A desagregação neoliberal: conheça a origem dos nossos problemas atuais

Você já deve ter ouvido que a intervenção estatal é o caminho da servidão. Que imposto é roubo ou que desestimula os investimentos. Que leis trabalhistas engessam a economia. Mas o que será que a história tem a dizer sobre isso? Cuidado, aquilo que nos apontam como solução mágica pode ser, na verdade, a raiz dos nossos problemas.

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“Minhas asas estão prontas para o voo,
Se pudesse, eu retrocederia
Pois eu seria menos feliz
Se permanecesse imerso no tempo vivo."
(Gerhard Scholem, Saudação do anjo)

Angelus Novus, de Paul Klee.

"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso." (Walter Benjamin, Teses sobre o conceito de história, 1940)


Introdução

"Mesmo admitindo que não haja propósitos superiores na vida, precisamos atribuir um significado a nossas ações, de modo a transcendê-las. Afirmar apenas que algo faz ou não parte de nossos interesses materiais na maior parte do tempo não satisfaz a maioria das pessoas. Convencer os outros de que algo está certo ou errado exige uma linguagem de fins, e não de meios. Não precisamos acreditar que nossos objetivos estão destinados ao êxito. Mas precisamos ser capazes de crer neles." (Tony Judt)

A ideia de escrever esse artigo surgiu após a releitura do livro “O Mal Ronda A Terra”, do historiador britânico Tony Judt. Intelectual brilhante, com uma extensa obra, Judt publicou este que seria seu último livro. O seu testamento intelectual.

Acometido por uma doença rara e devastadora – esclerose lateral amiotrófica, a mesma do físico Stephen Hawking – o historiador passou todo o ano de 2010 numa cama. Impossibilitado de movimentar um músculo sequer do corpo. Seu cérebro, porém, não fora afetado. E, com a ajuda de aparelhos, dos familiares e sem praticamente consultar nenhum livro, ele conseguiu ditar as palavras que formariam este livro.



Escrito dois anos após o estouro da bolha imobiliária, a obra tenta compreender um mundo que parecia se esfacelar. O subtítulo demonstra bem o sentimento da época: “um guia para perplexos”. Segundo o dicionário há duas definições possíveis para a palavra “perplexo”: 1) indeciso, irresoluto; 2) tomado de espanto, atônito. A polissemia do termo traduz o sentimento da época diante das transformações que vinham ocorrendo. Aqueles que sempre tiveram certezas, não conseguiam explicar como criaram a crise. Enquanto os que sempre criticaram o modelo adotado pareciam espantados, incapazes de mudar os rumos da política. Ambos os grupos estavam perplexos, mas de maneiras diferentes.

Para Judt, a morte era questão de tempo. Ela, inclusive, veio antes do livro ser publicado. A tragédia do historiador pode ser vista como uma metáfora do drama pelo qual passamos. A humanidade segue sem rumo. O radicalismo e o fundamentalismo estão mais presentes do que nunca. Muitos observadores estão alertando que caminhamos para o abismo. Nossa força para agir está desconectada da nossa capacidade de pensar e refletir. Estamos imóveis numa montanha de gelo que derrete a cada dia.

Derrotar os candidatos da extrema-direita não irá resolver. Bolsonaro, Le Pen, Trump e o Estado Islâmico não são as causas dos nossos problemas, mas as consequências. São os vícios de uma sociedade que está sendo corroída.

As pessoas estão desorientadas. Suas vidas estão afundando e elas não veem solução. Foram acostumadas a ouvir o tempo todo que não há alternativa. O que fazer quando você não pode permanecer imóvel, porém não há escolhas?

O primeiro passo, sem dúvida, é mostrar que as alternativas existem. E são muitas.

Se olharmos para o passado recente é fácil perceber que a economia é o resultado de escolhas políticas e não de um equilíbrio natural. A prosperidade do pós-guerra foi construída em pouquíssimos anos. Bastou que antigos dogmas fossem abandonados. Vivemos em sociedade há pelo menos 10.000 anos, nada na nossa realidade é natural. Se quisermos mudar nosso mundo, não podemos fazer as mesmas coisas de sempre. Precisamos nos reinventar. O futuro está aberto ao novo. Mas para nos orientarmos diante da escuridão, é preciso uma lanterna. Essa luz só pode vir da experiência humana acumulada ao longo de séculos de história.

Essa é a proposta de Judt. Seu testamento é, com efeito, uma lembrança do que éramos e do que nos tornamos. “A visão de uma organização social total – a fantasia que inspirou utopistas de Sydney Webb a Lênin, de Robespierre a La Corbusier – desmoronou. Mas a questão de como organizarmos nossas vidas para o bem comum continua importante como sempre. Nosso desafio é recuperá-la em meio aos escombros”. (Judt)

A derrota da esquerda na Guerra-Fria, contudo, nos impôs outro dogma. O do capitalismo de livre-mercado. Como o Judt nos mostra, a única coisa pior que governo de mais é governo de menos. Nos dois casos a liberdade não passa de uma ilusão.

Temos dificuldade de encontrar saída para as nossas dificuldades porque nos apresentam falsos problemas: capitalismo x comunismo ou socialismo x liberdade. O capitalismo não é um sistema político, mas uma organização econômica que funciona perfeitamente em modelos autoritários de governos. A grande questão, portanto, não é escolher entre capitalismo ou socialismo, mas definir os valores com os quais iremos orientar a nossa existência.

A tirania é um risco com ou sem Estado. Quem mora no Rio de Janeiro, por exemplo, reclama de pagar IPTU. Porém, aqueles que vivem em regiões em que o governo não atua, certamente não estão contentes com as taxas cobradas pelos milicianos.

É preciso, portanto, abandonar essa falsa discussão. O que necessitamos de modo urgente é pensar em novas maneiras de organizar o poder público. “Já nos livramos da presunção do século XX de que o Estado costuma ser a melhor solução para qualquer problema existente. Agora precisamos nos libertar da noção oposta: de que Estado é – sempre, e por definição – a pior opção disponível.” (Judt)

Valores éticos e distribuição do poder são, com efeito, os dois pontos fundamentais para repensarmos a política. Enquanto o primeiro nos mostra a direção certa a seguir, o segundo poder regula nossa existência.

Um exemplo. Após a Segunda Guerra Mundial, muitos veteranos tinham dificuldades de arrumar emprego nos EUA. Foi criado então um programa de ensino gratuito nas universidades para os ex-combatentes. A ideia era que esses homens haviam doado uma parte importante das suas vidas para defender a América, a liberdade etc. Assim, seria “obrigação” que, aqueles que não sofreram os horrores do conflito, os auxiliassem na difícil tarefa de reconstruir a vida.

