Você é tão lindo que vou te guardar num potinho – E esse potinho é a Internet

Religião, Filosofia e life-style: o Transumanismo, a criação da Terasem e uma nova comunidade de aspirantes à imortalidade

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Capa: arte de Cameron Gray

Boa parte de nós já deve, em algum momento de nossas vidas, ter considerado e até mesmo desejado a vida eterna.

Entre muitos métodos lendários para se alcançar a vida eterna, estão: os experimentos dos alquimistas, famosas barganhas com forças obscuras (Dorian Gray, como vai o seu retrato?), desafios e jogos contra os Deuses ou tornar-se uma criatura de vida eterna, entre outros tantos jeitos presentes na mitologia, literatura e cultura pop.

E se, até o presente momento, você não se tornou um vampiro e também não recebeu a visita do Demônio para te ajudar nessa empreitada, como será que a Humanidade irá chegar na tão sonhada vida eterna?

Uma mulher, sua amada esposa, uma filha doente e uma serie de acontecimentos extraordinários – como a mulher mais bem paga dos EUA clonou sua esposa virtualmente e propôs a vida eterna 

 Poucas histórias de vida e carreira podem ser mais fora do comum (e por fora do comum, leia: beirando o absurdo) do que a vida de Martine Rothblatt.

Nascida em 1954, Martine Aliana Rothblatt era então um homem chamado Martin.

Martin teve uma brilhante carreira jurídica na área de Leis Espaciais, ou seja, leis que garantem e regulam o uso do Espaço fora da Terra.

Seu papel era defender uma abertura de fronteiras para uso deste espaço, principalmente ao garantir o lançamento e posicionamento de satélites que tornavam a vida na Terra mais fácil. Martin propunha que, com maior cobertura e também com satélites de maiores proporções, os receptores destes sinais na Terra poderiam ser cada vez menores, e ele tinha razão. Seus argumentos, carisma e criatividade levaram às tecnologias que hoje usamos diariamente, como os GPSs em nossos carros, rádios digitais, rastreadores e sistemas de comunicação, utilizando aparelhos e antenas menores e diminuindo o impacto da produção destes na Terra (afinal, temos muito mais espaço…no Espaço). Parecia que Martin seria para sempre o destaque no ramo jurídico das tecnologias de comunicação, mas isto estava prestes a mudar.

Em 1982, Martin se casa com sua alma gêmea: Bina, ambos eram então pais solteiros e em pouco tempo, a família se tornou maior.

Viviam felizes com seus quatro filhos, quando Martin decidiu assumir-se como mulher trans. Apesar da inevitável surpresa de seus amigos, familiares e colegas, Martine contou com o apoio e união daqueles a sua volta durante os difíceis passos de sua transição. Bina declarou “…amo sua alma e não sua forma” e o casamento das duas seguiu feliz e cada vez mais fortalecido.

Durante o início dos anos 90, enquanto Martine ainda estava nos estágios iniciais da transição, Jenesis, sua filha, começa a mostrar sinais preocupantes de saúde. Com apenas 11 anos, Jenesis tinha dificuldade em subir pequenos degraus pela casa e mal mantinha o ritmo em caminhadas de pequena distância.

Após extensa investigação e exames, o diagnóstico não era nada animador: Jenesis foi diagnosticada com hipertensão pulmonar, condição rara e sem cura. Suas esperanças eram poucas, apenas um transplante de pulmão, altamente arriscado e de disponibilidade muito baixa, poderiam salvá-la.

Desesperada com o destino que deram à sua filha, Martine entra numa luta contra o tempo em busca de soluções. Sua mente criativa e determinada a faz cair nos estudos e pesquisas. Mesmo sem qualquer formação ou interesse prévios na área biológica, ela se vê então cercada de livros e artigos científicos, ligações, e-mails e contato com toda sorte de especialistas, em busca de cura para sua filha.

Após abordar perto de uma centena de especialistas, Martine recebe a informação de que um laboratório teria uma droga capaz de estabilizar a condição de Jenesis e lhe garantir mais tempo e qualidade de vida até a possibilidade de transplante. Determinada em obter o medicamento, Martine parte para tentativas frustradas de contato com o laboratório Glaxo, que havia sido recentemente vendido e declarado o fechamento de seu setor dedicado a medicamentos para doenças raras.

Não aceitando o não como resposta (como era de sua natureza) e com a ajuda de campanhas que lançou para angariar fundos, Martine consegue finalmente convencer a Glaxo a lhe vender os direitos da droga (Flolan). O Flolan foi comprado por 25 mil dólares, com a promessa de retorno de 10% à Glaxo caso fosse a mercado.

Só que, mais uma vez, as esperanças da família foram quebradas ao compreender que o que compraram da Glaxo era apenas uma patente e os resultados dos primeiros anos de pesquisa sobre a droga. O medicamento estava longe de ser viável para testes em humanos, que dirá tratamentos.

Outra luta contra o tempo que corria para Jenesis começou, e Martine novamente, com a ajuda de campanhas e de sua influência, conseguiu reunir um pequeno grupo de cientistas para desenvolver a droga. Funcionou.

