segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Dez passos para entender didaticamente como os bancos nos empurraram abismo abaixo

Em apenas dez passos você poderá entender claramente como os grandes bancos globais, os verdadeiros detentores do poder no capitalismo, empurraram o planeta e 99% de sua população abismo abaixo. Eu achava que era coisa para economista com muitos anos de estudo, para experts. Mas, não – ainda bem! A leitura combinada de uma entrevista e um artigo veiculados no Outras Palavras esclarece tudo.

Próximo Anterior

1. Comece pela entrevista do economista norte-americano Michael Hudson clicando aqui – não se apavore, é curta. Ele é especialista em sistema financeiro e consultor de governos como os da Grécia, Islândia e China. Ao lê-la, você entenderá o processo de submissão da economia mundial ao sistema financeiro explicado de maneira simples, direta. O dilema brasileiro atinge todo o capitalismo neste momento: “Quando se diz ‘pagar os bancos’, o que eles realmente querem dizer é pagar os detentores de títulos bancários. São basicamente o 1% mais rico. O que estamos vendo realmente neste relatório [do FMI, nota minha], neste crescimento de dívida, é que o 1% da população detêm aproximadamente 3/4 de todos os créditos. Significa que há uma escolha: ou você salva a economia, ou você salva o 1% de perder um único centavo”.

2. Lendo a entrevista você compreenderá (se eu compreendi todos podem!): é ilusão pensarmos que a PEC 241, que liquida com gastos públicos no país, e a reforma da Previdência são “invenções” dos golpistas brasileiros; descobrimos com Hudson que as duas políticas (redução brutal dos gastos públicos e reforma de sistemas previdenciários) são globais, ditadas pelo processo de financeirização do capitalismo.
Arte de Steve Cutts.

3. O que deixa claro: o golpe não foi um evento nacional, “bananeiro”, mas parte de um processo global conduzido pelo sistema financeiro e os rentistas de todo o mundo. Há desmonte de políticas públicas e reformas dos sistemas previdenciários acontecendo em todo o planeta para, como no Brasil, destinar os recursos públicos para os bancos e o pagamento dos juros das dívidas públicas a eles e aos rentistas.


4. Há um agrupamento misto de pessoas que se consideram “moderninhas” com gente que tem muita clareza do que está em jogo que dizem e escrevem: na pós-modernidade a luta de classes teria acabado e os conceitos de esquerda e direita estariam superados. Não se deixe enganar. A luta de classes está em um momento dos mais cruentos da história da humanidade e todos os aparatos ideológicos como as redes de TV, o jornalismo conservador e a indústria do entretenimento estão mobilizados para desmobilizar os pobres, confundindo-os e vendendo ilusões e mentiras. Se você está no Brasil: pare imediatamente de assistir a TV Globo e a imprensa golpista. Eles só veiculam mentiras, pois fazem parte deste grupo de rentistas que quer liquidar os gastos sociais e a Previdência para que os recursos sejam direcionados todos para eles. Sim, é só disso que se trata: para quem irá o dinheiro.

5. Leia a seguir este artigo de Ranulfo Paiva Sobrinho e Junior Ruiz Garcia, publicado originalmente no Portal EcoDebate e depois no Outras Palavras. Clique aqui. Entenda como a situação pré-falimentar do Deutsche Bank aponta a possibilidade de uma crise muito pior a de 2008.

6. Aprenda com os autores, se você não sabe (eu não sabia), como se dá o processo de criação do dinheiro no sistema bancário. E como os bancos chamados de dealers primários (entre eles o Deutsche Bank) definem este processo de criação do dinheiro subordinando os governos nacionais e os bancos centrais. Descubra, espantado, que estes bancos, verdadeiros gigantes de pés-de barro, são dealers primários de uma série de governos nacionais e podem desencadear um efeito dominó capaz de levar o mundo a uma crise sem precedentes –ao que tudo indica tal crise, está a caminho. Não é algo de uma complexidade apenas para economistas! Você e eu podemos entender!

