Ewoks – A Batalha de Endor (1985).

O primeiro spin-off de Star Wars.

Contudo, Rogue One é muito mais que “uma história Star Wars”, é um filme canônico, que pode ser considerado uma sequência entre o episódio III e IV da saga, ou um Star Wars 3.5, como muitos já se referem ao filme.

Este spin-off com status de sequência responde uma questão que estava em aberto na série: como os planos da Estrela da Morte chegaram até a Princesa Leia, tornando assim possível  a destruição dessa plataforma bélica no quarto filme?

Para responder essa incógnita, o filme se inicia com uma tropa imperial, liderada pelo Almirante Krennic, a procura de Galen Erso, o engenheiro do Império responsável pela tecnologia empregada na construção da Estrela da Morte, mas que havia abandonado o projeto e fugido por arrependimento. Ele é capturado e sua mulher é morta, enquanto sua filha Jyn testemunha tudo atônita. Jyn é resgatada e criada por Guerrera até os seus 15 anos, com o qual aprendeu técnicas de guerrilha e que lhe permitiu viver por conta própria e “fora da lei”. De temperamento impulsivo e agressivo, Jyn acabou sendo presa pela própria Aliança Rebelde, porém, esta, ao saber que Guerrera detém como prisioneiro um piloto do Império que trazia consigo informações sobre a Estrela da Morte, prontamente liberta Jyn para localizar seu velho amigo e obter tais dados. Desta forma a história engrena e segue de forma bem interessante e eficaz, mais do que suficiente para prender a atenção de quem assiste até o final do filme.


Em sua missão, Jyn é acompanhada (para também ser vigiada) do oficial de inteligência Cassian Andor e de K-2SO, um droide de segurança originalmente do Império, mas que foi reprogramado por Cassian para servir a Aliança Rebelde. É inevitável fazer uma relação entre esses dois com a também dupla Han Solo e Chewbacca da série original, contudo as personalidades são bem diferentes. O oficial da Aliança é frio e não mede esforços para atingir seus objetivos, nem que para isso precise tomar medidas moralmente questionáveis. Já K-2SO, exceto pela sua altura, em nada lembra o Chewbacca, mas outro droide bem conhecido da série… Assim como C-3PO, sua característica marcante é o pessimismo, porém, diferentemente do pessimismo chato e irritante do droide protocolar, o seu é realista e possui um tom sarcástico. Tal característica o torna o droide de personalidade mais interessante de toda a série e um dos personagens mais marcantes do filme.

Na busca por Guerrera, acaba se juntando ao grupo o guerreiro-monge cego Chirrut Îmwe e seu amigo e protetor Baze Malbus. Îmwe é um personagem profundamente espiritualizado, não por acaso é o único de Rogue One que lembra, e constantemente, da existência da Força. Contudo, a ligação de Îmwe com a Força não o torna um Jedi e sequer é usada como pretexto para ele protagonizar uma luta com sabres de luz (o que ficaria muito interessante para o personagem). Desta forma a película perdeu sua única chance de ter um cavaleiro Jedi entre os seus personagens, o que fez as lutas com sabres de luz também ficarem ausentes, para a decepção de muitos fãs de Star Wars. Como compensação, Îmwe traz algo novo para a série: a arte das lutas marciais, rendendo uma cena muito bem coreografada pelo ator e artista marcial Donnie Yen, num confronto com as forças do Império na lua Jedha. Enquanto Îmwe é espiritualizado e serve para introduzir em Rogue One o conceito metafísico basilar da série, seu companheiro, o guerreiro (outrora assassino de aluguel) Malbus, é o seu oposto, mostrando-se cético em relação à existência da Força  e uma pessoa pragmática, que prefere confiar a sua sorte ao manejo de sua bazuca.

Quando o grupo chega ao rebelde extremista Saw Guerrera (o personagem foi inspirado no revolucionário Che Guevara, inclusive no nome), resgatam o ex-piloto do Império Bohdi Rook que havia sido preso por Guerrera, mesmo que tenha o procurado para cooperar com a causa rebelde, trazendo uma mensagem do pai de Jyn como uma forma de se redimir. Guerrera não confia em ninguém e possui seus próprios métodos de luta, os quais foram considerados pela Aliança Rebelde como táticas de terrorismo. O ator Forest Whitaker como Guerrera está impecável, transmitindo bem o caráter paranoico do personagem, o qual poderia ser melhor aproveitado no filme.

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O Império descobre a base de Saw Guerrera em Jedha.

Após escaparem do primeiro teste da Estrela da Morte na lua Jedha (cuja destruição que provoca é visualmente impressionante), o grupo parte para uma base do Império ao encontro de Galen Erso, o pai de Jyn. O que se passa por lá, faz Jyn levantar questionamentos sobre a própria Aliança Rebelde, a ponto de dizer para Cassion Andor que a forma de agir dos rebeldes não era muito diferente da dos stormtroopers, os soldados do Império.

Pela primeira vez foi exposta na série as falhas, os métodos questionáveis e o lado sombrio da Aliança Rebelde. No filme descobrimos que nela existe uma hierarquia rígida e uma obediência cega às missões estabelecidas, que inclui a execução de pessoas inocentes. Com Guerrera e os questionamentos de Jyn, também fica claro que entre os próprios rebeldes existem conflitos e diferentes vertentes na causa. Tudo isso torna o filme mais complexo, logo mais realista se comparado ao maniqueísmo da série clássica.