De homem a mulher trans, de advogado espacial a CEO e magnata da Indústria Farmacêutica: a fantástica jornada de Martine estava apenas começando 

Martine quando era Martin com seu filho Eli em 1981, na Nigéria.

Toda a dedicação em encontrar a cura para sua filha levou Martine a se tornar a fundadora e CEO da United Therapeutics junto ao grupo que lhe ajudou a desenvolver o Flolan. Seus estudos sobre ética e biologia durante o tratamento de Jenesis lhe garantiram um doutorado na área de saúde. A patente do Flolan, que trata condições como a hipertensão pulmonar, enfisema, fibrose cística e fibrose pulmonar, hoje rendem à United Therapeutics 1,5 bilhão de dólares ao ano. Martine Rothblatt tornou-se a mais bem paga mulher dos EUA. Uma vitória pessoal e de toda a comunidade trans. Martine escreveu livros sobre sexualidade e questões de gênero (seu livro Apartheid do Sexo é referência no estudo de gênero até hoje), virando figura reconhecida em ativismo LGBT em todo o mundo.

A United Therapeutics cresceu, abriu seu capital no mercado de ações e hoje é referência em Pesquisa e Desenvolvimento de drogas e terapias para doenças raras/órfãs.

E o que tudo isso tem a ver com a Imortalidade?

Até agora conhecemos um pouco da vida de uma das mais interessantes pessoas vivas e todos os extraordinários acontecimentos que nos levam de volta ao início do texto: como alcançaremos a vida eterna?

Quando Martine percebeu que mesmo com a administração do Flolan isso era apenas uma extensão da vida de Jenesis, e a unica forma de realmente curá-la era por meio do transplante de pulmão, essa foi a largada para mais uma de suas (quase) insólitas empreitadas.

Martine imaginou um mundo onde as pessoas, assim como carros e eletrodomésticos, poderiam viver por muito mais tempo trocando as “partes defeituosas”. Era óbvio que a disponibilidade de órgãos saudáveis para transplante não atendia a demanda de todos aqueles que precisavam de um.

Com a ajuda do geneticista Craig Venter, especialista no sequenciamento do genoma humano, mais um setor da United Therapeutics foi lançado: a área de xeno-transplante (entre porcos e humanos).
Ao alterar geneticamente o DNA dos órgãos cultivados em suínos com ajuda da tecnologia de células-tronco do paciente, isso garantiria um transplante sem riscos de rejeição.

Martine garante que os primeiros testes do xeno-transplante com genoma modificado poderão acontecer ainda nesta década.

Com partes extras, vida longa e saudável, tudo certo, né? Não é bem assim – O impacto da Imortalidade

Resolvido (em partes) o problema dos órgãos de estepe, Martine percebeu que os impactos de uma Humanidade que vivesse para sempre não era talvez a melhor das idéias. Imagine nós, 7 bilhões de pessoas, nos reproduzindo e ao mesmo tempo tendo disponíveis órgãos extras e medicamentos que garantissem nossa vida eterna… É a receita para uma catástrofe em nível global.

Inspirada pelos diversos acontecimentos incomuns de sua vida, como a transexualidade, a quase perda de uma filha e principalmente o amor e devoção de Martine pela sua esposa Bina, que outra centelha apareceu à sua frente: existe um lugar no mundo em que passamos considerável tempo de nossas vidas, praticamente de graça e sem impactos físicos no planeta – a Internet.

A ideia agora era clonar Bina, não no sentido genético, mas de levar tudo que era a essência de sua esposa para outro plano, e também não o plano espiritual (ainda que soe como algo do tipo), mas o plano virtual.

Como fazer o upload da alma? Testando a cybervida e o transumanismo 

Muito do trabalho de trazer Bina para uma cybervida já estava feito: o que ela escrevia em suas mídias sociais, seus e-mails, os conteúdos que acessava, os produtos que comprava, os livros que lia no seu Kindle… Tudo parte integrante do que Bina é em sua vida online.

E com a ajuda de softwares de inteligência artificial, Martine e sua equipe vem conseguindo “transportar” a essência de sua esposa para o mundo virtual. Mais longe ainda do que isso, Martine resolveu criar uma reprodução robótica de Bina.

O busto Bina48 ainda falha em reconhecer comandos e estímulos de fala, não responde com a mesma consistência que a musa que inspirou sua criação, mas o robô chega a reproduzir tiques e trejeitos de Bina e, dependendo do assunto, mantém uma conversa que poderia ser travada pela sua contraparte de carne e osso. No entanto, as impressões e opiniões postadas por Bina48 em redes sociais tem sido cada vez mais próximas àquelas que Bina faria por si.

Martine não é a única atualmente que acredita que nossa eternidade será alcançada no universo digital. O diretor da Google, Raymond Kurzweil e o fundador do PaypalPeter Thiel, são conhecidos entusiastas das idéias de Martine. Ray, além de ter sido colaborador e co-autor do livro de Martine sobre a cybervida, recentemente criou uma empresa dedicada a “extensão da vida” chamada Calico. Ele defende que a reprogramação de sequências genéticas (para identificar, evitar e reverter doenças) e as tecnologias como a impressão 3D de órgãos e bio próteses poderão fazer parte de um futuro de vidas mais longas e saudáveis.  Já Peter Thiel vem investindo em pesquisas na área do transumanismo e cybervida, tendo aplicado mais de 3,5 milhões de dólares nestas causas.

