Como o Livre Mercado aumentou a violência contra as mulheres no México

Com a promessa de trazer desenvolvimento econômico, o NAFTA provocou trágicas mudanças na sociedade mexicana, sendo as mulheres marginalizadas suas principais vítimas.

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“Em fins de setembro foi encontrado o corpo de uma menina de treze anos com cara de oriental, no morro Estrella. Como Mariza Hernandéz Silva e como a desconhecida da rodovia Santa Tereza-Cananea, seu peito direito tinha sido amputado e o mamilo esquerdo arrancado a mordidas. Vestia calça de brim da marca Lee, de boa qualidade, camiseta e um blusão vermelho. Era muito magra. Tinha sido violentada repetidas vezes e esfaqueada, e a causa da morte era a ruptura do hioide. O que mais surpreendeu os jornalistas, no entanto, é que ninguém reclamou ou reconheceu o cadáver. Como se a menina houvesse chegado a Santa Teresa e houvesse vivido ali de forma invisível até o assassino ou os assassinos a notarem e matarem”. Roberto Bolaños.

Um carro de som, ao passar pelas ruas de uma cidade, anuncia mais crimes violentos contra mulheres. O cenário presta ênfase no ambiente desértico, pobre e aterrador: Favelas de uma cidade mexicana chamada Juárez. Esse é o inicio do filme Cidade do Silêncio (2007), do diretor Gregory Nava e estrelado por Jennifer Lopez (Lauren Adrian), Antonio Bandeiras (Alfonso Diaz), Sônia Braga (Teresa Casillas), Martin Sheen (George Morgan) e Maya Zapata (Eva Jimenez).

O filme debate casos de crimes reais que ocorreram ao longo da fronteira entre México e EUA, cujas vítimas foram diversas mulheres operárias de fábricas instaladas nessa região após a entrada do México no tratado de livre comércio dos países da América do Norte, o NAFTA (North America Free Trade Agreement). Iniciado em 1988, tendo apenas os EUA e o Canadá, o NAFTA teve a entrada do México em 1991 por meio do Acordo de Liberalização Econômica e, exatamente no dia 13 de agosto de 1992, os mexicanos se tornaram oficialmente integrantes do bloco [1], o qual entrou em vigor em 1994.

Para melhor compreender a violência contra as mulheres, principalmente operárias no México, é imprescindível analisar as consequências econômico-sociais que esse tratado impôs ao México. A condição de “Livre Mercado” buscado pelo tratado tem ligação direta com séries de violência de gênero na cidade fronteiriça de Juárez e deu origem à palavra Feminicidio.



Breve introdução ao NAFTA e a Força de Trabalho no México e nos EUA

A ideia central do NAFTA era possibilitar um mercado com mobilidade industrial, buscando eliminar barreiras tarifárias e não-tarifárias, como um livre mercado para circulação de produtos e serviços entre os três países.

Indústrias dos EUA e Canadá (mas principalmente dos EUA) passaram a deslocar-se para o México, onde os custos de manutenção de uma planta industrial são muito menores em virtude de benefícios fiscais oferecidos pelo Estado Mexicano, e, principalmente, devido aos custos reduzidos da mão de obra. O resultado disso foi a implementação de indústrias conhecidas como maquiladoras (maquilas).

De acordo com Lixinsk [2], o termo maquiladora vem do espanhol, e refere-se à prática antiga de donos de moinhos cobrarem uma comissão (ou maquila) para processarem os grãos de agricultores. Uma maquiladora é, portanto, uma operação que envolve a fabricação de bens em um país diferente da nacionalidade do cliente (ou seja, fabrica unicamente para exportação). Normalmente exige uma fábrica que importe matéria-prima e exporte os bens manufaturados, que muitas vezes são reimportados para o país onde foram produzidos. Esse é um modelo de grande sucesso, já que, em 2005, mais da metade de todas as exportações do México saíam de maquiladoras e contava com uma rede 3.000 indústrias desse tipo. Isso refletiu diretamente nos postos de trabalho dos EUA.

Longe de ter criado novas oportunidades para as empresas norte-americanas e ter fomentando a criação de empregos, o Nafta favoreceu novos arranjos físicos industriais e a abertura de filiais no estrangeiro, particularmente no México, onde a mão de obra é barata. No setor agrícola, inúmeras empresas norte-americanas especializadas na transformação de produtos alimentícios também se mudaram para o país ao sul [3].

