sábado, 21 de janeiro de 2017

Zygmunt Bauman: diagnósticos sólidos sobre um mundo líquido

[intense_heading font_color=”#000000″ font_family=”google|PT Serif” align=”center”] Perdemos um grande
intelectual cuja trajetória de vida
confunde-se com o século XX. [/intense_heading]

No dia de ontem, o mundo perdeu o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman, aos 91 anos de idade. Foi, seguramente, um dos maiores intelectuais do século XX, e a cada ano que passa, a despeito das discordâncias de muitos teóricos, seus escritos sobre a liquidez moderna parecem fazer mais sentido.

Bauman nasceu em Poznan, em 19 de novembro de 1925. Oriundo de família judia, Bauman fugiu da Polônia com seus familiares para a União Soviética, com medo do avanço nazista sobre seu país. Ele se alistou no 1° Exército Polonês, comandado então pela União Soviética, e lutou nas batalhas de Kolberg e Berlim, esta última rendendo-lhe uma condecoração.

Entre 1945 e 1953, foi oficial em escritório do Corpo de Segurança Interna, uma unidade militar formada para combater nacionalistas ucranianos e o restante dos soldados do Exército da Pátria polonês. Pouco se sabe sobre seu tempo nesta função, bem como os motivos de sua saída.

Retornou à Polônia anos depois, onde foi professor da universidade de Varsóvia, mas foi destituído do posto e expulso do Partido Comunista após ter suas obras censuradas, abdicando aos poucos da influência da ortodoxia marxista soviética. Em 1968, finalmente deixou o país, motivado pelas perseguições antissemitas que sofrera em decorrência da guerra árabe-israelense e por conta dos “Eventos de Março”, ou “Março de 68”, uma série de manifestações estudantis e intelectuais contra o autoritarismo do governo polonês, e para sair da Polônia, precisou renunciar à sua nacionalidade.

Manifestação na universidade de Varsóvia, em 1968.

Emigrou para Israel para lecionar na Universidade de Tel Aviv e se instalou depois na Universidade de Leeds, na Inglaterra, onde desenvolveu a maior parte de sua carreira. Apesar de sua descendência judaica e de seu tempo em Israel, era um ferrenho antissionista, e acusava os sionistas israelenses de usar o martírio do Holocausto como legitimação para cometer seus próprios crimes.

Bauman era criador do conceito de “modernidade líquida”, uma etapa da modernidade onde o conjunto de relações e instituições perdem sua solidez de todos os referenciais morais e mentais; uma época de liquidez, de volatilidade, de incerteza e insegurança, que dá espaço à lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade, processo esse ampliado pela globalização.

As teorias de Bauman exerceram grande influência nos movimentos antiglobalização. Seus ensaios alcançaram fama internacional nos anos oitenta, com títulos como Modernidade e Holocausto, um de seus livros mais famosos, no qual define o extermínio dos judeus pelos nazistas como um fenômeno dependente do grau de desenvolvimento da modernidade no momento de seu empreendimento.

Para Bauman, o Holocausto estaria intensamente conectado à modernidade e seus esforços de organização. Racionalismo procedural, divisão do trabalho em tarefas fragmentadas, categorização taxonômica de diferentes espécies e a tendência de ver o seguimento de regras como algo moralmente positivo foram parte do que fizeram com o que o Holocausto se tornasse uma realidade.

Recentemente, Bauman havia feito uma dura crítica às redes sociais. Em entrevista ao jornal El Pais, o sociólogo afirmou:

As redes sociais não ensinam a dialogar porque é muito fácil evitar a controvérsia… Muita gente as usa não para unir, não para ampliar seus horizontes, mas ao contrário, para se fechar no que eu chamo de zonas de conforto, onde o único som que escutam é o eco de suas próprias vozes, onde o único que veem são os reflexos de suas próprias caras. As redes são muito úteis, oferecem serviços muito prazerosos, mas são uma armadilha.

Bom senso aliado a algum tempo de uso de redes sociais são o suficiente para perceber que esta frase faz todo sentido.

Bauman lecionou em universidades dos Estados Unidos, Austrália e Canadá, sendo professor emérito de sociologia da Universidade de Leeds, onde trabalhou durante a maior parte de sua carreira. Sua obra foi reconhecida com prêmios como o Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades em 2010.

A perda de Bauman é mais uma daquelas lacunas cujas mortes de pessoas de grande importância para a construção do conhecimento no mundo causam, e que dificilmente serão preenchidas. Resta-nos aprender com sua obra, mantendo o senso crítico, mas compreendendo sua relevância.

Zygmunt Bauman: diagnósticos sólidos sobre um mundo líquido

Avalie esta publicação

Digite sua avaliação de 0 a 100 ou clique/toque no círculo mantendo pressionado e solte na pontuação desejada.
Você poderá avaliar apenas uma vez.

User Rating 100 (5 votes)

Sobre Icles Rodrigues

Icles Rodrigues é historiador e doutorando em História, além de tocar o canal Leitura ObrigaHISTÓRIA no YouTube. Nas horas vagas é fotógrafo amador, baterista amador, cozinheiro amador... E tem poucas horas vagas pra isso tudo.

Confira Também

12 fatos sobre Fidel que mudarão a impressão que você tem dele

Um herói, um demônio ou simplesmente alguém que viveu o conturbado século XX até as últimas consequências? Conheça 12 fatos sobre essa figura histórica e tire suas próprias conclusões.

Send this to friend