Poucos discordariam da lógica desse raciocino. Mas há um detalhe. Tal prática desmente a visão liberal da natureza humana como essencialmente egoísta. Primeiro que um homem egoísta jamais iria a uma guerra. Seria mais racional ficar em seu país lucrando com a morte de terceiros. E, mesmo que essas pessoas fossem parar no front de modo coercitivo, ao voltarem, seus semelhantes egoístas estariam mais preocupados com a própria existência. Esse programa foi o embrião do ensino público americano que funcionaria nas décadas seguintes.

O Estado de bem estar social, portanto, fora motivado por valores morais, não por um cálculo econômico. Entre esses afetos, dois se destacam: O primeiro foi a solidariedade com aqueles que lutaram pela nação. O segundo era o medo de que tragédias iguais àquela se repetissem. Os homens da primeira metade do século XX sofrem juntos em função de tragédias coletivas. A dor era a cola que unia essas pessoas.

A história das últimas décadas pode, com efeito, ser dividida em dois momentos distintos. Nos 30 anos posteriores à Segunda Guerra, ocorreu aquilo que o economista Paul Krugman chamou de “grande compressão”. A riqueza e a pobreza foram “comprimidas” e formaram uma sociedade de classe-média. Nesse período as instituições foram reconfiguradas de modo a privilegiar o equilíbrio social e combater as iniquidades. “Os dados mostram o movimento dos republicanos em direção à esquerda, mais próximos dos democratas, quando a desigualdade de renda declinou” (Krugman).

A explicação é simples para quem conhece um pouco da história americana. O livre-mercado havia provocado a crise de 1929 (leia mais sobre isso aqui), também havia falhado em retomar o crescimento. Com o advento do New Deal, que recebeu oposição dos republicanos nos primeiros anos, a economia não apenas passou a funcionar melhor como o trabalhador conquistou uma inédita segurança. Em 1948, outro democrata foi eleito, Henry Truman. Após mais esse fracasso eleitoral, os republicanos perceberam que as conquistas sociais não seriam passageiras e que, caso não as defendessem, amargariam outras derrotas.

Com o tempo, contudo, um grupo de “conservadores radicais”, que eram financiados por grandes empresas, passou a crescer dentro do partido republicano. Em 1964, eles iniciaram a construção da sua base popular. Graças ao carisma de um ator de Hollywood, Ronald Reagan. Nesse mesmo ano, o futuro presidente fez um discurso na televisão que, a despeito de usar números falsos, causou certa comoção: “funcionários federais chegam a 2,5 milhões, e um sexto da força de trabalho é empregada pelos governos federal, estaduais e locais”. Dizia o então galã de cinema. Outra narrativa ganhava fôlego.

A partir dos anos 1970, essas teses foram se materializando e a política norte-americana deu uma guinada à direita. Dessa vez foram os democratas que acompanharam os republicanos: “Bill Clinton certamente governou não apenas à direita de Jimmy Carter, mas à direita de Richard Nixon” (Krugman).

O critério para diferenciar esses espectros políticos, portanto, está nas diferentes concepções de economia política, não nos partidos. Segundo o economista Joseph Stiglitz, a percepção da esquerda é a de que a economia funcionaria como a maré, ou seja, sua cheia elevaria todos dentro do barco. Eu complementaria dizendo que esse movimento não é natural, mas produzido por um determinado arranjo institucional que prioriza a equidade. No outro espectro, a direita propõe a “política do gotejamento” (Trickle-down Economics). Ou seja, a concentração da riqueza no topo da pirâmide, com o tempo, transbordaria e chegaria a todas as camadas sociais.

Este texto pretende, numa abordagem histórica, retomar essa discussão. Nosso objetivo é, ao final, compreender como entramos nesse “beco sem saída”. Não tenho a pretensão de mostrar as soluções para todos os problemas. A dúvida é uma importante aliada e precisa ser preservada. A ideia é somente lembrar que não existe apenas uma direção a seguir. Isso pode parecer banal, mas é algo que precisa ser repetido. Numa época em que o discurso neoliberal é hegemônico, recordar algumas alternativas não deixa de ser um gesto revolucionário.


A Comunidade de Confiança do Pós-Guerra

"A tarefa do Estado não é apenas recolher os cacos quando a economia desregulada se esfacela. Também lhe cabe conter os efeitos dos ganhos desmesurados". (Tony Judt)

Em 1942, após a entrada da URSS e dos EUA na Segunda Guerra, já havia ficado evidente para a maioria dos observadores que a derrota do Eixo era uma questão de tempo. O problema que agitava os intelectuais não era a guerra, mas as bases com as quais o continente seria reerguido. O objetivo principal era evitar que tragédias, como o fascismo e a Grande Depressão, se repetissem. Todos tinham a consciência de que, caso nada fosse feito, o caos dos anos 1920 seria revivido. Mas o que poderia evitá-lo?

Grosso modo, existiam duas correntes que “disputavam” essas narrativas. A primeira, majoritária, entendia o nazismo como resultado da falência do Laissez Faire. O principal expoente desse primeiro grupo era o economista inglês John Maynard Keynes, que em 1936 havia publicado sua principal obra “Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda”. O economista não acreditava no “equilíbrio natural” dos mercados e defendia que o Estado seria o responsável por garantir o funcionamento pleno da economia capitalista.

Keynes e outros lembravam que os nazistas haviam obtido sucesso ao recuperar a economia alemã, porém os investimentos em armamentos levaram o continente à ruína. Caso tais investimentos fossem voltados para a área social, de modo a mitigar os efeitos deletérios do capitalismo, o crescimento econômico poderia ser sustentável. Um ano depois, o mesmo Keynes, escreveu um memorando assinalando a necessidade de ser buscar a segurança social e atacar o desemprego no pós-guerra. Nesse documento, ele defende o papel do governo no investimento público e na garantia do pleno emprego.

Como o Judt mostra, tal proposta não tinha nada a ver com o socialismo: “os suecos, finlandeses, dinamarqueses e noruegueses desfrutavam não da propriedade coletiva, mas da proteção coletiva” (Tony Judt). Essa talvez seja a diferenciação mais potente entre a economia socialista e a economia-mista. O setor privado continuava tendo um papel relevante, porém os cidadãos não ficavam sujeitos às oscilações do mercado.

Keynes não estava sozinho. O economista Wiliam Beveridge formulou uma proposta ainda mais ousada. O Relatório Beveridge, como ficou conhecido, pregava o “Estado providência”, que também seria uma economia-mista, porém mais próximo do socialismo. “O próprio Beveridge, que era crítico do capitalismo social e, com a guerra, passou a ser um crente na mudança social radical através da planificação, disse a Beatrice Webb, no início de 1940, que gostaria muito de ver o comunismo experimentado em condições democráticas” (Mazower).

