Pequeno Dicionário dos Fascismos Europeus entre 1914 e 1945

Fascismo: sua definição, suas características e um pouco de sua história nos países europeus onde ocorreu.

O que é o fascismo?

Como responder a pergunta acima? Ora, uma definição útil é de Robert Paxton, Historiador do fascismo:

“o fascismo tem que ser definido como uma forma de comportamento político marcada por uma preocupação obsessiva com a decadência e a humilhação da comunidade, vista como vítima, e por cultos compensatórios de unidade, de energia e de pureza, nas quais um partido de base popular formado por militantes nacionalistas engajados, operando em cooperação desconfortável, mas eficaz com as elites tradicionais, repudia as liberdades democráticas e passa a perseguir objetivos de limpeza étnica e expansão externa por meio de violência redentora e sem estar submetido a restrições éticas ou legais de qualquer natureza [1]


O que Paxton está sintetizando em sua definição é, na verdade, um resumo de sua tese sobre a dinâmica do fascismo, isto é, estudar o fascismo não se resume a estudar sua gênese ideológica, ou sua dinâmica enquanto movimento político ou mesmo sua tomada e exercício do poder. Estudar o fascismo é compreender como se entrelaçam todas essas fases.

Conceito e Características do Fascismo

Apesar da definição de Paxton ser útil em um primeiro momento, precisamos ir além, tentando explicitar, com mais detalhes, as suas características. O fascismo é um projeto contra-revolucionário sui generis, que descreveremos a seguir:

1. Contexto

Fortalece-se em momentos de crises políticas, econômicas e sociais em regimes parlamentares liberais (sem que sejam, necessariamente, democracias liberais)[2].

2. Ideologia

2.1 Sua ideologia, por um lado, é antiliberal, antimarxista, antidemocrática e também anticonservadora[3]; por outro, é baseada no ultranacionalismo[4], isto é, aquela espécie de nacionalismo que nega a igualdade como valor fundamental, rejeitando, portanto, tanto a esquerda revolucionária quanto a esquerda liberal e social-democrata ou mesmo qualquer tipo de direita democrática.

2.2 Culto à violência e ao militarismo[5]: O culto a violência significa não só o emprego da violência como instrumento político, mas a violência é valorizada como “virtude redentora”, “renovadora do espírito”, “moldadora de caráter”.

2.3 Mito de decadência e de regeneração[6]: O mito de decadência e regeneração sempre expressa ideias de “decaimento”, “apodrecimento” seguidas de meios redentores que gerarão renascimento e renovação da comunidade[7] — é o que Roger Griffin chamou de mito paligenético[8].

2.4 Culto ao chefe ou Führerprinzip: O culto ao chefe é nada mais que conceder cegamente ao líder a última palavra em todos os aspectos do movimento — sua palavra e pessoa são sagradas para os militantes (daí o termo em alemão Führerprinzip ou princípio do líder).

2.5 Vitalismo irracionalista e elitista: Esclarecer o conceito de filosofia vitalista[9] ou vitalismo em poucas palavras não é fácil, dado que ela engloba tanto posições de filósofos que defendem o vitalismo quanto uma noção mais geral de “visão de mundo”.

Em termos muito gerais, com risco de ser extremamente esquemático e até historicamente grosseiro, podemos dizer que filosofia vitalista é aquela que defende que o princípio ou fundamento das coisas é a vida. Em geral, esse tipo de filosofia, no século XIX, opunha-se a correntes filosóficas que diziam ser a razão o fundamento e/ou princípio das coisas.

Esse tipo de filosofia é considerado irracionalista pois, justamente, opõe-se às filosofias que afirmavam ser a razão o princípio de todas as coisas. Mas o que isso teria a ver com o fascismo? Ora, muitas das filosofias racionalistas, p.ex., de origem iluminista, defendiam valores como a liberdade, autonomia do indivíduo, a paz entre nações, etc. As filosofias e as ideologias vitalistas, em geral, quando aplicadas à teoria política e social, pelo contrário, acabaram por, em algumas correntes, como é no caso de alguns precursores do nazismo, não só afirmar ser a vida, em oposição à razão, ao fundamento das coisas, como também opor normativamente à vida aquilo que é vil, amorfo, sem-vida.

Isto é, o “Bem” é identificado com a vida, a regeneração, e o “Mal”, com o degenerado, disforme, etc. A partir dessas teses, muitos ideólogos do nacional-socialismo puderam “justificar” que existem tipos de vida merecedores de vida e outros, degenerados, não.

2.6 Defensor apenas do capitalismo produtivo na defesa de um anticapitalismo “reacionário”: O anticapitalismo reacionário é, grosseiramente, a defesa dos aspectos produtivos da produção capitalista em oposição à esfera financeira (bancos, etc) que são vistos como “parasitas sociais”.

Em resumo, a ideologia fascista é sincrética e muitas vezes incoerente (por exemplo, de um lado é antimarxista, mas por outro, defensora do “capitalismo produtivo” em oposição ao capitalismo financeiro).

3. Estrutura

Como o movimento é estruturado de forma extremamente hierarquizada, o líder tem autoridade máxima; ele é (ou tenta ser) um movimento multiclassista, isto é, que tenha militantes de classes ou estratos sociais dos mais diversos. Outro elemento importante é que o partido ou possui unidades/seções ou é estruturado militarmente por completo.

4. Estratégia

Para chegar ao poder, necessita:

4.1 Democracia parlamentar capitalista para poder se enraizar.

4.2 Alianças com grupos conservadores para chegar, em cooperação conflituosa, ao poder.

4.3 Movimentos e líderes competentes que não caiam em disputas fratricidas.

5. No poder

Quando adquire o poder político, procura silenciar e eliminar seus opositores e antigos aliados, tenta subordinar toda a sociedade à sua ideologia (economicamente, militarmente, culturalmente) o que leva a assassinatos em massa, extermínios e genocídios.

6. O conceito de fascismo

Definimos, portanto, o fascismo como projeto contra-revolucionário, cuja organização política toma a forma de  um movimento multi-classista e paramilitarizado, que ganha influência em momentos de crises sociais generalizadas; sua ideologia é a negação do liberalismo, do socialismo e do conservadorismo, mas une diversos aspectos dessas de forma sincrética aliado a um culto a violência, a um vitalismo irracional e, fundamentalmente, a um mito de decadência e regeneração de um povo ou comunidade. Consegue tomar o poder com apoio de conservadores e governa a partir de uma ditadura, tentando submeter toda a sociedade à sua ideologia e ao seu líder através de políticas genocidas.[10]


Notas e referências

[1] PAXTON, 2007, p.
[2] ver Payne, 1995, cap. 3 e 5
[3] IDEM.
[4] Ver GRIFFIN, 1992
[5] IDEM
[6] IBIDEM
[7] IBIDEM
[8] IBIDEM
[9] SCHNÄDELBACH, 1983, p. 174-92.
[10] Foram usados os seguintes escritos para estruturar tal conceito, sem qualquer intenção de fornecer algo novo do que já fora proposto por estes autores (não estão em ordem de importância): ELLEY (1984); PATTON (2007); PAYNE (1995); GENTILE (2002); CARSTEN (1980); MOSSE (1999); THALHEIMER in BAUER, O. MARCUSE, H. ROSENBERG, A (1970) ; BAUER in BAUER, O. MARCUSE, H. ROSENBERG, A (1970) DE FELICE ( 1995a); GRIFFIN (1992;1998); EATWELL (1992; 1995) ; LINZ (1976; 1980); POULANTZAS in GRIFFIN (1998); WIPPERMANN (1997); STERNHELL (1995;1999; 2015) MAYER( 1977).

Países onde os movimentos fascistas foram vitoriosos

[Alemanha]
[Áustria]
[Itália]
[Hungria]
[Iugoslávia]
[Romênia]
[Tchecoslováquia]

ALEMANHA

Tal como a Itália, a Alemanha foi um país unificado tardiamente. O desenvolvimento do capitalismo foi, em larga medida, impulsionado pelo Estado — deu-se através de construções de ferrovias, indústria pesada, e bancos. A expansão econômica foi muito rápida, aumentando também a urbanização — Berlim tinha, em 1870, 775.000 habitantes; em 1900, 1.888.000 (nesse período 50.4% da população já morava em cidades)[11].

Além disso , ao contrário dos EUA ou da Inglaterra, o sistema político no Segundo Império era praticamente dominado pelo imperador e seu indicado ao cargo, o Chanceller, sustentados pelas elites agrárias (Junkers) — nesse contexto era difícil surgir algum grupo ultra-reacionário como a Action Française (França), que criticasse a democracia e enxergasse nesse sistema político a causa da decadência do país, etc.

Por outro lado, o antissemitismo já era presente em alguns setores alemães, principalmente em círculos intelectuais. Paul de Lagarde, já em 1852 proclamava que os judeus teriam que se adaptar ou ser expulsos da Europa; William Houston Chamberlain defendia a tese da luta racial entre arianos e judeus[12]. O antissemitismo também encontraria base popular em associações populares como a liga Hammer, de Theodor Fritsch ou a liga pan-germânica, que pregava a união do povo alemão, cuja intenção era promover o “senso étnico da população alemã”[13].

No entanto, nesse contexto de desenvolvimento industrial, emergiu um proletariado carente de representação, que, a partir de 1870, aglomerar-se-ia em volta dos social-democratas alemães.

Todo esse cenário sócio-político, tal como para a Itália, foi completamente mudado com a entrada e posterior derrota da Alemanha na guerra. Após serem derrotados em 1918, o que foi inexplicável para a maior parte dos alemães, dada que a propaganda oficial dava a entender que se ganhava a guerra, o império alemão cai e tem-se início a república de Weimar — cidade onde foi promulgada a nova constituição democrática do país.

Devido à crise de abastecimento que se abatera sobre o país, juntamente a insatisfações populares, e a agitação da esquerda revolucionária, ocorre uma tentativa de revolução por parte dos comunistas, que seria brutalmente reprimida pelo governo social-democrata através dos paramilitares reacionários do Freikorps.

Esse ambiente de crise — política, econômica, cultural, social — marcaria a República de Weimar e proporcionaria as condições para a sua eventual obliteração:

  • as tentativas de golpe, tanto à direita, com o putsch de Kapp em 1920, até o putsch da cervejaria do NSDAP alemão em 1923, quando Hitler seria preso; quanto à esquerda, em 1919 e em 1923;
  • a crise hiperinflacionária causada em grande parte pelo excesso de dívida contraídas pelo Estado alemão para financiar a guerra e a necessidade subsequente de honrar os pagamentos impostos pelas potências vencedoras no Tratado de Versalhes;
  • o próprio tratado, que se tornou fonte de crise de legitimidade da democracia pois, para grande parte da população, era um motivo de vergonha nacional, uma vez que parte expressiva do território alemão fora perdido — sentimento que fora explorado pelos direitistas de todo espectro alemão, desde os reacionários do DVNP até os nazistas;
  • a constante insatisfação da população com a República e a frequente imagem de uma ordem política corrupta e de líderes que davam as costas para o sofrimento popular;
  • o caráter antidemocrático e reacionário de muitos grupos e classes que sustentavam República, como o exército, a burocracia civil e o judiciário;
  • os valores ultranacionalistas, reacionários e antissemitas partilhados por uma parte significativa da população;
  • a crise econômica de 1930, que jogaria muitos alemães na miséria, e a crise institucional que se seguiu, tendo à frente governos de direita (formados por coalizões de partidos direitistas como o ZENTRUM, o DVNP, DVP) que governavam por decretos, abrindo o caminho legal para uma eventual ditadura;
  • o ambiente de guerra civil entre comunistas, social-democratas e suas organizações paramilitares de um lado, e os nazistas e as SAs de outro;
  • o ultranacionalismo e oportunismo das elites conservadoras, as quais se aliaram aos nazistas, tentando utilizá-los para subjugar a esquerda.

