59 mísseis Tomahawk como punição ao governo sírio: Por que os EUA se acham a polícia do mundo?

Com o lançamento de 59 mísseis contra a Síria, os EUA voltam a reivindicar seu papel de "polícia do mundo". Mas no que os EUA se baseiam para acreditarem que possuem o direito de exercer esse papel, inclusive passando por cima da ONU? Apenas seu poderio militar não é o suficiente para explicar sua arrogância geopolítica.

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Na noite de 06 de abril de 2017, os EUA lançaram 59 mísseis Tomahawk contra a base militar áerea Al Sahyrat, próximo a cidade de Homs, na Síria. O motivo seria uma retaliação contra um suposto ataque com armas químicas contra civis do governo Bashar Al-Assad.



A ofensiva foi recebida com surpresa, dado que Trump sempre pregou que faria um governo isolacionista, que se concentraria apenas com os assuntos internos dos EUA, além dele ter uma boa relação com o presidente russo Vladmir Putin, o qual também é aliado do governo sírio.

Desta forma, tudo indica que, mais uma vez, os EUA se colocarão como os “pacificadores” e “mantenedores” da ordem mundial, usando o discurso da guerra preventiva, a mesma justificativa da doutrina Bush. Um Afeganistão, Iraque e Líbia arrasados, mas com seus recursos naturais, em especial o petróleo, sob o controle de multinacionais estadunidenses, são as consequências dessa agressiva política externa, o que também deixa claro as suas reais intenções.

Mas o objetivo aqui não é julgar a política externa estadunidense, mas sim tentar compreendê-la. Como ela surgiu? Quais são seus fundamentos? Por que os EUA se acham no direito de se definirem como a “polícia do mundo”? No que os estadunidenses são melhores do que os outros povos para reivindicar esse direito?

As respostas para essas questões exigem uma análise da história, em especial do período colonial, do movimento iluminista e do surgimento dos próprios EUA.


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Os humanos e os sub-humanos

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Medo. Medo seria o sentimento, seria o estado psicológico, que, segundo os iluministas clássicos da Europa, forçaria os homens a entrarem numa relação contratual entre si e entre eles e um soberano. O medo de terem sua integridade física ameaçada faria com que os homens abrissem mão de uma parte de seus direitos naturais – no caso, um tanto de sua liberdade – em nome da segurança que o soberano poderia proporcionar-lhes.

É importante lembrar o que esses iluministas entendiam como homem, o que em nenhum momento significava toda a humanidade. Homem no sentido literal, e apenas os brancos. Mulheres eram excluídas do pacto, assim como os que não eram brancos. E mesmo entre os brancos os germânicos ou anglo-saxões eram considerados os mais civilizados, uma concepção que permanece, basta lembrarmos da forma preconceituosa que os europeus do Norte tratam os do Sul, “esses latinos pouco afeitos ao trabalho”. Latinos e eslavos eram brancos de segunda classe.

Capitalismo sempre foi o sistema para o desfrute dos germânicos e dos anglo-saxões, sendo os representantes dos outros povos aceitos no clubinho restrito dos que têm o direito de aproveitar a vida apenas por questões estratégicas, caso do Japão e da Coréia do Sul, cujo desenvolvimento foi permitido e incentivado para barrar o crescimento do socialismo real na Ásia.

A questão sobre o quanto de liberdade teríamos de abrir mão em nome da segurança ainda é discutida entre os liberais contemporâneos. Evidentemente eles nunca deixam claro que liberdade diz mais respeito à liberdade de desfrutar de sua propriedade privada – inclusive a força de trabalho que contratam – do que qualquer outra coisa.

Contudo, o importante a ser frisado é que o conceito de soberania no mundo moderno nasceu do medo de se ser morto ou agredido por outros. E isso ocorreu por conta da famosa Guerra dos Trinta Anos, na qual muitos, muitos europeus, principalmente germânicos, foram mortos. Na verdade, a soberania se desenvolveu dos conceitos medievais de autorictas e potestas, mas não cabe entrar nessa discussão agora.

