Rock, Política e Crítica Social: uma lista de 10 bandas/20 músicas do rock de combate

Para relembrar o tempo da música combativa, montamos uma lista com algumas bandas exemplares do rock, do punk e seus derivados, que não fugiram à boa luta.

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Por Cláudio R. Duarte e Arthur Dantas

O rock sempre foi considerado uma música da rebeldia – mesmo quando não era mais que o grito de inserção do indivíduo na concorrência universal. Mas sempre uma certa rebeldia: dos afroamericanos subvertendo e acelerando o blues aos quadris de Elvis jogando na cara da sociedade bem comportada seus desejos mais primitivos.

Em suas versões mais “duras” e realmente independentes, o rock – ou mais precisamente o punk rock e seus derivados na “música alternativa” – cristalizou-se como uma verdadeira pedra no caminho do poder instituído. Tornou-se a expressão política dos de baixo: das classes trabalhadoras, dos pobres, dos desajustados, dos que resistiam enfim à integração. Ou assim caminhavam as coisas, de Chuck Berry ao Green Day, da Jovem Guarda ao Fresno, com o que o rock anuncia o fechamento de seu ciclo histórico.

Hoje, ao que parece, a pop music venceu, reinando sem contraste. Toda ela feita de ritmos e melodias previsíveis, letras muitas vezes infantis ou conformistas, quase sempre acompanhada do simples apelo ao elemento corporal.

Para relembrar aquele outro tempo da música, do punk e seus derivados, montamos uma lista mais ou menos cronológica com algumas bandas exemplares de artistas que não fugiram à boa luta. Todas elas disseminaram a versão mais combativa do rock, transcendendo-o para zonas novas: da crítica política ao ativismo social. Para nós, funcionam até hoje como expressão popular de um mundo falso e desintegrado.

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A busca de um sentido: indivíduo singular -> grito universal -> por um outro princípio social.

A lista não se quer exaustiva, nem perfeita. Procuramos fazer a escolha levando em conta critérios objetivos e subjetivos: um misto de nosso gosto pessoal, reconhecimento público, posição histórica no cenário musical (estrangeiro, sobretudo) e força artística real – traduzível em traços analíticos e numa certa argumentação. Focaremos em aspectos gerais de cada grupo e sugeriremos bandas correlatas e a audição de duas músicas*, sempre acompanhadas de análise estrutural de forma e conteúdo.

Tentamos não pegar o caminho mais fácil escolhendo aqueles exemplos já bastante difundidos na grande mídia (por isso, excluímos cartas carimbadas do tipo U2, Pearl Jam, Rage Against the Machine etc.). Também deixamos todo o universo do rock & roll tradicional, pop, reggae, blues, jazz, rap, hard rock, heavy metal, progressivo, new wave, indie, grunge, pós-rock, e assim por diante. Por outro lado, abstrairemos exemplos menos cristalinos dentro do rock como o MC 5, ou num sentido mais amplo Velvet Underground, Bob Dylan, Frank Zappa, The Fugs, entre tantas outras coisas. Por outro lado, escolhemos bandas com letras de clara posição crítica.

Sendo assim, caros leitores, aí vai a nossa lista. Não deixe de fazer seu comentário!

[* em caso de falha na execução do vídeo, clique no logo do YouTube, no canto inferior direito].




1- THE CLASH

O Clash foi de fato um dos primeiros grandes impactos políticos do rock em sua vertente punk. Sons, letras, ritmos que cativaram uma geração inteira, confrontando o conformismo de uma vida reduzida a trabalho, consumo, opressão policial, esquecimento e isolamento social.

E sabiam que isso não podia ficar apenas nas letras. O que os caracteriza é a experimentação real, isto é, a imaginação formal, a realização da independência que o punk uma vez teve em seu conceito. A estrutura singela das composições do primeiro álbum ganha linhas complexas nos subsequentes. Pois o risco para o punk sempre foi a sua estrutura simplificada finalmente se enrijecer e se coisificar como mero clichê mercantil. Ao vivo, segundo contam os presentes, o Clash tornava até mesmo o que parecia pop num sentimento de espontaneidade e urgência. O rock intenso, no entanto, já não se limitava a seu próprio campo, passando pelo reggae, funk, dub, rap, soul, rockabilly.

Bandas relacionadas: Sex Pistols, UK Subs, Damned, The Undertones, Buzzcocks.