Antes de 1994, era proibida a importação para os EUA de diversos alimentos processados no México, pois eles não eram considerados seguros. No setor de carne bovina, vinte anos depois, as importações de carne bovina mexicana e canadense aumentaram 133%, levando à falência milhares de produtores norte-americanos.

Partindo de 2017, um dos eixos centrais da campanha do republicano Donald Trump para a presidência foi o endurecimento da política migratória. O famoso discurso “América em primeiro lugar”, que foi uma das promessas de campanhas de Trump, partia da ideia da construção do muro na fronteira com o México, tendo como "justificativa" o discurso agressivo contra os “estrangeiros”. Essa crescente xenofobia dos estadunidenses contra os mexicanos, a qual Trump utiliza tão bem politicamente, é de extrema ingratidão caso lembremos especialmente de dois fatos, um econômico e outro histórico.

A historiadora Julia Young nos lembra que os primeiros fluxos migratórios entre esses dois países começaram quando os EUA anexaram territórios que antes pertenciam ao México, ainda no século 19. Isso provocou uma onda migratória inusitada, na qual os mexicanos tiveram que sair do local onde nasceram, mas que não era mais o seu país após a anexação. [4]

Young também cita o estudo da consultoria BBVA Bancomer, no qual se constata que a riqueza gerada pelo trabalho de mexicanos residentes nos EUA de primeira, segunda ou terceira geração equivale a um valor superior ao próprio PIB do México (104%, mais precisamente), e 8% do PIB estadunidense. Esse estudo revela também que a participação dos mexicanos e seus descendentes (nascidos em solo estadunidense) na economia dos EUA no pós-Nafta, inclusive na transferência de dinheiro para o México, se aprofundou. A dívida histórica e econômica que os EUA possuem com os mexicanos raramente é debatida com o público estadunidense, o que ajuda a crescer a xenofobia contra imigrantes mexicanos e é um prato cheio para o discurso demagogo de políticos conservadores como o Presidente Trump, que chegou a questionar a precarização provocada pelo NAFTA em solo americano, mas, no fim, acabou se rendendo ao jogo do mercado.

Resultado prático do "livre mercado" num mundo desigual: NAFTA causa Precarização do Trabalho nos EUA e no México

Como falamos anteriormente, a comercialização de carne processada no México era proibida nos EUA até 1994. Quando passou a vigorar o NAFTA, o cenário se altera e conduz a uma crise nesse setor no mercado estadunidense. A liberalização do comércio foi fatal para os produtores de carne estadunidenses, já que carne de origem mexicana, agora livre das rigorosas normas sanitárias e ambientais, possui preços mais competitivos devido à mão de obra mais barata do México. Por outro lado, as empresas dos EUA e do Canadá passaram a ver no México como um ótimo local para instalar suas montadoras devido aos incentivos fiscais e políticos, além da mão de obra desvalorizada no país.

Em 2013, 845 mil estadunidenses haviam recebido ajuda do programa de “assistência ao ajuste comercial” (Trade Adjustment Assistance), voltado para os trabalhadores que perderam o emprego em razão da transferência de linhas de produção de empresas para o Canadá e o México, ou por causa do aumento das importações vindas desses países [5]. Só esses dados do programa mostram que não são apenas os mexicanos nos EUA que retiraram os postos de trabalhos dos estadunidenses em seu país, mas também trabalhadores canadenses e mexicanos em seu país próprio país. Ou seja, a perda de postos de trabalho nos EUA tem mais a ver com as mudanças que o NAFTA provocou no mercado de trabalho dos seus países membros do que com os imigrantes de origem mexicana.

O NAFTA não apenas diminuiu o número de empregos nos EUA como também afetou sua qualidade. Os trabalhadores da indústria demitidos foram para o setor já saturado dos serviços (hotelaria, manutenção, restauração etc.), no qual o salário é menor e as condições são mais precárias. Esse afluxo de novos trabalhadores pressionou os salários para baixo e o trabalhador viu seu salário real cair 12,2% nesse período.

