segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Direita e Esquerda: o que esses termos significam na política afinal?

As origens da oposição política “esquerda x direita” remontam à Revolução Francesa, através das  posições físicas que os partidários de certas reivindicações e propostas ocupavam na Assembleia. Em 1789 o então novo ministro, Necker, convenceu o rei a convocar a Assembléia dos Estados Gerais, que não se reunia desde 1614. Os que ficavam à direita do rei na assembléia eram os que defendiam  a antiga ordem. Eram compostos basicamente por aristocratas (nobreza) e o Clero. Eles defendiam a ordem estabelecida da época, o status quo,  isto é, a classe dominante e o direito hereditário ao poder.(1)

Quem ficava à esquerda, o chamado Terceiro Estado, defendia a igualdade de condições dentro da sociedade, independentemente dos privilégios concebidos pela hereditariedade que a aristocracia tinha (lembremos que na antiga ordem Feudal, somente os nobres poderiam ter posses). Essa posição era composta por representantes de 98% da população francesa, entre eles os que futuramente seriam chamados de Jacobinos e os Girondinos. Quem ficava do lado direito defendia a conservação do poder pela classe dominante, e quem ficava do lado esquerdo defendia a igualdade de condições.

Portanto, a burguesia , representada pelos Girondinos, ficava à esquerda da assembléia formando um único bloco composto também pelos trabalhadores da cidade e pelo campesinato, todos reivindicando igualdade social e a quebra da ordem feudal. No futuro, a igualdade conquistada será suficiente para o primeiro grupo (burguesia), mas o segundo continuará reivindicando igualdade.(2)

“A pressão externa resultou, internamente, numa radicalização revolucionária. A unidade inicial do terceiro estado contra os aristocratas desapareceu, cedendo lugar a uma complexa composição político-partidária, na qual se destacariam dois partidos: 1) os girondinos, formados pela alta burguesia que defende as conquistas da revolução, mas não quer mais avanços nas concessões aos trabalhadores e às classes pobres, os chamados sans-culottes; e 2) os jacobinos, pequena e média burguesia que, sob a liderança de Robespierre, quer mais avanços, contando com o apoio das massas populares.” (3)

Assembleia francesa em 1789: os representantes do status quo à direita; os representantes do povo à esquerda.

O rei, mediante a radicalização da revolução, começa a apoiar os Girondinos, que passam para a direita nas assembleias seguintes. É a partir dessas assembleias, com os Girondinos sentados à direita, que “nasce” a concepção histórica de “direita x esquerda” e entendemos esse evento como marco inicial da polarização politica que usamos até hoje. Direita e esquerda, como são entendidas hoje, tem sua origem remetida neste ponto da revolução.

O objetivo aqui não é uma descrição profunda dos eventos que formaram a Revolução Francesa, portanto, para mais detalhes, estão disponíveis links abaixo desse texto.

Após vários eventos, os Girondinos tomam o poder e colocam na liderança da primeira república francesa, por meio  de um golpe de estado, o oficial Napoleão Bonaparte. Inicia-se o período Bonapartista na Europa, Napoleão proclama-se imperador em maio de 1804 e parte para uma série de conquistas territoriais e, inspirado pelo Império Romano, tenta unificar a Europa sob um único líder. Após a queda de Napoleão e da desfragmentação de suas conquistas territoriais, houve o aniquilamento de praticamente todas as monarquias absolutistas na Europa, assim como o fim dos privilégios da antiga ordem feudal e quase todas as colônias europeias na América tornaram-se independentes.(4) A geopolítica ocidental se remodelava em torno de uma “nova” classe dominante, exclusiva e absoluta, a Burguesia.(5) O termo “esquerda x direita” começava a ser usado pelos escritores da época, e sempre respeitando a seguinte premissa :

Direita: conservação do status quo e defesa dos ideais da classe dominante, tendo ela adotado costumes voltado ao mercado, no entanto, vale ressaltar, que não abandonou os antigos costumes estamentais, que valorizavam o prestígio como elemento hierárquico de distinção social.

Esquerda: mudança no status quo e reivindicação da igualdade perante a classe dominante, ou de concessão de maiores direitos sociais e econômicos.

Perceba que a direita, representada pela burguesia, valorizava o prestígio como elemento hierárquico, portanto a igualdade conquistada na Revolução Francesa foi parcial, e não beneficiou totalmente os 98% de franceses.

Em 1848, na Europa, aconteceram as primeiras grandes movimentações populares contra essa nova classe dominante, os trabalhadores se levantaram contra a burguesia, reivindicando igualdade social. Portanto a burguesia, nesse contexto, configurada como classe dominante, com a premissa de conservar a atual ordem social, foi definitivamente empurrada para direita, assim como seus defensores.

Sempre que uma ideologia ou movimento politico surgia pela defesa do capital, pela liberdade parcial conquistada na revolução francesa e pela conservação do status quo, ele era classificado como de direita, e, se um movimento surgisse contra o capital, reivindicando ampla liberdade e contra o status quo (6), era imediatamente classificado como de esquerda. No Manifesto Comunista de 1848, Marx já classifica a burguesia como direita (e ele não foi o primeiro). O surgimento ou o crescimento de um movimento dentro da esquerda proporcionalmente faria surgir ou crescer um movimento oposto na direita, e vice-versa.

Com as movimentações operárias, a Liga dos Comuns e a crescente influência de Marx, a esquerda passa a incorporar a ampla defesa dos direitos trabalhistas (proletários).

O debate acerca da Social-Democracia e a Revolução Russa de 1917, reforçam qualquer defesa pelo Capitalismo para a direita.

