15 maneiras com as quais o capitalismo impede ou limita você de ser feliz

Você deseja muito ser feliz? Então é melhor começar a pensar seriamente sobre o atual sistema hegemônico, o principal causador da infelicidade geral.

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Capa: ilustração de Steve Cutts

Você deseja muito ser feliz?

Seu sonho é ter uma vida de constante prazer e satisfação, em sucessão a uma vida atual de atribulações, obrigações injustas, dores de cabeça, desprazeres e sofrimentos?

Para ajudá-lo a conhecer o caminho da felicidade, preciso dizer que esse seu lindo sonho provavelmente está sendo impedido de se realizar por esta ordem social, econômica e moral na qual vivemos, fundamentada e movida pelo capitalismo.

Ou, se não é negado completamente, está sendo severamente limitado. Ou seja, é principalmente por viver num país capitalista que você não é tão feliz quanto gostaria de ser.

Para saber como alcançar a felicidade – ou melhor, incorporá-la à sua vida cotidiana -, você precisa descobrir os obstáculos que separam você de uma vida realmente agradável, prazerosa e feliz. É assim que você pode dar o primeiro passo para buscar driblá-los e pavimentar o caminho rumo a essa tão sonhada vida.

Assim sendo, vamos te ajudar a saber quais são esses obstáculos impostos, direta ou indiretamente, pelo capitalismo. Trazemos quinze meios – que, pelo visto, são parte de um conjunto ainda maior – pelos quais esse sistema socioeconômico e moral está lhe inibindo ou negando o sagrado direito de ser feliz.


1. O capitalismo impõe a você que trabalhe no que não gosta, muitas vezes sob condições insalubres, a não ser que tenha privilégios que lhe permitam trabalhar naquilo de que realmente gosta

Uma pesquisa do Instituto Gallup, em 2014, revelou que menos de um terço dos trabalhadores estadunidenses estavam realmente engajados em seu trabalho. Ou seja, mais de 68% dos estadunidenses detestam seu trabalho, ou o consideram desprazeroso e sem graça, ao ponto em que não se engajam ativamente nele ou estão fortemente desengajados.

O mesmo estudo nos revela que aqueles que possuem empregos na base da pirâmide socioeconômica capitalista, como vendedores, operários, motoristas/maquinistas e encarregados de serviços, tendem a ser menos engajados e mais desgostosos com seus trabalhos, havendo nessas profissões as menores porcentagens de trabalhadores contentes.

No mundo inteiro, o resultado é ainda pior. O mesmo Gallup, em 2013, revelou que apenas 13% dos trabalhadores, num universo de 142 países, se engajam com gosto em seus empregos, enquanto os 87% desgostam ou odeiam o que fazem em troca de um salário.

Não é à toa que tanta gente deteste seus empregos, afinal, incontáveis deles são claramente insalubres; ou foram tornados assim pela inépcia do poder público, como o de professor e o de policial, ou pelo assédio empresarial, como o de operador de call-center e telemarketing.

A pessoa precisa ser bastante privilegiada para passar a maior parte de sua vida trabalhando no que gosta. Necessita de privilégios que consistem em ter:

  • Dinheiro para investir e/ou parcerias para bancar custos;
  • Tempo livre para estudar e empreender;
  • Apoio moral e financeiro familiar e/ou conjugal;
  • Gosto profundo por um trabalho lucrativo ou bem remunerado que a sociedade prestigie;
  • Saúde física e psicológica em bom estado;
  • Um prazo confortável que permita dedicação a esse trabalho;
  • Não estar numa situação financeira emergencialmente ruim etc.

Pelo que se vê nas pesquisas do Gallup, essa combinação infelizmente é hoje um privilégio de poucos. A grande maioria se vê forçada a permanecer em empregos e subempregos detestados e não tem condições de largá-lo para tomar parte no trabalho dos sonhos, ou de começar sua vida profissional já naquilo que ama.

Em outras palavras, o capitalismo condena a maioria dos trabalhadores a se relegarem a empregos ou trabalhos informais nos quais estão por estrita obrigação e necessidade e a contragosto.


2. Coloca você numa rotina repetitivamente insossa

Acordar, café-da-manhã, ida no transporte precário (ônibus, trem, metrô, VLT) e/ou engarrafado (carros e ônibus), trabalho cansativo e desagradável, almoço, mais trabalho cansativo e desagradável, volta no mesmo transporte precário e/ou engarrafado, jantar, descanso com imersão na TV ou nas redes sociais, dormir.