Esses intelectuais destacavam que o planejamento havia transformado os países em máquinas de guerra. Por que, caso tal planejamento fosse voltado para os ganhos econômicos, ele não teria êxito? A ideia era estatizar setores chaves da economia e deixar o restante para o mercado. Assim, os governos poderiam controlar e “planejar” a produção segundo suas prioridades.

No pós-guerra ambas as propostas serão adotadas. Países como a França, por exemplo, que haviam sido destruídos pelo conflito, privilegiarão o planejamento estatal. Outros, como os escandinavos, seguirão o caminho da seguridade social. Mas é importante destacar que: “As grandes histórias de sucesso dos países capitalistas no pós-guerra, com raríssimas exceções (Hong Kong), são histórias de industrialização sustentada, supervisionada, orientada e às vezes planejada e administrada por governos: da França e Espanha, na Europa, a Japão, Singapura e Coreia do Sul”. (Hobsbawm)

Formou-se, então, o que alguns historiadores chamaram de “Consenso Keynesiano”. O liberalismo estava morto. Porém, havia alguns descontentes que estavam dispostos a ressuscitá-lo. Desde 1938, no Colóquio Walter Lippmann, esses opositores da economia-mista haviam definido a si mesmos como neoliberais.

Segundo Friedrich Hayek, um dos principais autores neoliberais, haveria uma oposição inconciliável entre o Estado e a liberdade individual. Ou, nas palavras do próprio autor: “devemos enfrentar o fato de que a preservação da liberdade é incompatível com a satisfação plena de nossa visão de justiça distributiva” (Hayek). O governo seria, portanto, um organismo vivo em constante expansão e, caso não fosse limitado, as intervenções iriam se acumulando até que o Estado submetesse o indivíduo à total servidão. “Apesar de suas boas intenções, a social-democracia moderada inglesa conduz ao mesmo desastre que o nazismo alemão – uma servidão moderna” (Hayek). A partir de 1947, conforme os contornos do Estado de bem estar social estavam sendo delimitados, os neoliberais fundaram a Sociedade Mont Pèlerin para discutir suas ideias e combater o keynesianismo.

Os neoliberais afirmavam que o sucesso econômico dos anos 1950 seria insustentável. Para eles, os auxílios sociais demandariam cada vez mais impostos para serem mantidos. Tais tributos acabariam por inibir o investimento privado e o crescimento econômico. O baixo crescimento, por sua vez, faria a arrecadação cair e, para continuar a sustentar os programas de seguridade social, mais impostos seriam cobrados. Assim sucessivamente.

A ordem do pós-guerra, contudo, não foi estabelecida ou fundamentada em nenhuma doutrina. Como normalmente acontece, os políticos tomam suas decisões baseados na correlação de força do momento. E dois aspectos empurraram a economia para a “esquerda”. Primeiro, de natureza interna. O continente europeu estava destruído. Não havia mercado e a iniciativa privada era limitada. Como dito, as economias já haviam sido planificadas ao longo do conflito. O pacto social do pós-guerra também foi realizado através de uma troca entre governos e as populações. Os cidadãos haviam pegado em armas para defender seus países, muitos haviam morrido. Com o retorno à paz, então, chegara o momento dos políticos retribuírem o auxílio; garantindo emprego, saúde e educação a todos.

O segundo, da ordem externa, foi o advento da Guerra Fria. Inicialmente, a ideia dos aliados era transformar a Alemanha e o Japão em economias agrárias. “Em março de 1946, como vimos, o Conselho de Controle aprovara a limitação da produção industrial da Alemanha à metade do nível 1938”. Pouco tempo depois, os Estados Unidos, diante do perigo soviético e depois do chinês, seriam os maiores parceiros na reconstrução dos dois países.

O Plano Marshall foi a solução encontrada para recuperar a Europa. Os historiadores divergem quanto ao papel da ajuda financeira na recuperação econômica do continente. David Landes, por exemplo, diz que o auxílio foi decisivo. Pois os dólares americanos serviram para equilibrar a balança de pagamentos num momento de escassez de moeda. As nações precisavam importar, mas não havia o que exportar. Assim, os empréstimos serviram para irrigar a economia enquanto os países se recuperavam da destruição.

Mark Mazower, contudo, lembra que a ajuda americana não chegou ao Leste Europeu e esses países apresentaram um crescimento tão vigoroso quanto a Europa Ocidental. O historiador também afirma que os danos causados à capacidade produtiva europeia são superestimados. Mazawer, então, chega à conclusão de que as causas da recuperação foram endógenas.

Todas as nações estavam numa situação semelhante e todas precisam se recuperar. Pior, o Exército Vermelho estava estacionado a poucos quilômetros de distância. Esse ambiente, de penúria e medo, possibilitou a integração e a ajuda mútua que, segundo Mazower, teria sido mais importante que os empréstimos americanos. Tony Judt concorda com essa análise e mostra que os acordos políticos que visavam facilitar o comércio, como o Benelux e o Tratado de Roma, foram apenas a formalização de práticas que já vinham acontecendo.

Para Mazawer, a razão do sucesso inicial foi que o crescimento econômico era uma questão de sobrevivência. A preocupação com o comunismo fez com que esses países abandonassem os dogmas liberais do equilíbrio orçamentário. O déficit público reanimou o setor privado num momento em que a cooperação fazia o comércio disparar.

A recuperação aconteceu de modo extraordinário. Surpreendendo, inclusive, os analistas mais otimistas. Os 30 anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial foram os de maior prosperidade da história do capitalismo, ou talvez da história humana. E, nesse aspecto, há consenso entre os especialistas. Segundo Mazawer: “entre 1913 e 1950 a media de crescimento da renda per capita da região foi de 1% ao ano; entre 1950 1970, a média aumentou para incríveis 4%”. Chegando à incrível marca de 8,1% no Japão. O desemprego desapareceu; o mesmo historiador afirma que ele despencou de “7,5% nos anos 30 para menos de 3% em 1950/60, e para 1,5% na década seguinte”. “Em todos os países indústrias, inclusive na lerda Grã Bretanha, a Era do Ouro Bateu todos os recordes anteriores (Hobsbawm)”. “No espaço de tempo correspondente a uma geração, as economias do Oeste Europeu recuperaram o terreno perdido em quarenta anos de guerra e na Depressão; além disso, o desempenho econômico europeu e os padrões de consumo começaram a se assemelhar aos dos EUA” (Judt). “Já agora, no entanto, ela estava avançando sozinha, a cada ano trazia um novo recorde de produção. Entre 1938 e 1963, o produto nacional global da Europa Ocidental aumentou mais de duas vezes e meia.” (Landes).

