10 coisas que os conservadores radicais acham que estão protegendo, mas na verdade estão demolindo

Saiba como a direita conservadora ao redor do mundo está causando ou fomentando, e não combatendo, males como o terrorismo, o desemprego e a supressão de liberdades.

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Podemos perceber que uma das coisas que mais têm marcado o comportamento dos conservadores nos últimos anos é a intolerância a quem é diferente.

Seu ódio, dedicado desde às minorias políticas até às pessoas de posições ideológicas progressistas, parece tentar “proteger” coisas que eles temem muito perder, ou “resgatar” aquilo que creem já ter perdido.



Mas será que a atitude violenta dos conservadores tem realmente esse poder que eles creem ser positivo? Eles estão mesmo impedindo que algo ruim aconteça com eles enquanto indivíduos e com a sociedade em que vivem?

Ou será que os efeitos dessa intolerância assumida são bem diferentes do que eles gostariam?


O feitiço que volta contra o feiticeiro

Em histórias como a corrupção de Anakin Skywalker para o Lado Sombrio da Força em Star Wars [1], costuma-se dar a lição de como a atitude de recorrer a uma posição moral e ideológica de ódio e violência, para tentar proteger alguém ou algo de uma futura desgraça, pode ser ou causar ela mesma a própria desgraça que se queria evitar.

Nesse contexto, a vida tem imitado a arte e tem ficado bastante evidente para nós, diante de nossos olhos e mentes, o quanto o conservadorismo radical, seguido por milhões de pessoas em todo o mundo e encabeçado por líderes como Donald Trump, Jair Bolsonaro e Marine Le Pen, diz defender determinados valores mas, na prática, atenta frontalmente, de maneira altamente destrutiva, contra eles.

Conservadores radicalizados adoram dizer que estão em defesa da segurança, da liberdade, da ordem, dos costumes bons e morais, e que por isso pregam o que pregam e fazem o que fazem. Mas são eles mesmos que estão fazendo, ou contribuindo decisivamente a fazer deste mundo um lugar mais perigoso, acabando com a liberdade das pessoas - e deles próprios -, disseminando a mais caótica desordem social e popularizando os mais antiéticos, imorais e criminosos comportamentos.

Isso, cedo ou tarde, será catastrófico para eles próprios. Não tanto por causa de uma futura reação em massa da esquerda antifascista e das minorias políticas - as quais, numericamente somadas e combinadas, são a grande maioria da população -, mas sim pelos efeitos das próprias posturas morais e políticas deles.

Este artigo mostra como acontecerá com eles o que aconteceu com Anakin: eles mesmos serem os responsáveis por aquilo que estão tentando evitar a literalmente qualquer custo.

Lista dez abstrações que eles têm tentado proteger em seus discursos e ações práticas de ódio, intolerância e supressão de direitos, e mostra como estes serão os motivos principais para que essa proteção fracasse e a “catástrofe” que tentam evitar vá realmente acontecer, caso não acordem de seu corrosivo radicalismo a tempo.


1. A ordem pública

Fala-se muito que a ação dos movimentos sociais e partidos progressistas, no combate ao racismo, ao machismo e a outros preconceitos, às desigualdades sociais, ao capitalismo e suas injustiças, à destruição ambiental, à exploração animal etc., está causando “baderna” e “desordem” e ameaça “lançar a sociedade ao caos”.

Essa mesma suposta má consequência também tem sido atribuída à conquista de direitos civis pelas minorias políticas, à regulação estatal do mercado e à vinda de refugiados e imigrantes em massa dos países “em desenvolvimento” para os “desenvolvidos” e os “emergentes”.

Como reação conservadora, na intenção de evitar esse imaginado caos futuro, tem havido uma crescente onda de violência contra mulheres, negros, LGBTs, pessoas e partidos de esquerda, refugiados e imigrantes pobres, muçulmanos que vivem na Europa e nas Américas etc.

Paralelamente, tem-se defendido a revogação legal dessas conquistas sociais e o retorno, por meio da força, à antiga ordem social em que apenas os homens brancos cisgêneros heterossexuais cristãos de classe média e ricos tinham vez na sociedade, e às minorias políticas era exigida submissão e aceitação da ordem vigente sob cruéis penalidades.