No trabalho, constante pressão por produtividade, demandas e prazos apertados, clientes inconvenientes, condições ambientais e laborais desconfortáveis, trabalhos repetitivos, medo da crise e de ser demitido(a) e, muitas vezes, assédio moral ou sexual.

No transporte de ida e volta, uma cidade feia, poluída e barulhenta, um trânsito sufocantemente congestionado, ônibus e trens lotados, risco de ser assaltado dentro ou fora do veículo…

Tudo isso em troca de um salário muito baixo, ou insuficiente para realizar muitos dos sonhos de lazer, turismo e consumo do trabalhador.

Isso sem falar nas contas, dívidas, avisos de corte ou despejo, aumentos irrazoáveis de preços ano após ano, entre outras maneiras de coerção econômica contra quem teve seus direitos convertidos em serviços pagos e caros.

Esse é o dia-a-dia de muitas pessoas, que tanto sonham com a felicidade mas, no momento, estão impedidas de almejá-la.

Muitas delas adorariam trabalhar em casa ou perto dela, longe de toda essa confusão urbana, com aquilo que gostam. Mas não têm os privilégios necessários para realizar esse desejo.

O resultado é tanta gente vivendo infeliz, ou contente de menos, e querendo ter uma vida diferente da que tem hoje.


3. Induzindo você a recorrer à televisão, às redes sociais e ao consumismo


Esses três meios aparecem, para muitos, como formas de se distrair e “ser feliz por uns momentos”. Em muitos casos, como refúgios para quem está cansado de um dia-a-dia que “parece cada vez pior”.

Só que os mesmos três, ao invés de trazer alegria, tendem a tornar as pessoas ainda mais infelizes. É o que mostram notícias como essas, baseadas em pesquisas:

Ou seja, aqueles que podem ser considerados os meios mais capitalistas de distração em casa e no shopping, para quem tem pouco tempo livre em seus dias úteis, são justamente aqueles que mais impedem a felicidade das pessoas.


4. Negando a você tempos de lazer, meditação, atividades espirituais/religiosas, leitura, estudo não profissional e outras atividades que dão prazer duradouro

Vários autores, como David Niven (no livro 100 segredos das pessoas felizes) e Clóvis de Barros Filho, deixam claro que a felicidade se faz aqui e agora, em momentos como meditação, lazer, alimentação de entretenimento, atividades religiosas, leitura etc.

Mas o tempo apertado que muita gente tem – e que o governo de Michel Temer e os empresários querem diminuir ainda mais por meio da contrarreforma trabalhista – não permite que esses pequenos prazeres da vida sejam desfrutados todos os dias e em tempo suficiente.

Muita gente acaba tendo só os fins de semana, ou o único dia de folga da semana, ou menos de duas horas por noite, para dar aquela leitura gostosa, ir ao restaurante, curtir a vida na praia ou no parque, ou pedir a Deus (ou aos Deuses, ou ao Universo) uma vida melhor.

Afinal, as horas de comer, transportar-se e trabalhar acabam ocupando a maior parte do dia, sendo esse um dos motivos pelos quais a vida na cidade tem sido cada vez mais insalubre.

Essa falta de tempo de muitos para ser feliz, um pouco que seja, é um dos meios pelos quais o capitalismo impede ou diminui a capacidade dos seres humanos de serem felizes.


5. Impondo que você pague caro para ter acesso a serviços básicos e mesmo a direitos

O usufruto de alimentos, água, energia elétrica, transporte, lazer, leitura, internet e música depende que a pessoa esteja trabalhando, ou sendo sustentada pelos pais ou responsáveis. Caso contrário, não poderá pagar por nada disso, já que o acesso a esses que deveriam ser direitos são condicionados a ter dinheiro para desembolsar em tarifas e contas.

A maioria da população, para poder acessar pelo menos alguns desses serviços, acaba tendo que se submeter a trabalhos insalubres, mal-pagos e exaustivos que, muitas vezes, lhes roubam a felicidade.

Ou seja, se a pessoa tem um trabalho ruim e mal remunerado, pouco dinheiro e pouco tempo de sobra, tenderá a ser infeliz ou, no máximo, ser bem menos feliz com a vida do que poderia ser se estivesse numa situação socioeconômica melhor.