Ouça:

London Calling – Uma das composições mais expressivas da banda e certamente também dessa geração do punk. O casamento perfeito de som e letra apocalípticos representando a era da Guerra Fria. “London calling” era o bordão da rádio BBC durante a Segunda Guerra, anunciando catástrofes e gerando um estado de alarme constante, ativando o arcaico impulso de autoconservação no indivíduo, o que dá à música algo de profético: “The ice age is coming, the sun is zooming in, Meltdown expected, the wheat is growin’ thin, Engines stop running, but I have no fear ‘Cause London is drowning, and I, I live by the river”.

http://www.songfacts.com/detail.php?id=2527

Magnificent Seven – uma espécie de fusão entre rock, funk e vocais rap. A letra, que abre o álbum Sandinista (1980), soa como um improviso ou um fluxo de consciência. O título remete a um filme Western de 1960. O início, como não poderia deixar de ser, é o despertar dum trabalhador na selva de pedra (“Ring! Ring! It’s 7:00 A.M.! Move yourself to go again”), passando pela discussão da propaganda (“Gimme Honda, Gimme Sony, so cheap and real phony”) e o espírito mercantil mediando as relações (“Working for a rise, better my station, take my baby to sophistication, She’s seeing the ads, she thinks it’s nice, Better work hard, I’ve seen the price”). Na hora do almoço, ele contempla a opressão e o racismo policial (“What do we have for entertainment? Cops kickin’ Gypsies on the pavement”) e então, sonhando, imagina Marx, Engels, Luther King, Gandhi, Nixon (hummm, o delírio se declara) até Sócrates e Platão, em situações desse cotidiano, fundindo a utopia ao real que a absorve e a desmancha no ar.


2- GANG OF FOUR

Gang of Four se coloca na encruzilhada das raízes suburbanas inglesas do punk, do pós-punk, dos ritmos africanizados do “white funk”, tudo condensado numa sonoridade muito singular, principalmente em seus dois melhores álbuns: Entertaiment! (1979) e Solid Gold (1981).

Menos que rock engajado, posicionam-se nesse universo de maneira mais distanciada, quase ao modo do comentarista irônico do cenário social e musical – numa postura de desafio político, muito maior que o normal. A ironia jaz no próprio nome do conjunto, que remete à camarilha dos quatro na revolução cultural chinesa.

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Dessa substância nasce uma música feita de harmonias e muito contraste dissonante, atmosfera seca e etérea, mas com forte pulsação de fundo: a guitarra cortante e minimalista de Andy Gill, o vocal quase ascético e fantasmagórico de J. King, a cozinha de baixo e bateria balançando o palco e a plateia. O primeiro e único show em São Paulo foi memorável. Nas letras, a apresentação da alienação cotidiana da mercadoria em suas múltiplas facetas. Uma aula de rock político, mas sem soar como uma “aula” maçante (como observa Kevin Dettmar, Entertainment! 33 1/3 series. New York: Bloomsbury , 2014, p. 2).

Bandas relacionadas: Minutemen, Fugazi, New Model Army, The Au Pairs, Mission of Burma, Radio 4, Moving Units, Bloc Party, Antelope.

Ouça:

Not great men – O tema da canção é a noção de História: “No weak men in the books at home/ The strong men who have made the world”. Quem faz a História? Os fracos, ou melhor, os fortes que não aparecem nos livros. O que se repete no presente: “The past lives on in your front room, The poor still weak, the rich still rule”. Aqui, ecoa o famoso poema sobre o operário que lê, de Brecht, mas também o mote de Walter Benjamin contra a história contada pelos vencedores: a História? “It’s not made by great men” – canta/conta o refrão.

Return the gift – Depois de o sujeito-mercadoria ser cortado e espremido pelo fluxo do trabalho (“It’s on the market / You are in the price list”), resta ser invadido pela proposta de consumo em casa (“replicar o presente”?), no caso a venda de assinatura de jornais e revistas: a carga diária aceita (“Please send me evenings and weekends”) visa a informar uma sociedade cada vez mais informal, pastosa, amorfa. A música, principalmente o “solo rasgado” de guitarra, acompanha esse processo de repetição e decomposição.