Só que tem sido justamente esse rompante de ódio vindo da direita, globalmente falando, que tem causado convulsões sociais [2], a agitação de grupos extremistas islâmicos e islamofóbicos de ultradireita [3], o cometimento de atentados terroristas [4] e outros acontecimentos que têm definitivamente tornado as sociedades modernas mais caóticas e privado-as de qualquer harmonia social que se poderia ter.


2. A sacralidade religiosa daquilo que sempre foi considerado sagrado

Conservadores radicais também têm reagido com ódio ao crescimento da consciência da diversidade religiosa, à autoafirmação dos ateus e neopagãos contra o preconceito, à popularização de correntes esotéricas new-age e orientais, à multiculturalidade e às demandas pela laicidade do Estado.

Para eles, os “valores cristãos” estão sendo “esquecidos” e “vilipendiados”, e a “imoralidade” e a “cristofobia” têm ameaçado colapsar a ordem social do ocidente, que “sempre foi cristão”.

Só que, se observarmos bem, notaremos que o pior opositor das virtudes e princípios morais defendidos por Jesus Cristo no Novo Testamento nem de longe são os não cristãos, mas sim a própria “direita cristã”. Afinal:

  • Enquanto Jesus defendia os mansos, os misericordiosos e os sedentos de justiça, a “direita cristã” tem sido inaceitavelmente raivosa, desprovida de misericórdia e injusta ao declarar ódio às minorias políticas; defender linchamento, pena de morte e violência policial abusiva e aceitar a criminalização de inocentes;
  • Enquanto Jesus afirmava que seria mais fácil um camelo passar por dentro do buraco da agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus e aconselhava seus seguidores a darem tudo o que tinham de posses aos pobres, as grandes igrejas pentecostais exaltam a opulência de seus administradores e “ensinam” seus fiéis a ansiarem por dinheiro e riqueza material e desprezarem a dignidade humana;
  • Enquanto Jesus orienta os cristãos a não julgarem para não serem julgados, os conservadores assumidos são os primeiros a apontarem dedos venenosos, muitas vezes de maneira criminosa, contra quem é e pensa diferente deles, com racismo, machismo, homofobia, transfobia, ódio social, intolerância política etc.;
  • Enquanto Jesus abençoava os que sofriam perseguição por causa da justiça, os conservadores têm aplaudido cada ação de repressão e injustiça estatal contra minorias como jovens negros pobres e militantes de esquerda;
  • Enquanto Jesus defendia que se dê “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, a bancada teocrática, especialista em misturar religião (corrompida) com política, tem pavimentado o caminho de impor ao Brasil uma espécie de clerofascismo pentecostal;
  • Enquanto Jesus expulsava vendilhões do templo, a direita “evangélica” tem faturado milhões no seu trabalho de converter a fé cristã em oportunidade de negócio e merchandising;
  • Enquanto Jesus era injustiçado num julgamento no qual a população optou por soltar Barrabás, os “cristãos” adeptos do ódio social louvam os Barrabases do século 21 e vociferam insultos contra quem defende compaixão, justiça social, misericórdia, coerência moral e outros valores que, de acordo com a Bíblia, saíram da boca do próprio Cristo;
  • Entre muitos outros exemplos de hipocrisia moral que tornam a religiosidade dessas pessoas uma mera concha vazia. [5]

Se a moralidade cristã está em decadência hoje em dia [6], a responsabilidades disso é dos próprios que enchem a boca para se dizerem “cristãos” mas tratam como lixo os valores ético-morais do cristianismo.


3. A cultura vigente e todos os seus valores e significados

No contexto brasileiro, é muito comum associar nossa cultura a virtudes ou características [7] como:

  • Malandragem;
  • Alegria e senso de humor;
  • Valorização da família;
  • Honestidade;
  • Humildade;
  • Respeito ao próximo e cordialidade;
  • Amizade.

