Sabe aquele papo de que a ditadura só matou “vagabundo”? Então, é mentira.

No Dia da Mentira e aniversário do golpe, desmistificamos mais uma falácia muito disseminada pelos saudosistas da ditadura militar. A história de algumas das vítimas da ditadura militar covardemente assassinadas, nos mostra que também o foram gratuitamente, já que elas não representavam uma ameaça ao regime.

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Se você já conversou com algum saudosista ou entusiasta da ditadura militar, certamente escutou aquela velha história de que naquela época todas as pessoas torturadas e mortas pelo tal regime eram terroristas, bandidos, vagabundos, comunistas, enfim, todos aqueles que, na cabeça do conservador, mereciam ser exterminados. Contudo, isso não passa de proselitismo ideológico – e dos mais frágeis -, pois não resiste a uma simples consulta no Google.

Qualquer um, em uma rápida pesquisa, poderá descobrir que foram assassinadas pessoas de todas as idades, classes e etnias na ditadura empresarial-militar. Até mesmo aquelas que não representavam ameaça alguma ou que não faziam uma oposição ideológica contra o regime não foram poupadas. Mas, como a informação encontrada é quase sempre dispersa e visando ter mais um registro dessa realidade na internet de fácil consulta, disponibilizamos, a seguir, uma lista com algumas das inocentes vítimas desse sombrio período da nossa história, que vai desde jornalistas a até mesmo índios e crianças.


1. Vladimir Herzog

Jornalista, professor da USP (Universidade de São Paulo) e teatrólogo, Vlado Herzog nasceu em 1937 na cidade de Osijsk, da então Iugoslávia. Fugido do Nazismo, imigrou com os pais para o Brasil em 1942. Vlado foi criado em São Paulo e se naturalizou brasileiro. Fez Filosofia na USP e tornou-se jornalista do jornal O Estado de São Paulo em 1959.

Nesta época, Vlado achava que o nome soava exótico nos trópicos e resolveu passar a assinar como Vladimir. No início da década de 60, casou-se com Clarice. Com o golpe militar de 1964, o casal resolveu passar uma temporada na Inglaterra e Vladimir conseguiu um trabalho na BBC de Londres. Em 1968, a família voltou ao Brasil e, sete anos depois, em 1975, foi escolhido pelo Secretário de Cultura de SP, José Mindlin, para dirigir o jornalismo da TV Cultura. Neste mesmo ano, na noite do dia 24 de outubro, o jornalista apresentou-se na sede do Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo, para prestar esclarecimentos sobre suas ligações com o PCB (Partido Comunista Brasileiro). No dia seguinte, foi morto aos 38 anos.

Segundo a versão oficial da época, ele teria se enforcado com o cinto do macacão de presidiário. Porém, de acordo com os testemunhos de Jorge Benigno Jathay Duque Estrada e Rodolfo Konder, jornalistas presos na mesma época no DOI-Codi, Vladimir foi assassinado sob torturas. Como Herzog era judeu, o Shevra Kadish (comitê funerário judaico) recebeu o corpo e, ao prepará-lo para o funeral, o rabino percebeu que havia marcas de tortura no corpo do jornalista, uma evidência de que o suicídio havia sido forjado.

Em 1978, o legista Harry Shibata confirmou ter assinado o laudo necroscópico da vítima – na qualidade de segundo perito – sem examinar ou sequer ver o corpo. Além disso, naquele ano a Justiça responsabilizou a União por prisão ilegal, tortura e morte do jornalista. Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos reconheceu que Vladimir foi assassinado e decidiu conceder uma indenização para sua família.

A morte de Herzog foi um marco na ditadura militar (1964 – 1985). O triste episódio paralisou as redações de todos os jornais, rádios, televisões e revistas de São Paulo.


2. Manoel Fiel Filho

Residindo na capital paulista desde os anos 1950, o operário metalúrgico foi morto pela ditadura militar em 1976. Em janeiro desse ano, ele foi preso por dois agentes do DOI-Codi na fábrica onde trabalhava, sob a acusação de pertencer ao Partido Comunista Brasileiro (PCB).

Era uma sexta-feira, e, por volta do meio-dia, dois homens, sem qualquer ordem judicial, o retiram do trabalho, vão com ele até a sua residência, na Vila Guarani, revistam a casa em busca de exemplares do jornal Voz Operária, do PCB, nada encontram e, sob os olhares apreensivos da mulher, Thereza Fiel, levam o metalúrgico para o DOI-Codi. No dia seguinte à sua prisão, os órgãos de segurança emitiram nota oficial afirmando que Manuel havia se enforcado em sua cela com as próprias meias. Porém, de acordo com colegas, quando preso, usava chinelos sem meias.
Quando os parentes conseguiram a liberação do corpo para ser enterrado, verificou-se que apresentava claros sinais de torturas, principalmente na região da testa, nos pulsos e no pescoço. As evidentes torturas provocaram o afastamento do general Ednardo D’Ávila Melo, ocorrido três dias após a divulgação de sua morte.