Letra: “Return The Gift”

Head away from the years/You’re on the price list/Everything will stop your new changing/The grid will be filled/Go to Scotland, no obligation/We’ll send you an invitation/We’ll send you an inside shower/We’ll send you an inside shower/It’s on the market/You’re on the price list/In the spring who can say?/Please send me evenings and weekends/Shared by with the weeks/Please send me evenings and weekends/Please send me evenings and weekends…


3- DEAD KENNEDYS

Em quantos detalhes de composição os Dead Kennedys transformam sua música numa verdadeira pintura para as letras extremamente irônicas e políticas de Jello Biafra? Só a inteligência política desses músicos explica a costura perfeita de som e letras. Em muitas composições, o estilo dos DK converte-se num pastiche crítico da música tradicional americana, do country a Elvis, do pop ao jazz comercial. O intuito é sempre crítico, no entanto. Ninguém ridicularizou tanto o American Dream empunhado por liberais e conservadores: os encartes de seus discos lotados de fotos insólitas que o digam! E isso também não só nas letras magistrais. A contradição foi internalizada na composição como um todo: as mudanças de ritmo, as melodias breguíssimas entrecortadas pela voz rasgada gritando a verdade da situação interna e externa aos EUA, os refrões melosos conversíveis em seu contrário, ou seja, no drama e na acidez completas – eis uma música que pulsa negativamente como poucas nesse universo.


Os Dead Kennedys encarnaram como ninguém as potencialidades da época “heroica” do hardcore americano, testando os limites estéticos e os limites da dita “liberdade de expressão” na Era Reagan/Bush.

Bandas relacionadas: Jello Biafra, Nomeansno, Black Flag, Circle Jerks, Bad Brains, D.R.I., M.D.C., D.O.A., Bad Religion, Heresy, Napalm Death.

Ouça:

Kill the poor – uma situação baudelaireana bizarra é imaginada a partir da descoberta recente da bomba de nêutrons: uma arma assassina mas “limpa” a ser posta em ação dentro do próprio país para eliminar os pobres e… preservar as propriedades intactas. Letra que apresenta bem a virtual mentalidade exterminista do governante e seu eleitor conservador na MériKKKa. Alguns deles não cantariam em coro, sem ironia?: “The sun beams down on a brand new day/No more welfare tax to pay/ Unsightly slums gone up in flashing light/ Jobless millions whisked away/At last we have more room to play/All systems go to kill the poor tonite… so kill, kill, kill, kill, kill the poor…”

Well paid scientist – música que é um foguete em pleno vôo, um poema volante encaixado astutamente por Jello Biafra, girando em torno do tema da cooptação dos cientistas – o posto mais avançado das forças produtivas humanas, dominado pelos planos alienados do capital e do Estado. A letra acompanha o som pari passu em sua hipnose turbilhonar: “When will you crack? When will you open your eyes, open your eyes, open your eyes…”.


4- CRASS

“O nome é Crass, não Clash”. Segundo o crítico Jon England, “os reais revolucionários do punk” surgiram na esteira da “geração gloriosa” de 1976 (Clash, Sex Pistols, Damned) dentro do que hoje caracterizamos como pós-punk, bradando a plenos pulmões que o punk estava morto – ao menos aquele que cabia perfeitamente nos moldes das gravadoras e que agradava a imprensa musical inglesa.

O impacto do Crass é longevo: uma forma de produção autônoma (faça-você-mesmo sua música, sua gravadora, ingressos baratos e circuito alternativo de shows), um estilo de vida (viver em comunidade, o anarcopunk), uma rede internacional movida a princípios e interesses comuns (rede de troca de cartas, uma cena punk genuinamente internacionalista), uma estética na arte (de viver) singular e impactante, a abertura para novos horizontes temáticos que se tornaram assuntos comuns ao punk (ecologia e feminismo, por exemplo) e uma música que, se estava dentro dos 3 acordes tidos como arquetípicos do gênero, estabeleceram técnicas de diversas vanguardas artísticas que ajudaram a moldar subgêneros nascentes do punk/hardcore, como são testemunhos vivos de um estilo musical que ousou abraçar o “não existe arte revolucionária sem forma revolucionária” de Maiakovski.

O grupo segue influente – mesmo tendo encerrado atividades no mítico ano de 1984 – e está presente tanto na música folk atual (Jeffrey Lewis dedicou um álbum só com versões da banda) como em uma abertura de show do Carcass –, e, com a escalada conservadora no Reino Unido, a mensagem radical do grupo (que foi monitorado pela polícia secreta britânica) ganhou nos últimos anos uma atenção inequívoca.

Bandas Relacionadas: Poison Girls, The Mob, Subhumans, Flux Of Pink Indians, Conflict, Discharge, Dirt, Zounds, Rudimentari Peni, Chumbawamba, Amebix.