Como tal crescimento foi possível? Nos aspectos gerais, podemos afirmar que ele foi conquistado:

1) pela expansão do comércio externo;
2) pelo boom do crescimento populacional;
3) pela adoção de novos métodos de produção;
4) pelas inovações tecnológicas;
5) pelos investimentos estatais;
6) e pelo aumento da renda dos trabalhadores.

O crescimento populacional, as políticas distributivistas, a expansão do comércio entre os países ricos, garantiam a demanda. Os métodos científicos de produção, e as inovações tecnológicas, possibilitavam o aumento da oferta. O pleno emprego, por sua vez, ajudava nas duas pontas da economia.

Segundo o economista Paul Krugman, o imposto progressivo foi a medida mais importante para a construção do Estado de bem estar social nos EUA. O Nobel de economia mostra que a riqueza pré-tributação era muito próxima daquela registrada nos anos 1920. Porém, o panorama era completamente distinto quando comparamos os dados pós-tributação. A alíquota sobre a renda saiu dos 24% a alcançou a impressionante marca de 91%. Os impostos sobre herança chegaram a marca de 77%. Os lucros privados eram revertidos em benefícios socais. E, ao contrário das previsões catastróficas, isso não inibiu os investimentos nem as inovações.

Enfim, os países faziam o oposto do que era pregado pelos neoliberais e estavam obtendo sucesso. O que fez com que essa corrente fosse esquecida por muito tempo. Tony Judt é sarcástico ao destacar a insistência teológica de Hayek e companhia em defender suas ideias. Mesmo tendo errado quase todas as previsões: “portanto, aos olhos de Hayek, a Suécia seria outro país condenado a seguir o caminho da Alemanha até o abismo, graças ao sucesso político da maioria socialdemocracia e do seu projeto legislativo ambicioso”.

Em 2017, 73 anos depois da publicação do livro "Caminho da Servidão", de Hayek, muitos neoliberais ainda esperam o Hitler sueco. Insistência admirável, porém, nada comparado à de alguns cristãos que esperam a volta de Cristo há 2000 anos.

Tony Judt também lembra alguns aspectos culturais da “Era da Prosperidade” que fogem às análises econômicas. Nesse período formou-se na Europa o que o historiador chamou de “comunidade de confiança”. “Todos os empreendimentos coletivos exigem confiança. Das brincadeiras infantis às instituições sociais mais complexas, os humanos não conseguem atuar juntos a não ser suspendendo a desconfiança que sentem uns pelos outros”.

A regulamentação estatal necessita dessa confiança coletiva e do compromisso individual com a coletividade. Judt lembra que a tributação é uma forma de pagar dívidas passadas e de investir em projetos futuros. O imposto, portanto, é uma maneira de conectar diferentes gerações num objetivo comum. A lógica é simples: eu devo parte do meu padrão de vida àqueles que me antecederam e tenho uma responsabilidade com as gerações vindouras. Tal prática estimula o sentimento de pertencimento. Portanto, é mais que uma medida econômica, mas uma postura ética em que o indivíduo se percebe como parte de uma estrutura que o transcende.

O economista Thomas Piketty, no famoso Capital no Século XXI, chegou a conclusões parecidas: "Impostos não são uma questão técnica.  Impostos são, isso sim, uma questão proeminentemente política e filosófica, talvez a mais importante de todas as questões políticas.  Sem impostos, a sociedade fica destituída de um destino comum, e a ação coletiva se torna impossível."

Outro que concorda com essa postura é o Nobel de economia Joseph E. Stiglitz: “Quando esse contrato social é infringido – quando a confiança entre um governo e seus cidadãos é quebrada – é certo que haverá desilusão, desmoralização ou coisa pior”. Perde-se a virtude cívica. A sociedade se desagrega. Os indivíduos se percebem impotentes. E, por fim, o radicalismo e o fundamentalismo renascem.

O diplomata Paulo Guimarães, que vive há 25 anos na Suécia, usa o termo “sentido de coletividade” para explicar o sucesso dos países escandinavos: “As conquistas do Estado de bem estar social não se fizeram sem conflito, mas desde cedo a socialdemocracia escandinava advogou a transformação pragmática, moderada e pacífica da sociedade burguesa herdada do século XIX”.

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O filósofo Noam Chomsky também mostra a importância que o afeto e a solidariedade possuem para o bom funcionamento da sociedade. "Tem havido esforços para tirar essas emoções básicas da cabeça das pessoas. E vemos isso hoje na formação de políticas. Por exemplo, o ataque à Seguridade Social. A Seguridade Social é baseada num princípio de solidariedade. A Seguridade Social significa: 'eu pago meus impostos sobre salários para que a viúva do outro lado da cidade possa receber ajuda para viver'. É assim que grande parte da população sobrevive”.

Enfim, tanto a tributação quanto os gastos públicos, para funcionarem, requerem esse sentimento coletivo. O reconhecimento da existência de uma “comunidade de destinos”. Não por acaso, os neoliberais irão atacar de forma tão feroz essas duas práticas, pois elas lembram aquilo que eles não querem ver: que a sociedade existe, que a história existe e que nenhum indivíduo é uma ilha.

Tais fatos eram mais que evidentes para os homens que haviam sofrido juntos com a Depressão, com o desastre da guerra e compartilhavam as angústias de um futuro incerto. Para essas pessoas, seus destinos estavam entrelaçados. Não havia como fugir. Eles sabiam que a comunidade precede o indivíduo e um não vive sem o outro. Portanto, a harmonia do todo era condição essencial para o crescimento das partes. Tudo isso se perdeu nos anos 1970. O discurso neoliberal passou a isolar os sujeitos e promoveu uma desagregação dos laços afetivos. Esse será o assunto da segunda parte deste artigo.


A Desagregação Neoliberal

"Encontramos ceticismo político na origem de muitos dos nossos dilemas. Mesmo que os mercados livres funcionassem como apregoam, seria difícil alegar que eles constituem uma base adequada para uma vida plena". (Tony Judt)

O livro “Desagregação: Por Dentro de Uma Nova América”, do jornalista George Packer, foi considerado pelo New York Times como a melhor obra para entender os motivos que levaram à vitória do republicano Donald Trump nos EUA. Escrito em 2013, ele permaneceu pouco conhecido até a inesperada reviravolta nas eleições presidenciais.