A morte de Manoel Fiel Filho, junto à de Vladimir Herzog, acabou precipitando o processo de redemocratização do país, pois a decisão de Geisel de exonerar o general D’Ávila mostrava que ele não admitiria retrocessos políticos.


3. Zuzu Angel

Zuleika Angel Jones, ou apenas Zuzu Angel, além de incansável oponente da violência do governo militar, foi uma das mais importantes estilistas da história da moda no país. Sua maior luta pessoal, porém, começou somente após o sequestro político de seu filho Stuart Angel Jones, estudante de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

Ativista do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), Stuart desapareceu depois de ter sido preso em 14 de junho de 1971 por agentes do CISA (Centro de Informações e Segurança da Aeronáutica). Após o desaparecimento, Zuzu Angel saiu em busca do filho nas prisões e nos quartéis.

Zuzu também passou a usar sua moda como forma de protesto e desta maneira denunciou, incansavelmente, as torturas, a morte e a ocultação do cadáver de Stuart, tanto no Brasil como no exterior.

Em 14 de abril de 1976, às 3 da manhã, na Estrada da Gávea, logo na saída do Túnel Dois Irmãos (RJ), Zuzu sofreu um acidente automobilístico que lhe custou a vida. Na época, o governo divulgou que a estilista teria dormido ao volante, fato contestado anos depois. Posteriormente, reconheceu-se que a estilista foi vítima de um atentado, mas até hoje as circunstâncias não foram totalmente esclarecidas.


4. Honestino Guimarães

Mosaico em homenagem a Honestino Guimarães na Universidade de Brasília.

Desaparecido em 10 de outubro de 1973 – após ser preso pela sexta vez, no Rio de Janeiro -, Honestino Guimarães foi um importante líder estudantil no período da ditadura.

No livro “Paixão de Honestino”, a escritora e amiga do estudante, Betty Almeida, reúne elementos de suas próprias vivências, experiências e lembranças para relatar a trajetória de um dos mais importantes líderes estudantis da história do país. Tal obra revela que “Embora ele fosse socialista e acreditasse que uma revolução nunca seria possível por vias pacíficas, ele nunca atuou pela luta armada”. O ativista nunca pegou em armas durante sua militância.

Em 2015, uma ponte, em Brasília, que levava o nome do ex-ditador militar Costa e Silva passou a se chamar Honestino Guimarães.


5. Edson Luís

Corpo de Edson Luís é velado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Foto: Ronald Theobald/CPDoc JB

Em 1968, o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto foi morto, aos 17 anos, pela Polícia Militar do Rio de Janeiro. Edson era um dos 300 estudantes que jantavam no restaurante estudantil do Calabouço no final da tarde de 28 de março daquele ano, quando o local foi invadido por policiais, em meio à tensão do quarto ano da Ditadura Militar no Brasil.

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A mobilização em torno da morte do estudante foi o estopim para a primeira grande manifestação pública do referido ano, que três meses depois culminaria em um dos principais protestos contra a Ditadura Militar: a Marcha dos 100 mil. O aumento das manifestações públicas levaram a um endurecimento por parte do governo Costa e Silva naquele ano, o que resultou na edição do Ato Institucional 5 (AI-5).


6. Luiz Paulo da Cruz Nunes

O estudante Luiz Paulo da Cruz Nunes era estudante de medicina da Faculdade de Medicina da UERJUniversidade do Estado da Guanabara na época), sendo também estagiário em patologia. Foi morto aos 21 anos, no Rio de Janeiro, depois de ter sido atingido na cabeça por um tiro durante uma manifestação estudantil em frente à sua faculdade, no dia 22 de outubro de 1968. Internado, com ferimento no crânio, foi operado no próprio Hospital Pedro Ernesto, local da manifestação, mas faleceu na mesma data.

De acordo com o médico Lafayette Pereira, colega de turma de Luiz Paulo, os dois estiveram com cerca de outros 600 alunos protestando contra o regime militar na tarde daquele 22 de outubro, em frente ao hospital, quando um camburão da polícia estacionou em frente aos manifestantes e cinco pessoas armadas com pistolas calibre 45 saltaram e descarregaram suas armas contra eles. Cerca de 10 colegas foram baleados, mas o único atingido mortalmente foi Luiz Paulo. “Faleceu na mesa de cirurgia do hospital que ele, ainda jovem, já gostava de frequentar como estudante brilhante que foi”, lembrou Pereira.



7. Rubens Paiva

O retrato de Rubens Paiva e sua esposa, Eunice Paiva (1986).

Rubens Beyrodt Paiva foi um engenheiro civil e deputado federal dado como desaparecido durante a ditadura militar no país. Sua morte só foi confirmada depois de mais de 40 anos, por meio de depoimentos de ex-militares, envolvidos no caso, concedidos à Comissão Nacional da Verdade. Torturado e assassinado nas dependências de um quartel militar entre 20 e 22 de janeiro de 1971, seu corpo foi enterrado e desenterrado várias vezes por agentes da repressão, até ter seus restos jogados ao mar, na costa da cidade do Rio de Janeiro, em 1973, dois anos após sua morte.

