Financial Times desmente Trump em seu plano para criação de empregos

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Na última sexta (02/12/2016) o Financial Times publicou um artigo de Federica Cocco intitulado “Maioria dos empregos dos EUA na área de manufatura foi perdida para a tecnologia“. Nele Cocco diz que os motivos alegados por Trump para explicar a “desindustrialização” dos EUA, sendo o principal deles a transferência de montadoras americanas para a Ásia, na verdade partem de falsas premissas:

“Os EUA perderam cerca de 5,6 milhões de empregos no setor de manufatura entre 2000 e 2010. De acordo com um estudo do Centro de Pesquisas Econômicas e Empresariais da Ball State University, 85% dessas perdas de empregos são atribuíveis às mudanças tecnológicas. Contudo, o think-tank descobriu que, embora tenha havido um declínio acentuado nos empregos nas fábricas, o setor manufatureiro se tornou mais produtivo e a produção industrial tem crescido. ‘Simplificando, estamos produzindo mais com menos pessoas’, observa Mireya Solís, um membro sênior da Brookings. As fábricas dos EUA têm conseguido isso substituindo gradualmente o trabalho humano por robôs.

‘A automação transformou a fábrica americana, tornando redundantes milhões de empregos pouco qualificados. As tecnologias de divulgação rápida, como robótica e impressão 3D, exacerbam esta tendência’, diz Solís. O Boston Consulting Group estimou que enquanto ‘um soldador humano hoje ganha cerca de US$ 25 por hora, incluindo benefícios, o equivalente custo operacional por hora para um robô é de cerca de US$ 8’.

O custo extra de manutenção de um sistema de robótica – instalação, manutenção e custos operacionais – deve ser amortizado, segundo o grupo, em um período de cinco anos. ‘Em 15 anos, essa diferença se ampliará ainda mais dramaticamente’, diz. Esse processo, como muitos apontaram, é irreversível.

Isto não quer dizer que o comércio com a China e outros países não tenha contribuído para a perda de postos de trabalho. Pesquisas da Ball State University descobriram que 13% das perdas totais de empregos na indústria de transformação resultaram do comércio. Outro estudo mais recente, do MIT, estimou que o aumento das importações chinesas de 1999 a 2011 custou até 2,4 milhões de empregos americanos.

No geral, porém, o que isso sugere é que um dos principais objetivos da nova administração, o aumento do protecionismo comercial, é pouco provável que substitua as forças maiores de automação e a transição para uma economia digital.”

Traduzido e adaptado do original em inglês.

Monumento de Adam Smith, em Edimburgo, na Escócia.

Desta forma, Cocco demonstrou que o desemprego na indústria nos EUA ocorre mais por conta da crescente automação do que pela transferência de montadoras americanas para a Ásia. Porém, ao tentar desmentir Trump com o artigo de Cocco, o jornal britânico de economia e finanças expôs um problema que a maioria dos defensores extremados do capitalismo custam a reconhecer: se mais tecnologia e conhecimento são aplicados à produção material, mais produtiva e competitiva essa produção se torna, mas, por outro lado, mais gente é cuspida para fora do mercado de trabalho, criando um irreversível desemprego estrutural.

Um marginalista, como é de praxe, vai dizer que isso não importa, pois outros empregos aparecerão, como motorista de Uber ou programador. A despeito do fato de 9 entre 10 empregos existentes hoje já existirem faz mais de 100 anos – ou seja, em 100 anos apenas 1 emprego em 10 foi criado – a questão é que economistas geralmente não atentam para a preciosa lição de Adam Smith: existe trabalho produtivo e existe trabalho improdutivo. Indo mais longe, existe trabalho que gera valor para o capital e existe trabalho que apenas consome esse valor gerado. Geralmente, o trabalho que produz mercadorias é o chamado trabalho produtivo. Mercadorias, claro, não são apenas materiais, mas podem ser imateriais também. O canto de uma cantora pode ser uma mercadoria, mas nem sempre uma cantora que vende seu canto está produzindo mercadoria no sentido técnico de conteúdo material que pode fazer o invólucro imaterial do dinheiro fazer mais dinheiro.