Ouça:

Reality Asylum – não há ferida na vida social que o Crass (“grosseiro”, em português) não cutucasse à exaustão, e o cristianismo certamente não passou batido pelo grupo. Como faixa de abertura de seu primeiro álbum, foi censurada e em seu lugar contou um espaço de silêncio chamado de “The Sound of Free Speech” – a faixa tal qual mostrada aqui só ganhou vida em seu primeiro single, já por seu próprio selo, Crass Records. O motivo da censura? Versos singelos como “Cristo perdoa. PERDOA? Eu vomito por você, Jesus. O caralho que perdoa. (…) Jesus, escavadeira Cristo, escavador de sepulturas, você cavou os túmulos de Auschwitz, o solo de Treblinka é sua culpa(…)”

Do They Owe Us A Living – Um pouco menos de um minuto e meio é o que o Crass precisava pra explicar em didatismo “papo reto” pra juventude inglesa os instrumentos usados pra nos lobotomizar. “Na escola te dão merda, te derrubam num buraco, / Você tenta, tenta e tenta sair fora, / mas não consegue porque eles foderam contigo. / Então você é o exemplo primordial, de como eles não devem ser, / este é somente um exemplo do que eles fizeram a você e eu”. Escola, família, meios de comunicação de massa…” Steve Ignorant cospe com sua dicção que fez escola, sobretudo no hardcore britânico, enquanto uma das guitarras é literalmente batucada e a bateria segue uma cadência militar ensandecida e, quando gritamos no primeiro refrão que “eles [a sociedade] nos devem uma vida!” ainda não estamos plenamente recuperados pra segunda saraivada de impropérios contra o mundo. Toda uma fórmula ganhava contornos febris neste momento.


5- MINUTEMEN

O Minutemen surgiu em 1980 e durou até 85, quando do falecimento de seu guitarrista/vocalista, D. Boon, em um acidente de trânsito.


Imagine uma banda com músicos virtuosos e quase sem prevenções. Molde hardcore aberto, fendido por tempos complexos, acelerados ou fragmentários, melodias incomuns, tudo sob influência do jazz, soul, country, funk, reggae, e o que mais pintasse. Letras politizadas e irônicas, músicas rápidas: tiros curtos, cada música, cada disco, cada show uma experiência diferente. Ao que leva as diabruras do Minutemen senão à destruição da estrutura petrificada, do clichezão do hardcore? Selecionamos duas de “Double nickles on the dime” (“55 km/h com precisão”). Um disco reconhecido como entre os 500 melhores (411º) da história da música pela revista Rolling Stone e que ainda hoje inspira músicos pirados mundo afora.

Bandas relacionadas: Pere Ubu, Hüsker Dü, Descendents, Fugazi.

Ouça:

The Glory of Man – a ambiguidade da letra abstrata só é apaziguada no contexto histórico da era dos extremos: o horror do homem americano que se vê “cinicamente” como o apogeu da humanidade enquanto viajante e dono do tempo-espaço, o “soldado da realidade”, o “filho do riso” e “da chama”. Acompanhe a letra:

starting with the affirmation of man /i work myself backwards/using cynicism/the time monitor, the space measurer/i live sweat but i dream light years/i am the tide the rise and the fall/the reality soldier, the laugh child /the one of the many/the flame child.

Vietnam – a letra – e o ritmo fragmentário – falam por si, completando “a glória do homem”: “Let’s say i got a number, that number’s fifty thousand, that’s ten percent of five hundred thousand, oh here we are in French Indochina, executive order, congressional decision, the working masses are manipulated, was this our policy?, ten long years: not one domino shall fall”.


6- FUGAZI

Nascido no final dos anos 1980, Fugazi reuniu só gente fabulosa, egressa do cenário hardcore de Washington DC (Minor Threat e The Rites of Spring). O contexto era adverso para quem tinha um projeto de independência: a absorção da música underground pela indústria fonográfica estava então no auge. Qualquer banda capaz de fazer um refrão cantável em FM assinava contrato com grandes selos. Ao contrário, o Fugazi manteve-se distante da grande indústria desde o início. Shows a 5 dólares, CDs a 10, nenhum merchandising. Só fez grandes peças musicais, do primeiro ao último disco, da primeira à última canção. Shows!! – só quem viu sabe: os mais intensos e históricos, por todos os lugares que passaram.