Esse conjunto de fatores forneceu um ambiente ideal para a tomada do poder dos nazistas em 1933. O NSDAP, formado a partir do DAP (Partido dos Trabalhadores Alemães), era, após 1919, um dos muitos grupos völkissch — isto é, ultranacionalista e racista — que apareceram na cena política alemã no início do século XX. Formado na Bavária- – por Anton Drexler e Karl Harrer– o NSDAP lá encontraria, como também outros grupos de extrema-direita, o ambiente ideal para o florescimento de seu partido, muito devido ao sentimento antirrevolucionário e antissemita gerado pela revolução de 1919, liderado na Baviera por um homem de origem judaica, Kurt Eisner. O NSDAP cresceu chefiado por Hitler, um “demagogo de cervejaria”[14], que atraía um número cada vez maior de apoiadores devido aos seus discursos inflamados e carregados de ira antissemita. Hitler, nascido na Áustria, fora influenciado por antissemitas como Dieter von Schönerer, Richard Wagner e Karl Lueger, prefeito de Viena- de Lueger ele aprenderia que a propaganda antissemita tinha forte apelo popular e poderia limitar o espaço político dos socialistas. Hitler, ao se tornar membro e liderança do partido, escrevera com Drexler o programa do NSDAP, os 25 pontos: exigia a unificação da Alemanha (ponto 1), fim dos efeitos do tratado de Versalhes (ponto 2),medidas “socializantes” como reforma agrária, nacionalização dos trusts ,entre outras (pontos 11 a 15,etc); , “terras para colonização do nosso povo” ( ponto 3) e a atribuição de cidadania somente àqueles que possuíssem sangue alemão , i.e., excluindo judeus (ponto 4 ). Em suma, uma mistura de ultranacionalismo racial, antissemitismo e anticapitalismo reacionário.

A ideologia nacional-socialista era simplista, mas extremamente perigosa e também atraente para muitos alemães: o mundo seria regido pelas leis dos mais fortes. Não existiria luta de classes, mas lutas de “raças”, sendo que a “raça ariana” era superior a todas as outras.  O emblema do partido, a suástica, tinha tal conotação, isto é, de representar a raça ariana- como fizeram alguns grupos völkisch antes do nacional-socialismo.

Nas próprias palavras de Hitler:

“A questão racial dá a chave não somente para a história mundial, também para toda cultura humana” – dizia, no Mein Kämpf.

Essa “raça” deveria submeter e eliminar outras “inferiores”, principalmente os judeus, já que eram os responsáveis pelas agruras do mundo — sendo que aos arianos existia a necessidade de um espaço vital (Lebensraum), o qual era necessário para que pudessem viver. Os judeus e os comunistas, ou o “bolchevismo judeu”, deveriam ser extirpados da face da terra. Em resumo, a “missão” do movimento nazista era clara: destruir o “bolchevismo judeu”. Ao mesmo tempo (…) isso propiciaria ao povo alemão o “Lebensraum”  para que a “raça superior” se sustentasse[15].

Tentando realizar um golpe de estado em 1923, falhando, sendo Hitler e outros nazistas presos, o partido quase se desmembrou, devido a desentendimentos internos. Hitler, após um curto período na prisão, com extrema habilidade reverteu as tendências centrífugas do partido e submeteu todo o aparato do partido a sua liderança, expulsando e eliminando dissidentes — desde Gregor Strasser, partidário da área mais “socialista” do NSDAP até E. Röhm, chefe das SAs — que seria posteriormente reincorporado ao partido; ele foi também o principal ideólogo do partido, publicando o seu pensamento no famigerado Mein Kämpf (cujas ideias acima apresentamos), que, entre 1933-45 tornou-se um best-seller, por motivos óbvios.

Assim, além de um partido unificado, umas das causas pelas quais os nazistas conseguiram se enraizar e criar bases de sustentação foi justamente quando as necessidades locais não eram atendidas pelo Estado. Onde não havia um movimento/partido conservador influente e quando os socialistas ou comunistas não eram fortes, caso de Schleswig-Holstein, também foram fortes fatores.

Grande parte do apoio dos nazistas originou-se de regiões agrárias e com forte presença protestante (como Schleswig-Holstein). É interessante notar que a composição dos membros do partido, quanto a sua ocupação, mudara com o tempo — principalmente com relação ao proletariado. Se a base inicial era composta de ex-combatentes, estudantes, e membros da classe média (desde pequenos comerciantes, servidores públicos, professores, estudantes, etc.[16]), em 1930, o NSDAP contaria com 26,8% de operários, aumentando, em 1933, para 28,6%, de acordo com estatísticas do partido- outros setores expressivos seriam também o de pequenos proprietários rurais (se bem que em 1933, o número proporcional diminuiria, de 13,2% em 1930, para 6,2% em 1933).[17]

Assim, inicialmente, em 1928, nas votações para o Reichstag (parlamento alemão), obtiveram 2,6% dos votos.  O grande salto aconteceu com a crise econômica dos anos 30- dependente de financiamento externo, as indústrias ruíram com a escassez de crédito que se seguiu e a queda abrupta dos preços agrícolas e a quebra de negócio agrícolas levaram grande parte da população do campo à miséria- e da incompetência e cegueira dos governos que se seguiram, perseguindo políticas deflacionárias que agravaram ainda mais a crise.

Em 1930, os nazistas conseguiram 18,3% dos votos, e 37,4%, em 1932, tornando-se, então, uma força considerável a qual nenhum dos conservadores poderia mais ignorar. O uso eficaz da propaganda, com apelos diferentes a grupos diversos- nem sempre o antissemitismo estava presente, além da criação de organizações estudantis, de médicos, mulheres, etc foi essencial na obtenção de resultados eleitores. Em janeiro de 1933, após uma extensa crise constitucional que se prolongava, o presidente Hindenburg deu o aval ao político conservador e ex-chanceler Franz von Papen para formar um governo de coalizão de conservadores com os nazistas, sendo Hitler nomeado chanceler.

Além de tudo o que foi até aqui descrito, devemos enfatizar que o NSDAP conseguiu tomar o poder de forma legal também devido a desunião da oposição, principalmente entre o KPD e o SPD. O KPD, até 1935, atacava os sociais-democratas classificando-os como “social-fascismo”, isto é, irmãos do fascismo e defensores do capitalismo. Os sociais-democratas, por sua vez, rechaçavam qualquer tentativa de um front comum com o KPD. Além disso, o SPD permaneceu apegado a um legalismo suicida, isto é, permitiu que atos ilegais, como o governo por decretos de Brünning e Von Papen, entre 32 e 33, fossem postos a cabo na tentativa de preservar a república e nunca sequer utilizou sua formação paramilitar, a Reichsbanner, para lutar militarmente contra o fascismo alemão.

A partir daí os nazistas realizaram o Gleichschaltung (coordenação), submetendo toda a sociedade alemã aos seus desígnios em menos de 6 meses, enquanto o fascismo italiano, mutatis mutandis, levou 6 anos para realizar o mesmo feito.[18]

Podemos classificar aqui como o início da primeira fase do regime nazista, da sua ascensão e consolidação. Governando por decretos, Hitler convoca as eleições em março de 1933; o incêndio do Reichstag (atribuído a um militante comunista), pouco tempo antes da votação, forneceria a ocasião ideal para jogar na ilegalidade o KPD e impor o decreto que suspendia, de fato, a constituição de Weimar, a Ermächtigungsgesetzt.

Até julho, o judiciário, a burocracia civil, as escolas, as universidades e o exército sofreram expurgos — sofreriam principalmente judeus, comunistas, socialistas e democratas; os partidos, com exceção do NSDAP, foram dissolvidos e proibidos; os sindicatos fechados, sendo substituídos pelo Deutsche Arbeitsfront (Frente de Trabalho Alemã), controlado pelo nazista Robert Ley. O primeiro campo de concentração, em Dachau, perto de Munique, foi aberto em 1933, com amplo conhecimento da população, para prisioneiros políticos.

Entre 1933 e 1939, Hitler concentrou cada vez mais o poder em suas mãos, submetendo a política externa e o exército ao seu comando direto, além de eliminar a oposição política dentro do NSDAP na Noite das Facas Longas, em 1934, quando o comando das SAs e outros políticos conservadores- como Kurt von Schleicher, general das Reichswehr e ex-primeiro ministro, que pensara ser possível utilizar os nazistas para impor sua ditadura- foram assassinados pelas SSs com apoio do exército.

Nesse mesmo período, a economia alemã voltou a crescer chegando ao pleno emprego, sob o comando de Hjalmar Schacht , banqueiro e antigo membro do Zentrum (conferindo legitimidade ao regime nazista, mesmo entre aqueles estratos que votaram contra o nacional-socialismo – apesar do exíguo crescimento dos salários até 1939 ), até que Hitler decidiu, com Göring no ministério das finanças, que a Alemanha deveria entrar em guerra em 4 anos; com isso, todos os esforços do país dirigiram-se à guerra. Ainda nesses anos, Hitler conseguiu se livrar do Tratado de Versalhes, rearmando a Alemanha, invadindo e conquistando territórios, sem perdas militares significativas: a região do Ruhr, depois a anexação da Áustria e a invasão da região dos Sudetos, na Tchecoslováquia.

Tudo isso contribuiu para o estabelecimento do consenso de Hitler e do NSDAP entre os alemães, que somado tanto com os permanentes esforços de Goebells( que, apesar de ter se tornado um hitlerista fanático, na década de 20 fazia parte da ala “esquerda” do NSDAP, junto ao Strasser) no Ministério da Propaganda, valendo-se de veículos como rádio, cinema e jornais, quanto com o terror implacável promovido pela Gestapo polícia secreta do regime , pelas SAs e as SSs, criaria uma das ditaduras mais sanguinárias e genocidas da história.

Não só pela força se constituiu o regime, mas pelo consenso. A figura de Hitler era uma das peças importantes desse processo. Mas também eram as iniciativas como a Força através da Felicidade (Kraft durch Freude– KDF), programa do Front de Trabalho Alemão, como tentativa de cooptação dos trabalhadores: organização de eventos esportivos, embelezamento das fábricas (criação de um ambiente mais confortável de trabalho), feriados subsidiados e mesmo a construção do “carro do Povo” (Volkswagen), foi obra do  KDF.

A falta de movimentos de resistência significativos, exceto pelo atentado perpetuado por militares em 20 de julho de 1944, chefiado por Claus von Stauffenberg, oficial do exército alemão, atesta quão potente fora a junção desses fatores. As duas instituições que até 1937 não tinham sido ainda “coordenadas” [gleischgeschaltet] foram o exército alemão e as igrejas. No entanto, o exército fora submetido completamente ao poder de Hitler em 1937, após supostos escândalos sexuais que envolviam o ministro da guerra, Von Blomberg e o chefe do exército, von Fritsch

A igreja católica,por sua vez, passou de uma postura beligerante para uma atitude mais simpática após 1933, pois tentaram preservar a integridade e legalidade das instituições católicas. Assim, não houve, na Alemanha, nenhuma resistência institucional por parte da igreja católica contra o nazismo. Já as igrejas protestantes demonstravam, antes de 1933, simpatia pelo nazismo. A tentativa de submeter as igrejas protestantes ao nacional-socialismo obteve um sucesso inicial, mas foi depois abandonada devido à resistência organizada dessas. Por outro lado, tal como a Igreja Católica, a protestante também não ofereceu resistência institucional ao nazismo — sequer contra o Holocausto.

Assim, não houve, na Alemanha, nenhuma resistência institucional
— apesar de, haver, sim, indivíduos que lutaram contra o nazismo, como o pastor protestante Niemoller. O pastor ficaria famoso por este poema: “Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”.

É importante notar também o peso da figura de Hitler: pela propaganda oficial, ele era figurado como uma figura heroica, um messias que veio para salvar o povo alemão- tanto um sacerdote como um guerreiro, um homem de ação e de grande envergadura intelectual . Isso conduz ao seu papel de fato- era Hitler um ditador absoluto ou uma figura fraca dentro da ditadura nazista? A conhecida controvérsia entre estruturalistas e intencionalistas na historiografia do terceiro Reich versa sobre isso. O que é mais aceito é que a estrutura de poder nazista era uma poliarquia, mas que Hitler possuía a última palavra em todas as decisões- além de chefiar diretamente as áreas de interesse, como o exército e política externa.

Nesse mesmo período ocorre, progressivamente, com algumas interrupções após 1933 e na olimpíada de 1937 realizada em Berlim, a cada vez maior perseguição aos judeus e aos “indesejáveis ao regime”. Em 1935, a medida mais simbólica desse processo é quando são promulgadas as leis de Nuremberg, que proibiam relações entre “arianos” e judeus. Além disso, pari passu, foi realizado a “arianização da economia”, isto é, quando bens e propriedades daqueles caracterizados como “judeus”eram vendidas e/ou tomadas pelo Estado ou por pessoas e organizações privadas, muitas vezes a preços irrisórios. Por fim, em 1937, ocorre o famoso pogrom, a noite das facas longas, momento simbólico que marca o recrudescimento da violência antissemita.

