Quando o neomacartismo no Brasil “Esquenta!”

No Brasil, o neomacartismo de internet caiu como uma luva para uma certa direita, que inventa absurdos motivada por um único motivo: sua defesa de uma ordem em que a pobreza seja tratada apenas como um caso de polícia.

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Surgido como uma proposta de programa popular, especialmente para o público das periferias, o programa Esquenta!, da Rede Globo, tendo Regina Casé como apresentadora (escolhida por ter "cara de povo", conforme a própria disse uma vez), sempre foi alvo de chacota, de teorias conspiratórias ("máquina de propaganda da esquerda") quando não de discurso de ódio dos setores mais conservadores da nossa sociedade. Após 5 anos no ar, o programa "Esquenta!" será cancelado, segundo nota da sua própria emissora. Como era de se esperar, essa notícia foi comemorada por parte da direita, como foi  o caso do MBL, o qual chegou a declarar numa de suas publicações que "a extrema-esquerda (sic) perde um espaço importante de propaganda".

A existência do programa "Esquenta!", bem como seu cancelamento, poderiam ser encarados apenas como mais uma tentativa da emissora em tentar atingir um público alvo, como fez em toda a sua história, e como fazem todos os meios de comunicação comerciais do mundo. No entanto, desta vez, parece que essa tentativa também acabou expondo algo de podre na nossa sociedade e que, pelo visto, ainda está longe de ser superado.

A extrema-esquerda perde um espaço importante de propaganda.

Posted by MBL - Movimento Brasil Livre on Sunday, December 11, 2016

Afinal, por que uma proposta de programa popular incomodou tanto os nossos conservadores, sendo que sequer era popular de fato, já que seu palco estava reservado mais para atrações supérfluas, consumistas e alienantes, além de mostrar a população periférica de uma forma estereotipada?

A esquerda como bode expiatório

Isso ocorre porque vivemos numa sociedade hierárquica extremamente estratificada, em que a elite e a classe média são constituídos por brancos e a grande maioria das classes mais pobres e a população marginalizada são constituídos por pretos e mestiços. Programas explicitamente elitistas, como é o caso do Programa Amaury Junior, não incomodam. As telenovelas, quando são centradas em famílias ricas e de classe média (o que é de praxe), não incomodam. O jornalismo brasileiro, subalterno aos interesses americanos, descaradamente a favor do neoliberalismo econômico e com uma visão de mundo de acordo com as elites de São Paulo e do Rio de Janeiro, tendo o jornalista Willian Waack como uma perfeita personificação da sua linha editorial, não incomoda. Porém, bastou surgir um programa voltado para as camadas mais pobres da população, supostamente popular, para as teorias da conspiração de cunho político e o discurso de ódio usando o programa como pretexto começarem a pipocar.

Essa associação sem nexo que a direita brasileira mais conservadora fez entre o Esquenta! e a "extrema-esquerda", é uma tática velha e inspirada principalmente no macartismo da direita norte-americana. Funciona assim: já que não pode assumir que seu posicionamento contra a representatividade dos mais pobre e das minorias é  motivado por elitismo, racismo e proto fascismo, essa direita tenta a deslegitimar, rotulando-a de forma pejorativa ou como uma invenção de um inimigo que ela constantemente demoniza, no caso, a "extrema-esquerda", mesmo que o programa da Casé não tenha apresentado nada de revolucionário para ser assim chamado. O fato de estar mais para uma conformação da realidade periférica dentro da lógica capitalista, inclusive sendo criticado pela própria esquerda devido à folclorização que fazia da pobreza e por sua conivência com a repressão do Estado nas periferias (confira isso aqui e aqui), convenientemente não interessa. Fatos nunca foram relevantes àqueles que jogam sujo.

A semelhança entre o MBL e a extrema-direita norte-americana: lá o direito dos negros de estudarem nas mesmas escolas dos brancos era chamado de "comunismo".

O real objetivo dessa direita ao fazer tal associação sem fundamento, é utilizar a esquerda como o bode expiatório para tudo aquilo que a sociedade branca e conservadora julga, de acordo com seus critérios baseados em preconceitos e privilégios, como um retrocesso ou uma ameaça.

Os reais extremistas desta história

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Temos inúmeros exemplos na história de como os setores conservadores tentaram deslegitimar os movimentos sociais, mesmo aqueles que não queriam revolução social alguma, mas apenas representatividade, como ocorreu com as sufragistas inglesas, que se tornaram vítimas de uma campanha sórdida contra sua causa. No entanto o programa Esquenta! sequer simboliza luta alguma. Como bem colocado pelo site Blogueiras Negras, não passava de uma moldura negra para a festa branca. A esquerda também era crítica do programa, como já dito acima, mas isso pouco importou para esses conservadores, mais preocupados em demonizá-la do que ouvir o que ela tem a dizer.

O que esperar de uma direita que sequer é tolerante com o entretenimento capitalista mais fútil, caso se atreva a ter como tema a realidade dos mais pobres, mesmo que para tal faça uma abordagem extremamente infeliz e cínica dela, como foi o programa Esquenta! da Regina Casé? O que esperar de uma direita que tem fobia de pobre, que sequer suporta vê-lo como protagonista num programa dominical, mas que não vê problema algum em programas policiais diários, que apoiam abertamente o tratamento truculento dispensado aos periféricos pela polícia, quando não justificam as chacinas que ocorrem nas periferias? O que esperar de uma direita que se diz liberal e que vive dizendo que o real patrão é o consumidor, mas que chama de "extremismo de esquerda" ou "ultraesquerdismo" a tentativa de uma emissora de TV  privada, que busca o lucro, em aumentar sua audiência visando um público com capacidade de consumo, mas sempre ignorado?

Diante disso, fica claro quem de fato representa um projeto extremista: aqueles que, ao contrário da também conservadora Globo, sequer consideram a periferia como um potencial mercado consumidor. Para essa direita, a "ralé" não é digna de ter espaço algum, nem representatividade alguma, mesmo que sejam inofensivos para o status quo. A "ralé" é algo indesejado, que deve saber qual o seu devido lugar e dele nunca mais sair; e cujos problemas e reivindicações devem ser tratados como caso de polícia. O neomacartismo então cai como uma luva para essa direita e possibilita que ela apresente o seu projeto fascista de sociedade como um combate do bem contra o mal, no qual, claro, eles são os angelicais cidadãos de bem defensores da ordem e o outro o diabo comunista, mesmo que seja apenas um periférico querendo assistir um programa no qual se sinta representado.

Referência:

Portal de Periódicos UFSC - Gênero Raça e Ascensão Social (PDF)

Para saber mais:

Mulheres, raça e classe, de Angela Davis
Em Guarda Contra o Perigo Vermelho, de Rodrito Patto Sa Motta

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