A Modernidade está te matando aos poucos. Saiba como.

Desde o século XIX Durkheim já nos alertava sobre o mal-estar causado socialmente. Hoje esse problema está em seu nível extremo, o que explica muito sobre a nossa atual realidade.

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Anomia Social:
O Capitalismo Moderno
está te matando aos poucos

Já no fim do século 19, o sociólogo David Émile Durkheim dizia que o mundo moderno era um mundo em anomia, um mundo onde as dimensões sociais estariam tão instáveis que as pessoas começariam a sentir um mal-estar, o qual, em grandes proporções, poderia causar um colapso social.

Mais de um século depois, já no século XXI, ainda hoje vivemos essa condição de grande instabilidade social e emocional. Surtos de depressão, ansiedade e estresse fora do comum não podem ser tratados como problemas ou doenças convencionais. Tratam-se, na verdade, de problemas psicológicos em massa, que são um fenômeno da nossa modernidade avançada (ou pós-modernidade como diria alguns autores), e estão ligadas com o avanço do capitalismo no meio social em que vivemos.



Como o funcionamento social influi diretamente na sua vida

O sociólogo, antropólogo e filósofo francês David Émile Durkheim (Épinal, 15 de abril de 1858 – Paris, 15 de novembro de 1917)

Numa época de crescente cultura do individualismo, as pessoas acreditam que são totalmente independentes da sociedade. Sua origem é antiga, tendo como ponto inicial o avanço do liberalismo na Europa durante a época do movimento iluminista, e, após a Revolução Francesa, conseguiu ir além das fronteiras europeias para se tornar uma crença hegemônica no mundo todo, consolidando-se vitoriosa com o processo de “globalização”.

Em contrapartida, em 1897, foi publicado o livro “O Suicídio”, de Durkheim, que era um estudo de caso mostrando como o meio social pode influir diretamente em nossas vidas. Nele é demonstrado, com base em estudos empíricos, que o ato de suicídio, o qual é considerado por muitos como um ato extremamente pessoal e individual, na verdade trata-se de um fenômeno social.

Ao longo da obra, Durkheim mostra como as taxas de suicídio variam entre grupos sociais distintos, assim como o suicídio pode ter causas distintas. Com base na distinção social das causas, ele elabora 4 categorias de suicídios que possuem relação direta com o meio e o ser social:

Suicídio Egoísta

Ligado diretamente ao isolamento social. A pessoa se sente marginalizada socialmente e perde o interesse pela vida em sociedade. Os laços sociais são tão fracos que o indivíduo perde o senso de pertencimento, sendo assim impelido a tirar sua própria vida.

Um exemplo são suicídios por fim de relacionamento.

Suicídio Altruísta

O completo oposto do egoísta. Ocorre quando a pessoa põe os valores sociais acima da própria individualidade. Os laços com o coletivo são tão fortes a ponto do indivíduo aceitar se sacrificar pelos ideais da sua sociedade.

Esse tipo de suicídio pode ser observado em ações feitas por terroristas, como homens-bombas ou no ato “heroico” dos camicazes.

Suicídio Fatalista

As normas sociais são extremamente rígidas, reprimindo e levando a pessoa ao desespero. Daí vem a noção de fatalidade: embora a pessoa esteja com os laços sociais fortes, ela não se sente confortável, o que a leva a cometer suicídio.

Na nossa sociedade contemporânea esse tipo de suicídio é muito comum em pessoas que sofrem preconceitos.

• Suicídio Anômico

Quando uma sociedade está em colapso como um todo, as regras e normas sociais são confusas, não há objetivo, não há identidade. A pessoa, sem saber o que fazer, é levada a se suicidar.

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Comum em grandes períodos de depressão econômica ou na perda de identidade cultural.

Essas categorias podem ser expandidas para outros fenômenos sociais, que causam mal-estar na atualidade, como a grande taxa de criminalidade, depressão, estresse e ansiedade.


A estrutura capitalista causa Fatalismo social

Cena da ópera rock The Wall, do grupo britânico Pink Floyd.

Como vimos acima, a forma como a pessoa está relacionada com a sociedade pode influir o rumo da sua vida. Os principais problemas psicológicos da modernidade estão ligados com a Anomia Social e com o Fatalismo Social. O primeiro ocorre quando a sociedade está com um funcionamento que levam a fenômenos sociais a um nível fora do normal, a segunda quando ocorrem uma padronização e uma forte disciplina social, fazendo com que as pessoas se sintam reprimidas, causando problemas psicológicos.

O capitalismo é um sistema que exige uma padronização social intensa, literalmente transforma a sociedade humana em uma sociedade de abelhas: as pessoas precisam trabalhar em uma cadeia produtiva extremamente hierárquica e fechada. Todo ato e trabalho humanos nas sociedades capitalistas  é realizado para manter esse sistema, seja o que nós assistimos, seja o que nós estudamos, seja como nós nos relacionamos, seja como compramos…

Tal padronização e tal disciplina não poupam nada, nem ninguém. As crianças já são iniciadas em uma cultura de trabalho desde cedo. A escola é pensada para ser uma estrutura hierárquica e extremamente padronizada – não há espaço para criatividade. As séries, os filmes, as novelas, em suma, todo o entretenimento também é feito nos moldes do sistema.

Dessa forma o capitalismo acaba se tornando um sistema contraditório, pois ao mesmo tempo que depende de um sistema social completamente padronizado e coercivo, ele prega a cultura da individualidade, que o isenta dos fenômenos em massa que ele mesmo causa. Se a pessoa crê que ela é um ser independente da sociedade, então os problemas que lhe causa sofrimento não podem ser responsabilizados pelo sistema social que ela vive.

Aokigahara, a floresta do suicídio, no Japão.