Hoje, uma estação da linha 2 do metrô do Rio de Janeiro leva seu nome. Ela é localizada próximo a um conjunto habitacional construído por Rubens Paiva.


8. Lyda Monteiro da Silva

O estado do escritório onde Lyda trabalhava após a explosão da carta-bomba.

Lyda Monteiro, secretária da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), foi assassinada em 27 de agosto de 1980 por agentes do Centro de Informação do Exército (CIE), ao abrir uma carta-bomba.

A correspondência era endereçada ao então presidente da entidade, Eduardo Seabra Fagundes, mas foi aberta por Lyda, secretária dele. Na época, a OAB denunciava desaparecimentos e torturas de perseguidos e presos políticos.

Como Zuzu, mais uma vítima da Ditadura Empresarial-Militar que nada tinha a ver com movimentos políticos de esquerda, o que invalida o pretexto utilizado pelos defensores do regime de que apenas “subversivos” eram mortos.


9. Assassinados na Chacina da Lapa

A chacina da Lapa ou massacre da Lapa (16 de dezembro de 1976) foi uma operação do exército brasileiro no Comitê Central do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) – localizado na Rua Pio XI, nº 767, no bairro da Lapa em São Paulo – que culminou com a morte de três dos dirigentes do partido. Na ocasião, o PCdoB atuava clandestinamente em função da proibição imposta pelo regime militar. Segundo inquérito interno do partido, a operação foi possível porque Manoel Jover Telles havia traído os companheiros, informando o dia e o local da reunião do Comitê Central ao Exército. Telles, que havia sido preso em meados de 1976, aparentemente negociara com os órgãos da repressão política e fornecera informações sobre a próxima reunião do Comitê Central (CC) do PCdoB. ” [Telles] Deu o dia e a hora por 150 mil, entregues à filha dele, em Porto Alegre”, confirmou o general Leônidas Pires Gonçalves, durante entrevista.

João Batista Franco Drummond, preso à tarde do dia anterior, após sair da casa, fora levado ao DOI-Codi, onde morreu sob tortura durante a madrugada. Ângelo Arroyo e Pedro Pomar, sem esboçar qualquer reação, foram mortos na incursão. Outros cinco integrantes: Elza Monnerat, Haroldo Lima, Aldo Arantes, Joaquim Celso de Lima e Maria Trindade foram presos e torturados. Conseguiram escapar da prisão José Novaes e Manoel Jover Telles.


10. Índios

As investigações da Comissão Nacional da Verdade (CNV) pela região Amazônica indicam um verdadeiro massacre de índios durante o período da ditadura militar. Não há como falar em um número exato de mortos devido à falta de registros. Os relatos colhidos, no entanto, apontam que cerca de oito mil índios foram exterminados em pelo menos quatro frentes de construção de estradas no meio da mata; projetos tocados com prioridade pelos governos militares na década de 1970.


11. Crianças

Na fase mais violenta da ditadura militar brasileira, quando não mais restavam técnicas de tortura para arrancar delações de suas vítimas, os torturadores recorriam a um último expediente: usar os filhos dos presos políticos, fossem eles crianças ou mesmo bebês, na última tentativa para obter informações.

Ou então, torturava-se em família: pais, mães, filhos, irmãos, todos sofrendo juntos os horrores do cárcere, como no caso de Maria Amélia Teles, no dia em que o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (homenageado por Jair Bolsonaro na votação do impeachment de Dilma Rousseff) pegou nas mãos de seus dois filhos – Edson Teles, à época com 5 anos, e Janaina, com 4 – e os levou até a sala onde ela estava sendo torturada, nua suja de sangue, vômito e urina, na cadeira do dragão. Na mesma sala estava o marido e pai das crianças, César Teles, recém-saído do estado de coma decorrente de torturas no pau-de-arara.


Conclusão

Diante de todos esses casos, fica evidente a forma inescrupulosa com a qual a ditadura empresarial-militar covardemente agia. Também vimos que, bem diferente do que os defensores da ditadura alegam, suas vítimas também eram pessoas que nada tinham a ver com o perfil político considerado uma ameaça pelo regime.

Quando alguém vir até você para defender aquele deputado “viúva da ditadura” ou até mesmo exaltar torturadores, você já sabe o porquê isso causa tanta indignação e revolta nas vítimas da ditadura e naqueles que se solidarizam com sua dor. Talvez este texto também lhe seja útil para ser apresentado como sugestão de leitura a essa pessoa equivocada. Quem sabe seja por falta de informação que existam pessoas assim, bastando o relato dos fatos para que elas despertem sua consciência e se tornem pessoas melhores.

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Sabe aquele papo de que a ditadura só matou “vagabundo”? Então, é mentira.

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