Lori Wallach, diretora do Public Citizen’s Global Trade Watch, ainda enfatiza que “os trabalhadores norte-americanos, porém, não foram os únicos a sofrer com o Nafta. O acordo também teve efeitos desastrosos no México. Podendo exportar sem qualquer entrave, os Estados Unidos inundaram o país de milho subsidiado oriundo da agricultura intensiva, gerando uma queda do preço que desestabilizou a economia rural. Milhões de campesinos expulsos do campo migraram para procurar emprego em maquiladoras, pressionando para baixo o salário pago por elas, ou tentaram atravessar a fronteira e se estabelecer nos Estados Unidos. O êxodo rural agravou os problemas sociais nas cidades mexicanas, levando a uma intensificação da guerra às drogas”. [6]

Uma maquiladora renova 200% (sim, isso mesmo, duzentos por cento) dos seus trabalhadores a cada ano, o que significa que é um setor industrial de alta rotatividade e pouca segurança para os trabalhadores. É nítida a desvalorização do trabalho que as maquiladoras provocam. Quando olhamos os números isolados do México não percebemos o quanto foi o achatamento salarial, o aumento da miséria e da violência após as condições provocadas pelo NAFTA.

O gráfico acima, retirado do trabalho sobre a Economia Mexicana de 1994 a 2010, de Luiz Fernando Irisarri Gutierrez (UFRGS, 2012) [7], mostra o crescimento do PIB mexicano entre os anos 1970 e 2010 dando ênfase ao período do NAFTA. Fica claro que o crescimento seguiu o ritmo que já vinha desde 1970, bem diferente da projeção dos defensores da entrada do México no NAFTA, os quais prometiam um forte crescimento econômico.

As condições isoladas não mostram, por exemplo, o aumento de tempo necessário que uma pessoa deveria se dispor a trabalhar para adquirir a cesta alimentícia recomendada no México, como aponta o gráfico da CAM-UNAM (Universid Nacional Autónoma de México) retirado do relatório de pesquisa 123, “Mais Miséria e Precariedade do Trabalho”. [8]

De 1987 para 2016, a perda cumulativa do poder de compra do salário mínimo foi de 79,11%, segundo o relatório da CAM-UNAM, que ainda complementa informando que, atualmente, 32 milhões de trabalhadores no México sobrevivem em diferentes níveis de miséria como resultado de renda insuficiente para comprar a cesta básica.

O próprio relatório demonstra que essa perda do poder de consumo da massa trabalhadora no México é consequência das políticas que buscavam transformar o mercado mais competitivo, por meio de uma mão de obra barata para atender os interesses das empresas oriundas do NAFTA.

A classe operária mexicana enfrenta uma situação generalizada de precarização, que se manifesta na deterioração do nível de vida das famílias mexicanas. Os trabalhadores têm de trabalhar mais horas para tentar nivelar seu consumo. Em 2015, um trabalhador e sua família, para poder comprar o equivalente a uma cesta básica todos os dias, devem ter uma renda mínima diária de 201 pesos, ou seja, o equivalente a quase três vezes o salário mínimo. Considerando que nessa renda se exclui outros gastos como o referente à habitação.

A vulnerabilidade da população ativa está claramente associada com a implementação de políticas econômicas que acabaram beneficiando apenas as grandes empresas em detrimento dos trabalhadores. E isso resultou em um aumento progressivo do nível de pobreza da população em geral, ainda mais acentuada na força de trabalho feminina, que sempre foi a preferida das maquiladoras.

A exploração das mulheres das maquiladoras de Juárez

A criação dessas maquiladoras pode ser vista como reflexo da expansão do capitalismo na segunda metade do século XX, dado que esta possibilitou a “transferência de fases da produção de economias centrais para países menos desenvolvidos” a fim de ampliar os lucros por meio da diminuição de gastos de produção. Para viabilizar a atuação das empresas maquiladoras, produtos e matérias primas de procedência estrangeira são importadas temporariamente, transformadas em território nacional e, posteriormente, exportadas para o país de origem.

Por conta disso, uma das cidades do México que atraiu muitas maquiladoras foi Juárez, pois é uma cidade que faz fronteira com a americana El Paso, Texas, deixando mais barato a devolução do produto para o país de origem.

Os autores Gustavo Rodrigues Costa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Lidiane Pereira Ayang, da Universidade Federal do Pampa (UNIPAMPA), no trabalho “Empresas maquiladoras no México: Reflexos para a mão de obra feminina”, ressaltam que as maquilas diferenciam-se dos demais modelos empresariais não apenas pelo papel que cumprem na cadeia produtiva, mas, também, devido ao fato de estas possuírem um tratamento aduaneiro específico e localizarem-se, geralmente, nas chamadas Zonas Francas, o que faz diversas multinacionais enxergá-las como uma ótima oportunidade para explorar mão de obra barata sem criar vínculos empregatícios com os trabalhadores. [9]

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As condições favoráveis postas ao uso de maquilas, segundo os autores, é que, “de acordo com o PIF, as empresas maquiladoras poderiam importar máquinas, equipamentos e componentes sem nenhuma taxação, contanto que estes fossem exportados para o seu país de origem após serem transformados em território mexicano. Além disso, incentivos governamentais foram concedidos às iniciativas privadas estadunidenses para atrair o capital do país”.