Em 2010, porém, Tony Judt já havia descrito, com impressionante precisão, os motivos que seis anos depois permitiriam a vitória do radicalismo nos EUA. "As populações que sofrem com a crescente insegurança econômica e física se refugiarão nos símbolos políticos, recursos legais e barreiras físicas que apenas um Estado territorial pode oferecer. Isso já está acontecendo em vários países: basta notar a defesa crescente do protecionismo na política americana, o sucesso dos partidos contra a imigração na Europa Ocidental e o apelo abrangente por muros, barreiras e testes”.



O recrudescimento do radicalismo no mundo, como podemos ver, está relacionado à desagregação provocada pelo neoliberalismo. A lógica simplista que afirma não existir sociedade nega, ou esconde, elementos objetivos da realidade. Não existe sociedade, mas se meu país entrar em guerra eu posso ser enviado para o campo de batalha. Não existe sociedade, mas uma ditadura pode ser imposta de cima e acabar com os meus direitos. Não existe sociedade, mas uma crise econômica pode arruinar as minhas finanças. Não existe sociedade, mas eu preciso de visto para entrar em outros países. Não existe sociedade, mas a violência urbana me afeta. Não existe sociedade, mas a destruição ambiental está acabando com a minha saúde.

É dessa lógica que nasce o radicalismo. O indivíduo coloca toda a sua fé em soluções simplistas, quando estas se mostram incapazes de resolver os problemas complexos, ele se percebe num “beco sem saída”. No desespero, delega sua salvação a qualquer demagogo.

A atomização do sujeito, a negação da política e o desmantelamento dos mecanismos de proteção social deixam as pessoas inseguras, sendo, portanto, mais vulneráveis a aderir ao radicalismo. Donald Trump é o espelho dos vícios da globalização. O historiador Michael Mann fez um estudo em que mostra que o nazismo cresceu entre os trabalhadores desempregados e entre aqueles que não eram sindicalizados. Os sindicatos formam uma comunidade de ajuda mútua, portanto, são um ponto de referência e de segurança para o trabalhador. Por tal motivo, essas associações foram um anteparo ao crescimento do extremismo.

Com o neoliberalismo, as organizações trabalhistas foram as primeiras a serem desarticuladas. Qual alternativa restaria para um trabalhador terceirizado, que percebe sua vida sendo precarizada a cada ano e não tem a quem recorrer? A privatização da esfera pública fecha os canais democráticos da participação individual nas decisões que afetam a coletividade.

Pense num extremista que se senta ao lado de um trabalhador desiludido numa solitária e melancólica mesa de bar. Ele improvisa um discurso culpando os muçulmanos e os estrangeiros pelos seus problemas, propondo muros nas fronteiras, controle da imigração, entre outras coisas. Possivelmente tais medidas serão vistas como a única solução possível pelo interlocutor. A vida desse homem pode ganhar um sentido, uma causa. Esse exemplo não é fortuito. Adolf Hitler levava uma vida errante até ser arrebatado pela onda nacionalista da Primeira Guerra Mundial. Ele também arregimentou os primeiros adeptos nas cervejarias alemãs. Tal fato é pouco discutido pelos historiadores, mas bares são locais em que as pessoas vão, muitas vezes, para esquecer as suas frustrações. Para camuflar sua solidão. Hitler era abstêmio, mas sabia o poder da bebida para construir laços de afetividade.

Quando a desagregação começou? Essa é a indagação feita por George Packer no início do seu livro: “Ninguém é capaz de dizer quando começou a desagregação – quando a cola que mantinha os americanos em sua unidade segura, e às vezes sufocante, cedeu pela primeira vez. Como qualquer mudança, a desagregação começou inúmeras vezes, de inúmeras maneiras – e, em algum momento, o país, o mesmo país de sempre, cruzou a linha da história e tornou-se irremediavelmente diferente”.

Como toda transformação nos costumes, a desagregação neoliberal aconteceu de forma lenta e, como o autor mostra, é impossível datar o seu início. Mas olhando para as charges, da revista The New Yorker, ao longo das décadas, é possível ter uma pequena dimensão da profundidade dessas mutações culturais.

A primeira caricatura, de 1949, certamente causou uma crise prolongada de risos em Hayek. Eu seria capaz de apostar que, vendo que suas ideias não causavam nenhum impacto, o economista se divertia gargalhando com essas tiradas de humor. Ora, numa economia em que os empresários pagavam férias, seguro desemprego, os sindicatos e as leis trabalhistas eram fortes, a única alternativa seria a demissão em massa, pensava Hayek.

Porém, o que estava com os dias contados, não era a economia-mista, mas os risos de Hayek. Nos anos 1950-60 as piadas mudam completamente e deixam de ter graça para os neoliberais. Os empresários, de fato, pagavam salários mais altos e tinham encargos sociais. Como dito, o imposto de renda nos EUA chegou à incrível marca dos 91%. Esse tributo "estratosférico" era usado para criar um sistema de proteção social. Com saúde, educação e aposentadoria garantidos, o restante era revertido para o consumo. O mercado consumidor se expandia a cada ano, junto com a renda das famílias. Se, de um lado, as folhas salariais cresciam, de outro, os lucros explodiam. Ninguém seria posto na rua, o pleno emprego foi uma realidade durante 30 anos.

Como podemos observar, estamos muito distantes do totalitarismo. Obviamente que havia problemas na década de 1950-60. Não pretendo idealizar esse período. Mas eles eram de outra ordem. O medo da recessão e do desemprego praticamente desaparecem. As críticas são relativas à inflação, à futilidade do consumo exacerbado e ao excesso de impostos. Aliás, o ataque  aos “impostos excessivos” será o cerne da reação neoliberal.

A previsibilidade da economia era o motivo do marasmo que a última gravura tenta transmitir. O mercado pouco oscilava. As crises financeiras ocupavam mais os historiadores que os economistas. Você seria capaz de citar o nome de um grupo de extrema-direita nascido nos anos 1950? Difícil. Certamente havia. O radicalismo nunca desaparece, mas em momentos de estabilidade, ele sobrevive com aparelhos, a uma distância segura. Hayek teria que esperar, ainda não foi dessa vez que o Hitler sueco apareceu.

Com o tempo, contudo, o pacto social foi se dissolvendo. E as contradições entre as classes socais se tornando mais claras. Os conflitos econômicos foram amenizados, mas outras contradições começaram a aparecer. A geração do pós-guerra estava entrando na juventude, que, alias, é um conceito desse período. Esses jovens não haviam vivido as dificuldades da primeira metade do século XX. Não conheciam os efeitos do capitalismo desregulado.