Após a Guerra dos Trinta Anos, a nascente burguesia europeia pensou e chegou à conclusão de que guerras no continente poderia atrapalhar os negócios, pois a ordem pública sempre foi essencial ao movimento de capitais e segurança dos contratos. Contudo, armas ainda precisavam ser vendidas, pois, como se sabe, o capitalismo nasceu do militarismo, se desenvolveu no militarismo, atingiu seu ápice no militarismo e, agora, em sua crise mais pesada, investe tudo no militarismo.

Então, além das armas fornecidas aos novos exércitos profissionais da Europa, eles resolveram que seria bom negócio exportá-las. E os melhores lugares para fazer-se isso seriam aqueles onde os próprios europeus se matavam fora da Europa, as colônias.

As linhas da amizade: ordem no mundo dos brancos e barbárie para o resto

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Aqui nasce um conceito muito importante para se entender a América: as Linhas da Amizade. Linhas da Amizade, resumidamente falando, são um conceito que diz o seguinte: daqui para cá reinam a ordem e o respeito mútuo; daqui para lá reina o caos e seja o que Javé quiser.

Isto é, no continente europeu, na terra firma, cada Estado faz sua lei. Cada Estado tem o direito de ser respeitado pelos outros e, caso entre em guerra com algum deles, deve ter sua dignidade reconhecida e a guerra tem de ser travada visando a um fim, não pode durar para sempre. Os civis e a propriedade privada devem ser preservados a todo custo. Já no além-mar, pouco importa. Podem se matar, a guerra pode ser eterna, a integridade física das pessoas do local é irrelevante, podem fazer pirataria, rapinagem, podem estuprar, estropiar, estripar, que não é da nossa conta. Basicamente soberania se relacionava a território físico e território físico europeu.

Qual seria o lugar favorito dos europeus para essas práticas vedadas a eles na Europa? Sim, a maltratada América. Do sul da Argentina ao sul dos EUA, o que valia era a lei do cão: terra de latifundiários, piratas, mercadores de escravos, bandidos, degredados, servos por contrato, indígenas, mercadores de peles, etc. Valia o cada um por si e Deus por todos. O anarcocapitalismo antes de Rothbard. Na América não tinha essa de contrato social. Era literalmente o prostíbulo da Europa. Era onde seus habitantes descarregavam toda a sua violência acumulada.

Eis que nessa história surgem uns colonos mais ao norte da Virgínia com um pensamento: europeus são uns degenerados, decadentes, adoradores de papas e reis, principalmente aqueles católicos latinos. Aqui na nossa terra também tem contrato social, um pacto feito dentro do Mayflower. Basta de caos por aqui.

Mas claro, se eles fizeram o seu contrato assim que chegaram ao Novo Mundo, também precisavam de sua Linha da Amizade. Só que, diferentemente dos europeus “decadentes”, sua linha da amizade não teria nada a ver com a oposição mar x terra. Ela seria, na verdade, feita na própria terra. E liquidando um monte de índios no caminho para levar essa Linha da Amizade cada vez mais para o Oeste. E assim nasceu a ideia de fronteira, que tanto povoa a mente dos estadunidenses: a divisão entre o mundo da ordem e o mundo do caos.

Mas os Yankees não estavam satisfeitos e, depois de derrotarem os latifundiários sulistas na Guerra de Secessão, que ainda viviam de acordo com o velho pensamento, e seguirem para o Oeste, resolveram que era hora de botar ordem no restante do mundo, afinal, a desordem é sempre ruim para os negócios. Com seus canhões, exércitos e doutrina de os escolhidos por Deus, levaram a Fronteira da Amizade para todos os cantos do mundo. Pacificaram a Europa com a UE, botaram a América Latina de joelhos e a impuseram um papel periférico dentro da ordem capitalista, abriram os portos da Ásia etc.