6. “Ensinando” a crença de que a felicidade é uma linha de chegada que se alcança com estudo e trabalho, e ficando rico e bem-sucedido

Foi mencionado anteriormente que intelectuais como os já citados David Niven e Clóvis de Barros Filho ressaltam que a felicidade é algo a ser alcançado já, por meio das pequenas coisas, de se deleitar com os prazeres do momento – mesmo, no caso de quem trabalha, sentir como é gostoso fazer aquilo que está fazendo em seu ofício.

O detalhe é que eles precisam lembrar disso em seus discursos e livros porque muitas pessoas, talvez a maioria, estão condicionadas a acreditar que a felicidade é uma linha de chegada que só se alcança depois de muitos anos estudando na escola e na universidade, trabalhando duro, sendo promovido diversas vezes e/ou recebendo prêmios. Ou é algo que só se consegue depois de conseguir ficar rico e ser famoso.

É o que a moral capitalista tem feito parecer por meio da mídia. Na televisão e na internet, vemos a ilusão de que só pessoas ricas, famosas e bem-sucedidas, como CEOs de grandes corporações, cantores superstars, modelos milionárias(os) e atores e atrizes repletos de prêmios e fãs, têm a capacidade de serem felizes no mundo capitalista.

Muito pouco é revelado sobre quem consegue ser feliz sendo, por exemplo, gari, pedreiro, vendedor de loja ou cozinheiro. Afinal, a imprensa tem o costume de tornar notícia a vida dos famosos rodeados por riqueza, luxo e fama, não a dos cidadãos comuns de vida simples.

Acaba sendo um meio de induzir as pessoas ao trabalho duro e ao consumismo. Afinal, se elas aprenderem a ser felizes aqui e agora sem serem opulentamente ricas, tenderão a comprar menos e até mesmo poderão dar menos sangue pela empresa em que trabalham. E isso é ruim para os capitalistas, por ser uma ameaça de lhes diminuir o lucro.


7. “Ensinando” que a felicidade é algo que se conquista nos grandes acontecimentos da vida, e não que se vivencia nas pequenas coisas


Ao mesmo tempo em que ensina que a felicidade está na riqueza, no luxo e na fama, a moral capitalista tem condicionado os momentos de grande alegria aos grandes marcos da vida das pessoas.

É frequente os indivíduos crerem que ser feliz é concluir o curso universitário e ser uma das estrelas da formatura, passar naquele concurso público tão concorrido e que paga cinco dígitos de reais, ser promovido à diretoria da filial local daquela grande corporação, comprar aquela casa tão linda e espaçosa, adquirir o carro zero quilômetro que a publicidade tanto tem divulgado…

Quando se pensa muito nos grandes momentos da vida, acaba-se deixando de lado mais de 99% dos seus dias de vida. Deixa-se de curtir, ou curte-se bem menos, o prazer de tomar o cafezinho ou chazinho da tarde, ler aquele livro de ficção fantástica depois do jantar, assistir aquele seriado (sem fazer maratonas televisivas excessivas), passear no parque, tomar banho de mar na praia, namorar com seu/sua companheiro(a)…


8. “Ensinando” que o prazer e a felicidade são algo que deve ser comprado, muitas vezes a preços altos, para se poder sentir, e não um direito intrínseco aos seres humanos

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O consumismo consiste, em parte, na compra de muitos bens materiais para se saciar aquela vontade voraz de comprar para aliviar a tensão do dia-a-dia, ou andar na linha da moda, ou sentir-se bem por estar acumulando bens materiais e, assim, aparentando estar rumando à riqueza.

Alternativamente, muitas pessoas, mesmo se não são consumistas, creem que a felicidade está naquela viagem à Europa, ou à praia badalada no Nordeste. Ou está no próximo Carnaval lá no Rio de Janeiro, Salvador ou Recife, por meio de pacotes turísticos que custam quatro dígitos de reais.

É por esses e outros meios que a moral capitalista nos repete cotidianamente que a felicidade vem por meio de produtos e serviços que custam caro, não por meio daqueles e-books divertidos que se pode baixar de graça na internet, daquele joguinho em Flash também gratuito, daquele almoço vegetariano delicioso, daquele momento de amor com o(a) namorado(a) ou esposo(a), daquela conversa gostosa com os amigos…

E isso acaba afastando as pessoas daquilo que realmente pode fazê-las mais feliz: as pequenas coisas do dia-a-dia, que muitas vezes são de graça. Esse afastamento é uma mão na roda para quem busca o lucro por meio de realimentar nas pessoas a crença de que elas precisam pagar caro para serem felizes.