A segunda e última fase do regime nazista deu-se entre 1939 e 1945, início e fim da Segunda Guerra. Primeiro ocuparia a região do Ruhr, fonte de carvão e tomada pela França após a primeira guerra. Ainda em 1937, ocuparia os Sudetos, anexando parte Tchecoslováquia. Em seguida, em 1938, anexaria a Áustria, no Anschluss.Perseguindo seus objetivos delineados desde o Mein Kämpf, Hitler então invade a Polônia, em 1939. Por tal evento, França e Inglaterra declaram guerra à Alemanha.  A URSS ficaria temporariamente de fora- até 1941- pois havia assinado o pacto de não agressão Ribbentrop-Molotov; de todo modo, Hitler obtém uma série de vitórias rápidas, com a tática da “guerra-relâmpago” (Blitzkrieg), conquistando rapidamente a Dinamarca e Noruega, e depois a Bélgica, Holanda e França ,conquistando todos esses países antes do fim do verão europeu.Convencido, através das vitórias, de ser um gênio militar e cercado de bajuladores, como o general Keitel, Hitler torna-se mais ambicioso. No entanto, o primeiro revés acontece com a perda da batalha da Inglaterra, em 1940. Direcionando seus esforços ao que já preconizava em 1924, isto é, procurando a aquisição do espaço vital (Lebensraum), Hitler decide assim invadir a URSS em 1941, dando início a Operação Barbarossa.

A Alemanha entra em diversas outras frentes de guerra- na África, no sul da Europa, guerras marítimas. Nesse período se estabelece uma “nova ordem europeia” sob o domínio nazista. Os países conquistados são subjugados politicamente — não sem a cooperação e colaboração dos locais, como o regime de Vichy, na França — e espoliados economicamente, enviando divisas para a Alemanha. O mesmo ocorreu com os trabalhadores (muitos escravos) e mesmo bens (roupas, joias, matérias-primas , etc.).

Estava criado o Grande Reich Alemão (Grossdeutsches Reich). Além disso, nesse período, ocorreu a radicalização do eliminacionismo nazista: primeiro, matando os “doentes mentais” (categoria elástica que incluía até pessoas com depressão). O regime nazista, a partir da invasão da Polônia, exterminaria, subsequentemente, um número cada vez maior de pessoas. Eslavos, ciganos, prisioneiros de guerra, socialistas, comunistas, homossexuais e judeus, entre outros. Desde os Pogrons, foi instaurada a prática de violências diárias contra populações inteiras, extermínios em massa realizados por Einsatzgruppen (grupos de ação), marchas da morte, até a criação de campos de extermínio (Sobibor, Treblinka e o mais conhecido, Auschwitz), onde milhões de judeus foram assassinados.

A ideologia de extermínio nazista não conheceria limites, até sua destruição em maio de 1945. Muito disso foi posto a cabo por pessoas comuns e não monstros. Adolf Eichmann, o burocrata da SS que liderou a implementação do Holocausto, é um exemplo. É sabido que a política do extermínio era conhecida pela população, mas o grau de apoio do homem comum a isso é motivo de debates. De todo modo, mesmo que não fossem a favor, poucos foram aqueles que resistiram ou ajudaram judeus a escapar e poucos realmente se importavam..

Retornando ao teatro de guerra: a partir da perda da batalha de Stalingrado, em 1943, e com a entrada dos estadunidenses na guerra (principalmente a partir da invasão da Normandia, em 1944) a Alemanha já teria seu destino selado. À medida em que o regime entrava em colapso, tanto militarmente como economicamente, ele se radicalizava no extermínio dos judeus, na eliminação de qualquer dissidência interna e na utilização de todos os recursos materiais e humanos em uma guerra já perdida.

A virulência destrutiva da ideologia nacional-socialista só foi derrotada militarmente quando a URSS tomou Berlin e pelo subsequente suicídio de Hitler e de sua mulher Eva Braun. O exército, tendo jurado lealdade ao Führer, só parou de combater a partir de sua morte.

Notas e Referências
[11] CARSTEN, 1980, p. 22; Praticamente tudo aqui exposto vem de EVANS (2005;2007;2009), KERSHAW (2010), PAYNE (1995); MORGAN (2003); CARSTEN (1980); NICHOLS (2000) ;EATWELL(1995).
[12] EVANS, 2004, p.23-41; 45-47 CARSTEN, 1980, p. 25-6
[13] IDEM
[14] Expressão de Kershaw (2010)
[15] KERSHAW, 2010, p. 181
[16] MÜHLBERGER, 2003, p. 43
[17] MERKL, 1980, p. 260
[18] WIPPERMAN, 1983, p. 56

ÁUSTRIA

O ditador austrofascista Engelbert Dollfuss (1892-1934) em um comício.

A Áustria tornou-se uma república após a primeira-guerra, com território extremamente reduzido, depois da derrota do império austro-húngaro. A esquerda socialdemocrata, junto ao partido social cristão, conservador, ergueu os alicerces constitucionais da república. Nessa situação a esquerda emergiu com força, especialmente em Viena; foi inclusive responsável pelas agitações revolucionárias, tal como na Alemanha, que se deram após a primeira guerra, em conselhos de soldados e de indústrias.

Vários foram os fatores para o desenvolvimento dos movimentos fascistas austríacos, entre os principais:

  1. As ameaças de invasão iugoslava e da esquerda revolucionária, tanto na Áustria como na Alemanha (na Baviera), motivaram a formação de unidades paramilitares. Mesmo após o fim da ameaça de invasão estrangeira, tais movimentos permaneceram mobilizados em várias províncias da Áustria, como a Stiria e Tyrol, financiadas também por industriais para defender seus interesses;
  2. A crise econômica e o desemprego no pós-guerra, cujos efeitos foram explorados pelos fascistas- as indústrias de carvão austríacas, após o desmembramento do império, perderam as conexões com as regiões fornecedoras de matérias-primas. Isso resultou, juntamente à desmobilização do exército, um desemprego em massa[19].

Com a crise econômica, que também teve caráter inflacionário (que tanto afetou os países europeus no pós-guerra), e o desmembramento da monarquia dos Habsburgos, muitos oficiais, ex-combatentes e pequenos proprietários decidiram se juntar a essas formações paramilitares, as Heimwehr (defesa da pátria). Ao contrário dos Freikorps alemão, as Heimwehr não foram dissolvidas após a vaga revolucionária. Por outro lado, contrário às Heimwehr, estavam os paramilitares da Schutzbund 
formação paramilitar do SPD austríaco, que contava, inclusive, com armas que não foram recolhidas após a primeira guerra. Esse clima de tensão e de potencial guerra civil permeou a república austríaca até o golpe de Dolfuss, em 1934[20].

Desse modo, deve-se mencionar que as Heimwehr tiveram um papel importante em reprimir as greves e revoltas operárias de esquerda que se alastraram pelo país em 1927, muito também a comando de governadores de província do Partido Social Cristão como quanto do primeiro ministro austríaco durante a década de 20, Ignaz Seipel ( também do mesmo partido)[21]. A partir daí tal agremiação tornou-se um movimento cada vez mais forte e, em grande parte, com contornos expressamente fascistas: antiparlamentar, antidemocrata, antimarxista, além de contar com apoio financeiro de Mussolini, sugerido pelo primeiro ministro da Hungria, Istvan Béthlen.

No entanto, a Heimwehr era um movimento sem unidade, sendo alguns mais reacionários e outros mais próximos à ideologia nacional-socialista. De todo modo, em 1929, eles tentaram compor um programa comum, apresentando como um partido político que proclamava a necessidade de “erigir um Estado autoritário baseado em fundações fascistas”[22] e também declaravam: “estamos determinados a tomar o Estado e remoldar sua economia aos interesses do Volk [povo] (…) estamos determinados a realizar um desenvolvimento independente da economia baseado em corporações”[23]. Em 1930, algumas seções paramilitares da Heimwehr tentam realizar um putsch na Styria, mas, como não tem o apoio de outras seções do movimento, inclusive do chefe, Stahremberg, a tentativa de golpe de estado culmina em fracasso. O judiciário, tal como na Alemanha, deu penas brandas para os putschistas.

Outro grupo fascista que surgira após a primeira-guerra foi o Partido Nacional-Socialista Austríaco, fundado em 1903 sob o nome de Partido dos Trabalhadores Alemão (DAPDeustche Arbeiterpartei). Em 1918, mudaram seu nome para Partido Alemão Nacional Socialista (DNSAP). Combinava, inicialmente, o “antissemitismo e uma visão mais socialista com relação aos aspectos econômicos, incluindo demandas de nacionalização de grandes propriedades”[24]. Uma cisão do DNSAP ocorreu em 1926, tendo uma facção se aglomerado e permanecido no partido, que, apesar de antissemita, não se tornou fascista, mas, de todo modo, permaneceu muito marginalizado na política austríaca[25]; outra parte, mais radical e violenta, formou o partido nacional-socialista alemão (NSDAP), versão austríaca da matriz alemã. Tal como na Alemanha, o NSDAP austríaco tinha uma base significativa de proletários em suas fileiras até 1933: 36%, sendo que 4% eram trabalhadores sem qualificação. O restante era composto por integrantes da classe média (vendedores, profissionais liberais, estudantes, etc[26]).

A depressão econômica no início da década de 30 mostrou-se, assim como na Alemanha, o contexto ideal para o sucesso de movimentos fascistas, além de outras condições essenciais já postas, como o irredentismo (Áustria perdera seus territórios após a primeira guerra) e a ameaça da esquerda.

Desta forma, a Heimwehr e o NSDAP austríaco obtiveram, nas eleições do início da década de 30, uma boa votação , atrás do Partido Social Cristão e dos social-democratas.

Após a eleição, em parte devido aos resultados dela, houve uma cisão na Heimwehr[27]: o grupo mais ideologicamente próximo aos nazistas abandonou o partido e uniu-se aos nacional-socialistas austríacos; o restante, ideologicamente conservadores autoritários, formou uma coalizão com o Partido Social Cristão, de Engelbert Dolfuss, que assumiu o poder como chanceler, e, junto com Starhemberg, chefe da Heimwehr, como vice-chanceler, em 1932. Em 1933, Dolfuss fecha o parlamento e governa a Áustria por decreto. Muito do que acontecera na década de 30 na Áustria foi, em grande parte, devido à ameaça que o nazismo alemão constitui para o país, já que lá se propunha a anexação da Áustria pela a Alemanha. Alguns historiadores alegam que Dolfuss derrubou a democracia parlamentar para defender a Áustria contra o gigante fascista alemão (que é uma tese muito discutível).

Pondo o SPD austríaco na ilegalidade, Dolffuss, em 1934, promulga uma nova constituição, corporativista e autoritária. Seu autoritarismo era defendido por correntes do próprio partido social cristão, muito do qual foi baseado na encíclica papal Quadragesimo Anno, em que propunha um sistema anti-liberal e anti-socialista, tanto na economia quanto no social. Nesse sistema, o único partido político permitido, as Heimwehr, permaneceram algum tempo também legais, mas foram desmanteladas pelo governo em 1936. Por outro lado, o Front da Pátria, tal como a F.E.T. na Espanha[28], foi criado pelo governo para aliciar os militantes de movimentos fascistas e controlá-los em uma estrutura hierárquica rígida.

Esse novo regime é classificado como clérico-fascista, tanto pela inspiração católica da nova constituição, quanto pelo fato que o catolicismo se tornou a religião oficial da Áustria. Há debates sobre o quão fascista era o regime de Dolfuss. Alguns afirmam que era fascista, semi ou parafascista. De todo modo, não era um simples regime autocrático.

Os nazistas austríacos tentam, no mesmo ano, tomar o poder e matam o chanceler Dolfuss, mas, no fim, são derrotados, sendo inclusive postos na ilegalidade. Ele é sucedido por Kurt von Schuschnigg, o qual, devido às desavenças com a Heimwehr, dissolve também esse movimento. Entre 1934 e até 1938, quando ocorreu o Anschluss (anexação da Áustria pelos nazis), o regime começara a sofrer pressões cada vez maiores da Alemanha, sendo obrigado, em 1937, a legalizar novamente o NSDAP austríaco. Por fim, após o sucesso da invasão alemã no Ruhr, em 1937, Hitler invade a Áustria e integra o país no recém-constituído Grande Reich Alemão (Grossdeustches Reich).

Referências

[19] WIPPERMAN, 1983, p. 81. .
[20] IDEM, 85-6
[21] CARSTEN, 1980, p. 223
[22] IDEM
[23] IDEM, p. 225
[24] PAYNE, 1995, p. 247
[25] IDEM
[26] BOTZ, 1980, p. 207
[27] MORGAN, 2003, p. 35
[28] PAYNE, 1995, p. 249

ITÁLIA[29]

País que foi unificado tardiamente, como a Alemanha, a Itália, no início do século XX, era uma monarquia constitucional. Em 1882, somente 600.000 de 20 milhões de pessoas podiam votar; o voto universal masculino só é instituído em 1912[30]. Com o sufrágio limitado, o rei tinha amplo poder político. O país era extremamente pobre e possuía graves desigualdades econômicas entre norte e sul do país.