Porém faltava mais uma coisa: derrubar o urso branco do Norte. A Fronteira da Amizade mundial deveria ser levada para a Rússia e, então, finalmente o trabalho dos pais peregrinos teria chegado a seu fim. Isso ocorreu, finalmente, no começo da década de 90. Finalmente a história, que começou com a fuga da degenerada Europa tinha chegado ao seu final.

Teve até um tal de Francis Fukuyama, o qual escreveu um livro sobre isso, sobre o “fim da história”. A maioria acredita que quando ele afirmava que a história havia chegado ao fim, seria pela vitória e consolidação do capitalismo liberal, não sendo, dessa forma, possível haver um mundo melhor do que esse que se apresenta a nós.

Ledo engano. Não é esse o fim da história para os descendentes dos peregrinos. O fim de sua história é que eles conseguiram levar suas fronteiras para o mundo todo, a ponto de algo surpreendente acontecer: o mundo em si virou uma grande fronteira, uma grande Linha da Amizade.

Conclusão

Hoje ordem e desordem se misturam. Ordem jurídica e estado de exceção não conseguem mais encontrar limites entre si. O limbo jurídico e político agora é a ordem, e a ordem é o caos. Estado de exceção permanente. Policiais viraram forças de ocupação em cidades onde ainda há um Estado funcionando, enquanto o próprio exército – muitas vezes privado – se encarrega dos locais onde o Estado já faliu. A integridade física, o direito de ir e vir e os direitos políticos podem ser revogados a qualquer momento. E podem ser revogados obedecendo-se a dispositivos constitucionais. O direito é o não direito e a ordem é o caos.

Evidentemente, o papel de civilizado e civilizador dos descendentes dos peregrinos se mantêm. Quanto mais caos sua ordem cria, mais eles reivindicarão esse papel, afinal, bárbaros são sempre os outros. Como agora as fronteiras da amizade se estenderam por todo o mundo, cabe aos seus principais e mais bem sucedidos idealizadores impor as regras e aplicar as punições aos sub-humanos. A política externa dos EUA é a herdeira da “missão civilizatória” dos colonizadores de ontem. Logo, nada mais natural que Trump se sinta no dever de lançar 59 mísseis contra uma base militar síria como uma forma de educar o seu governo.

Como dizia Locke, no começo do caos havia a América. Mas, no final, é o estado de natureza a nível mundial.


Texto atualizado (09/04/2017) e revisado por Jorge Charon.
Bibliografia estendida por Eduardo Migowski.

Para saber mais

• SCHMIDT, Carl – Terra e Mar – Breve reflexão sobre a história universal
• ARANTES, Paulo – O Novo Tempo do Mundo
• MATTINGLY, Garrett – No Peace beyond What Line?
• SANTOS, Boaventura Souza – Para Além do Pensamento Abissal (Epistemologias do Sul)
• HOBBES, Thomas  – Leviatã
• LOCKE, John – Segundo Tratado de Sobre o Governo
• ROUSSEAU, Jean Jaques – Do Contrato Social
• ANDERSON, Perry – Linhagens do Estado Absolutista
• DEYON, Pierre – O Mercantilismo
• FALCON, Francisco – O Iluminismo
• MONTAIGNE, Michel de – Dos Canibais
• MARX, Karl – Manifesto Comunista
• BEUD, Michel – História do Capitalismo: de 1500 até nossos dias
• TODOROV, Tzvetan – A Conquista da América
• MARY-GRANT, Susan – História Concisa dos Estados Unidos da América
• DAVIDSON, James West – Uma Breve História dos Estados Unidos
• TOCQUEVILLE, Alexis de – Democracia na América
• FUKUYAMA, Francis – O Fim da História e o Último Homem
• AGAMBEN, Giorgio –  Estado de Exceção, O Que Resta de Auschwitz e Homo Sacer: O Poder Soberano

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