A resistência se alojava, contudo, no núcleo formal de sua música. Como diz Lauro Mesquita: “Musicalmente, a banda representava vários passos adiante do que era feito no hardcore. Eles faziam tudo diferente. Traziam ruídos de guitarra – como em Repeater (do álbum “Repeater”, 1991) – e uma levada rítmica cheia de balanço, muito única” (Revista +Soma nº 3, 2007, p. 99). Acordes de guitarra monocordes, notas leves ou dedilhados, cruzamentos e complementaridades infinitas entre guitarras e o baixo seco mas sempre pulsante, duas vozes distintas e maravilhosas intérpretes de letras/emoções… políticas: a mulher objetificada na rua (“Suggestion”), a defesa do direito ao aborto (“Reclamation”), a exclusão dos sem-teto na cidade (“Furniture”), a vida operária fodida (“Runaway return”), a indústria armamentista americana (“Do you like me”), o cinema de “Cassavettes”… Mas nada dito ao estilo cru e reto do punk, antes de maneira metafórica, aberta e ambígua.

Bandas relacionadas: Embrace, The Rites of Spring, Nation of Ulysses, Sonic Youth, Q and not U, Jawbox, Burning Airlines, Faraquet, Medications, Diagonal, Antelope.

Ouça:

Repeater – Uma música-dispositivo que, segundo Lauro Mesquita, “recriava o rock a partir do rock alemão, da música jamaicana e do hip hop (sem macaquear nenhum desses estilos), passando pelo pós-punk, o rock de vanguarda dos 80 e assim por diante. Em Repeater, tudo parece conclamar o ouvinte para o novo. De maneira até ingênua, a letra fala sobre ser independente e fazer questão de não se deixar levar pelo big business (“Don’t you know ink washes out easier than blood”). Nada poderia ter mais sentido na época do que a ideia de estabelecer um formato de produção militante, necessariamente independente e que conclamava o público a fazer parte” (ibidem).

Bed for the scraping – É a segunda na abertura de “Red Medicine”, de 1995, talvez o álbum mais complexo da banda. O sujeito derrotado pela rotina diária do mundo-mercadoria, após mais um dia de esfolamento no trabalho – ou em outro apuro qualquer –, deita-se em sua “cama para restos”: “é vinte quatro horas, dificilmente reconheço coisas simples”. O ritmo da música, então, imitará os rodopios de uma tal roda-viva.

Música das mais exemplares do Fugazi, com um forte cruzamento de tendências da banda: a base de batera, baixo e vocal de Ian Mackaye são a essência filtrada do melhor punk; depois o rockão anos 60 no looping alucinado de guitarra de Guy Picciotto: um estranhamento calculado, num brilho e rodopio estonteante e virtuose de notas. Não seria o que circula no cérebro desse sujeito esfolado na cama? Os dois vocais se esgoelando, com método, terminam selando a marca do Fugazi: “Não quero ser derrotado, este é o ponto, eis o manifesto”: uma “cama para restos, segredinho sujo, razão para juntar as consequências”. Mas “o que mais para fazer?”, diz o Outro. O sujeito como que convocado, vai adiante, impulsionado pela roda, que repentinamente para. Que organização de música! Abrem-se então notas dissonantes de guitarra, conduzidas até o fim da música. O dito manifesto, certamente contra o mundo do trabalho, só pode ser essa dissonância, uma abertura para “fora” da alienação. “Look around” – “Olhe ao seu redor”, caro leitor, não é isso que vivemos todo dia, na faina globalitária? “Situações evitadas ou simplesmente perdidas?” “Olhe, olhe, olhe ao redor”, repete Guy em coro, não seria essa a trilha para a pilha de refugos que nos tornamos? Acompanhe a letra:

I’m sick with this I’m sick with this/Situation avoided or just missed?/My own sweet time says it’s ten twenty four/
Hardly recognise simple things anymore/I don’t want to be defeated/This is the point/This is the manifest/
Bed for the scraping/Dirty little secret/Reason for the gathering consequence/What else is there to do/But go outside and look around, look around.


7- MANO NEGRA

Aqui, o meio é a mensagem. Rock, chanson francesa, música africana, música árabe, flamenco, ska, salsa, reggae, blues e, obviamente punk rock: tudo isso por si só apontava para um mundo livre, sem fronteiras e, por si só, era a resposta do grupo francês à já crescente xenofobia europeia, além de apontar sua predileção pelos ritmos dos povos “esquecidos” pela gramática musical europeia.

O Mano Negra foi a expressão artística máxima do “multiculturalismo revolucionário” de certos pensadores/setores de esquerda que ganhou projeção no decorrer dos anos 1990 e foi pro vinagre com o 11 de Setembro nos EUA.