9. Condicionando ilusoriamente a felicidade ao tamanho da conta bancária e à posição na pirâmide socioeconômica

Tudo isso converge para a crença de que, para ser feliz, é preciso:

  • Ficar rico e ter sete dígitos de reais ou mais na conta bancária;
  • Tornar-se bem-sucedido e famoso;
  • Comprar o máximo possível daquilo que a propaganda diz (explícita ou sutilmente) que fará você “mais feliz”;
  • Fazer turismo a preços altos;
  • Gastar, gastar e gastar.

Ou seja, que felicidade é enriquecimento financeiro e gasto.


10. Incitando a competição e a comparação em detrimento da cooperação e da solidariedade


A competição como valor moral capitalista e fator de desenvolvimento econômico tem sido algo decisivo em tornar as pessoas infelizes, em especial aquelas que são tachadas de “perdedoras” e as que são demasiadamente vidradas no competicionismo econômico e empreendedor.

Um artigo que ilustra isso de maneira muito apurada é o artigo de Gabriel Leite Mota Competição e felicidade: uma equação complexa. Segundo ele:

“Podíamos pensar numa competição saudável que promovesse o bem-estar. Mas não creio que essa seja a regra. O que mais abunda é a competição que cega, que deixa as pessoas doentes quando perdem, insuportáveis de arrogância quando ganham. Uma competição em que tudo se faz em nome da vitória (sem honra nem moral) e onde facilmente se despreza e humilha os derrotados. Nada disso me parece merecedor de louvor. Infelizmente, a competição facilmente potencia o conflito e dificulta a harmonia.”


11. Causando uma epidemia de transtornos mentais como depressão, ansiedade, síndrome do pânico, burnout e estresse crônico

Todos os fatores de inibição ou supressão da felicidade no capitalismo acabam trazendo transtornos mentais diversos para as pessoas. Transtornos esses que são o ápice da infelicidade humana. (Leia mais sobre isso aqui).

Como exemplos, temos:

A correria estressante do trabalho e do transporte, as pressões vindas dos patrões e do mercado, as notícias ruins que fluem incessantemente dos noticiários, o vislumbramento do enriquecimento como um objetivo inalcançável, a insalubridade ambiental, entre outros problemas típicos da vida capitalista, têm causado essas e muitas outras doenças e transtornos.


12. Degradando o meio ambiente, poluindo as cidades e tornando-as cada vez mais insalubres


Uma das maiores causas de toda essa infelicidade entre os seres humanos no mundo capitalista é a degradação ambiental, dentro e fora das cidades.

Têm sido muitas as formas de depredação do meio ambiente, mesmo aquelas que destoam do senso comum de ligar meio ambiente a florestas e áreas verdes, a degradar a qualidade de vida dos moradores das cidades:

  • Acúmulo de lixo nas ruas, canais, rios e galerias pluviais, mesmo com todo o trabalho dos garis;
  • Poluição sonora de carros, caminhões, ônibus, motos etc.;
  • Poluição atmosférica vinda dos meios de transporte e de chaminés;
  • Poluição visual e luminosa;
  • Derrubada indiscriminada de árvores, sem reposição, muitas vezes por parte da própria prefeitura;
  • Desmatamento urbano nas áreas de preservação permanente, nos parques e nas áreas de vegetação virgem ou reflorestada;
  • entre outras.

Somam-se a isso a falta de políticas ambientais municipais, estaduais e federais, a destruição de ecossistemas geograficamente distantes mas importantes para todo o planeta, o desmonte da legislação ambiental, entre outras políticas de irresponsabilidade ambiental pública e privada.

Tudo isso tem colaborado decisivamente para prejudicar a saúde física e mental das pessoas, inibindo severamente suas possibilidades de serem felizes.


13. Rebaixando bilhões de seres humanos a condições miseráveis de vida, nas quais a felicidade é praticamente impossível

Para ser feliz, é necessário, antes de tudo, satisfazer necessidade básicas, como moradia, alimentação, lazer, energia elétrica, saneamento básico, saúde, segurança, educação e transporte. Só que esses direitos têm sido sistematicamente negados, ou “assegurados” na extrema má vontade e de maneira muito precária, à maioria da população, em situação de pobreza ou miséria.