O que eles pediam não era “liberdade econômica” dos neoliberais, mas liberdade de costumes. Eram contra o capitalismo, mas também não almejavam o comunismo. Desejavam expandir a democracia e os direitos civis. Porém, tais movimentos foram vistos com desconfiança pelos conservadores. A democracia estava indo longe demais. Os negros já falavam em direitos iguais, as mulheres não queriam mais casar e ter filhos, os hippies incomodavam a liberdade do governo americano de fazer guerras. Algo precisava ser feito. Onde tudo isso iria parar? É, com efeito, a partir de 1968 que a reação conservadora se intensifica.

Em 23 de agosto de 1971, um documento confidencial é enviado para a Câmara de Comércio dos Estados Unidos (CCEU), escrito pelo advogado Lewis Powell. O título do Memorando Powell era “ataque ao sistema americano de livre empresa”. Tratava-se de uma advertência aos empresários. O inimigo principal não era mais o comunismo: “as vozes mais inquietantes que se juntam ao coro da crítica vêm de elementos da sociedade perfeitamente respeitáveis: dos campi universitários, do púlpito, da mídia, das revistas intelectuais e literárias, das artes e ciências e dos políticos”. A ameaça, nas palavras de Milton Friedman, seriam indivíduos paparicados e mal orientados. Se eles não eram mal intencionados, se eles estavam apenas confusos e desorientados, a solução óbvia seria reorientá-los.

Havia um perigoso desejo por liberdade. Como reverter esse processo? A repressão só serviria para aumentar as insatisfações. O neoliberalismo tinha a solução, se eles querem liberdade, daremos a nossa. Daremos uma liberdade controlada e vigiada. Para isso seria preciso uma mudança na forma como as pessoas enxergavam seu papel na sociedade.

O memorando também diz como essas mudanças serão postas em prática: “Isso é especialmente verdadeiro sobre a televisão, que agora desempenha tão predominante papel em modelar o pensamento, a atitude e as emoções de nossa gente”.

Modelar as atitudes, o pensamento e as emoções das pessoas, essa será a grande virada do neoliberalismo. O liberalismo clássico partia do princípio que a ação individual era previsível. Os clássicos classificavam a natureza humana como egoísta. O homem egoísta está sempre buscando o prazer individual e a felicidade. A felicidade, nesse caso, está relacionada aos bens de consumo. Ora, se eu conheço a natureza humana e o que ela almeja, eu posso perfeitamente prever seu comportamento.

O neoliberalismo irá inverter essa lógica. Os neoclássicos irão intervir de forma direta no comportamento humano. Essa é a ideia do “liberalismo interventor”, discutida do Colóquio Walter Lipmann. Os economistas da Escola de Chicago, por exemplo, irão desenvolver métodos para estimular novas formas de vida. Conceitos como “capital humano” e “sociedade empresarial”, de Gary Becker, aproximam-se mais da psicologia do que da economia clássica.
O Memorando é bem didático sobre as medidas a serem tomadas. O papel das empresas: “chegou o tempo – na verdade, passou da hora – da sensatez, da engenhosidade e dos recursos da empresa americana serem dirigidos contra quem gostaria de sua destruição.”

Da Câmara de Comércio: As atividades independentes e não-coordenadas das corporações individuais, embora importantes, não serão suficientes. [Fazem-se necessárias] Linhas fortes na organização, com cuidadoso planejamento e implementação de longo alcance, com consistência de ação por um período indefinido de anos, na escala de financiamento disponível apenas por meio de esforço conjunto e com a força política disponível apenas por meio de uma unidade de ação e organização nacional.

Das universidades: “A responsabilidade última pela integridade intelectual do campus deve permanecer sobre a administração e faculdades de nossas universidades. Mas as organizações, tais como a Câmara [de Comércio], podem auxiliar e ativar mudanças construtivas de muitas maneiras, incluindo as seguintes: ” Em resumo, o documento propõe, para interferir nas faculdades: a criação de um corpo acadêmico e de palestras formado por defensores do livre-mercado. Esse corpo também seria responsável por: “avaliar os livros-textos de ciências sociais, especialmente em economia, ciência política e sociologia. Esse deveria ser um programa contínuo”. Também deveriam ser estimuladas as Pós-Graduações em Negócios (Business Schools). As mesmas medidas seriam estendidas ao ensino médio.

Em relação ao público: “O mais essencial é estabelecer o corpo de eminentes pesquisadores, escritores e palestrantes que elaborarão o pensamento, a análise, os escritos e as falas. Também será essencial ter um corpo de pessoas que são muito familiares com a mídia e em como ser efetivo na comunicação com o público”. Os meios para atingir o público seriam, a televisão: “A rede nacional de televisão deveria ser monitorada da mesma maneira que os livros-textos deveriam ser mantidos sob constante vigilância”.

As publicações acadêmicas: “Incentivos podem ser inventados para induzir mais 'publicação' pelos acadêmicos independentes que acreditam no sistema”. Livros, brochuras e panfletos: “a menos que o esforço seja feito – em uma escala grande o suficiente e com imaginação apropriada para assegurar algum sucesso –, essa oportunidade para educar o público será inevitavelmente perdida”.

Os anúncios pagos: “Empresas pagam centenas de milhões de dólares pela propaganda na mídia (...) Se as empresas americanas devotarem apenas 10% do total anual de seu orçamento para propaganda para esse propósito geral, seria um gasto similar ao de um estadista”.

Sobre o judiciário: “Como a respeito dos acadêmicos e palestrantes, a Câmara necessitaria de um corpo altamente competente de advogados. Em situações especiais, deveria ser autorizado engajar-se ou aparecer como advogado amicus [amigo] na Suprema Corte.”.

Esse documento é impressionante. O paradoxo também. Para convencer as pessoas de que a sociedade não existe e de que a ação coletiva é uma fraude, os empresários precisaram se organizar coletivamente. Usando, inclusive, o modelo dos odiados sindicatos: “Por exemplo, como sugerido pela experiência sindical, o gabinete do presidente da Câmara poderia ser um emprego de carreira, com dedicação exclusiva”. Porém, como já era esperado, com salários e rendimentos bem diferentes dos vencimentos dos “pelegos”: “Salários teriam de ser completamente equiparados aos níveis pagos para aqueles executivos importantes para as empresas e os mais prestigiados acadêmicos. Profissionais de grande habilidade em propaganda e em trabalho com a mídia, palestrantes, advogados e outros especialistas teriam de ser recrutados”.

Lewin Powell, o autor do documento que dizia ser necessário colocar juízes amigos nos tribunais superiores, foi nomeado meses depois do Memorando como membro da Suprema Corte Americana pelo presidente Richard Nixon.