Em termos musicais, assim, a banda é uma coleção de raízes artísticas variadas mas com letras de fundo sociocultural profundo, cantadas em espanhol, francês, inglês. Algo da atmosfera da livre reunião de grandes massas ou de espetáculos de rua sobressai muitas vezes aqui. Ainda que Mano Chao (figura central do Mano Negra) tenha alcançado alguma visibilidade no Brasil em sua carreira solo, temos pouca dimensão da importância do grupo francês para o rock latino-americano. A expressão máxima de seu interesse pelos países do Terceiro Mundo se deu em sua turnê na América do Sul em um cargueiro, onde realizaram shows gratuitos – como no Rio de Janeiro e São Paulo.

Bandas RelacionadasMano Chao, Bersuit Vergarabat, Café Tacuba, Molotov, Gogol Bordello, Asian Dub Foundation.

Ouça:

I fought the law – canção do rock sessentista que virou um hino do “rock de combate” – primeiro com The Clash, depois com Dead Kennedys –, aqui com o Mano Negra tocando no Rio de Janeiro, com a luxuosa participação de Jello Biafra, durante a ECO 92.

Santa Maradona – no auge das polêmicas em torno do craque portenho, lá estava o Mano Negra pra nos lembrar que Dieguito era a imagem bem acabada de toda a genialidade dos “sudacas” em relação ao resto do mundo. É uma resposta inconsciente ao “Seja Marginal, Seja Herói” de Hélio Oiticica. Cultura popular e política ligados em alta voltagem.


8- CHUMBAWAMBA

“Se a nossa música te faz feliz, mas o satisfaz, ela falhou. Se a nossa música diverte, mas não inspira, ela falhou. A música não é uma ameaça: a ação que a música inspira pode ser uma ameaça”. Essa pensata contida no EP Revolution de 1985 explica bem toda a carreira do grupo do norte da Inglaterra. Ou quase.
Surgidos na fase final do “peace punk” de Crass e agregados, o grupo injetou políticas classistas e bom humor na mistura anterior. Já no início dos 1990, as raízes nortistas e proletárias de parte do coletivo Chumbawamba fez com que se interessassem, de um lado, pela música folk de protesto (cujo álbum “English Rebel Songs” se tornou um marco), por outro, pelo rap e, com maior intensidade, pela Eurodisco, tida como cafona e tão amada pela ralé inglesa.

Esse interesse pela música dance foi o início de seu auge na fase independente (os álbums Shhh!, Slap e Anarchy) e também marcou sua fase em grandes gravadoras (tido omo traição por parte de sua base de fãs) quando cravou um dos maiores hits dos anos 1990 em todo planeta, “Tubthumphing” em 1997. Fato é que o grupo é o maior vendedor de discos da história dentre os grupos abertamente anarquistas e que uma parte enorme de seus ganhos financiou globalmente grupos radicais mundo afora – o próprio Centro de Mídia Independente (CMI) no Brasil ganhou verba vindo de música do grupo usada em comercial de carro na Europa.

Seus discos eram, via de regra, temáticos, e assim continuaram mesmo em sua fase “comercial”. As letras, textos e comentários de atualidade – aprendido com os grupos peacepunks – continuaram presentes até seu último disco ABCDEFG, de 2010. O grupo se desfez em 2012, deixando 16 álbuns e colaborações e discos splits com artistas como Mekons, The Ex, Negativland e, pasmem!, Noam Chomsky, por exemplo.

Bandas Relacionadas: Consolidated, Rhythm Activism, The Ex e toda e qualquer banda pop que resolva divulgar ideias radicais!

Ouça:

Homophobia – essa canção foi gravada em ritmos diversos pelo grupo e se tornou um hit entre a comunidade gay inglesa nos anos 1990, com uma letra bem franca e explícita que recomenda: “Beware the holy trinity: church and state and law / For every death the virus gets more deadly than before.”

Revolution EP – pode parecer bobagem, mas no EP de 1985 o grupo já botava na mesa todos os elementos que desenvolveu na sua fase “madura” dance: crítica e autocrítica feroz, um interesse esperto pela cultura pop (sample de “Imagine” de John Lennon), e, ainda que o punk rock desse as cartas, a predileção por vocais melodiosos carregando mensagens pontuais e fortes.


9- THE EX

The Ex consiste na criação da música turbilhão, da música tumulto. Mas um tumulto organizado: a mimese crítica da complexidade e opacidade da (des)ordem urbana. São uma espécie de Kafka do rock. Prezando a independência e o autonomismo, deixam de cuecas aqueles que hoje confundem anarquismo com posições ultra-individualistas e conservadoras de direita.