Pressupõe-se que esses são alguns dos valores que estariam sob ameaça diante das mudanças sociais no país e no âmbito global. Afinal, por exemplo, a família estaria “sob risco” por causa das lutas das mulheres e da população LGBT, o PT estaria difundindo a corrupção como costume no país, e o “politicamente correto” estaria ameaçando o humor e a alegria.

Só que, se repararmos bem, nos grupos de WhatsApp das nossas famílias, no Facebook e em outros locais dentro e fora da internet, o que mais temos visto, por meio de memes que pedem “intervenção militar”, discursos saudosos da ditadura civil-militar de 1964-85, piadas preconceituosas, declarações de ódio a minorias políticas etc., é o exato contrário dos valores moral-culturais supracitados.

Trata-se de conteúdo assumidamente conservador que preza respectivamente por:

  • Rigidez moralista, o total oposto da tradicional malandragem;
  • Mau humor e tentativas de fazer graça que causam sofrimento ao invés de risadas para os outros;
  • Intolerância contra famílias que destoam do padrão heterossexual nuclear (pai, mãe e filhos) e apologia à desagregação de famílias em que haja um ou mais filhos homossexuais, de esquerda, não cristãos etc.;
  • Desonestidade (vide boatos e calúnias contra políticos progressistas e confissão de cometimento de fraudes);
  • Arrogância e sensação de superioridade em relação às minorias políticas e a quem tem posições políticas diferentes;
  • Completo desrespeito e grosseria contra ambos os tipos comumente odiados no meio conservador;
  • Inimizade e intolerância contra os mesmos.

Ou seja, se há alguma ameaça aos valores e significados culturais no Brasil, está vindo, em grande parte, dos próprios que se assumem conservadores e eleitores dos “mitos” intolerantes da vida.

E no caso dos Estados Unidos, é notável perceber o quanto Donald Trump e outros ultraconservadores estão vilipendiando valores tão alegadamente caros à cultura estadunidense, como a liberdade, a democracia e o orgulho nacional. Afinal, com as peripécias da direita de lá, os estadunidenses estão perdendo suas liberdades civis e direitos políticos e adquirindo cada vez mais razões de se envergonharem de seu país.


4. A possibilidade de conquistar ascensão social e bens materiais pelo mérito individual

O conservadorismo do século 21 tem andado de mãos dadas com o neoliberalismo, em defesas como Estado mínimo (mas máximo em forças militares e repressivas), a privatização de tudo que ainda esteja sob propriedade do Estado, a eliminação dos impostos para os mais ricos e liberdade econômica máxima para os mesmos.

Muitos da classe média e mesmo entre os trabalhadores e jovens pobres aderem a esse discurso acreditando piamente que tais reivindicações lhes permitirão ascender socialmente por mérito individual mais facilmente do que sob um Estado que intervém na economia, mantém serviços públicos, provê benefícios e direitos para os pobres e cobra impostos significativos.

Só que esse conjunto tem semelhanças muito grandes com aquelas pirâmides financeiras que fizeram sucesso no Brasil em 2013, até a Justiça acabar com a farra e desmontá-las. Em resumo, é um gigantesco esquema econômico no qual os mais ricos lucram cada vez mais às custas de superexploração, sacrifícios e privações dos mais pobres, e estes tendem a acumular mais prejuízos e empobrecimento ao longo do tempo.

Uma ordem fadada a ruir na primeira grande crise econômica que aparecer, tal como só não aconteceu em 2008-2009 porque os Estados nacionais, destinando trilhões de dólares para bancos e outras corporações em dificuldades, não deixaram. [8]

Mesmo em períodos de relativa estabilidade, as duras condições de vida impostas pela doutrina neoliberal dificultam imensamente a vida dos cidadãos da classe média para baixo. Não contando mais com serviços públicos de saúde, educação, habitação e previdência social, precisando pagar caro para as empresas privadas que as proveem - muitas vezes de maneira arbitrariamente limitada -, mal tendo dinheiro para manter sua atual condição de vida e adoecendo física e mentalmente por causa do trabalho absurdamente duro e sem direitos imposto pelas empresas, suas condições de ascender socialmente e ter uma vida digna são praticamente nulas.