As maquiladoras têm suas raízes ainda na década de 1930, porém foi a partir da década de 1990, com a ratificação do NAFTA, que ela encontrou o ápice do seu crescimento, visto que ampliou-se a quantidade de atividades permitidas a serem desempenhadas pelas maquilas. Soma-se a isto a realidade do mercado de trabalho do México, um dos países com maior diferença salarial entre gêneros, dando condições favoráveis para exploração da mão de obra feminina.

Tal fato torna-se evidente quando analisamos a indústria maquiladora mexicana, uma vez que, em diversos momentos, esta é vista como “sinônimo de precariedade, abusos, assédio e violência sexual contra as mulheres, total falta de liberdade sindical e de negociação, salários de fome e jornadas esgotantes”. [10]

A pesquisadora Desiree Ortiz , da UPEL (Universidad Pedagógica Experimental Libertador) do México, aponta que essas maquilas tendem a ter preferência por mulheres jovens com idade entre 15 e 20 anos, oriundas de áreas com maior desigualdade social, pois as chances dessas mulheres não terem conhecimentos da legislação trabalhista seria maior. [11]

A maioria das trabalhadoras atuava entre 10 a 14 horas diárias, sendo que muitas destas começam a trabalhar a partir dos 12 anos de idade. Já na questão salarial, enquanto nos Estados Unidos o valor recebido por uma hora de trabalho era de US$17,70, as trabalhadoras mexicanas recebiam US$1,21 pelo mesmo número de horas trabalhadas. [12]

Se analisarmos os números, as condições de exploração da força de trabalho, principalmente de mulheres, foram levadas ao extremo com a finalidade de reduzir custos de produção. Como já reconhecido em diversos estudos, essa redução começa com maior exploração da força laboral por meio do achatamento dos salários dos trabalhadores.

A gente pode se questionar: Como então a legislação trabalhista permitiu tamanha exploração dessas mulheres (incluindo meninas)?

O sistema de direitos trabalhistas (legislação) mexicano foi um dos pioneiros no mundo em 1917, mas foi em 1931, que o Contrato Coletivo Obrigatório foi incorporado na legislação, possibilitando qualitativamente a promoção da segurança do trabalho e do trabalhador por meio da redução de jornada de trabalho, indenização por demissão sem justa causa, proteção contra acidente no trabalho, limitação da jornada de trabalho dos menores de 16 anos, licença maternidade, entre tantos outros direitos. [13]

Já no final da década de 1960 e início de 1970, por ser considerada “ultrapassada”, a legislação trabalhista no México passou a ser flexibilizada para atender a demanda do Mercado. Na década de 1990, impulsionado pela inclusão ao NAFTA, o governo mexicano flexibilizou de tal maneira seus direitos trabalhistas que a ruptura da valorização salarial (exposto na tabela do poder de compra) provocou o aprofundamento do Ciclo de miséria do México. [14]

A Violência do Mercado Contra as Mulheres Mexicanas

Entre as denúncias mais frequentes contra as maquiladoras estão as de assédio sexual. Estima-se que cerca de 45% das mulheres que trabalham nas maquilas foram vítimas desse tipo de violência. No México, se você perguntar a alguém sobre o caso do “Campo de Algodão”, muito provavelmente lhe contarão sobre a história de González, Herrera e Ramos. O triste destino dessas meninas motivou uma luta política que se tornou vitoriosa ao chegar até a Corte Interamericana de Direitos Humanos, com a qual conseguiu condenar e responsabilizar o Estado mexicano pela morte de diversas mulheres em 2009. [15]

Igualmente no caso do filme que inicia o debate deste artigo, essas meninas eram operárias de maquilas na fronteira, na cidade de Juárez, que mais tarde acabou ganhando a fama de “Cidade que odeia suas mulheres”. Mas, diferentemente da ficção, na qual a personagem violentada sobrevive, na história da vida real as meninas González, Herrera e Ramos não sobreviveram. Seus corpos foram encontrados com sinais de violência sexual e mutilações por diversas partes. Todas mortas por estrangulamento. Vale ressaltar que duas dessas vítimas eram menores de idade.