O consenso do pós-guerra estava desfeito. A mídia também seguiria a nova tendência. George Packer destacou algumas manchetes de jornais publicados em 1978, período em que a desagregação estava a todo vapor: “Quero ter uma conversa franca com você esta noite sobre o nosso mais grave problema nacional. Esse problema é a inflação”. “Devemos encarar um tempo de austeridade nacional”. “Escolhas difíceis são necessárias se quisermos evitar tempos ainda mais difíceis”. “Obstrução derrota a lei de organização dos sindicatos”. “Líderes da indústria, do comércio e das finanças romperam e descartaram o frágil pacto tácito que existiu durante um período anterior de crescimento econômico”. “A Agência de Poluição Ambiental está preocupada com a poluição sonora! Esses mesmos funcionários da agência, claro, vão para a casa à noite e observam seus filhos fazendo a lição de casa enquanto ouvem músicas ensurdecedoras”. “Eleitores da Califórnia aprovam plano para cortar sete bilhões do imposto sobre a propriedade". “'Os funcionários públicos que vão para o inferno', disse um homem quando saía de um local de votação num subúrbio de Los Angeles”.

O “recrutamento” havia funcionado. A desagregação agiu no modo de vida dos indivíduos, estimulando a concorrência e a atomização dos sujeitos. O homem neoliberal é autossuficiente. É o empresário de si mesmo. É agente do seu fracasso e do seu sucesso. Se ele quer ajuda, essa não vem do Estado, mas, por exemplo, do analista, do coach financeiro ou dos livros best seller que propõem uma autoajuda. A “comunidade de destinos” do pós-guerra estava se estilhaçando. Tais mudanças podem ser percebidas, inclusive, no humor.

Se a sociedade não existe e o indivíduo é o único responsável pelo seu sucesso, seria esperado que medidas que visassem a coletividade fossem encaradas com desconfiança.

No governo, os neoliberais defendiam a disciplina orçamentária, como a contenção dos gastos do governo. O Estado de bem estar social seria desmantelado, as desigualdades sociais aumentariam. A inflação seria controlada por meio do desemprego.

Todas essas mudanças tinham o objetivo de recuperar a vitalidade da concorrência. Os empresários recuperariam a confiança e voltariam a investir. Esse seria o motor do crescimento. Nesse aspecto há uma gritante contradição, percebida pelo economista Ha-Joon Chang: para fazer o pobre trabalhar, seria necessário mantê-lo na pobreza, pois a miséria o estimularia a buscar o seu sustento. No caso dos empresários, a lógica seria diferente. Quanto mais rico, melhor, pois seus rendimentos seriam transformados em investimento e seriam o propulsor do crescimento.

Na prática, como mostra Perry Anderson, os governos neoliberais elevaram os juros. Contraíram a emissão monetária. Diminuíram os impostos sobre os altos rendimentos. Aboliram os controles sobre os fluxos financeiros. Desarticularam os sindicatos e as legislações trabalhistas. E, por fim, privatizaram os bens públicos.

Para Perry Anderson essas medidas tinham três objetivos: 1) aumentar o desemprego e as desigualdades; 2) conter a inflação; 3) recuperar o crescimento econômico. O historiador conclui que eles tiveram êxito nos dois primeiros passos. A queda na inflação e o desmantelamento do sistema de proteção social, como vimos, era fator primordial para recuperação dos lucros. O crescimento, porém, não veio. “Entre os anos 70 e 80 não houve nenhuma mudança – nenhuma – na taxa de crescimento, muito baixa nos países da OCDE. Dos ritmos apresentados durante o longo auge, nos anos 50 e 60, restam somente uma lembrança distante”. (Anderson)

Hayek e companhia passaram trinta anos insistindo que os mercados desregulados seriam mais eficientes e, quando isso acontece, as coisas não saem como o previsto. Por quê? A resposta não é difícil. O mercado desregulado, somando ao achatamento da renda, cria condições mais propícias para o investimento financeiro. Movimentar dinheiro de um lado para o outro é mais seguro e mais fácil que produzir bens de consumo.

Segundo Noam Chomsky, em 1950, 28% do PIB americano vinha da produção industrial e 11% das movimentações financeiras. Em 2010, contudo, as indústrias eram responsáveis por 11% e o capital financeiro por 21%. Os lucros das empresas aumentaram, mas, como também lembra o filósofo, em 2007, 40% dos lucros da General Motors vieram da especulação e não da venda de veículos. As famosas bolhas financeiras são outro subproduto dessa reestruturação econômica.

A austeridade fiscal também não foi alcançada. O desemprego em massa aumentou os gastos do governo e diminuiu a arrecadação. Para controlar os conflitos sociais, o Estado precisou reestruturar seu aparelho repressor. Por ironia, o governo do neoliberal Ronald Reagan apresentou o maior déficit nas contas públicas da história americana. “Enquanto a Noruega, Finlândia, França, Alemanha e Áustria - todos Estados tutelares 'desde criancinha' - jamais recorreram a tais medidas, exceto em épocas de guerra, foram as sociedades anglo-saxônicas entusiastas da liberdade que chegaram mais longe nesse caminho orwelliano" (Tony Judt).

As privatizações também fracassaram. “Ao contrário do que diz a teoria econômica e a mitologia popular, a privatização é ineficiente. (...) O único motivo para os investidores adquirirem empresas públicas aparentemente ineficientes é a eliminação ou redução da sua exposição ao risco, bancado pelo Estado (...). Em condições privilegiadas, o setor privado se mostra no mínimo tão ineficiente quanto o público - repartindo os lucros e deixando os prejuízos para o Estado." (Tony Judt).

Enfim, das promessas neoliberais, eles só cumpriram a de aumentar o desemprego e controlar a inflação. Porém, os investimentos e todo o resto ficaram muito aquém das previsões. Eles também obtiveram um êxito extraordinário em remodelar o comportamento dos indivíduos e destruir os laços sociais de solidariedade.

Desde o final do século XIX até os anos 1970, o mundo vinha num processo de redução das desigualdades sociais. Após a virada neoliberal, contudo, essa lógica se inverteu. As disparidades sociais dispararam e, como nos alertou Thomas Piketty, estamos chegando aos níveis do século XIX. Praticamente um século de avanços foram perdidos. A desigualdade é algo mais sério do que normalmente acreditamos. Ela não afeta somente os pobres, mas também os ricos. Na verdade ela é corrosiva e apodrece a comunidade por dentro. A iniquidade produz mais miséria, não crescimento. E ela tem um limite, não pode crescer indefinidamente. Talvez estejamos perto desse ponto final. Por isso, pensar em alternativas ao neoliberalismo é cada vez mais crucial.


A Desigualdade Como Agente da Ineficiência Econômica e a Emergência Radicalismo Político. Estamos Num Beco Sem Saída?