O que importa no capitalismo não é o objeto em si, o objeto material, o seu uso, e sim o valor imaterial, monetário, que se pode conseguir com esse objeto. Claro que os objetos têm de servir para algo caso contrário não serão vendidos. Para o consumidor, o que importa é o uso que ele vai dar ao objeto. Mas para o sistema em si o que importa é o valor que esse objeto vai gerar sobre o valor que foi investido em sua fabricação e em relação ao total de capital global. Não importa se a mercadoria é consumida assim que é produzida, como um canto num show, uma consulta médica de um convênio ou uma aula numa escola privada, ou se é tornada material e vendida após sua produção, como um filme. Para ser mercadoria equivalente a um trabalho produtivo, o resultado desse trabalho deve ser capaz de gerar valor e mais-valor, sendo o mais-valor o responsável por fazer o capital global se expandir. Programadores de softwares contratados por uma companhia geram uma mercadoria, mas só geram valor enquanto estão trabalhando na programação do software. Depois de programado, a geração de valor praticamente cessa, pois esse software é distribuído digitalmente hoje em dia. Se for distribuído de forma física, é a produção do CD no qual ele será gravado que gera o grosso do valor. Por exemplo, um professor que vende sua aula por conta própria é um trabalhador improdutivo. Mas, o mesmo professor torna-se um trabalhador produtivo no caso de um capitalista o contratar para ganhar dinheiro com sua aula, pois gera valor capaz de expandir o capital.

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Contudo, o valor gerado pelo trabalhador liberal é insignificante para o sistema. O grosso do valor é gerado na produção de mercadorias em alta escala. É trabalho de operário que gera o grosso do valor e do mais-valor. E se esse trabalhador está sendo substituído por máquinas, então pouco importa se novos trabalhos improdutivos serão criados na esfera da circulação ou se trabalhos liberais na esfera de serviços capazes de criar mercadorias serão expandidos. A taxa de lucro, a expressão indireta do mais-valor, irá cair continuamente, gerando graves problemas para o próprio sistema. Desde a década de 60, com a criação e expansão contínua das automações analógica e digital na indústria, o lucro global vem diminuindo continuamente face aos custos gerais improdutivos da reprodução social. Em países de alta produtividade como EUA, Japão e Alemanha esse processo pode ser mais lento, pois eles “roubam” o valor criado em países de menor produtividade, como Brasil, China e Espanha. Sim, no capitalismo, quanto menos valor uma empresa cria, ou seja, quanto menos trabalhadores humanos existem nessa empresa, mais capacidade de roubar valor produzido em outras empresas ela tem. Ou seja, alta produtividade e alta tecnologia não criam mais valor e sim menos valor. Mas roubam o valor criado pela baixa produtividade.

Isso significa que não importa que se criem empregos na área de serviços, principalmente os não produtivos. A criação de valor em grande escala acontece basicamente na indústria e nela os trabalhadores estão sendo expulsos. Até na China isso vem ocorrendo. Isso significa menos valor para ser dividido entre as pessoas, patrões, empregados, burocratas, etc. Isso significa menos lucros, e com menos lucros, menos investimentos por parte dos capitalistas.

Eles passam a usar seus capitais para brincar de jogo de cassino na bolsa de valores. E isso faz com que a vida da maioria da humanidade se torne cada vez mais precária e sofrida.

Referências

• Cerasis – Industrial Automation: A Brief History of Manufacturing Application & The Current State and Future Outlook
• World Economic Forum – Agenda in Focus: The Fourth Industrial Revolution
• The Atlantic – A World Without Work

Para saber mais

• MARX, Karl. Teorias da mais-valia: história crítica do pensamento econômico (Livro IV de O capital). Vol. I. São Paulo: Civilização Brasileira, 1980.
• SMITH, Adam. A riqueza das nações. Vol. I. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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