7.Veja sem falta a figura construída por Ranulfo Paiva Sobrinho e você saberá como há um teia de aparência forte mas de fato frágil que interliga os grandes bancos e os governos dos países capitalistas. Clique aqui. Melhor ainda, clique no link a seguir e veja a imagem interativa. Na medida em que você passar o cursor sobre cada banco, verá o tamanho das conexões e ameaças que eles representam para o planeta: Deutsch Bank e a próxima crise mundial.

Arte de Pawla Kuczynskiego.

8. Por fim, saiba o tamanho da encrenca em que o Brasil está metido. Cinco dos dez dealers primários do Banco Central brasileiro são bancos estrangeiros!

9. Estes bancos, junto com os brasileiros, especialmente Itaú, Bradesco e BTG Pactual (também dealers primários) empurram a lógica dos juros goela abaixo do país, com apoio dos rentistas e dos meios de comunicação. Eles muito provavelmente serão tragados num processo de crise global se de fato o Deutsche Bank quebrar. Os cinco bancos estrangeiros que criam dinheiro no Brasil são: Santander, Bank of America/Merryl Linch, Credit Suisse/CSB, JP Morgan e Goldman Sachs. Veja a lista na imagem abaixo (se quiser, veja a lista na própria página do Tesouro Nacional clicando aqui.

Dealers primários – lista oficial Tesouro Nacional
10. Agora, faça o seguinte: pegue cada um destes bancos estrangeiros e volte às figuras de Ranulfo logo acima no item 7: você verá as conexões de cada um destes cinco bancos no dominó financeiro global (se você for à imagem interativa será simples e surpreendente).

Só a mobilização dos pobres e a união das forças progressistas em cada país e globalmente pode frear esta ameaça que pesa sobre o Brasil e toda a humanidade.

Próximo Anterior

Originalmente publicado em Outras Palavras.

[por Mauro Lopes]

Dez passos para entender didaticamente como os bancos nos empurraram abismo abaixo

Avalie esta publicação

Digite sua avaliação de 0 a 100 ou clique/toque no círculo mantendo pressionado e solte na pontuação desejada.
Você poderá avaliar apenas uma vez.

User Rating 97.3 (30 votes)

Confira Também

Afinal de contas, o que é Apropriação Cultural? Entenda esse conceito que causa tanta polêmica

Apropriação Cultural é um assunto polêmico e alvo de uma avalanche de críticas, como se fosse algo absurdo, mas poucos conhecem de fato o seu conceito.

  • Beatriz

    Artigo excelente, como sempre! Só um adendo, essa parte da entrevista resume perfeitamente o que está acontecendo não somente com o Brasil como também com o resto do mundo:

    “Para salvar os bancos de perdas que ameaçam varrer seu patrimônio líquido, teríamos de nos livrar da Seguridade Social. Isso significa basicamente abolir o governo para entregar o funcionamento do sistema aos bancos, com a ideia de que o papel dos governos é extrair renda da economia para pagar os acionistas e os bancos. […] Quando se diz “pagar os bancos”, o que eles realmente querem dizer é pagar os dententores de títulos bancários. São basicamente o 1% mais rico. O que estamos vendo realmente neste relatório, neste crescimento de dívida, é que o 1% da população detêm aproximadamente 3/4 de todos os créditos. Significa que há uma escolha: ou você salva a economia, ou você salva o 1% de perder um único centavo.

    Todos os governos, de Barack Obama até Angela Merkel, da zona do euro ao FMI, comprometem-se a salvar os bancos, não a economia. Nenhum preço é muito alto para tentar fazer o sistema financeiro ir um pouco mais longe. Ao final das contas, ele não poderá ser salvo, por causa da equação em que está envolvido. As dívidas crescem sem parar. E quanto mais crescem, mais encolhem a economia. Quando você encolhe a economia, reduz a capacidade de pagar as dívidas. É uma ilusão pensar que o sistema pode ser salvo. A questão é: por quanto tempo mais as pessoas estarão dispostas a viver nesta ilusão?”

  • Booker

    O sistema bancário atual só existe devido ao estado. E como solução, vocês defendem mais Estado. Parabéns pela lógico… sqn

    • Rodrigo

      O mercado monetário só existe devido ao Estado. E como solução, vocês defendem mais mercado monetário. Parabéns pela lógica… sqn

      • Booker

        Cara, mercado monetário = estado.

Send this to friend