Mais desesperador ainda é saber que esse revoltante caso não é exceção, basta lembrarmos do estudo que aponta que 45% das mulheres já sofreram assédio sexual. Desde 1993, tem ocorrido um aumento significativo no número de desaparecimentos e homicídios de mulheres e meninas na cidade Juárez. Os níveis de criminalidade em geral têm aumentado desde a criação do NAFTA, sendo as mulheres as maiores vítimas, como apontou a sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Esses homicídios, conforme admitido pelo próprio Estado mexicano, têm causas diversas e diversos autores, mas estão todos influenciados por uma cultura de discriminação contra a mulher que tem como base uma concepção da mulher como inferior ao homem. E um dos fatores estruturais que potencializaram a violência contra a mulher é a modificação dos papéis familiares gerados pela vida laboral das mulheres.

Por serem uma mão de obra ainda mais barata e por apresentarem uma melhor adaptação ao intenso ritmo de trabalho das maquilas, a mulheres acabam sendo as únicas contratadas nesse tipo de trabalho. Isso provocou um impacto na sociedade mexicana, já que, agora, a mulher tornou-se a principal provedora de uma família. Em uma sociedade altamente tradicional e machista como a mexicana, isso levou a conflitos familiares e sociológicos, dado o sentimento de impotência que muitos homens passaram a sentir ao estarem desempregados em casa e dependendo de suas esposas.

A história dessas três meninas do campo de algodão, que provocou comoção mundial, foi marcada pela ausência de investigações sobre os desaparecimentos, evidenciando o descaso do Estado mexicano em relação aos crimes contra a mulher. A maior ação, relatada pela corte, foi a produção de cartazes das desaparecidas, fora as diversas denúncias dos familiares em relação à conduta machista da polícia, que culpava as próprias vítimas pelos ataques (percebe-se que isso não é um problema apenas no Brasil).

Por que o México (e o mundo) se chocou com esse caso? Além de serem encontradas violentadas e jogadas juntas no campo de algodão, um dia após encontrarem os corpos das três, no mesmo campo foram encontrados mais cinco corpos também de operárias.

Todas as vítimas tinham mais coisas em comum além de serem operárias: eram de baixa renda e escolaridade, vivam em lugares marginalizados, trabalhavam em turnos de 10 a 12 horas por dia, já haviam denunciado algum tipo de assédio moral no trabalho, recebiam péssimos salários, e eram as provedoras de seus lares ou eram uma de suas maiores fontes; como era o caso de Esmeralda Herrera, 15 anos, encontrada com dilacerações no seio esquerdo, provavelmente causada por mordidas.

Os assassinatos e abusos de mulheres são uma constante na cidade, os registros de desaparecimentos, mortes e estupros datam de 1993, muitas destas com relações diretas ou indiretas com maquiladoras, além de outra principal condição: a classe social.

Em setembro de 2009, o assassinato de mulheres atingia o nível mais alto, com cerca de 88 vítimas desde o começo daquele ano [16].

Para Sergio Gonzales Rodrigues, pesquisador da Universidad Nacional Autónoma de México, autor que pondera sobre as mortes violentas no livro The Feminicide Machine, “a máquina feminicida está inscrita em uma estrutura particular da economia neo-fordista, é parasita desta estrutura, assim como ela mesma está incrustada na fronteira mexicana”.

A máquina feminicida move-se em conexão com diversas outras máquinas, virtuais e reais, com a máquina de guerra, com a máquina policial, com a máquina criminal ou a máquina de conformidade apolítica. Juárez é a realização de uma especulação planejada que é posta em prática em cidades-favelas e nas pessoas que são consideradas de pouco valor (RODRÍGUEZ, 2012, p. 11-12).

Considerações Finais

A cidade de Juárez cresceu com a sina de ser uma cidade de fronteira de crescimento acelerado (população triplicou entre 1970 e 2000, com 40% vivendo em situação de extrema pobreza). Mas, dentro da própria cidade, existem ao menos mais quatro “cidades” sob a ótica do estudo de Rodríguez: a cidade que é o quintal norte-americano, a cidade inscrita em uma economia global, a cidade como um teatro na operação da guerra às drogas e a cidade feminicida. Tudo isso geograficamente (e simbolicamente) rodeada de desertos (muitos dos corpos mutilados e torturados foram encontrados nesse entorno).