A emergência do Keynesianismo pós Crise de 1929 e dos Estados de bem-estar social, com suas politicas intervencionistas, reforçam a oposição entre liberdade de mercado e intervenção do Estado na economia. Logo, esse conceito de liberdade econômica só é reforçado na direita como uma oposição ao estado de bem-social, que automaticamente passa a configurar na esquerda (principalmente defendido pela Social-Democracia).

O objetivo desse breve histórico foi mostrar que o liberalismo é de direita, mas nem toda a direita é liberal, porque existe algumas questões fundamentais: a burguesia, a conservação do status quo e a defesa do capitalismo. Os reacionários monarquistas também estavam na direita, portanto, um Estado ditatorial, com politicas de controle da economia, apoiado e sustentado por uma parte da elite burguesa, com o propósito de realizar intervenções estatais visando a manutenção e/ou a ampliação dos privilégios dessa elite burguesa, não seria Liberal (por motivos óbvios), mas isso não descaracterizaria sua posição no espectro político, que é de direitaassim como seria de direita um partido que defendesse esses pontos em seu plano de governo.

Marx exemplifica bem como a ordem burguesa, mediante a crise do capital, e consequentemente, a perda do controle das massas, desembocaria em um regime capitalista duro, tirano, afim de entregar-se aos seus negócios privados sob a proteção de um governo forte e autoritário. Deste modo, fica claro que a intervenção estatal não pode ser classificada diretamente como uma política de esquerda, porque tudo depende de qual é o objetivo que essa política intervencionista se propõe.

Vale lembrar que neste texto tratamos da origem histórica dos termos “direita e esquerda”, fizemos uma definição básica desses posicionamentos políticos, porém eles possuem uma maior complexidade além de possuírem ramificações, das quais trataremos em futuros artigos.

Referências:

http://www.scielo.br/pdf/rsocp/v21n45/a11v21n45.pdf
• http://www.culturabrasil.org/revolucaofrancesa.htm
• http://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia/revolucao-francesa-2-direita-e-esquerda-contencao-e-radicalizacao.htm

[intense_panel title=”Para saber mais:” title_tag=”h4″ title_color=”#4a4a4a” title_font_color=”#ffffff” color=”#f2f2f2″ margin_right=”200″] • Michel Beud – História do Capitalismo
• Karl Marx – O 18 Brumário de Luís Bonaparte[/intense_panel]

Notas de Rodapé:

(1) Na época da Revolução Francesa, esse domínio estava totalmente desgastado e seriamente ameaçado pela burguesia.
(2) É necessário frisar que foi considerado o contexto social da França na época tratada, pois o poder da burguesia como classe variava muito entre os países europeus, tanto é que considera-se a primeira revolução burguesa da História a Revolução de Avis em Portugal no século XIV.
(3) Parágrafo retirado desse texto http://educacao.uol.com.br/disciplinas/historia/revolucao-francesa-2-direita-e-esquerda-contencao-e-radicalizacao.htm
(4) A independência dos EUA é anterior a Revolução Francesa, e marca o aprofundamento das revoluções burguesas no mundo.
(5) A ascensão burguesa nesse caso não sugere uma ruptura drástica, já que a formação e ascensão da burguesia remontam 500 anos de história até a Revolução Francesa.
(6) Ser um grupo de esquerda contra o status quo não implicava diretamente em querer uma mudança drástica da sociedade, já que dentro desses grupos permeavam os chamados reformistas de esquerda (os utópicos, por exemplo) que propunham mudanças em setores chaves da sociedade, mas sempre com a premissa de que essas reformas gerariam igualdade social.

Direita e Esquerda: o que esses termos significam na política afinal?

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  • Davi Rocha

    ótimo texto mas uma pergunta:o blog pretende falar também sobre economia?

    • Voyager

      Sim. Será uma subcategoria de política.

  • Tarsila S

    Excelente artigo, muitos fatos curiosos…quem diria que a cadeira que tu senta ia ter tanto impacto no mundo?! 😀

  • Gustavo

    Bom artigo. Queria dar uma contribuição:

    […] essas noções [direita e esquerda] não constituem abstrações imutáveis, aplicáveis a qualquer situação histórica e a qualquer país. Mais ainda, pelo menos uma parte de seus conteúdos transita da direita para a esquerda e vice-versa, o que significa a impossibilidade de se estabelecer fronteiras rígidas do espectro político. Tendo em vista essas ressalvas, autores como René Rémond, ao lidar com a questão, preferem falar em “direitas” no plural, distinguindo umas das outras para maior clareza. Rémond introduz pontos de gradação — o centro, o centro-direita, o centro-esquerda —, recusando um esquema binário que lhe parece não dar conta da fisionomia das diversas correntes políticas. Passando ao contexto brasileiro, a partir das primeiras décadas do século XX, para estabelecer uma data, podemos identificar alguns princípios comuns a um leque de correntes que, por suas concepções, formam o espectro político da direita. Os principais deles me parecem ser a defesa de uma ordem autoritária, a repulsa ao individualismo em todos os campos da vida social e política, o apego às tradições, o papel relevante do Estado na organização da sociedade. Esse recorte exemplificativo deixa portanto de incluir a ideologia liberal, mesmo a mais conservadora na “família da direita”, dadas suas concepções sobre a soberania e a representação.”

    O pensamento nacionalista autoritário: (1920-1940) (Descobrindo o Brasil)” de Boris Fausto

  • Eduardo Ferreira

    Bom artigo. Mas só uma dica, talvez um pouco de pedantismo meu: cuidado com espaços antes das virgulas e pontos.

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