Apenas quem tem alguns privilégios bem específicos pode abandonar seu trabalho subordinado e se dedicar ao empreendedorismo, como foi deixado claro no artigo sobre como o capitalismo impede ou limita as pessoas de serem felizes.

Em outras palavras, os conservadores que reivindicam a supressão dos próprios direitos e o enriquecimento dos já ricos pela política de Estado mínimo estão nada mais do que cavando o buraco da sua pobreza absoluta.


5. A valorização da moral e dos bons costumes

O discurso de “moral e bons costumes” vara as décadas permanecendo muito comum no meio conservador radical. Hoje fala-se muito que a “imoralidade” e a “degradação moral da sociedade ocidental” estão vindo do “comunismo”, da multiculturalidade, dos movimentos sociais, dos indivíduos insubmissos de minorias políticas e dos imigrantes e refugiados muçulmanos.

Mas será que moralidade e costumes eticamente bons são o forte desses que tanto se queixam de quem é diferente deles?

Confira também
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Convidamos você a ler uma “pequena” amostra de como o conservadorismo radical tem se manifestado está nas séries de postagens Pérolas de direita e 60 pérolas de páginas de direita do Facebook, que o blog Consciencia.blog.br postou entre 2013 e 2016.

Nas centenas de imagens e comentários printados e respondidos nessas duas séries, podemos notar:

  • Misoginia, racismo, intolerância religiosa, ódio aos pobres, transfobia, homo-lesbofobia, xenofobia e outros ódios;
  • Mandonismo e autoritarismo;
  • Falta de empatia, compaixão e misericórdia pelos outros, mesmo por quem está sofrendo;
    Egoísmo a nível quase patológico;
  • Intolerância e ódio ao diferente como princípio de vida;
  • Incômodo com a liberdade alheia e desejo quase obsessivo de eliminá-las e converter outras pessoas em sujeitos escravizados, sem direitos e submissos - de preferência ao próprio conservador;
  • Formas criminosas de fofoca, difamação e calúnia contra quem pensa diferente;
  • Anti-intelectualismo, aversão ao estudo para aquisição de conhecimentos econômicos, sociais, políticos e filosóficos;
  • Defesa da própria liberdade de expressão paralela a esforços contínuos de suprimir outras pessoas dessa mesma liberdade;
  • Apoio explícito a violações de Direitos Humanos e supressão de liberdades de quem tem posições políticas diferentes;

Entre outros comportamentos extremamente destrutivos.

Em outras palavras, eles não estão defendendo uma sociedade mais moralizada e com costumes éticos. Mas sim que eles sejam os únicos a terem a liberdade de serem imorais e versados em comportamentos destrutivos. E a tendência é que a eleição de políticos ultraconservadores faça a sociedade desvalorizar ainda mais a ética e outros valores altamente necessários para a própria existência da sociedade, aproximando-a da mais completa falta de coesão e do consequente colapso.


6. Sua segurança pessoal

Como foi afirmado no ponto 1, os ultraconservadores usam muito o discurso de manter a ordem pública. É uma maneira de assegurarem também sua segurança pessoal, em um mundo que eles acreditam estar sendo cada vez mais perigoso para eles.

Só que, como também foi explicitado nesse mesmo ponto, a própria atuação deles por meio do discurso e da prática da intolerância contra o outro é que está tornando o mundo cada vez mais um caldeirão de desordem e insegurança.

Consideremos que é por causa das políticas de violência empreendidas pelos Estados ocidentais no Oriente Médio e do apoio logístico a grupos jihadistas que estes têm promovido ameaças e ataques em diversos lugares do mundo. [9] Paralelamente, conservadores radicais defendem mais e mais ódio e guerra contra os muçulmanos, o Oriente Médio e os imigrantes e refugiados e a desunião e inimizade entre os povos.

No caso do Brasil, a criminalidade os têm levado a defender políticas violentas e autoritárias contra os criminosos civis, desde a liberação do comércio de armas para civis, passando pela liberdade da polícia de agir fora da lei, até a tortura e assassinato de detentos em delegacias e penitenciárias. [10]

Em todos esses casos, o único resultado possível é - e tem sido - o agravamento de uma situação já insegura. Estão ajudando o mundo a se tornar mais perigoso e o crime e a violência prevalecerem cada vez mais.