O que dificultava mais a situação italiana era sua falta de recursos internos. Muito tinha que ser importado, fora que o solo, muito árido, e técnicas agrícolas atrasadas impediam o aumento da produtividade no campo. Assim, o país teve de desenvolver suas indústrias com o incentivo estatal, o que não evitou os prejuízos internos, pois a eliminação de barreiras tarifárias entre norte e sul destruiu as indústrias do sul. De qualquer maneira, forma-se um proletariado que, em poucos anos, procurou representação política (tal como também a massa de camponeses presentes no país)[31].

A política italiana, no entanto, era regida pelo “transformismo”, isto é, a cooptação de políticos de diversas matizes por meio de algumas concessões, mas que mantinham o jogo político intacto, preservando o poder político-econômico. O primeiro-ministro, Giolitti, foi o símbolo desse tipo de política, sempre preservando o poder nas mãos da aristocracia e da burguesia, e por outro, fazendo algumas concessões, como a extensão do voto a todos os homens. O jogo parlamentar italiano era dominado pela corrupção, tendo como consequência uma grande desconfiança por parte da população a respeito das instituições políticas do país.

Sob essas condições[32], um dos principais problemas da Itália nesse período, como também em outros países europeus, foi como integrar as massas na política, principalmente o proletariado urbano e o campesinato rural, já que, apesar da industrialização, a economia italiana ainda era subdesenvolvida.

Por tais razões, no final do século XIX, três forças políticas novas foram formadas, que seriam muito influentes nos anos seguintes: os socialistas, que se aglomerariam no Partido Socialista Italiano – PSI; os católicos, que formariam o Partido Popular Italiano – PPI, e os nacionalistas, em que uma parte aglomerar-se-ia em partidos da ordem e a outra em uma das correntes que formaria o fascismo.Ideólogos como Enrico Conradini eram um dos expoentes desse ultranacionalismo, para quem a Itália era uma “nação proletária” e que, tal como o Japão superaria as “nações” decadentes como França e Inglaterra. Outro intelectual era Giovanni Papini, que, inpirado no darwinismo social, cria na renovação nacional promovida pela guerra. Esse nacionalismo também levaria a fundação da ANI (Associação Nacionalista Italiana), donde sairia Alfredo Rocco, teórico do corporativismo fascista.


A situação política do país até 1914 permaneceria dominada pelo transformismo, apesar da emergência de novos movimentos e partidos.

No entanto, o país mudaria com a entrada da Itália na guerra: a mobilização da população para os esforços bélicos, as promessas feitas aos trabalhadores e camponeses por mais direitos (que não seriam realizadas), as aspirações territoriais (irredentismo) que não foram alcançadas (o que mobilizaria os ultra nacionalistas no pós-guerra) seriam fatores que desestabilizaram posteriormente o país. É necessário também mencionar a Revolução Russa em 1917, que serviria de inspiração ao Biênio Vermelho, período de revoltas e greves chefiado pela esquerda socialista entre 1919-20. Com o fim da guerra, uma crise econômica inflacionária eclode, tal como em outros países após a primeira guerra, devido a emissão de papéis pelo governo para financiar os esforços bélicos.

Além disso, outra crise, de natureza institucional instaura-se no país, após as eleições de 1919, quando os socialistas do PSI e os católicos do PPI, que se recusaram a formar um governo, e os partidos conservadores, em minoria, não conseguiram formar sozinhos um governo de coalizão. Suceder-se-iam diversos ministros até que Mussolini assumisse o poder. Esse conjunto de crises era o cenário ideal para tomada de poder pelos fascistas.

O movimento fascista – os Fascii Italiani di Combatimento – foi fundado em 23 de março de 1919, em Milão. Um pequeno grupo, por volta de 200 pessoas, cujo núcleo era composto por egrégios do movimento de vanguarda futuristas, os Arditi, (veteranos de guerra), e diversos grupos de revolucionários intervencionistas (isto é, que apoiaram a guerra), como sindicalistas revolucionários, ex-socialistas e anarquistas. O programa desse fascismo inicial pregava políticas que, aos olhos atuais, estão bem próximas da esquerda, como a proclamação da república, supressão do serviço militar obrigatório, educação e saúde públicas, taxação dos ricos, anticlericalismo (tema que permaneceria constante na ideologia dos fascistas mais radicais), etc.

O chefe desse movimento era Benito Mussolini, um ex-dirigente do PSI e ex-editor do jornal do partido, o Avanti. Hábil e oportunista, fora expulso do partido após apoiar a entrada da Itália na guerra, pois aclamava que a guerra aceleraria o processo revolucionário. Participando da guerra, quando é ferido, volta para casa convencido da necessidade de uma liderança forte, da violência, do sacrifício, enfim, da Vontade (em termos simples, da necessidade de se passar a ação) e de um regime com líderes fortes que possam “salvar a nação”. A guerra fornecera-lhe, ao seu ver, elementos concretos daquilo que leituras como Nietzsche, Sorel e Pareto haviam lhe proporcionado teoricamente. Mussolini inspirou-em também DD´Annunzio, poeta futurista e que, com tropas rebeldes, tomou Fiume, em 1919, hoje na Croácia- devido às tensões nacionalistas que se seguiram no pós-guerra. O governo de D´Annunzio em Fiume foi inspirador para o fascismo. As paradas militares, os discursos de D´Annunzio para o público, os desfiles de camisas pretas e sua tentativa de sintetizar, ideologicamente, aspectos das direita e da esquerda foram inspiradores para regime fascista. Esses traços ideológicos sedimentaram-se com o tempo, como podemos ver em um discurso de Mussolini sobre os temas centrais da ideologia do fascismo italiano, poucos anos depois da guerra:

“Nós criamos nosso mito. O mito é a fé, a paixão. Não é necessário que seja real; é real no sentido em que é um estímulo, é esperança, é fé, é coragem. Nosso mito é a nação, nosso mito é a grandeza da nação! E a esse mito, a essa grandeza, que nós queremos traduzir em realidade total, nós subordinamos toda a realidade. Para nós a nação não é só território, mas algo espiritual. Existem estados que tiveram territórios imensos e que não deixaram traços na história da humanidade. Não é só questão de tamanho, pois houve estados microscópicos que duraram pouco tempo na história, mas que legaram imortais e memoráveis espécimes de arte e filosofia[33]”.

Nas eleições de 1919, entretanto, o fascismo original, assim como Mussolini, fracassam, fazendo com que o movimento se movesse cada vez mais à direita, aproveitando-se, principalmente, da situação política do país.

Com o Biênio Vermelho, muitos proprietários de terra, donos de indústria e a pequena burguesia ficaram extremamente assustados e começaram a incentivar os Squadristi, composto de ex-combatentes, camponeses e filhos de grandes proprietários de terra (principalmente no campo), a destruir sindicatos e sedes dos socialistas e atacarem camponeses que invadiam suas terras, em um processo muito violento, com apoio velado da polícia e do exército. Esses Squadristti seriam incorporados pouco tempo depois ao movimento fascista, modificando a estrutura (agora grande parte dos membros eram pequenos proprietários e trabalhadores rurais) e o direcionamento político do movimento, cada vez mais à direita.

No congresso de 1920, o programa fascista passa por uma mudança radical e passa a propor políticas econômicas liberais, defesa de um estado forte que proibisse greves públicas, defesa da propriedade privada e adoção de uma política externa imperialista. Mussolini incorporou-os ao partido, ora incentivando a violência de seus asseclas, ora tentando controlá-los, limitando a barbárie violenta de seus grupos paramilitares.

Em 1921, o fascismo tinha se tornado um importante ator político na Itália, o qual ninguém poderia ignorar. Tentando dar um golpe de Estado, mas que na verdade foi um grande blefe, dado que o exército e a polícia possuíam forças superiores em número e em armas em comparação aos fascistas, Mussolini ordena aos seus Squadristti que marchem sobre Roma. Por tal feito, em 1922, o rei Victor Emanuel III autoriza, em seguida, a composição de um governo com Mussolini como primeiro ministro, junto com conservadores, liberais e católicos, que enxergavam em Mussolini aquele que poderia ajudar a resolver a crise institucional e política pela qual passava o país.

Entre 1922 e 1925, Mussolini e os fascistas administravam um governo em que o Estado liberal vai gradualmente se decompondo (até a promulgação das leis fascistas em 1925/6) tentando, de um lado, apaziguar os grupos que apoiam seu governo, liberais e conservadores, como também a burguesia, a igreja católica e os industriais, e, de outro, a base do partido fascista, que clama por uma segunda revolução: um estado ditatorial de partido único. Um exemplo dessa política de apaziguamento foi a nomeação de Alberto de Stefani, um economista liberal, para o ministério da economia, o qual, por sua vez, procurou de um lado, balancear o orçamento do governo e por outro reduzir as taxas que incidiam sobre industriais e bancos.

Em 1924, os fascistas ganharam a eleição em uma lista conjunta (“Listone”) com conservadores e liberais, o que fortaleceu o governo Mussolini, até que uma grave crise atingisse o mesmo governo, quando Giacomo Mateotti, dirigente do PSI, foi assassinado. Sendo pressionado por antifascistas e também por alguns conservadores e liberais que apoiavam seu governo, Mussolini hesitava em tomar responsabilidade pelo feito, até que, em janeiro de 1925, ele assume total responsabilidade pelo ato e anuncia a criação da ditadura. Daí a milícia fascista e a polícia atacaram opositores, fecharam sindicatos, organizações antifascistas, etc.

Ao longo de 1925-26 a ditadura fascista foi instaurada e legalizada, com a promulgação das leis fascistas, como a subordinação do legislativo ao executivo, proibição de partidos (exceto o Partido Nacional Fascista – PNF) e pena de morte àqueles que apresentassem perigo “à segurança do estado”[34]. Até 1929, ocorreria a consolidação da ditadura fascista, por meio da criação da política secreta e política Organizzazione per la Vigilanza e la Repressione dell’Antifascismo (OVRA), da destruição do sistema parlamentar, da implementação do sistema de corporações (que na prática só servira para eliminar a resistência operária e permitir que a burguesia operasse como antes), da promulgação das leis do trabalho (carta del lavoro), do acordo com o Vaticano (Pactos de Latrão), etc.

Outro fato a ser destacado nesse período é a subjugação do PNF a Mussolini, principalmente por meio da neutralização dos Ras (chefes dos Squadristti), desde através distribuição de cargos, como ao Ras Roberto Farinacci – que se tornou secretário-geral do PNF em 1925, até expulsão do partido. Além disso, perseguiu-se uma intervenção econômica crescente, como a estabilização da Lira e a procura por autarquia econômica, com a chamada “Batalha pelo Grão”. A partir de 1929 esse processo também se consolida com a depressão econômica, já que o Estado teve de intervir fortemente na economia lançando medidas como a criação do IRI, que comprava empresas quebradas e bancos com problemas financeiros (em 1938, o IRI possuía 18% do capital social das empresas do país) e a imposição de tarifas. Tudo isso permitiu, junto a outras medidas, que a Itália se recuperasse da crise econômica (apesar da estagnação do salário real na década de 30).

Com a consolidação do regime, perseguiu-se um caminho cada vez mais “totalitário”, isto é, no sentido estrito de tentar subjugar toda sociedade à ideologia fascista.A palavra totalitarismo foi pela primeira vez empregado por Mussolini em um discurso de 1925- o filósofo fascista, Giovanni Gentile, usava o termo com o significado de um sistema social que unisse os indivíduos e romperia o abismo entre líder e as massas-  pouco em comum com o conceito cunhado na década de 50. O partido agora, desde 1930, era dirigido por Achilles Starace, posto no lugar de Augusto Turati. Starace era totalmente subserviente a Mussolini — enfatizou o papel de líder do Duce a frente da Itália e ajudou na construção de mitos acerca de Mussolini e do fascismo, em detrimento da atividade política organizada o partido .


O regime empenhava-se em construir o consenso através da força, da propaganda e do culto à personalidade do Duce — “Mussolini tem sempre razão”, repetido sem cessar pela propaganda do regime é a expressão que caracteriza todo esse processo- o próprio esporte, como o futebol, era um dos foco de propaganda fascista.

A criação do consenso era feita desde a idade infantil, por meio de uma pedagogia fascista: criação das organizações de juventude como as Balila, criação de grupos universitários fascistas, obrigatoriedade dos professores de adentrarem em associações fascistas, etc.