Essa realidade triste deve-se, em parte, aos ditames do neoliberalismo:

  • Retirada de investimentos públicos;
  • Conversão de direitos sociais em serviços privados pagos (e caros);
  • Revogação dos papéis do Estado de promover bem-estar social e engrenar a economia;
  • Aumento abusivo dos poderes das grandes empresas privadas sobre a sociedade civil e o próprio Estado;
  • Privatizações de serviços públicos etc.

Como resultado, as desigualdades sociais têm aumentado absurdamente, ao ponto em que oito homens possuem mais dinheiro do que 3,6 bilhões de pessoas juntas e a miséria no Brasil voltou a aumentar depois do enfraquecimento das antigas políticas lulistas de empoderamento econômico dos mais pobres e fomento ao emprego.

Assim fica muito difícil essa imensa parcela da população ter chances de ser feliz, se nem as condições básicas de sobrevivência têm conseguido satisfazer plenamente.


14. Reprimindo e destruindo culturas e visões de mundo que buscam a felicidade por meios alternativos

A globalização capitalista é historicamente marcada pela destruição, seja por genocídio ou assimilação, de culturas nativas que, entre outras características, buscavam a felicidade por meios distintos do que a moral capitalista nos dita.

O livro de David Niven 100 segredos das pessoas felizes conta, em dado momento, a triste história de como a chegada da televisão degradou a cultura do povo Gwich’in, que habita o Alasca e o nordeste do Canadá.

É possível perceber, entre outros prejuízos àquelas pessoas, como o meio ancestral delas de serem felizes acabou sendo perdido com a chegada da TV e de todo o materialismo e consumismo que ela lhes induziu.

Outra amostra de como o Ocidente capitalista tem destruído as culturas indígenas e suas maneiras próprias de nutrir a felicidade é o texto Extermínio cultural dos povos indígenas do advogado terena Wilson Matos da Silva.

Isso sem falar dos genocídios propriamente ditos, como tem ocorrido com os Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul. Lá os nativos estão sob risco constante de serem assassinados pelos pistoleiros a serviço dos latifundiários locais. Ou seja, vivem impedidos, sob um intenso medo, de buscarem a felicidade, tanto pelos meios de sua cultura como por aquele que o capitalismo aponta como “único meio verdadeiro” de ser feliz.


15. Legitimando governos cuja política “social” maior é trazer infelicidade às pessoas não ricas


Novamente citemos aqui o neoliberalismo como doutrina político-econômica de caráter antissocial, como veículo de infelicidade para a maioria da população.

É aderindo a políticas neoliberais que governos como o brasileiro de Michel Temer tem:

  • Votado e sancionado a retirada de direitos e o congelamento de investimentos públicos;
  • Eliminado gradativamente a função do Estado de proteger o bem-estar social e mesmo as liberdades da maioria dos cidadãos;
  • Enfraquecido proteções legais aos cidadãos e consumidores;
  • Por meio de tantas políticas negativas, enchido os noticiários e o espírito de época de uma negatividade e desesperança que não se via com tanta intensidade há muitos anos.

Em outras palavras, os governos neoliberais têm sido decisivos em impedir a maioria dos cidadãos ao redor do mundo de serem felizes um pouco que seja. Afinal, muitos deles estão sendo privados do atendimento a necessidades básicas e cada vez mais sufocados, com o aval do governo, em seus empregos.


 

Bônus: Nem os ricos conseguem ser felizes no capitalismo

Na tradição capitalista de impedimento ou limitação da felicidade, nem mesmo os ricos e bem-sucedidos escapam. Eles também estão constantemente à mercê de diversos problemas graves que podem lhes cortar o bem-viver a qualquer momento, ou os inibem de ser plenamente felizes.

O psiquiatra Flávio Gikovate, em entrevista à revista Época em 2014, revelou como o consumismo dos ricos é uma maneira de muito deles tentarem aliviar uma vida morna na qual o acúmulo de riqueza não os tornou mais felizes.

Além disso, segundo revela o noticiário português Expresso, uma pesquisa de 2015, de autoria de Kostadin Kushlev, atestou que “as pessoas mais ricas não desfrutam dos simples prazeres da vida, que consistem numa chave para a felicidade”.

