Um olhar social do Japão por meio de alguns dos seus clássicos do cinema

O cinema clássico japonês nos permite conhecer melhor a realidade do Japão, a qual é bem diferente do retrato que estamos acostumados a ver no ocidente.

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A cultura do trabalho e do servir e seus efeitos na sociedade japonesa

Quando fala-se em países humanitários, o Japão, em alguns aspectos, não é aquele que colocamos no topo das listas. A busca cultural pela perfeição, não só individualmente, mas também coletivamente como sociedade cobra altos preços da sua população.

O ensino da disciplina e servidão tem início na educação familiar e continua no sistema escolar, onde os alunos passam por longas horas de estudo dentro e fora das escolas com muito dever de casa e atividades extras. Dentre elas, existe o chamado o-soji, ato dos próprios alunos cuidarem da limpeza do ambiente escolar que acontece após o término de todas as aulas. Podemos ver que esse costume segue pela vida toda de um japonês quando assistimos, por exemplo, eventos esportivos onde os espectadores fazem questão de recolher o próprio lixo e manter o ambiente que utilizaram limpos. É possível especular que costumes como esse são a base de uma sociedade com baixa criminalidade e um alto índice de desenvolvimento humano, que ensina em pequenos atos valores fundamentais para coexistir em meio a outros seres humanos e evita ações que prejudiquem o individual e o coletivo.

Porém nem todas as estatísticas são positivas para os jovens japoneses. O sistema escolar rígido gera muita pressão mental, o que acarreta em uma grande taxa de suicídio entre os estudantes. Não coincidentemente, um estudo feito pelo governo japonês aponta que o maior número desses suicídios acontece próximo da volta as aulas. Foram analisados 18.048 casos de suicídio entre jovens menores de 18 anos, entre 1972 a 2013. A data com o maior número de casos foi o dia 1º de setembro, na qual 131 estudantes tiraram a própria vida. Esse é o dia em que muitas escolas voltam das férias de verão no Japão. As datas com os maiores números estão todas concentradas entre o fim das férias de verão e primavera. É assustador imaginar o estado mental de um jovem que tira a vida para não precisar voltar à sua escola.

Infelizmente o suicídio no Japão não é algo exclusivo dos jovens. Segundo a Organização Mundial de Saúde, em 2012 a taxa de suicídio para ambos os sexos do Japão era de 23.1 a cada 100.000 habitantes. Embora não seja a maior do mundo, é com certeza um número alto e preocupante. Dentro dessa estatística está presente o fenômeno chamado karoshi, nome dado a morte causada pelo excesso de trabalho. Mas, além do suicídio, causas como ataque cardíaco e derrame se enquadram na definição.

A pressão que estudantes sofreram nas escolas continua em seu ambiente de trabalho. É de conhecimento comum que existe uma cultura que influencia os suicídios no Japão, mas é errado afirmar que ela é o principal motivo pelo qual eles continuam acontecendo em alta taxa de casos. Quanto vale a vida no Japão? Como podemos tentar compreender uma sociedade que, em tantos aspectos, é completamente alienígena para nós ocidentais? Como sempre, parte das respostas para estas perguntas podem ser encontradas por meio da arte.

Clássicos japoneses e suas lições para todas as culturas

Um senhor de idade sentado em frente a uma mesa. Atrás dele, uma grande pilha de papéis. Arcado, aparência frágil, ele lê e carimba. Lê e carimba. Essas palavras resumem sua vida. Toda uma vida de ler e carimbar. Que reação teria esse personagem ao descobrir que está com um câncer terminal no estômago? Essa é a trama de uma de tantas obras primas do mestre diretor Akira Kurosawa (1910 – 1998). Ikiru (“Viver” 1952) segue a trajetória dos últimos dias de vida de um funcionário público de Tóquio. A repentina descoberta traz a tona o inevitável medo da morte. Mas ainda mais assustador que isso, traz a pergunta: o que eu fiz com a minha vida? Toda uma vida dedicada a algo que parecia não ter importância diante de sua mortalidade. Solitário, ele busca em seus últimos dias algo que possa dar o mínimo de sentido a sua existência. Talvez maior que o choque do protagonista é o choque do espectador ao colocar sua vida em perspectiva. Toda a distância cultural parece desaparecer quando percebe-se que podemos estar levando a mesma vida sem nunca parar para nos perguntarmos sobre as questões filosóficas mais básicas da existência humana.

Akira Kurosawa nasceu em 23 de março de 1910. Descendente de uma família de samurais, foi incentivado desde cedo pelo seu pai a ter contato com a cultura ocidental. Dono de uma carreira brilhante em vários aspectos, sofreu pessoalmente o peso de sua cultura. Diante uma má fase nos anos 70, em que teve dificuldade de encontrar apoio para seus projetos, tentou se suicidar e, para o bem do cinema mundial, falhou. Falecido em 1998, é hoje considerado um dos maiores cineastas da história.