7. Sua importância individual na sociedade

Homens brancos conservadores têm defendido, pelo que podemos compreender deles, que apenas estão tentando proteger seu lugar na sociedade. Parecem crer que estão “perdendo seu valor” diante da ascensão dos direitos das minorias políticas, da ocupação de posições de poder e usufruto de direitos por mulheres, negros, LGBTs, refugiados etc.

É o que tem sido visto nos EUA: os trabalhadores brancos votaram em Trump porque sentem estar perdendo sua importância na sociedade e empobrecendo diante dos avanços do liberalismo econômico, da globalização e da multiculturalidade. [11]

Só que a “solução” à qual têm recorrido, como a submissão quase militar a líderes de extrema-direita, caso do Trump, Le Pen e Bolsonaro, e as propostas de supressão da democracia em favor de regimes autoritários, na prática os torna ainda menores, no sentido de pequenez como seres humanos, do que se sentiam.

Num país governado por um regime ditatorial ou semiditatorial, fica claro que eles não estão numa democracia propriamente dita. Portanto, não têm direitos, nem voz política, nem qualquer poder de decidir o como o presidente vai governar. Iludem-se se o branco rico Trump vai ter compaixão pelos brancos pobres ou da classe média. Ou se Bolsonaro vai permitir que os jovens dos bairros urbanos de classe média joguem videogame à vontade [12] e desfrutem de amplos poderes políticos civis.

Se os conservadores brancos tentam recuperar uma posição por meio do autoritarismo e da supressão de direitos de minorias políticas, isso tende apenas a fazer deles menos empoderados social, econômica e politicamente ainda.


8. Sua qualidade de vida

Muitos conservadores tentam proteger sua qualidade de vida, que estaria sendo “prejudicada” por motivos como a imigração em massa, as políticas de redistribuição de renda, a “perda do lugar” dos homens brancos em universidades e empregos prestigiados para mulheres, pessoas negras e minorias; as lutas da esquerda e dos movimentos sociais, etc.
Afinal, estão em jogo sua segurança, seus empregos (vide o próximo ponto), sua posição social, seus confortos de comprar e contar com serviços privados pagos melhores que os públicos.

Mas sua posição de intolerância contra minorias políticas e defesa de líderes radicais, em vez de ajudá-los a manter a qualidade de vida, pode fazê-los perdê-la de vez, pelos seguintes motivos:

  • O sistema socioeconômico que desejam, sem regulação estatal, sem direitos trabalhistas e sociais, sem políticas públicas e com poderes absolutos para as empresas explorarem seus empregados, lhes causará empobrecimento e perda praticamente total de qualquer condição (inclusive saúde) de empreender e enriquecer, como foi mostrado no ponto 4;
  • Com menos dinheiro (ou, no mínimo, um salário mais desvalorizado) do que antes, terão pouca ou nenhuma condição de arcar com serviços pagos de saúde, educação, transporte, previdência, habitação etc.;
  • Seus discursos de ódio, que expressam um desejo de que as minorias políticas percam seus empregos e seu poder de consumir, tendem a tornar a economia cada vez mais carente de mão de obra para muitos trabalhos [13], inclusive aqueles que homens brancos se recusam a assumir;
  • Seu ódio, intolerância e demanda pela exclusão social das minorias políticas tem como consequências a disseminação de protestos, o aumento da criminalidade e do terrorismo (tanto o dos grupos de extrema-direita como os de reação jihadista), o aumento da incidência de transtornos mentais [14], o desmantelamento da economia, a revogação de direitos universais etc.

9. Seus empregos

Um discurso comum na extrema-direita é que os imigrantes pobres e as minorias políticas estão “roubando” os empregos dos homens brancos. É como se apenas estes tivessem o direito de ter oportunidades amplas de trabalho numa sociedade.