Essa relação conflituosa, no entanto, não impediu que Jyn seguisse seu objetivo. No reencontro com o seu pai, ela fica sabendo sobre a exata localização dos esquemas técnicos da Estrela da Morte, que se encontram num banco de dados de alta segurança no planeta Scariff. Não tendo como comprovar a informação passada pelo seu pai,  o conselho da Aliança Rebelde se recusa a ajudar Jyn, mas ela acaba recebendo o apoio do grupo formado por  Cassian Andor e seu droide K-2SO, a dupla Chirrut Îmve e Baze Malbus  e o piloto Bohdi Rook, que decidem se juntar a ela nessa missão.
Quem tentará impedi-los é o Almirante do Império Orson Krennic, o antagonista da trama. Mas, Krennic, como o vilão da história, deixa a desejar. É  medíocre, em nenhum momento consegue ser mais do que um mero burocrata do império, desesperado em agradar seus superiores. Sequer o seu desfecho empolga, e sua participação acaba ficando à sombra do governador Grand Moff Tarkin e totalmente ofuscada pelas curtas, mas intensas aparições de Darth Vader.



Uma boa história Star Wars

Rogue One pode ser interpretado como um lembrete sobre a importância das pessoas comuns que lutam por um mundo melhor, especialmente nas guerras e conflitos, mas que nunca terão um monumento ou nome de rua em seu tributo.

Ao contrário da obra original de George Lucas, na qual ele pôde aproveitar todo o potencial de uma fórmula poderosa, baseada no monomito de Joseph Campbell; em Rogue One, pelo fato de ser um breve período da linha do tempo da série e não poder contar com os personagens clássicos, coube aos personagens que representavam desconhecidos  darem desenvolvimento à história. Isso também explica por que o desenvolvimento dos personagens em Rogue One ficou prejudicado  surgindo dúvidas a respeito deles, principalmente sobre sua origem e passado – diferentemente dos personagens da série clássica, que possuem 7 filmes para contar sua história e que abrangem um período de décadas.  No entanto, com exceção de Kronnic, isso não os compromete, e todos conseguem ser carismáticos o suficiente para nos fazer importar com o seu destino durante o filme.

Sai o herói messiânico e entram personagens mais humanos, imersos numa realidade conflituosa, culminando em  cenas de guerra baseadas em conflitos reais. Tudo isso torna a narrativa de Rogue One a mais realista entre os filmes da franquia, o que, naturalmente, desagradou os fãs mais conservadores da série, acostumados com o apelo e os clichês da saga original.

Estes também se queixam pela ausência de lutas com sabres de luz e pelos poucos personagens de aspecto alienígena, caso de Chewbacca na trilogia original, e de Jar Jar Binks da trilogia de prequela. Alienígenas de aspecto não humano até que aparecem na trama, mas foram colocados sem entusiasmo, apenas para o filme ficar condizente com o universo da franquia.

Como na série original, a qual era uma crítica ao autoritarismo e até mesmo à ideologia do livre mercado, aqui a crítica política também se faz presente, mostrando as limitações do individualismo e fazendo uma reflexão sobre a nossa realidade utilizando os conflitos e as guerras do universo de Star Wars como metáfora. E sim, a extrema-direita americana também acertou, o filme também é uma crítica a supremacia branca: nas fileiras do Império Galáctico a representatividade de  humanos não brancos e raças alienígenas é nula. Mais claro do que isso, impossível.

O filme também garante momentos de pura nostalgia para os fãs da série, com as aparições de Darth Vader (mais poderoso e cruel do que nunca), assim como a tecnologia digital nos permite rever dois personagens da série clássica (cujos efeitos digitais dividiram a opinião dos fãs).

Star Wars se tornou um ícone da cultura pop utilizando a narrativa da jornada do herói, o conceito metafísico da Força e um universo próprio com personagens carismáticos e marcantes, num duelo entre o bem e o mal. Já Rogue One não pôde contar com a poderosa fórmula da saga original, tendo ainda o desafio de fazer uma história Star Wars com personagens totalmente novos e de uma realidade diferente da dos personagens da série clássica.

Apesar disso, o filme consegue preencher muito bem a lacuna entre os episódios 3 e 4 da franquia, cumprindo assim o seu papel e indo além, conquistando a sua própria identidade, ao ousar redefinir alguns conceitos da série e conseguindo transformar o que aparentemente era uma desvantagem, um filme spin-off de Star Wars, no seu maior trunfo.

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Rogue One se inspira no heroísmo dos anônimos para contar sua própria história Star Wars

Movie title: Rogue One - Uma História Star Wars

Movie description: Star Wars 3.5

Date published: 2016-12-15

Director(s): Gareth Edwards

Genre: Ficção Científica

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  • Avaliação (1-100) - 89

Resumo

Tendo o desafio de fazer um filme Star Wars com personagens totalmente novos e de uma realidade diferente da dos personagens da série clássica, o filme consegue preencher muito bem a lacuna entre os episódios 3 e 4 da franquia, cumprindo assim o seu papel e indo além, conquistando a sua própria identidade.

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