Aqui entra o Fatalismo Social. Desde que o momento que nascemos somos moldados para seguir um padrão constante que não pode ser rompido (caso seja, o capitalismo também será). As pessoas são bombardeadas de responsabilidades para poderem sobreviver no meio social, o que, naturalmente, elas não conseguem suportar sozinhas. Temendo que essa impotência seja interpretada como fraqueza ou “incompetência” para se ajustar numa sociedade padronizada pela lógica do capital, essas pessoas se culpabilizam e acabam desenvolvendo problemas psicossomáticos. As pessoas que conseguem se “ajustar” no sistema não deixam de ser potenciais vítimas também, já que o trabalho desgastante durante horas por dia gera o estresse, que é um dos maiores problemas da atualidade. O Brasil, por exemplo, é o segundo país com maior nível de estresse no mundo.

A crença na individualidade faz com que as pessoas se culpem quando não conseguem ou mesmo estão com dificuldades de se ajustar a essa rotina padronizada. As pessoas lutam com todas suas as forças, sonhando que um dia conseguirão sair dessa situação marginal. Essa luta diária, junto com o estresse, gera a ansiedade. As perturbações que boa parte das pessoas vivenciam diariamente, como preocupações excessivas, problemas com o sono e síndrome do pânico, são alguns dos sintomas.

A depressão entra quando a pessoa percebe que ela não vai conseguir mudar os padrões, então ela é obrigada a viver naquele sistema sem ter perspectiva alguma, como uma abelha sem consciência.

Suicídio é de longe um dos problemas que o estresse, a ansiedade e a depressão podem levar. No Japão inclusive existe um fenômeno social que atinge grandes proporções todos os anos, que é a morte por excesso de trabalho, o Karoshi. A pessoa morre por derrame ou problemas cardíacos, os quais, coincidentemente (?), também são dois problemas que estão em alta nas últimas décadas. Matam mais que o câncer. O acúmulo de problemas psicológicos ao longo dos anos podem levar as pessoas a acumularem outros problemas fisiológicos, estão totalmente correlacionados.

Morte por excesso de trabalho ou Karoshi.

Esse mal-estar social, cuja consequência extrema é o ato de suicídio, acontece porque os seres humanos não são seres lineares, são seres que possuem consciência e precisam de um meio social onde seja permitido a sua transformação ao longo da vida. O homem é um animal que vive em constante mudança. Em contrapartida, o capitalismo é um sistema que não pode suportar mudanças, pois a mínima oscilação que ele sofre pode romper com os padrões que o mantém, fazendo todo o sistema quebrar, numa reação em cadeia. Essa crise na estrutura do sistema leva ao processo de Anomia Social.


As crises cíclicas do capitalismo e a anomia

O capitalismo é um sistema extremamente instável. Tal característica pode ser verificada ao longo da história, são crises em grande escala que provocaram fortes abalos sociais, como a crise de superprodução de 1929, a crise do petróleo de 1973, a crise dos Tigres Asiáticos de 1997, e a mais recente delas, a crise financeira (subprime) de 2008. Embora nós sempre lembramos desses grandes eventos quando falamos de crise, não podemos esquecer que ela também pode designar problemas em menor escala. Crise é quando existe um mal funcionamento econômico e social em um país, portanto, não é preciso ir muito longe para ter algum exemplo. Caso do  Brasil e da Argentina, que são países, entre muitos outros, em crise nesse instante.

As crises no capitalismo não são crises reais, e sim crises abstratas. Embora todo aparato material esteja intacto, um problema abstrato cria a crise, impedindo o funcionamento do sistema. Numa crise capitalista, as máquinas continuam funcionando, a matéria-prima ainda é abundante, todos os meios econômicos estão estáveis, contudo, mesmo assim, o sistema não anda, pois o problema não é de falta de recursos. O capitalismo permite que uma simples inconsistência em um número abstrato bancário, gere como efeito o surgimento de milhões de pessoas desempregadas, mesmo que os recursos materiais não tenham sido modificados. Por isso é um sistema extremamente frágil e oscilante.

Durante as crises abstratas do capitalismo, certas regras e normas sociais impostas por ele ficam ambíguas e sem sentido, como a norma de ter um emprego para sobreviver. Na crise, os empregos ficam escassos, a norma fica sem sentido objetivo, a pessoa precisa de um emprego que não existe. Essa confusão vai ser uma das bases para problemas psicossomáticos que alteram a saúde mental e física das pessoas.


Considerações Finais

O sistema capitalista é um sistema naturalmente feito para potencializar os problemas psicossomáticos, e os normatiza com a cultura individualista. A geração atual precisa viver a base de remédios para  conseguir enfrentar problemas que poderiam simplesmente ser evitados, caso a vida em sociedade fosse mais favorável para o seu desenvolvimento social.

Não devemos achar que é normal sofrer de estresse e ansiedade a maior parte do tempo, muito menos achar que é um problema exclusivo do indivíduo. Como já conferimos, esses problemas alteram o fisiológico ao longo dos anos, podendo levar a morte. Num sistema tão perturbador, quanto mais ficarmos cientes dessa situação, melhor poderemos nos prevenir e saberemos como pedir ajuda quando necessário.

Em tempo: a ilustração de capa deste artigo é do artista japonês Tetsuya Ishida, que cometeu suicídio em 2005…

Referências

• UERJ – Depressão, o mal do século: Que século?
• Revista Juri – Fatos Sociais e Solidariedade
• DURKHEIM, Émile – O Suicídio (PDF)
• CARREIRO, Libia Martins – 
Karoshi – Morte por excesso de trabalho (PDF)
• CCM – 
Distúrbios psicossomáticos
• SOCESP – Doenças do coração matam mais do que câncer e violência

A Modernidade está te matando aos poucos. Saiba como.

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