Porém, sua atitude de ódio é um feitiço que vai se voltar contra o feiticeiro, por motivos como os seguintes:

  • Cada vez mais empresas estão assumindo atitudes de respeito aos direitos civis das minorias políticas [15], demitindo funcionários comprovadamente denunciados por discursos preconceituosos [16]. Afinal, interessa-lhes incluir a maioria da população mundial (composta de mulheres, negros e pobres) no mercado de trabalho e de consumo, e desprezar essa maioria seria algo totalmente antilógico e condenaria a empresa a no mínimo passar por sérios apuros. Com isso, ter ódio é um fator de ter menos espaço no mercado de trabalho, não mais;
  • Um empreendedor adepto de discursos de ódio e posturas de discriminação terá à sua disposição um mercado de trabalho muito menor do que um que repudia tais atitudes, e a empresa do primeiro tenderá a ter um público consumidor muito menor - e, portanto, chances muito menores de prosperar - do que a do segundo [17];
  • A crença de que as minorias políticas “roubam empregos” é totalmente incompatível com a de que a luta do indivíduo por um lugar ao sol depende apenas do esforço dele mesmo;
  • A economia “dos sonhos” deles, que discrimina minorias políticas, impõe trabalho degradante aos funcionários e não tem qualquer disciplinamento legal, será um inferno para os próprios trabalhadores brancos, podendo estes ser demitidos a qualquer momento, sem justa causa e sem direito a indenizações, e adoecer a qualquer instante. Além disso, será uma economia muito mais empobrecida e reduzida em quantidade de pessoas, empresas e capital circulante.

Ou seja, um mundo onde o ódio triunfe será um mundo onde os mesmos conservadores brancos que conseguiram tomar “de volta” seus empregos “roubados” viverão um inferno, e serão desprezados pelos líderes autoritários aos quais dedicavam tanto apoio, e tantos outros não conseguirão tão facilmente voltar a trabalhar.


10. Suas liberdades

Todos os nove pontos anteriores deixaram claro como o país autoritário que os ultraconservadores tanto defendem lhes será também um pesadelo sem direitos e, sobretudo, sem liberdade.

Por mais que digam estar “defendendo a liberdade”, sua postura tem sido necessariamente de acabar com as liberdades alheias. E um mundo em que apenas alguns têm ou parecem ter alguma liberdade tende a colapsar na mais completa desordem.

Os conservadores radicais, no final das contas, nada mais serão do que seres submissos ao líder autoritário do Estado e a um mercado igualmente tirânico. Não terão nenhum poder político, nenhuma liberdade - nem mesmo de expressão -, nenhum direito - nem mesmo à segurança e à propriedade privada.

E nem o Estado nem o mercado terão qualquer obrigação, perante eles, de construir uma sociedade próspera, justa e confortável, nem de promover uma ordem social coesa, estável e harmônica.

Serão verdadeiros escravos ou semi-escravos, tal como vivem apontando que aconteceria se os “comunistas” vencessem - isso supondo que a ordem social que eles defendem pudesse se manter estável por algumas décadas, o que na verdade é uma hipótese um tanto irreal.


Considerações finais

Com este artigo, esperamos deixar claro que o radicalismo conservador está fazendo o mesmo que Anakin Skywalker fez no Episódio III de Star Wars: ser a causa dos próprios problemas que teme que aconteçam.

A História tem nos mostrado, com mais força a partir do século 20, que a defesa de políticas de ódio, exclusão e intolerância nunca tende a construir uma sociedade estável e harmônica na qual todo mundo viva bem, dos homens brancos heterossexuais ricos até as mulheres negras lésbicas e bissexuais pobres.

Pelo contrário, medidas de autoritarismo, discriminação, supressão de direitos e recrudescimento da violência estatal e mercantil tendem a criar uma sociedade extremamente frágil, na qual direitos e liberdade são tabus, nem os indivíduos nem a coletividade terão qualquer valor em si mesmos, as desigualdades são extremas e impedem quase toda mobilidade social e nem mesmo a coesão social é considerada importante.

No mais, todos os problemas dos a extrema direita tanto tem falado, como terrorismo, perda de poder, desordem, violência urbana e desemprego, vão apenas piorar, por causa especificamente das políticas tendentes à irracionalidade e à irresponsabilidade dos conservadores radicais.