Essa construção também se estendia aos adultos, principalmente em relação aos trabalhadores: a instituição de uma grande quantidade de atividades de lazer e socialização fascista por meio de uma organização destinada a cooptá-los após as horas de trabalho. Cada cidade e vila possuía um clube da Opera chamado Opera Nazionale Dopolavoro, onde havia uma pequena biblioteca, auditório para filmes e pequenas agências de turismo[35].

Os veículos de massa foram usados para produzir o consenso, como o rádio e o cinema (apesar de ser um processo menos intenso em comparação com a Alemanha nazista). O projeto ideológico fascista é criar um “homem novo”, que creia, obedeça, combata e contribua para a criação de um império-o mito da “Romanità” (“Romandade”), era característico disso. Não só servia para unificar o povo italiano além das divisões de classe, mas também para justificar sonhos de dominância sobre o Mediterrâneo.

A atividade imperialista foi outro fator que aumentou a popularidade do Duce e do fascismo: a invasão e conquista da Etiópia ( onde, tal como na Líbia, a ocupação italiana foi brutal: na Etiópia, os italianos cometeram crimes de guerra, como uso de gás mostarda, extermínio de civis, uso de campos de concetração,etc) , a qual marcou também uma política externa mais agressiva, que durou até o início da segunda guerra. Essa política externa imperialista concebida por Mussolini, transformou-o em mediador dos conflitos diplomáticos entre Alemanha, França e Inglaterra, em especial quando a Alemanha ameaçava invadir a Tchecoslováquia e anexar os Sudetos (o que se concretizou). Outro importante fato da política externa do período é que a Itália fascista apoiava uma grande quantidade de grupos fascistas e semi-fascistas na Europa, como as Heimwehr na Áustria, em uma tentativa de tanto criar uma internacional fascista quanto de compor uma gama de influência do fascismo italiano sobre outras nações.

No final da década de 30, Mussolini alinhava-se diplomaticamente cada vez mais da Alemanha nazista, inclusive mimetizando suas práticas internas nazista-, com o Pacto Anticominterm e com o Pacto de Aço, assinada com a Alemanha e Japão, que garantia a o apoio militar em caso de guerra contra um dos seus membros (além de, evidentemente, da criação do Eixo Roma-Berlin). A mais simbólica desse processo foi tornando a Itália um Estado antissemita: todos os judeus- 48.000 pessoas em 1938, a partir desse ano, foram oficialmente discriminados. O efeito prático disso foi menor que na Alemanha, já que muitos italianos não apoiavam essa política; muitos dentro do próprio partido eram contra: um em cada 3 judeus era membro do PNF na década de 30; Aldo Finzi, que tinha uma cadeira no Grande Conselho Fascista, era judeu.

É justamente a partir do início da segunda guerra que se iniciou a derrocada do regime. A Itália entrou tardiamente na guerra, em 1940, depois que a França já estava sendo derrotada pelos nazistas. Ela invade a Albânia e uma parte do sul da França, anexando tais territórios. Esse sucesso inicial leva Mussolini a invadir a Grécia em outubro de 1940, o que se mostra desastroso, devido a incompetência militar dos generais e do Duce, além da falta de equipamentos e do despreparo das tropas: 14.000 homens são mortos, 3000 desaparecem e outras dezenas de milhares são gravemente feridos, sem qualquer resultado militar crível. Os gregos foram derrotados somente com a ajuda dos alemães. As outras experiências fascistas na guerra são igualmente desastrosas, como as operações no norte da África. 

A vitória decisiva dos aliados contra a Itália dá-se na invasão da Sicília, em 10 de junho de 1943. Além das derrotas militares, internamente, os grupos que apoiavam o fascismo desde início do regime, já haviam se afastado desse, uma vez que grande parte do povo, do exército, da igreja, da burguesia e o próprio rei tentavam sair da guerra- as sucessivas derrotas quebraram a moral das tropas, além da escassez interna de produtos básicos . Além disso, a resistência antifascista crescia cada vez mais, tanto a ligada aos comunistas e socialistas, quanto a outros grupos que agora pregavam a derrubada do fascismo. Em 25 de julho de 1943, o conselho fascista, órgão consultivo criado em 1923 que reunia os dirigentes do PNF, cuja função era em geral propagandística, toma a decisão de retirar Mussolini da liderança e prendê-lo, a partir de uma moção de Dino Grandi.

Hitler não deixaria seu flanco sul sem defesa e, por isso, logo invade a Itália, resgatando Mussolini da prisão e dando-lhe, em teoria, o controle de um novo regime, que na prática, era uma mera marionete nas mãos dos alemães. Um novo partido fascista foi fundado: o PFR: em 1943, contava com 250,000 membros . O exército- na verdade, uma junção de alguns grupos do antigo exército, outros paramilitares e até gangues-de Salò era comandado pelo marechal Rodolfo Graziani. A República de Salò, como foi conhecida, formada pelos fascistas mais radicais e sanguinários, tentou restituir ideologicamente as forças originais do fascismo: o anticlericalismo, o anti-capitalismo, a ética irracional do sacrifício, o espírito guerreiro- os fascistas mais fanáticos aliaram-se a Mussolini, como Roberto Farinacci. No congresso de novembro de 1943, do novo Partido Fascista Republicano, foram aventadas propostas como estabelecimento de conselhos de operários em fábricas, criação de um judiciário independente, programa de nacionalização de empresas, etc . Tais aspirações não se realizaram, com exceção da extrema violência contra dissidentes e do antissemitismo virulento, provocando a deportação de  7000 judeus para campos de concentração. No período da república fascista, eclode, de fato, uma guerra civil na Itália, entre fascistas e nazistas de um lado, e antifascistas e aliados de outro. Ao contrário da Alemanha, cuja resistência ao nazismo fracassou, na Itália comunistas e não-comunistas uniram forças para lutar contra o fascismo. Tal união antifascista foi o cimento ideológico fundante da República Italiana no pós-guerra. O Regime e Mussolini conheceriam seu fim em 28 de abril, quando o Duce e sua amante, Clareta Petacci, foram capturados, fuzilados e seus corpos expostos na Piazza Loreto em Milão, tornando-se alvo da fúria popular.

[29] DE GRAND (2000); BERNSTEIN&MILZA (1980); BOSWORTH(2002) ;EATWELL (1995); TANNEBAUM (1970); PAYNE (1995); GENTILE (2002); PAYNE (1995); MORGAN (2003).
[30] CARSTEN, 1980, p. 17
[31] CARSTEN, 1980, p. 18
[32] DE GRAND, 200, p. 3-20
[33] MUSSOLINI, p.44 IN GRIFFIN, 1995
[34] GENTILE, 2002, p. 20
[35] IDEM, p. 33

HUNGRIA

Membros da Cruz Flechada fazendo saudação fascista.

A Hungria foi um país que, logo após a primeira guerra, fornecia as condições necessárias e suficientes para o desenvolvimento de um fascismo local:

  1. Perda de territórios – já que era uma pequena parte do antigo império austro-húngaro; após o acordo de paz em 1919, o país perdeu 53.5% de seu território- o que geraria demandas subsequentes por parte de nacionalistas pelo repatriamento das terras perdidas- restando somente 7,600,000 pessoas no país[36].
  2. O país foi palco de uma revolução socialista, chefiado por Béla Kun, em 1919. Ela seria derrotada pelo almirante Horthy com ajuda de exércitos romenos. Seguiu-se um período de brutalidade contrarrevolucionária, no qual pogroms foram feitos contra judeus e comunistas, cortes especiais julgaram e condenaram a morte ou a longas penas muitos revolucionários. Esses eventos enfraqueceriam a esquerda na Hungria até 1945, quando a URSS invadiu o país. Todos esses acontecimentos deixaram a burguesia e oligarquias rurais amedrontadas, o que as conduziu a apoiar movimento autoritários e de extrema direita.
  3. Uma crise econômica que se abateu sobre o país após a primeira guerra.

De todo modo, o regime político imposto ao país no pós-guerra foi um autoritarismo “moderado” (em comparação com o regime nazista, por exemplo), com eleições fraudadas, nas quais se alternavam liberais e conservadores – sendo que aos socialistas foi permitido participarem do pleito, mas negado aos comunistas (postos na ilegalidade). Além disso, a partir das leis eleitores de 1922, somente a 50 % da população era permitido votar. Chefiado pelo almirante Horthy e pelo primeiro ministro István Béthlen, o regime tornou-se menos repressivo e estável ao longo da década de 20, o que não possibilitou a tomada de poder por parte de um movimento fascista. Porém o antissemitismo na Hungria era muito difundido e aceito, tanto que leis antissemitas, como a restrição a judeus no serviço público e em repúblicas estudantis, foram promulgadas no governo Béthlen. Em 1936 seriam promulgadas leis semelhantes às Leis de Nuremberg.

Apesar disso, o exército era fortemente anticomunista, antiliberal e em grande parte fascista. O jovem oficialato era mais suscetível à cooptação por ideais extremistas: “o exército tornou-se um corpo separado do corpo político, e os oficiais consideravam-se destinados a salvar a nação”[37].

Das fileiras militares surgiram movimento extremistas como o MOVE- Associação de Defesa Nacional Húngara, formado por oficiais, de ideologia ultranacionalista e antissemita, liderado por Gyula Gömbos. Gömbos já sonhava em tomar o poder e realizar, tal como os fascistas italianos em Roma, a sua “marcha sobre Budapeste”. No entanto, o movimento permaneceu marginal durante esses anos.

Com a crise econômica na década de 30, a qual, na Hungria, foi causada pela queda dos preços agrícolas devido à ascensão do nazismo na Alemanha, o ambiente político interno tornou-se cada vez mais repressivo e autoritário. O primeiro-ministro Béthlen não agradava aos ultranacionalistas e antissemitas, pois seguiu as diretivas do tratado de paz de 1919 e tratava os judeus com leniência.

Diante dessa pressão, Gömbos tornou-se, na década de 30, primeiro-ministro. Mas, para o desapontamento de seus antigos companheiros fascistas, permaneceu mais ”moderado”, devido ao poder de Horthy. Gömbos nem dissolveu o parlamento, nem conseguiu se tornar ditador como o Mussolini (apesar das intenções de transformar a Hungria em uma ditadura fascista de partido único). Entretanto conseguiu impor medidas autoritárias, como restrições à liberdade de imprensa e pactuou, em secreto, com Göring, o estabelecimento de um sistema similar ao terceiro Reich no país. Esses planos falharam quando Gömbos faleceu em 1936.

Nesse ambiente emergiram diversos movimentos e partidos fascistas, dentre eles, a Cruz da Foice, liderada por Zoltán Bözörmeny, cujo programa era cópia do NSDAP de 1920; e o Partido Nacional Socialista Húngaro dos Trabalhadores e Camponeses, cujo emblema era uma suástica.

O partido fascista Cruz Flechada de Szálazi.

No entanto, o único deles a se tornar um movimento de massas foi a Cruz Flechada, liderado por Szálazi, um antigo oficial do exército Húngaro. Fundado em 1935, sua ideologia e princípios eram designados pelo epíteto “Hungarista”: um “socialismo” ultranacionalista, racista, antissemita, corporativista, que pretendia integrar as classes sociais em uma comunidade nacional; e imperialista, pois também ambicionava conquista a Eslováquia, Croácia, Eslovênia e outros países.

Tal sociedade, para Szalási, só seria possível por meio de uma guerra que introduziria um “cataclismo mítico”, culminando em uma ”nova ordem milenária”[38] liderada pelos húngaros. A ideologia do movimento apelava em especial aos trabalhadores: Szalási defendia o planejamento agrícola, transformação do proletariado rural em pequenos proprietários e a criação de cooperativas. Além disso, a economia seria dirigida por corporações, os bancos nacionalizados, o trabalho transformado em direito, enquanto as greves eram proibidas[39]. Filosoficamente, a visão de mundo de Szalási era fundamentalmente vitalista, aliada a um irracionalismo místico. Tudo isso pode ser atestado em suas próprias palavras:

“O Hungarismo é um sistema ideológico. É a prática húngara da visão socialista nacional do mundo e do espírito do tempo. Não o hitlerismo, nem o fascismo, nem o antissemitismo, mas Hungarismo. Assim, O Hungarismo significa socialismo, o afinar junto aos interesses morais, espirituais e materiais do Eu e do Nós. Tem como objetivo não a felicidade de indivíduos particulares privilegiados ou classes, mas a totalidade dos indivíduos e das classes. (…) O Hungarismo não é designado para um país mutilado, (…) nem para as necessidades do povo húngaro, mas para todos [que vivem] nos arredores do rio Danúbio, [em volta] das montanhas do Cárpato(…). O Hungarismo assegura a paz para os húngaros e para as nações vivendo aqui, a Pax Hungarica(…). O Socialismo nacionalista é o expert da paz, da paz de todos. Seu executor: a Nação. (..) ele, portanto, existe sem o judeu. (…) [devemos] solucionar a questão judaica, não de acordo com um “sistema estrangeiro”, (…) mas de acordo com nossas circunstâncias peculiares, nacionais e habilidades nacionais húngaras”[40].