Religião, Filosofia e life-style: o Transumanismo, a criação da Terasem e uma nova comunidade de aspirantes à imortalidade 

Nas palavras de Martine:

” Ser um de nós significa, para mim, que você acredita em extrair o cerne de alguém para além da carne e osso, para o plano das ideias, do conhecimento, da informação… informação no sentido da teoria da informação, que é o da redução da entropia. Que você acredita que a forma humana não está limitada absolutamente em ‘ser humano’, mas que este é um estágio inicial, após o qual os humanos poderão ser muito mais.

Transumanismo – e existem milhões de sabores para ele – para mim é crer na transcendência das limitações humanas. É tão antigo quanto os ancestrais da Idade das Pedras e contínuo desde então, mas agora com uma etiqueta moderna” – em entrevista ao NY Magazine, 2014.

Martine criou a Terasem como a nova religião e filosofia daqueles adeptos ao conceito de transumanismo, junto com o lançamento de seu livro: “Virtualmente Humano – As promessas e perigos da imortalidade digital”, e vem atraindo seguidores, curiosos e entusiastas da ideia de viver para sempre na Internet.

O movimento prega o propósito de educar e informar o público sobre a praticabilidade e necessidade de estender a vida, de forma consistente com a diversidade humana, via nanotecnologia geoética e pela cyberconsciência pessoal, focando em facilitar a preservação da consciência e até mesmo possibilitar a ressuscitação e reconexão de corpo e consciência pós biostase (como a criogenia). O movimento também aponta a necessidade de fazer com que estas tecnologias sejam acessíveis para todos, evitando uma separação de classes, uma elitização dos que buscam a vida eterna.

Martine certamente tem planos ambiciosos, e seu caminho não está livre de críticas e antagonistas.
Muitos não acreditam que a transição da carne para a web vá ocorrer assim tão cedo, outros defendem que dificilmente estas ideias vão atingir à todos, criando mais uma elite no mundo: aqueles que viverão para sempre e continuarão influenciando e dominando o mundo físico, mesmo quando seu corpo já tiver há muito perecido.

Entre eles, o bioeticista Wesley J. Smith aponta que as promessas de Martine tendem a criar um mercado da imortalidade e questiona as implicações éticas de se vender a eternidade. Já o crítico e especialista em tecnologia Dale Carrico discorda firmemente das possibilidades da cybervida sair do papel a curto prazo e traz à tona também as complicações jurídicas que a vida eterna virtual poderia implicar (quais os direitos e deveres de uma consciência existindo no cyberespaço?).

Estas críticas não parecem afetar Martine, pudera, quem em pouco menos de duas décadas passou de advogado espacial e especialista em comunicações digitais para mulher trans milionária, quase perdeu uma filha, se tornou referência em biotecnologia e farmacêutica, quer transplantar órgãos suínos em humanos, “clonou” a esposa e no meio tempo, se tornou piloto de aviões e helicópteros. Não é o tipo de pessoa que se contenta em aceitar os prognósticos que lhe apresentam.

O sonho de viver eternamente ao lado de sua esposa Bina traz a Martine a inspiração para continuar. Podem considerá-la louca, mas louco também não era Shah Jahan quando construiu o Taj Mahal para sua Muntaz?

O agora e o depois – As implicações morais e sociais da Imortalidade

Arte de Cameron Gray

Independentemente de quanto tempo levará para fazermos o upload de nossa consciência para o cyberespaço, o conceito não parece ser assim tão fora da realidade que já nos encontramos, muitos de nós passamos horas de nossos dias “sendo” na Internet, e essa marca que deixamos virtualmente é uma extensão daquela que deixamos no mundo físico.

A possibilidade de vida eterna é tentadora, por vezes, assustadora, dependendo de como encaramos a vida em si, porém, saber que existem pessoas trabalhando para que isso seja possível (e em breve) mexe com profundos e enraizados dogmas da Humanidade.

Viver eternamente teria influência direta sobre tudo aquilo que acreditamos até agora. Esbarra nos preceitos de diversas religiões, põe em questão fundamentos da filosofia, antropologia, psicologia, ética e até mesmo a forma como a História passaria a funcionar.

A Imortalidade num plano virtual não apenas abre portas para uma liberdade de consciência que ainda não podemos nem mensurar, mas também põe à nossa frente todo um novo conjunto de questões quanto à nossa própria Humanidade, aos nossos limites e aos nossos propósitos. Talvez realmente precisemos deste tempo extra para descobrir as respostas…

E você, gostaria de ser imortal?

Fontes e referências:

• TED – A minha filha, a minha mulher, o nosso robô e a questão da imortalidade.
• New York Magazine – The Trans-Everything CEO
• ROTHBLATT, Martine – Virtually Human: The Promise―and the Peril―of Digital Immortality                                              Apartheid of Sex: A Manifesto on the Freedom of Gender

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