Até mais que o Fugazi, e um pouco como o Sonic Youth, criaram um estilo quase experimental de tocar seus instrumentos, com guitarras em diálogo, dissonantes e “percussivas”, contrabaixo marcante, tudo sistematicamente integrado com a baterista, uma verdadeira percussionista (poucas músicas têm bateria com andamento 4×4), além de cantora impressionante. Mas é na voz do vocalista do The Ex (sobretudo na fase com G.W. Sok no vocal) que reside a confirmação do conflito, da confusão, do emparedamento do sujeito tentando resistir ao mundo da total alienação. As temáticas são variadíssimas, assim como a musicalidade, que vai do punk e do hardcore do início ao refinamento lírico-musical dos últimos tempos, cabendo inclusive diálogos ocasionais com a música folk do leste europeu e, com maior intensidade, com a música africana.


Seguiram, inicialmente, os passos do Crass, mas, como nota o crítico John Corbett, por sua vez, “possuíam um espírito notavelmente positivo, não o tipo de energia negativa, potencialmente niilista que pode transformar o espírito independente em narcisicamente hostil”. E o mais notável, ainda segundo Corbett é que, passados quase 40 anos de sua fundação, o The Ex continua a “procurar novas experiências, em vez de entrar na complacência”.

Bandas Relacionadas: Dog Faced Hermans, Mekons, Rhythm Activism, Submission Hold, Ordinaria Hit.

Ouça:

The art of losing – “The art of losing isn’t hard to master” – quando perder torna-se uma arte. Perder de tudo, senão tudo: as chaves, as horas do dia mal gastas, um relógio materno, duas cidades, dois rios, um continente – sempre parecerá um desastre, mas não é nada difícil aprender a dominá-la. Difícil talvez seja torná-la para si consciente – o momento chave em que descobrimos que não temos mais nada, nem mesmo nada mais a perder, apenas os grilhões. Acompanhe a letra: “The art of losing isn’t hard to master/so many things seem filled with the intent/to be lost that their loss is no disaster./Lose something every day. Accept the fluster/of lost door keys, the hour badly spent./The art of losing isn’t hard to master./Then practice losing farther, losing faster:/places, and names, and where it was you meant to travel. None of these will bring disaster./I lost my mother’s watch. And look! my last, or next-to-last, of three loved houses went./The art of losing isn’t hard to master./I lost two cities, lovely ones. And, vaster, some realms I owned, two rivers, a continent./I miss them, but it wasn’t a disaster./–Even losing you (the joking voice, a gesture/I love) I shan’t have lied. It’s evident/the art of losing’s not too hard to master/though it may look like (Write it!) like disaster.”

State of shock – Nenhuma letra – NENHUMA! – soube expressar a consternação decorrente da queda do Muro de Berlim, com um tal poder de síntese e simbolismo pujante. É uma das canções mais conhecidas do grupo. Inicia-se com versos poderosos como “I’m moving towards a state of shock / repeats again of what’s already been said / the same mistakes keep hitting us like booby trap blanks / we still learn nothing, living in Tinseltown”, e se encerra nos lembrando que “sure, one can hide but there’s a world outside / must be pretty safe under a fire-proof blanket”… Estava fadada a se tornar um hino pra gerações que convivem com a permanente sensação de termos sido envoltos numa narrativa prenhe de tramoias e mentiras que, no canto falado e concentrado do “locutor” nos apresenta a sinuca de bico da vida encurralada entre os poderes, que restam todos de pé.


10- BIKINI KILL

Não é que o rock “de combate” não contasse com representantes femininas importantíssimas, mas é inegável que com a chegada do Bikini Kill se estabeleceu um antes e um depois. Um antes em que era possível marginalizar o papel das mulheres no gênero; um depois onde, com dois pés na porta do Clube do Bolinha, as mulheres têm lugar e papel nessa história: onde bem entendessem. Grupos dessa lista contam com protagonismo feminino crucial (Chumbawamba, Crass e The Ex), mas o feminismo com o Bikini Kill encontra pela primeira vez no rock politizado um amálgama entre forma e conteúdo. Não é acaso do destino que o grupo tenha ajudado a gerar toda uma onda de bandas de garotas que não cessou desde então.

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Surgido no auge da capitalização da dita “música alternativa” (que no início dos anos 1990 não era um “estilo” ou algo que o valha, e sim apenas uma forma de se referir ao rock das gravadoras independentes), quando um monte de caçador de talentos buscava um novo Nirvana, o Bikini Kill se destacou por levantar não só a bandeira do faça-você-mesmo e de um certo senso comunitário contracultural, como também por prover um espaço de discussão e denúncias para as garotas, incentivando-as a montarem coletivos e fanzines, por exemplo, o que as distinguem decisivamente de seus colegas de Washington D.C. (Nation of Ulysses, Fugazi etc.), que a inspiraram em seu início.