Em outro escrito ele complementaria:

“Eu fui selecionado por uma autoridade divina para redimir o povo Magyar [etnia majoritária na Hungria]. Aquele que não me compreende ou perde confiança que se vá! No máximo, eu permanecerei sozinho, mas mesmo sozinho, eu criarei o Estado hungarista com a ajuda da força secreta que está dentro de mim!”[41]

Assim, em 1937, pouco tempo após a fundação do movimento, a Cruz Flechada uniu-se a diversos outros grupos fascistas, criando o “Movimento Nacional Socialista Húngaro Unido”. Em 1938, Szalási foi preso, o que contribuiu aos olhos do público para a criação de um mártir. Esses dois fatores, e o apoio material ideológico da Alemanha nazista, ajudaram a impulsionar o movimento. Estimativas vão de 200 até 300 mil militantes entre 1938 e 1939[42].

Pelas análises de historiadores, o movimento era composto de partes da pequena burguesia (artesãos, pensionistas, etc), partes diversas de elementos lumpem da sociedade – muitos indivíduos que haviam cometidos crimes não políticos (roubo, assassinato, etc) – e também do proletariado urbano e trabalhadores rurais. Quanto aos líderes do movimento, eram geralmente provenientes de meios militares e/ou servidores públicos.

Em 1939, os Nacional-socialistas húngaros obtiveram, oficialmente, na última eleição antes da guerra, 25 % dos votos, o que lhes garantiu 1/5 das cadeiras do parlamento caíram nas mãos dos fascistas. Grande parte dos votos, refletindo em parte a composição do partido, vieram do proletariado urbano, de trabalhadores rurais, mineiros e funcionários públicos. Parte disso se explica pela impossibilidade dos socialdemocrats organizarem essas categorias, devido à proibição governamental após 1920[43].

Apesar disso, o partido não conseguiu se aproximar do poder. A legião falhou em grande parte, pois a crise econômica já arrefecera e também porque o próprio governo conservador Húngaro começou a impor medidas que foram propostas pelos fascistas, como restrições aos direitos dos judeus, aproximação diplomática com os nazistas, entre outras, o que, por fim, enfraqueceu o movimento de Szalási. Outro acontecimento importante foi a cessão de territórios perdidos devido aos tratados de paz de 1919, os tratados de Viena, de 1939, arbitrados pelos nazistas e por fascistas italianos. Isso permitiu a re-anexação de parte da Eslováquia, da Tchecoslováquia, e do norte da Transilvânia, na Romênia[44] — um dos objetivos da doutrina da Cruz Flechada. Dessa maneira, o Movimento perderia militantes a partir de 1941.

Até 1944 não houve nenhum acontecimento que favoreceu os fascistas, até que o próprio Hitler ordenasse a invasão da Hungria para conter o avanço soviético, colocando Szalási no controle do regime. Porém, uma vez no poder, ele não queria se tornar uma marionete nas mãos dos nazistas. Em abril de 44, encontrando-se com um emissário alemão, informou-o que governaria em seus próprios termos. Restaria à Alemanha aceitar o programa do movimento, em que os ministérios chave seriam por ele escolhidos[45]. Além disso, ele se recusava a abandonar suas atividades literárias: mesmo em guerra, devotava grande parte de seu tempo a escrever seu livro sobre a ideologia hungarista[46]. Essa intransigência, falta de praticidade e de saber político contribuiu para que o seu curto regime sofresse cisões internas e imobilismos.

A Hungria rendeu-se aos soviéticos em abril de 45. Szalási e seus asseclas fugiram e adentraram no território alemão. Após o fim da guerra foi condenado e executado por seus crimes de guerra[47]. O regime de Szalási foi curto, mas violento, já que, como colaboracionista dos nazistas, contribuiu para o extermínio de centenas de milhares judeus húngaros.

Referências

[36] CARSTEN, 1980, p. 171
[37] IDEM, p. 172
[38] PAYNE,1995, p. 272
[39] CARSTEN, 1980, p. 177
[40] SZALÁSI in WEBER, p. 157-61
[41] SZALÁSI APUD DÉAK, 1965, p..388-9
[42] LACKÓ, 1980, p. 396
[43] MORGAN, 2003, p. 80
[44] IDEM, p. 81
[45] CARSTEN, 1980, p. 180
[46] PAYNE, 1995, p. 420
[47] IDEM

IUGOSLÁVIA

O ditador croata Ante Pavelić vai até a casa do ditador Adolf Hitler, em Berchtesgaden, Alemanha (1941).

A Iugoslávia era formada por diversas repúblicas, cada uma contendo uma etnia majoritária diferente, como sérvios, bósnios, eslovenos, etc. Após a primeira guerra, a Iugoslávia se torna uma República, porém, devido ao caráter fragmentário do Estado iugoslavo, foi muito difícil a formação de coalizões, prejudicando o sistema parlamentar. Isso fortaleceu, por outro lado, os partidos e organizações nacionalistas, em sua maior parte de direita, caso da Organização Nacionalista da Iugoslávia (ORJUNA), Clube Acadêmico Iusgoslavo (YAK), entre outros. No entanto, somente na Croácia um movimento fascista conseguiu se fortalecer.

Em 1929, o rei iugoslavo imporia sua ditadura, a qual terminaria apenas com sua morte, em 1934. Seguiu-se um regime parlamentarista, mas pouco democrático. Uma das razões para isso foi a estreita relação com a Alemanha nazista, dado que a crise econômica que se abalou sobre o país nos anos 30 foi superada por meio de acordos comerciais com essa ditadura, chegando a corresponder 50% do comércio exterior.

Soldado do temido grupo fascista Ustashi segurando a cabeça de um sérvio.

Dentre os movimentos fascistas mais importantes desse período se destacaram o ZBOR de Lyotic, na Sérvia, e o Ustashi, de Anton Pavélic, na Croácia. O ZBOR (convenção), o qual alguns autores classificam como autoritária ou proto-fascista (mas não fascista), tinha a ideologia baseada no Führerprinzip, no corporativismo, e foi fundado sobre uma hierarquia rígida. Não teve sucesso em eleições parlamentares, ganhando apenas 0.86% dos votos em 1935 e, em 1938, 1.01%. Quando a Alemanha ocupou a Iugoslávia, o ZBOR apoiou os nazistas, contribuindo desde com soldados para lutar no front e contra o exército partisan de Tito, até com policiais para a repressão interna.

O Ustashi (“insurgente”) foi criado em 1929 e, apesar da ideologia nacionalista croata, tentou angariar apoio de outros movimentos separatistas iugoslavos. Ele recrutou seus primeiros seguidores na Itália, onde muitos imigrantes iugoslavos habitavam, contando com apoio financeiro de Mussolini. O grupo, mesmo que pequeno durante a década de 30 e organizacionalmente mais parecido com uma sociedade secreta[48], era muito ambicioso: foi responsável, junto com os separatistas macedônicos, pela morte do rei Alexandre.

Em 1937, Mussolini cortaria os fundos do Ustashi e também seu apoio bélico, jogando Pavélic na prisão e enviando seus companheiros para as ilhas de Lipari[49]. No entanto, eles foram depois liberados e, durante a segunda guerra, por ordens de Hitler, o Ustashi governou o país, logo após os alemães terem deposto os militares, os quais governavam o país também após um golpe. Antes de chegarem ao poder, o Ustashi contribuiu para inflamar o debate interno no país, tentando culpabilizar os “inimigos internos”, judeus e sérvios, pelos problemas[50].

A ideologia ustashi era um ultranacionalismo místico, no qual a Croácia seria a “parede defensiva do ocidente cristão, primeiro contra os nômades orientais, depois contra os invasores turcos, e contra a tirania “oriental” eslava e o comunismo”[51]. Além disso, o movimento tornou-se plenamente antissemita por influência nazista, apesar de não conter o elemento anticapitalista do NSDAP. A ideologia ustashi era herdeira de um partido nacionalista do século XIX, o Partido da Pura Direita, que defendia a criação de um estado croata[52].

Quanto ao recrutamento, o Ustashi angariava seus membros em extratos pobres da população urbana, mas muitos estudantes, intelectuais e membros do clero também faziam parte do movimento (seminários e escolas da igreja eram locais de forte concentração de apoiadores do Ustashi); já os camponeses eram pouco representativos. Partes do clero, inclusive, tal como na Eslováquia, foram funcionários do Estado Ustahi e estavam entre os ideólogos do partido[53]. No entanto, o Ustashi não era um regime, tal como o Hlinka na Eslováquia, clérico-fascista, uma vez que a facção secular era dominante[54].

Logo que tomaram o poder, a Croácia se tornou uma ditadura de partido único na qual a violência étnica era constante. Em pouco tempo, milhares de pessoas de etnia sérvia seriam expulsas ou exterminadas – aproximadamente 250.000 pessoas foram mortas. Além disso, o Ustashi promoveu a sua própria versão da solução final, sem que houvesse ordens de Berlim, exterminando milhares de judeus. No fim, seus membros foram derrotados pelos partisans iugoslavos de Tito, os quais executaram por volta de 50.000 fascistas.

Referências

[48] BERNSTEIN&MILZA,2015, p. 429
[49] IDEM
[50] AVACUMOVIC, 1970, p.140
[51] IBIDEM, p. 405
[52] JELINEK, 1980, p. 370
[53] IDEM, p. 371
[54] IDEM

ROMÊNIA

À direita: os fascistas romenos General Antonescu e Horia Sima (líder da Guarda de Gvozdene).

A Romênia, mesmo no início do século XX, era um país predominantemente agrário, subdesenvolvido, com poucas indústrias e formado majoritariamente por camponeses de etnia romena e uma pequena classe média e burguesia, as quais, em sua maior parte, ou eram estrangeiras ou judaicas (4.2% da população). Tal configuração das classes mais abastadas, fez muitos trabalhadores rurais identificarem a exploração econômica com o judaísmo . Essa associação seria uma das muitas feitas que contribuíram para o antissemitismo na Romênia (mesmo muito antes disso, o antissemitismo já era presente na população, quando os senhores de terra romenos se utilizavam de judeus para cobrar taxas e administrar suas propriedades)[55].

Após a primeira guerra, a Romênia encontrou-se em uma situação na qual seus territórios aumentaram, tornando-se um estado multiétnico, incorporando diversas novas etnias- húngaros, russos, ucranianos, etc. De acordo com estatísticas oficiais da época, 70% da população era de etnia romena, a segunda maior, de húngaros, com 9%, no norte da Transilvânia (região anexada após 1919); seguidos por judeus, com 5% do total e de alemães, com menos de 5% do total da população[56].

O sistema político romeno, antes de 1918, era dominado por dois partidos, no qual se intercambiavam no poder, ora Liberais, ora Conservadores. Extremamente corrupto, não atendia às demandas históricas dos camponeses, como a reforma agrária. Após 1918, houve algumas mudanças[57]. A demanda por reforma agrária seria parcialmente atendida em 1920, quando Averescu, primeiro-ministro do Partido Popular, tentou realiza-la — essa demanda dos camponeses é importante para entender o apoio de muitos ao fascismo nativo. Em 1923, foi promulgada uma constituição democrática, que permitiu, durante uma década, a formação de coalizões, tendo o partido dos Camponeses sido o único a governar em um período democrático antes de 1989.

Além disso, a Romênia fazia fronteira com a recém-constituída União Soviética, o que era percebido por muitos romenos tanto como uma ameaça a sua soberania, quanto também como uma potencial ameaça interna, já que muitos trabalhadores foram influenciados pela revolução bolchevique.

A Legião do Arcanjo Gabriel contra o demônio.

O ultranacionalismo e o fascismo romeno desenvolveram-se sob essas condições. Um dos primeiros movimentos ultranacionalistas que surgiu no início do século foi o Partido Nacional Democrata, fundado por Iorga e Cuza. Este era um professor de economia política da faculdade de Iasi. A solução dos problemas políticos do país para Cuza baseava-se na expulsão de judeus e estrangeiros do país. Cuza também era anti-liberal e antidemocrata, mas defendia a necessidade de uma reforma agrária[58]. Um de seus alunos foi Corneliu Codreanu, que seria o fundador da Legião do Arcanjo Gabriel, movimento fascista romeno mais forte no entre-guerras.