Fica então o alerta para a sociedade: todo discurso direitista precisa ser encarado com um mínimo que seja de ceticismo e senso crítico. Embarcar em discursos recheados de intolerância e apelo à violência física e verbal custa muito caro a todos - daqueles que os conservadores radicais não toleram até eles mesmos.

Desejo assim, de coração, que quem tiver aderido a discursos de extrema-direita acorde enquanto é tempo, e perceba que o mundo seguro e saudável que eles tanto dizem defender não existe fora de uma realidade de democracia, plenos direitos, igualdade e equidade, respeito ao próximo e apreço à diversidade.

Referências e notas

[1] Vide Star Wars: Episódio III, a Vingança dos Sith
[2] Protestos por motivos de violências e intolerâncias contra minorias políticas (inclusive imigrantes) têm sido noticiados em notícias como:
http://www.telegraph.co.uk/news/2017/02/16/french-police-arrest-49-people-violent-protests-spread-paris/
http://www.usatoday.com/story/news/nation-now/2017/02/17/day-without-immigrants-states/98003072/
https://www.theguardian.com/world/2017/feb/05/womens-march-mass-protests-scientists-immigrants-climate-change
[3] Sobre grupos extremistas islâmicos: http://www.jpost.com/Middle-East/Jihadist-say-Trumps-travel-ban-great-for-recruitment-480001
Sobre ultradireitistas islamofóbicos: http://www.telegraph.co.uk/news/2017/03/09/far-right-neo-nazi-terror-arrests-double/
[4] Sobre os atentados terroristas de 2017: https://storymaps.esri.com/stories/terrorist-attacks/?year=2017
[5] http://consciencia.blog.br/2016/09/educacao-domestica-crista-conservadora.html
[6] Há controvérsias sobre se os valores morais cristãos estão decadentes “hoje” ou desde sempre.
[7] http://institutoethos.blogspot.com.br/2011/04/quais-sao-os-valores-que-os-brasileiros.html
[8] Dois resumos de como os Estados socorreram os bancos e grandes empresas como a General Motors e a AIG podem ser lidos em http://acervo.oglobo.globo.com/em-destaque/apos-crise-global-estourar-em-2008-bancos-receberam-socorros-bilionarios-13495994 e https://carros.uol.com.br/ultnot/2009/06/01/ult634u3509.jhtm
[9] http://exame.abril.com.br/mundo/eua-e-monarquias-enfrentam-ei-o-monstro-que-alimentaram/
[10] http://consciencia.blog.br/2016/09/porte-armas-policia-violencia.html
[11] https://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/the-new-york-times/2016/11/09/por-que-trump-venceu-brancos-da-classe-trabalhadora.htm
[12] https://www.youtube.com/watch?v=HlOrwseJ6ao - Houve uma tentativa de desqualificar o vídeo, mas nenhuma amostra de que a posição de Bolsonaro em relação ao costume de jogar videogame mudou desse vídeo, de 2013, para cá.
[13] http://br.rfi.fr/economia/20150908-chegada-de-imigrantes-pode-beneficiar-economia-da-europa
[14] http://brasil.elpais.com/brasil/2017/02/23/internacional/1487850943_696688.html
[15] http://www.vipado.com.br/com-apoio-da-onu-empresas-assumem-compromisso-pelos-direitos-lgbt/ e http://feiraapas.com.br/blog/index.php/2016/10/21/empresas-brasileiras-assumem-compromisso-para-o-empoderamento-das-mulheres/
[16] Exemplos:
http://g1.globo.com/pb/paraiba/noticia/2014/03/vereador-repudia-piloto-da-vianca-apos-comentario-contra-paraibanos.html
http://www.uai.com.br/app/noticia/series-e-tv/2017/01/18/noticias-series-e-tv,200418/record-demite-apresentador-que-fez-ofensa-racista-a-ludmilla.shtml
http://destinonegocio.com/br/gestao/quer-demitir-confira-13-motivos-para-justa-causa/
[17] Considere-se que o público-alvo e nicho de mercado das duas hipotéticas empresas seja o mesmo.

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