"A única coisa pior que do que governo de mais é de menos: em Estados falidos, as pessoas sofrem no mínimo tanta violência e injustiça quanto sob governos autoritários, e ainda por cima os trens não circulam nos horários". (Tony Judt)

Há uma lenda que o filósofo Tales de Mileto, admirador dos astros e primeiro homem a prever um eclipse, estava olhando para o céu quando tropeçou numa pedra. Aqueles que presenciaram a cena, zombaram: “pobre Tales, anda tão preocupado com os astros que esqueceu de ver o que estava à sua frente”. Tempos depois, Platão, em defesa da reflexão, respondeu que Tales só caiu porque não olhava direito para o céu. No nosso caso, os astros pouco podem nos auxiliar. Mas, para não cairmos, é preciso olhar para trás ao caminharmos.

Como ficou claro ao longo do texto, existe um abismo entre as promessas dos neoliberais e os resultados que eles entregaram. A começar pelas previsões. Nunca houve na história um Estado de bem estar que tenha sucumbido ao radicalismo. Se isso não era claro na época em que "O Caminho da Servidão" foi publicado, hoje já deveria estar. A Áustria, por exemplo, terra de Hayek, era liberal quando foi submetida ao fascismo. O Hitler sueco é uma ficção. Perdemos muito tempo amedrontados com ilusões. Já passou da hora de encararmos a realidade.

As desigualdades dispararam. Segundo Tony Judt, em 1968 um CEO ganhava em média 66 vezes mais que um funcionário. Em 2010 essa diferença chegou a 900 vezes. É impossível que uma sociedade funcione dessa maneira. As disparidades econômicas se tornaram o principal fator da ineficiência.

O enfraquecimento dos governos não trouxe mais liberdade. Pelo contrário, a expansão da esfera privada em detrimento da pública, bloqueou a democracia. Não existe vácuo de poder. Se uma instância recua, outra avança em seu lugar.

A diferença da Grécia Antiga para as civilizações que a precederam foi justamente que a primeira desenvolveu essa noção de esfera pública. Antes da democratização da política no mundo antigo, veio a democratização do saber, da religião e da terra. Ou seja, as diferenças entre os homens foram encurtadas para que todos pudessem participar das decisões coletivas. O neoliberalismo tem remado no sentido oposto.


O Trickle-down não passa de uma ilusão

Riqueza gera mais riqueza no topo da pirâmide. Empresários ganham muito dinheiro. Usam parte dos seus rendimentos para financiar políticos. Esses, por sua vez, necessitavam cada vez mais de verbas para serem eleitos. Tais financiamentos são fornecidos pelas empresas que, obviamente, exigem contrapartidas. É um ciclo vicioso que impossibilita a prática democrática. Essa é, com efeito, a principal origem da corrupção.

A pobreza gera mais miséria. “Os pobres continuaram pobres. A desvantagem econômica para a imensa maioria se traduz em em saúde debilitada, falta de oportunidades e – cada vez mais – os conhecidos sintomas da depressão: alcoolismo, obesidade, jogatina e contravenções penais” (Judt). Pesquisas mostram que alunos medianos de classe média e alta possuem um desempenho escolar superior a estudante com maior capacidade intelectual, mas que vivem em comunidades carentes. Os níveis de miséria também estão relacionados ao aumento dos transtornos mentais, da violência, do estresse e de ansiedade. As mulheres pobres tendem a engravidar mais cedo. Os alunos pobres abandonam os estudos mais cedo. “A desigualdade, portanto, não é desestimulante por si só: ela conduz a problemas sociais e patológicos que só podem ser resolvidos se lidarmos com as causas subjacentes” (Judt).

A miséria, portanto, não afeta apenas o pobre. O fato de um indivíduo não conseguir pagar a prestação da sua casa própria pode ser encarado como um problema individual. Porém, quando a inadimplência é estrutural, ela pode levar a economia de um país a bancarrota.

No fim, todos serão afetados. Como lembrou o escritor Paul Manson: “a guerra civil na Ucrânia, que levou as forças especiais russas às margens do Dniestre; o triunfo do Estado Islâmico na Síria e no Iraque; a ascensão do partidos fascistas na Europa; a paralisia da Otan na medida em que suas populações negam o consentimento para intervenções militares – esses não são problemas separados da crise econômica. São sinais que a ordem neoliberal fracassou”.
A história econômica do século XX deve servir de guia num momento tão conturbado. Não adianta esperar que essas mudanças venham dos partidos políticos. Os partidos precisam vencer as eleições, portanto, seguem as tendências da opinião pública. Como Krugman mostrou, o New Deal empurrou democratas e republicanos para a esquerda. Do mesmo modo que a onda neoliberal dos anos 1970, os impeliu para a direção oposta. Isso explica a aparente contradição de Clinton ter governado, nos assuntos econômicos, à direita de Nixon. Não era a distinção entre esquerda e direita que estava obsoleta, como afirmaram alguns, mas a política americana que estava girando com outra rotação.

As mudanças ocorrem quando um modelo se esgota. Os problemas se avolumam e as repostas pré-estabelecidas não dão mais conta de resolvê-los. Provavelmente estamos passando por um desses momentos. Segundo a OCDE, o crescimento econômico será fraco nos próximos 50 anos. As desigualdades, por outro lado, irão aumentar em 40%. Crescimento fraco e concentração de renda é uma bomba relógio. É a fórmula para o caos. “Embora o fracasso do mercado beire o catastrófico, o sucesso do mercado é igualmente perigoso do aspecto político” (Judt)

Esse modelo se esgotou. As soluções podem não ser claras, mas elas existem e não precisam passar necessariamente pelo stalinismo. O primeiro passo é olharmos mais detidamente para práticas que deram certo ao longo da história. Sem a experiência histórica, continuaremos a caminhar sem rumo. Perplexos. Atônitos enquanto nosso mundo se esfacela. “Quando o passado não ilumina o futuro, o espírito caminha nas trevas”. (Tocqueville).

Para saber mais

• Tony Judt – O Mal Ronda A Terra
• Tony Judt – Pós-Guerra
• Thomas Piketty – O Capital no Século XXI
• Paul Krugman – A Consciência de Um Liberal
• Paul Mason – Pós-Capitalismo
• David Landes – Prometeu Desacorrentado
• Mark Mazower – O Continente das Trevas
• Noan Chomsky – Requiem Para o Sonho Americano
• Joseph Stiglitz – O Grande Abismo
• George Packer – Desagregação
• Eric Hobsabwm – Era dos Extremos
• Anthony Atkinson – Desigualdade
• Peter Jay – A Riqueza do Homem
• Ha-Joon Chang – Economia: modo de usar
• Flavio Azevedo e Alexandre Saes – História Econômica Geral

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