A Legião, que surgira em 1927 na Universidade de Iasi, sob a liderança de Corneliu Codreanu, era produto da cisão da Liga da Defesa Cristã Nacional, movimento direitista, antissemita e nacionalista, da qual faziam parte Codreanu, seu pai e Cuza. O programa da Liga, seguindo o pensamento de Cuza, era, fundamentalmente, a exclusão dos judeus do serviço público, do exército e das universidades, eliminação dos partidos, entre outras medidas extremamente autoritárias.

Assim, a Liga absorveu ao longo dos anos uma miríade de pequenos grupos fascistas que surgiam nas universidades[59]. A Legião no início era extremamente elitista, para poucos era permitido a entrada no movimento. Só que, para alcançar o poder, isso seria um empecilho. Então Codreanu fundou, com tal intenção, em 1930, a Guarda de Ferro, um movimento cuja finalidade era lutar contra “o comunismo judeu”[60], tendo a Legião como centro diretor de tal organização. Inicialmente, o movimento era muito pequeno, mas já na eleição de 1931 conseguiu 73.000 votos. A ideologia legionária era muito sedutora para uma massa de camponeses empobrecidos, desejosos de mudança e também infectados por um virulento antissemitismo.

A legião do Arcanjo Gabriel seguiria o projeto ideológico da Liga, radicalizando-o, mesmo que sem contornos claros. A ideologia do movimento era, de todo modo, uma mistura de um ultranacionalismo antiliberal e anticomunista, de um fundamentalismo (e misticismo) cristão-ortodoxo e de um antissemitismo virulento; por fim, era fundada em um mito de regeneração nacional com objetivo de criar um novo homem (omul nou em romeno)[61], que, em muito, apelava aos camponeses. A legião defendia a violência não só como meio, mas também como fim: o martírio pela pátria e pela Legião, mesmo que a custa da danação eterna na crença cristã, era a maior honra que um legionário poderia prestar ao movimento.

Por conta disso, mesmo para um movimento fascista, a legião era incrivelmente mórbida, praticamente um culto da morte[62]. Muito disso pode ser atestado nas palavras de Codreanu, quando ele relatava o início do movimento:

“esse grupo de jovens [em 1927] era o início da vida legionária. (…) ele tinha de ser colocado em chão sólido. [Mas] eu não construí um programa político novo, além dos outros dez presentes na Romênia. (…). Todos acreditam que o país está morrendo por falta de bons programas. (…) [na verdade] o país está morrendo por falta de homens, não de programas. É isso que eu penso. Portanto, não são programas que precisam ser criados, mas homens, novos homens. Pois da maneira em que homens hoje são sobrecarregados com politicagem e infestados pela influência judia, eles são destinados a comprometer programas políticos brilhantes. (…) . É por isso que o fundamento das legiões é o homem; não os programas políticos(…). Dessa escola dos legionários um novo homem deve aparecer, um homem com qualidades heroicas. Um gigante em nossa história que lutará e vencerá todos os inimigos da pátria, sua luta e sua vitória estendendo-se além, até os inimigos invisíveis, até o poder do Mal. As melhores almas que nossas mentes podem conceber, (…), os mais corajosos e mais empenhados que nossa raça pode produzir, isso é que as escolas legionárias devem produzir! Um homem no qual todas as possibilidades da grandeza humana que Deus semeou no sangue do nosso povo devem ser desenvolvidas até o máximo. (…)”[63].

Além disso, o Führerprinzip (princípio do chefe) era outra pedra fundamental na ideologia da Legião: Codreanu era o chefe, ao qual todos deviam obedecer cegamente. Seus Seguidores proclamavam: “ele, nós amamos; a ele, escutamos; estamos a suas ordens; Ele é a esperança e a esperança da Romênia de amanhã. Nós somos fortes através dele. Nós somos temidos através dele. Nós venceremos através dele”[64].

Assim, o movimento cresceu muito na década de 30, apesar de sua proibição e posterior retorno a legalidade, mesmo em um ambiente cada vez menos democrático. Em 1933 ela possuía 28.000 membros, chegando, no final de 1937, a 200.000 membros. De acordo com estimativas de historiadores, a maior parte de seus militantes, apesar de sua ideologia direcionada aos camponeses, eram estudantes e militantes de classe média, como burocratas estatais, profissionais liberais, etc[65]. Na eleição de 1937, em união com o partido dos Camponeses Nacionais, obtiveram, mesmo sendo uma eleição fraudada, 15,58% dos votos (posteriormente se soube que o percentual real era de 25%).

A legião tornou-se o terceiro maior partido do país obtendo votos de regiões agrárias e em que possuíam minorias étnicas, dado seu apelo xenófobo e antissemita direcionado ao campesinato[66]. O ambiente político mudou no país quando o rei Carol dissolvera o parlamento e todos os partidos políticos em fevereiro de 1938, criando também, na tentativa de cooptar muitos fascistas, o Front do Renascimento Nacional. Codreanu dissolveria a Legião logo em seguida.

No entanto, a Legião sofreria um grande golpe em 30 de novembro de 1938, quando Codreanu e outros 13 chefes foram executados pelo governo, sob a alegação de terrorismo e de cooperação com inimigos externos. Muito sangue correu, em ambos os lados, sendo que alguns legionários se exilaram na Alemanha.

Mas a Legião não perderia força, mesmo sob a ditadura do rei Carol. O seguinte fato contribuiu para isso: devido a perda da Transilvânia para a Hungria, a cessão da Bessarábia e outras região à URSS, e outros territórios à Bulgária, por determinação alemã, em 1940, o governo do rei Carol, derrotado pela desmembramento do país, cairia, tendo o rei e sua família deixado o país poucos dias depois. Um novo governo foi estabelecido, chefiado por Antonescu, um ultranacionalista radical e germanófilo. O governo ditatorial foi exercido com apoio da legião, agora liderada por Horia Sima, em uma espécie de diarquia entre o movimento e o próprio Antonescu. Apesar de não ser a maioria no governo, a influência da Legião seria extensa.

No entanto, nesse ínterim, muitos militantes enxergaram aí a oportunidade para acertos de contas pessoais e para “arrecadar” fundos para uso pessoal. A polícia dos legionários matou e torturou muitas pessoas, confiscando suas propriedades e obrigando-os a vendê-las aos próprios legionários a preços irrisórios. Esse tipo de conduta, e a cada vez maior fricção entre Horia Sima e Antonescu, levaria a um inevitável conflito[67]. Em 21 de janeiro de 1941, Horia Sima ordenou que Antonescu se retirasse do cargo e lhe entregasse em seguida, provocando uma revolta liderada pelos legionários. A luta durou dois dias e a Legião foi dizimada pelas tropas governamentais. Antonescu agora possuía plenos poderes e seguiu como aliado de Hitler.

Tal regime, uma ditadura de direita autoritária, mas não fascista, aliado da Alemanha nazista, promoveu um genocídio em terras romenas: 200.000 a 300.000 judeus foram exterminados por soldados e policiais romenos. A ditadura de Antonescu também chegou a enviar tropas para combater os soviéticos, contudo ela desmoronou quando a URSS invadiu a Romênia.

Referências

[55] CARSTEN, 1980, p 181
[56] IDEM
[57] PAYNE, 1995, p. 135
[58] CARSTEN, 1980, p. 1982
[59] IDEM, p. 184
[60] IDEM, p. 187
[61] PAYNE, 1995, p.281.
[62] IDEM, p. 280
[63] CODREANU, p. 168-9 IN WEBER, 1964,
[64] WEBER, 1965, p. 532
[65] BARBU, 1980, p. 390
[66] IDEM, p. 392
[67] CARSTEN, 1980 p. 190-1

TCHECOSLOVÁQUIA

O eslovaco Alexander Mach, comandante da Hlinka, e o alemão Wilhelm Frick, Ministro do Interior, em um encontro na Alemanha (1942).

A Tchecoslováquia, no período entre guerras, era uma democracia razoavelmente consolidada e uma nação formada por três etnias: os tchecos, os eslovacos e os alemães. Estes residiam em sua maior parte na fronteira com a Alemanha (os Sudetos), uma região anexada à Tchecoslováquia devido aos tratados de paz no pós-primeira guerra. Sob tais condições, desenvolveram-se (ou não) movimentos e partidos fascistas.

Na Eslováquia, a região rural mais pobre do país, formou-se um partido inicialmente reacionário católico, o Partido do Povo Eslovaco de Hlinka, formado em sua maioria por camponeses e integrantes do clero eslovaco, que era apoiado pela burguesia das pequenas cidades. Conseguiu ter 30 % dos votos na região eslovaca em 1936.[68]

Um pouco antes da invasão da Alemanha, em 1938, a ala fascista do partido tomara o poder e, “fascistizando” o partido, entregou-se o poder ao padre Monsenhor Tiso. Tal partido governou a Eslováquia como um governo subordinado à Alemanha nazista. Durante a segunda guerra, após a partição da Tchecoslováquia, a constituição do estado reconhecia sua base na “lei divina” e declarava ser parte da “comunidade cristã nacional ”[69].

O regime formado na Eslováquia é considerado por estudiosos do fascismo[70] como clérico-fascista, com similaridades aos regimes de Franco e Salazar[71], pois aqui o clero participava do governo: o presidente era um padre e seu politburo era formado por muitos membros do clero. Padres e freis chefiavam organizações estatais estudantis e de jovens, coordenavam indústrias e firmas, além de interferirem politicamente na questão dos costumes, como na questão sobre o casamento. Cada setor do regime era composto por padres, freis, bispos, etc. Tal governo contribuiu tanto para os esforços de guerra contra os aliados quanto para o holocausto.

Já na parte alemã, vários grupos, movimentos e organizações fascistas surgiram na década de 20, sendo que o mais importante foi o Partido dos Sudetos Alemães (região fronteiriça com a Alemanha), abertamente nazista (Goebbels discursou, em 1930, em um encontro do partido, em Praga[72]) que chegou a obter 85% dos votos na região em maio de 1938 . O partido foi incorporado ao NSDAP após a invasão alemã.

Por fim, na região tcheca, os movimentos fascistas não tiveram tanto sucesso, como foi o caso do Campo Nacional Tcheco (Vlajka), inspirado pelo fascismo italiano e pró-nazista, que obteve uma votação de 2% em 1932 e chegou a ter 30.000 membros por volta de 1939; ou também o NOF, Liga Fascista Nacional, liderado pelo general Gajda, antinazista, anticomunista, mas também antissemita. Sua finalidade era destruir o comunismo e formar um estado pan-eslavo, do qual também uma eventual Rússia não comunista poderia fazer parte[73]. O insucesso deveu-se ao desenvolvimento econômico da região tcheca e de forte apoio à democracia nessa parte do país .

Referências

[68] PAYNE, 1995, p. 402-3
[69] IDEM, p. 403
[70] JELINEK, 1980, p.367-70
[71] PAYNE, 1995, p. 402
[72] HAVRÁNEK, 1970, p. 53
[73] PAYNE, 1995, p. 309

Países onde os fascismos tiveram menos sucesso

[Escandinávia (Noruega, Dinamarca, Finlândia e Suécia)]
[Espanha]
[França]
[Inglaterra]
[Países Baixos (Bélgica e Holanda)]
[Polônia]
[Portugal]

ESCANDINÁVIA (Dinamarca, Finlândia, Noruega e Suécia)


Finlandeses membros do Movimento IKL fazendo saudação nazista (1933).

Com exceção da Finlândia, nenhum movimento fascista conseguiu adquirir grande apoio ou maior sucesso no entre guerras. Uma razão para isso foi que, na Escandinávia, conservadores e sociais-democratas cooperaram e formaram governos de coalizão, isolando os fascistas. Outro motivo foi que os próprios fascistas, ao contrário dos nazistas ou fascista italianos, permaneceram demasiado puristas e preferiram ficar em torno de seu séquito, sem fazer qualquer tipo de concessão política ou alianças com partidos conservadores; ademais, os partidos comunistas permaneceram, com exceção da Finlândia, pequenos. Por fim, as crises econômicas que atingiram os países nórdicos na década de 30 foram efetivamente solucionadas pelos governos sociais-democratas, que estenderam o políticas de welfare à grande parte da população.

Assim, como consequência de tais fatos, na eleição de 1939 na Dinamarca, o Partido Nacional-Socialista Dinamarquês (DNSAP), moldado à imagem do NSDAP alemão (além da suástica e dos uniformes, o próprio programa do partido era, na verdade, uma tradução literal do programa de 1920 do partido nazista alemão), conseguiu seu “melhor” resultado: 1.9 % dos votos. Além da rejeição da população em todos os cantos do país e de outros partidos ao nazismo, em especial após 1933 (tomada de poder dos nazistas na Alemanha), o próprio “Führer” do DNSAP era considerado alguém sem carisma e um alcoólatra, o que contribuiu para o fracasso do movimento[74].