A antropóloga Patricia Ravelo Blancas, que estudou in loco os casos de Ciudad Juárez, aponta para o significado político do assassinato de mulheres. “No feminicídio se comete um crime mais complexo do que o mero assassinato, pois inclui a exclusão social da mulher nas esferas sexual, econômica e política”. Ela estima que mais de 1.000 mulheres e meninas foram brutalmente assassinadas em Ciudad Juárez desde 2008. [17]

As mulheres destas quatro cidades são a expressão final da violência imputada a elas e todas com ligações fortes nas condições econômicas. Mão de obra barata de fácil exploração pelo mercado introduzido após a implantação do acordo de livre comércio, o NAFTA, o qual providenciou os postos de trabalho especialmente voltados para a exploração da mulher.

Enquanto isso, o desemprego cresce entre os homens, os quais se sentem "desonrados" numa realidade em que as mulheres se tornam “chefes de famílias”, mesmo com seus baixos salários. Desta forma o "livre mercado" dá combustível ao machismo quando “favorece” as mulheres em seu objetivo de reduzir seus custos de produção.

A guerra às drogas, que parte da conivência e convivência entre os poderes legais e ilegais, facilitada pelo padrão liberal do mercado, o qual cria um espaço indistinto onde a máquina feminicida opera, alimentando-se dos restos do dito "desenvolvimento".

Indústrias modernas, muitas estrangeiras oriundas do NAFTA, convivem com a desigualdade, o abandono e a morte. O seu papel de responsabilidade social? É baixíssimo, devido à lógica do livre mercado estabelecido pelo tratado, a qual isenta essas empresas de suas obrigações, mesmo as mais básicas, como garantir segurança às suas operárias.

O papel de protetor dessas mulheres acaba sendo exercido por movimentos sociais, principalmente os feministas, que é o caso da Coordenação de Organizações Não Governamentais em Defesa da Mulher e das Mulheres de Preto, formadas por familiares das vítimas e feministas em geral, que contra-atacaram as instituições oficiais afirmando que as mulheres mortas não poderiam ser reduzidas a um discurso de moralização do comportamento feminino. São mulheres e são mulheres violentamente mortas.

Enquanto falarmos de livre mercado, liberalismo econômico, produtividade, tudo sem considerar a exploração das pessoas marginalizadas, que possibilita a produção de mercadorias a preço competitivo, jamais entenderemos que seus efeitos são devastadores na vida das pessoas que, por nada terem na vida a não ser sua força de trabalho para vender, são obrigadas a entrar nesse triturador humano produtivista que atende unicamente a lógica do lucro. Pode não parecer, mas estamos todos diretamente ligados a Juárez. O assassinato brutal de González, Herrera e Ramos também é um retrato da nossa realidade, a de humanos impotentes diante da lógica de um mercado explorador, que nos mata em vida.

 

Referências

[1] Naftaworks
[2] LIXINSKI, Lucas - Caso do Campo de Algodão: Direitos Humanos, Desenvolvimento, Violência e Gênero (PDF)
[3] https://dataweb.usitc.gov/
[4] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2017/01/28/Qual-a-participa%C3%A7%C3%A3o-da-m%C3%A3o-de-obra-mexicana-na-economia-dos-EUA
[5] https://www.citizen.org/taadatabase%22
[6] http://diplomatique.org.br/os-vinte-anos-do-nafta-e-as-miragens-do-livre-comercio/
[7] http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/55016/000856549.pdf?s
[8] UNAM - Relatório de pesquisa 123. México: mais miséria e precariedade do trabalho
[9] Revista Perspectiva - Empresas Maquiladoras no México: Reflexos para a Mão de Obra Feminina
[10] ORTIZ, Desiree - Las maquilas y la explotación de la mujer mexicana
[11] http://www.corpwatch.org/article.php?id=1528
[12] https://periodicos.ufsc.br/index.php/sequencia/article/view/15282/13885
[13] http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/25/internacional/1487981840_513699.html
[14] http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,assassinatos-de-mulheres-em-ciudad-juarez-atingem-nivel-mais-alto-em-16-anos,437210
http://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_205_por.pdf (sentença da corte).
[15] RODRÍGUEZ, Sergio González. The Feminicide Machine. Los Angeles: Semiotext(e), 2012.
[16] http://internacional.elpais.com/internacional/2017/05/15/mexico/1494869255_010650.html
[17] http://brasil.elpais.com/brasil/2015/08/08/internacional/1439052443_210134.html

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