Olhando para outro de seus maiores clássicos, Shichinin no Samurai (“Os Sete Samurais” 1954) conta a história de um vilarejo que é alvo recorrente de bandidos. Toda temporada de colheita os aldeões são saqueados pelos mesmos bandidos, que levam a maior parte do arroz colhido, deixando somente o mínimo para que eles possam sobreviver e continuar produzindo. Cansados dessa situação, os moradores vão atrás de guerreiros, ou samurais, para defender sua vila. O problema: a única forma de pagamento que o pobre vilarejo pode oferecer é arroz. A um olhar simplista, parece somente um filme de ação no qual samurais, mestres de suas armas, vão cortar, chutar e dilacerar os vilões e salvar o dia, certo? Porém tenho certeza que os bons entendedores já fizeram as ligações corretas. Mais do que lutar contra bandidos, os samurais ensinam aos moradores do vilarejo que eles mesmos terão de se levantar e defender o que é deles por direito, já que foram os mesmos que produziram. O épico de quase três horas e meia tem o poder de fazer qualquer um entender, desde que consiga prender a atenção pelo tempo do filme, que mais vale lutar e, possivelmente, morrer pela conquista do que é seu por direito do que viver sendo oprimido.

É visível a conexão existente entre os problemas e dilemas do ser humano quando obras feitas há mais de 50 anos – e no outro lado do planeta – tocam em assuntos tão pertinentes do nosso dia-a-dia.

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Kurosawa possuía um dom natural de capturar em suas obras questões humanitárias e existencialistas cinematograficamente intrínsecas ao roteiro. Em Akahige (“O Barba Ruiva” 1965), novamente vemos uma forte presença de questões humanitárias e de injustiça social. Um jovem, talentoso e arrogante aprendiz de médico do século 19 é aspirante a um cargo alto do Shogunato, mas, para chegar lá, é mandado em treinamento para uma clinica comunitária em uma área rural, comandada por um médico mais velho, de temperamento aparentemente curto e grosso. Akahige significa literalmente barba vermelha e logo descobrimos que o dono do apelido é na verdade uma pessoa de grande preocupação social que dedica sua vida para salvar o máximo de pessoas possível. O cenário clássico de injustiças sociais que é o hospital e o embate entre um médico preocupado com a condição humana e outro inicialmente preocupado com seu status social é a fórmula perfeita para retratar o que acontece até hoje nos ambientes de saúde do mundo inteiro.

Apesar de ser o mais renomado e prolífero diretor japonês, Kurosawa não é o dono exclusivo dos grandes clássicos. Entre outros grandes nomes a serem citados, Kenji Mizoguchi (1898 – 1956) merece destaque. Mizoguchi é lembrado até hoje por seus filmes protagonizados por personagens femininas, mostrando sua grande preocupação em destacar o papel e as injustiças sofridas por mulheres na sociedade japonesa de sua época.

Talvez o ápice do seu retrato do sofrimento feminino pode ser encontrado na obra Saikaku ichidai onna (“A Vida de Oharu” 1952). Oharu se apaixona por um homem de classe social mais baixa, o que causa a execução de seu amado e o exílio forçado de sua família. Após uma tentativa falha de suicídio, seu pai a vende como concubina de um grande senhor feudal para que ela possa lhe dar filhos. O filme retrata de forma magistral, em uma sucessão de tragédias, a dura condição de ser mulher e a sua impotência em frente a uma sociedade extremamente machista. No entanto, numa análise cuidadosa da obra, chega-se na conclusão que muitos dos absurdos retratados no filme são a mais pura realidade para tantas mulheres que vivem e sofrem em nossa sociedade atual, o que é um tanto perturbador. Estamos próximos de Oharus diariamente.

Aproximação por meio da arte

Como já dito antes, o cinema clássico japonês apresenta um olhar de familiaridade a uma cultura que muitas vezes nos parece totalmente alienígena. Não são filmes fáceis de assistir. Em uma época de filmes com 1 hora e 20 minutos de duração, explosões, efeitos especiais, óculos 3D e super heróis, é necessário um pouco de esforço. A grande maioria dos filmes possuem mais de duas horas de duração, o ritmo é sereno e em nenhum momento apressado. Vemos aí também a impressionante paciência nipônica: longas cenas sem dialogo e sem trilha sonora, o silêncio usado de uma forma encantadora.

O objetivo dessas obras não é proporcionar ao espectador um choque de realidade, um tiro para acordar. Mas, como em uma sessão de hipnose, deve-se estar preparado e disposto para se deixar hipnotizar.

O Japão é um país de cultura fascinante. Seus problemas e virtudes, à primeira impressão, divergem muito do que conhecemos e estamos acostumados no ocidente. Somente quando começamos a entender os valores e princípios básicos que formam o pilar de toda a estrutura histórica e social do país é que torna-se possível colocar em perspectiva a nossa realidade, e entender como estamos mais próximos do que imaginamos.

Referências:

• News Week – WHY DO SO MANY JAPANESE SCHOOLCHILDREN KILL THEMSELVES?
• The Japan Times – Child suicides tend to occur at end spring or summer school holidays: study
• Stanford – Daily Life in Japanese High Schools
• Bio. – Akira Kurosawa Biography
• World Health Organization – Suicide Rates
• The Guardian – Death from overwork: Japan’s ‘karoshi’ culture blamed for young man’s heart failure

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Um olhar social do Japão por meio de alguns dos seus clássicos do cinema

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