Outro indício que relaciona uma posição socioeconômica alta e a carência de felicidade é uma matéria da revista Trip de 2009, que revelou que, à época, 84% dos executivos brasileiros se sentiam infelizes – mesmo numa época em que a economia do país ia bem e resistia à crise internacional.

E para fechar essa comprovação de que riqueza não traz mais felicidade e, às vezes, pode até limitá-la, eis uma palavra do recentemente falecido sociólogo Zygmunt Bauman, em entrevista dada em 2014:

“É muito difícil encontrar uma pessoa feliz entre os ricos. […] O rico – cuja tendência obsessiva é enriquecer mais – costuma meter-se numa espiral de infelicidade enorme. A grande perversão do sistema dos ricos é que acabam sendo escravos. Nada os sacia, entram em colapso, uma catástrofe!”


Considerações finais

São muitos os indícios, alguns dos quais você provavelmente sente na pele, de que a cultura moral capitalista definitivamente não é uma cultura de felicidade, ao contrário do que as revistas de celebridades, as propagandas publicitárias e os think-tanks pró-mercado vivem nos repetindo.

As tantas demandas psicológicas, físicas e sociais que esse sistema tão frenético, que nos exige cargas horárias sufocantes, nos comprime em trens e ônibus lotados e engarrafamentos, nos provê cidades degradadas cada vez menos respiráveis, nos exige submissão ao mercado, nos enche de débitos e nos obriga a pagar e comprar cada vez mais, estão nos deixando mais e mais infelizes.

Aliás, as notícias ruins de 2016, muitas delas favoráveis ao capitalismo desregulado e ao império do mercado, foram a apoteose desse esmagamento psicológico que nos tem roubado os sonhos e possibilidades de sermos felizes, ou ao menos de podermos respirar um ar limpo que seja.

Então, se você quer a felicidade como um direito, ou pelo menos como algo que esteja a um fácil e não custoso alcance, lhe será necessário ajudar a derrubar esses obstáculos à sua e nossa alegria de viver. E isso começa, por mais que você atualmente ache que o capitalismo é “bom”, por questionar aquilo nessa ordem econômica, social e moral que nos força a uma vida emocionalmente precarizada.

Ou seja, uma das melhores maneiras de viabilizar a esperança da plena felicidade para você e a maioria da população é contribuir para desmontar o capitalismo e suas negações e imposições injustas.

Mais publicações que abordam a relação entre desigualdade e Ansiedade patológica relativa à autoavaliação e status:

• TEWNGE, T.W. The age of anxiety? Birth Cohort Change in anxiety and neuroticism, 1952-1993. Journal of Personality and Social Psychology 79(06). 2007, p. 1007-1021.
• GERONIMUS, A.T. BOUND, J. WAIDMANN, T.A. COLEN, C.G. STEFFICK, D. Inequality in life expectancy, functional status, and active life expectancy across selected black and white population in the United States. Demography, 38 (2). 2001, p. 227-51.
• MARMOT, M.G. Wilkinson, R.G. Social Determinants of Health: The Solid Facts (2nd Edition). Copenhagen: World Health Organization, Regional Office for Europe, 2006.
• LAYTE, R. WHELAN, C.T. Who Feels Inferior? A Test of the Status Anxiety Hypothesis of Social Inequalities in Health. Gini Discussion Paper, 78. 2013.

Desordens mentais (sobretudo depressão) e mal-estar psicológico:

• WHO International Consortium of Psychiatric Epidemiology, “Crossnational Comparisons and the prevalence of correlaties of mental disorders”.Bulletion of the World Health Organization 78(04). 2000, p. 413-426.
• FILHO CHIAVEGATTO, A.D. KAWACHI, L. Et al. Does Income Inequality Get Under the Sky? A Multilevel Analysis of Depression, Anxiety and Mental Disorders in São Paulo, Brazil. Journal of Epidemiology and Community Health (67). 2013 p. 966-72.
• JOHNSON, S.L. LEEDOM, L.J. MUHTADIE, L. The Dominance Behavioral System and Psychopathology: Evidence from Self-Report, Observational and Biological Studies. Psychol Bull, 138 (4). 2012, p. 692-743.
• LOUGHNAN, P.KUPPENS, ALLIK,J. BALAZS, K. DE LEMUS, S. DUMONT, et al. Economic Inequality is Linked to Biased Self-Perception. Psychological Science, 22 (10). 2011, p. 1254-8.

15 maneiras com as quais o capitalismo impede ou limita você de ser feliz

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