Dentro do punk rock/hardcore estadunidense, destacaram-se pelas letras ora ácidas ora inequivocamente diretas e incômodas ao status quo machista/misógino, bem como por uma sonoridade crua, que remetia muitas vezes a um senso de melodia próprio ao rock garageiro sessentista, e que encontrava força na voz de Kathleen Hanna, que imitava com esmero a dicção de patricinhas de filmes colegiais. Algo que ainda hoje causa impacto ao ouvinte, pela dissociação causada na expectativa de discurso que essa dicção evoca, em tudo o oposto do que a vocalista expressa.

Bandas relacionadas: Huggy Bear, Team Dresch, Bratmobile, Le Tigre, Julie Ruin.

Ouça:

Rebel Girl – toda uma estética e embaraço nos sentidos, condensados em uma canção primorosa. A letra, que inicialmente lembra a retórica inocente do rock sessentista estadunidense (ou do iê iê iê nacional) em poucos versos se converte: 1. Numa poderosa afirmação de dissidência; 2. Numa declaração de amor lésbico; 3. Num chamado “às armas”, onde toda e qualquer garota (Revolution Girl Style Now) pode se tornar “a rainha da vizinhança” e está prontamente convocada ao “riot grrl” – os fãs que criaram o clipe abaixo da canção não deixam espaço para dúvidas quanto ao clamor à revolução feminista do grupo.

Reject All American – de forma quase didática, a vocalista descreve como se tornar um astro no show business e como isso é esperado dentro da sociedade estadunidense – especialmente, é claro, se você é do sexo masculino. A canção abre o segundo álbum da banda que, se hoje soa como o grande trabalho do grupo, recebeu pouca atenção do público em geral nos EUA. Ironicamente, sobretudo porque a mídia de massas em 96 já havia se cansado da pauta em torno da revolução de garotas exaltada pela banda.


Conclusão: do rock de combate à crise de inimigos

Combate aberto, portanto. Pois havia então todo um contexto histórico. Em fins dos anos 70, a “geração vazia” e “sem futuro” tinha diante de si e expressava musicalmente um objeto nítido: a crise do estado social, sua substituição pelas políticas neoliberais destrutivas junto à ascensão dos valores neoconservadores, da mentalidade individualista e autoritária de uma massa rancorosa e conformista. Mais do que uma crise de gerações, mais do que expressão simplesmente cultural de uma juventude drogada, eletrificada e capturada pela lógica da exposição midiática, o punk e suas derivações tornaram-se em seus melhores momentos uma forma de expressão política de seres inconformados com a história do século marcado por catástrofes abertas, ou pelo cotidiano ameaçador da Guerra Fria, das coerções do trabalho e as consequências do American Way of Life.

Isso durou, salvo melhor juízo, uns trinta ou quarenta anos. Mais do que nunca o momento atual parece ter absorvido e neutralizado essa música de combate. A juventude parece prostrada, ou convertida à vida funny e agitada por games, festinhas e exposição narcísica nas redes.

Uma parte dessa música foi, contudo, aos poucos integrada, aplainada e suavizada. Perdeu o mordente, a urgência, a força política de contestação.

A música pop venceu. Hoje, as FM’s plantam apenas a “monocultura” do sertanejo e associados (vide uma boa análise recente, aqui: https://medium.com/@MarcoAntonioBarbosa/como-fazer-sucesso-nas-r%C3%A1dios-brasileiras-entendeu-ou-q uma boa análise recente aqui:uer-que-eu-fa%C3%A7a-um-infogr%C3%A1fico-ce67e5cf774#.tsgxy6jv3).

Não é por nenhum acaso, talvez, que muitos jovens se tornem nada mais que a “gente de bem” integrada num mundo cor de rosa, em que o “belo e moral” significa dinheiro no bolso, “incorreção” política e lambeção egocêntrica. Gente que não aguenta três minutos de música rude, dissonante, política e enigmática, que não diz logo para que serve. Quanto mais ouvir um “álbum” bem realizado.

Vivemos hoje aquilo que um grande crítico de arte denominou a “crise de inimigos”:

“a dificuldade de as forças sociais se articularem tanto pela ausência de um opositor claro quanto pela incapacidade de ordenarem a si mesmas.”

(Rodrigo NAVES, O Vento e o Moinho. Ensaios sobre arte moderna e contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 15).

Rock, Política e Crítica Social: uma lista de 10 bandas/20 músicas do rock de combate

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