Na Suécia, o fascismo também permaneceu politicamente isolado. Os partidos fascistas mais importantes eram o Movimento de Reunião Nacional (NSB), de Elof Eriksson, a Reunião da Liberdade Nacional-Socialista Sueca (SNF), dos irmãos Furugård, e o Partido Nacional Socialista Sueco (SNP) de Sven Hedengren e Seven-Olof Lindholm. Da junção dos dois últimos, os maiores partidos fascistas na década de 30, a partir de uma aliança eleitoral, foi criado o Partido Popular Nacional-Socialista (NSF), cuja ideologia era inspirada, obviamente, em seu homônimo alemão[75]. No entanto, a união partidária produziu frutos eleitorais irrisórios, conquistando somente 0.7 % dos votos em 1937.

Por outro lado, desde 1929, agitações fascistas de cunho antissemita em ambientes universitários não eram negligenciáveis. Em universidades, manifestações de entre 12.000 a 15.000 pessoas reivindicavam políticas restritivas de imigração, especialmente, após 1933, contra aqueles de origem judaica. Essas reivindicações xenófobas e antissemitas encontraram eco na organização de juventude do partido conservador, de cunho protofascista, a qual demandava a proibição de organizações comunistas e a construção de um Estado forte e corporativista.

Além disso, por fim, é importante mencionar que, apesar do consenso democrático interno, a Suécia realizou trocas comerciais lucrativas com o terceiro Reich e também aplicou políticas imigratórias restritivas, as quais prejudicaram os judeus que fugiam do terror nazista[76]. Essa mácula pairaria sob a imagem do país nos anos pós-guerra.

Por sua vez, na Noruega, o Nasjonal Samling (União Nacional), de Vidkun Quisling, ex-adido militar na Rússia, que fora ministro da defesa no governo de coalizão em 1932, foi a organização fascista mais influente. Sua ideologia baseava-se tanto em um racismo nórdico quanto em uma mistura sui generis sincrética entre nacional socialismo, democracia e comunismo e, ao mesmo tempo, no anti-socialismo e antissemitismo. Conseguiu 2.2% dos votos em 1932 e, depois, em 1936, caiu para 1.84%. A União Nacional de Quisling, além dos das causas já citadas no parágrafo inicial desse verbete, não conseguia mobilizar paixões nacionalistas, apesar do Estado norueguês ter se tornando independente da Suécia em 1905. Além disso, não havia minorias étnicas significativas na Noruega que pudessem ser objeto da animosidade fascista[77].

Quisling, posteriormente, seria ordenado pelos nazistas como chefe de Estado da Noruega e o NS se tornaria o único partido permitido, mas, como não gozava de apoio no país, foi retirado do poder por Hitler e substituído por um governante alemão. Além disso, o governo do NS, mesmo com o Comissário do Reich, Josef Terboven à sua frente, não conseguiu obter a paz necessária para que a produção de guerra no país fosse facilitada. A desobediência civil era comum e a influência da ideologia nazista não conseguiu conquistar a população. A única política de sucesso no país foi a institucionalização do partido, o NS, que chegou a ter 55,000 membros, além de seções de crianças e jovens. Contudo, isso não se reverteu em efeitos práticos para os nazistas, como a criação de um Estado corporativista, ou da instauração do Princípio do chefe (Führerprinzip) em todas as cadeias de decisão do Estado[78].

Poster do Movimento do Povo Patriótico.

Na Finlândia[79], por outro lado, a fascismo teve mais sucesso. O país fazia parte do império czarista, até a revolução de abril de 1917, quando a Finlândia, aproveitando-se dessa oportunidade, proclamou sua independência. Outro fator importante para compreender o fascismo finlandês: a esquerda social democrata e também a revolucionária eram fortes na Finlândia desde 1905; com a independência, seguiu-se a primeira eleição, em 1917, na qual os socialdemocratas conquistaram mais de 50% das cadeiras.

Os socialistas, em 1918, após uma greve geral, proclamaram a formação de um governo revolucionário. Por outro lado, contrapondo-se aos socialistas, grande parte do exército, cujo oficialato tinha treinado na Alemanha, que seria, em grande parte, reacionário e conservador, formou uma força paramilitar,a guarda civil, que, com a aliança do exército alemão, reprimiu a onda revolucionária. No entanto, ao contrário da Hungria, os socialistas puderam continuar a existir politicamente, o que possibilitou a constituição do partido comunista em 1918. Eles permaneceriam fortes na década de 20. Nas eleições de 1922 conseguiram 14.6 % dos votos.

Por fim, economicamente, a guerra civil provocou grandes danos, em especial para a população no campo (60% dos trabalhadores ativos). Foi necessária realizar uma reforma agrária, mas que para pequenos proprietários de terra foi insuficiente, pois tiveram que se endividar para reconstruir suas propriedades[80]. A essa conjuntura interna, soma-se a guerra travada contra a União Soviética, vencida em 1920 pelos finlandeses. Sua memória serviria de combustível ideológico para a extrema direita.

Nos anos 20 esse conjunto de fatores contribuiria para a formação de uma mistura de associação de alunos e de think tank, a Sociedade Acadêmica Karelia (SAK); formada por jovens egressos da guerra contra a URSS e estudantes universitários, a qual chegou a ter entre 2000 e 3000 membros. Extremamente elitista, sua ideologia era fundamentalmente um ultranacionalismo racial e imperialista, que pretendia estender a “grande Finlândia” até os Urais, excluindo a população sueca do país, uma vez que a Finlândia estaria “infestada” de elementos alheios que não pertenceriam a uma suposta “raça” finlandesa. Tal “raça finlandesa” conteria, de acordo com ideólogos do movimento, elementos “raciais” nórdicos, finlandeses e bálticos. No entanto, tal associação nunca conseguiu se tornar um movimento de massas, não se estendendo além de círculos acadêmicos.

O anticomunismo, por outro lado, permaneceria o cimento ideológico dos movimentos tanto de extrema direita (a guarda civil, por exemplo, que não fora dissolvida após a guerra civil, com 100.000 membros, admirava na mesma intensidade o fascismo italiano quanto odiava os comunistas e socialistas), quanto dos partidos conservadores.

Esse sentimento traria consequências desastrosas para a esquerda. A partir de uma revolta anticomunista em 1929, na cidade de Lapua, surgiu o Movimento homônimo Lapua. Obteve uma grande adesão por parte de combatentes, burocratas, camponeses. Entretanto, era ideologicamente um movimento reacionário unicamente anticomunista. Por tal motivo, alguns autores não o classificam como fascista. No entanto, era extremamente violento e influente entre a população. O principal objetivo do Lapua era pôr na ilegalidade o partido comunista, o que, em junho de 1930, através de uma marcha até Helsinque, pressionando o governo, conseguiu alcançar.

Com isso, o suporte à agremiação autoritária começou a declinar. Os membros do Lapua, insatisfeitos, agora tinham como objetivo destruir os socialdemocratas e todos os outros partidos, limitar os gastos estatais, proibir sindicatos e o sufrágio universal, tornando-se um movimento fascista – para tanto, tentaram organizar um golpe de Estado. O presidente da Finlândia, Svinfvud, tomou medidas energéticas, declarando estado de sítio, desmembrando o movimento, proibindo de continuar suas atividades e prendendo muitos de seus ativistas.

Tal movimento, depois de proibido, foi reorganizado e transformado no Movimento Patriótico do Povo (Isänmaallinen kansanliike – IKL), cuja ideologia era patentemente fascista: pretendia construir uma “comunidade nacional”, substituindo a democracia por um executivo forte. Tinha como projeto a “Grande Finlândia”, uma sociedade reorganizada por meio de corporações, que reconciliaria o Capital e o Trabalho. Fortemente anti-comunista, seu manifesto dizia que “ [o] objetivo [é] aniquilar tudo aquilo que é vermelho. A ação será direcionada não somente contra o comunismo, mas também contra o socialismo que procura destruir o espírito patriótico, religioso e nacionalista da nação”[81]. Nota-se que muitas ideias do IKL partilhavam da ideologia da Sociedade Karelia– não coincidentemente, muitos de seus líderes também eram provenientes dessa organização.

O IKL era comandado pelos antigos líderes do movimento Lapua, Vilho Annala e Vihtori Kosola. Sua organização era altamente hierarquizada e possuía a estética fascista: uniformes militares, camisas e calças pretas e gravatas azuis. Seu apoio vinha da burocracia civil, de estudantes, de parte do clero luterano e, também, de membros do exército.

Na eleição de 1936 chegou a obter 8.3% dos votos, os quais, em 1939, cairiam para 6.6%. O partido naufragou, pois, em parte sofreu forte concorrência de partidos conservadores, e, por outro lado, a crise econômica da década de 30 conseguiu ser sanada pelos partidos do establishment[82]. Após o início da guerra, o partido entraria em um governo de união nacional em 1941, no entanto, seria proibido em 1944, devido ao pacto com a União Soviética.

Referências

[74] WIPPERMAN, 1983, p. 158
[75] IDEM, p. 162
[76] IDEM, p. 163-4
[77] IDEM, p.171
[78] DAHL, H. F. “ Norway” in BLAMIRES,2006 p. 476
[79] PAYNE,1995, p. 310-2
[80] WIPPERMAN, 1983, p. 141
[81] CARSTEN, 1980, p. 168
[82] WIPPERMAN, 1983, p. 145

ESPANHA

À esquerda: José Antonio Primo de La Rivera (camisa preta) com Francisco Franco.

Historicamente a Espanha era um país no qual as elites econômicas e políticas (tal como parte do exército e da Igreja Católica) hesitavam conceder a qualquer tipo de reforma[83]; por outro lado, havia uma esquerda forte- mesmo dividida em várias correntes (Socialistas, Anarquistas, etc.). Sendo um país de economia majoritariamente agrária (70% dos trabalhadores eram camponeses[84]), a esquerda não só tinha influência sobre o proletariado industrial, mas também sobre os trabalhadores rurais, por isso, as revoltas sociais estavam sempre latentes.

Após a Primeira Guerra, depois da derrota do exército espanhol no Marrocos, seguiu-se um período de descontentamento geral. Greves e revoltas camponesas conduziram à queda do governo e, em seu lugar, erigiu-se uma ditadura chefiada por Primo de la Rivera. No entanto, não tinha orientação fascista, sendo muito mais parecida com um tipo de ditadura desenvolvimentista[85] (construções de barragens, drenagem de rios e vias de tráfego terrestre). Os oficiais no poder não possuíam um programa político claro, além da veneração pela nação, pelo rei e pela religião católica[86].

Com a morte de Primo de la Rivera, seguiu-se um período de interregno semi-ditatorial. Juntamente crescia a agitação republicana, em especial, devido aos ganhos dos republicanos nas eleições locais de 1931. Nessa conjuntura, o rei decide abdicar e é fundada a Nova República.

Apesar de todas as crises, a Espanha não possuía um ambiente propenso ao sucesso de movimentos fascistas: o nacionalismo era uma questão regional, ou seja, era o nacionalismo basco ou catalão que reivindicavam direitos, não o espanhol. Além disso, o conservadorismo clerical e a ideologia direitista católica eram muito influentes sobre a população, enquanto o secularismo era restrito a alguns setores. Logo, o apoio político popular era hegemonizado por grupos reacionários como a CEDA (amálgama de partidos católicos), o que impedia o enraizamento de grupos fascistas.

O ditador Rivera com a bandeira falangista.

A primeira eleição nacional foi vencida pelos republicanos, que tentaram adotar políticas modernizantes , tais como medidas anticlericais (em um país onde a igreja católica possuía grande poder) e reforma agrária .Tais medidas assustaram as elites econômicas e políticas tradicionais, provocando instabilidade política e conflitos sociais abertos, aliados a uma crise econômica forte (devido à Grande Depressão mundial).

De todo modo, em 1933, o campo conservador ganhou as eleições e barrou os processos de reforma. Isso levou, até 1936, a uma cada vez maior radicalização do movimento operário e dos camponeses, apesar do governo de esquerda de então ser reformista e não revolucionário. Tal fator, por sua vez, acentuou o apoio das classes dominantes à direita anti-democrática (conservadores, reacionários, monarquistas e fascistas). Esse era o ambiente político propício à guerra civil.

O primeiro grupelho fascista a surgir foi a J.O.N.S. (Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalista), liderado por Ramiro Ledesma Ramos, cuja ideologia era inspirada no fascismo italiano. Seu programa demandava o respeito pela tradição católica, abolição do sistema parlamentar, dissolução de partidos marxistas, controle estatal da economia e também reforma agrária. No estado nacional-sindicalista, a produção seria planejada e a riqueza distribuída[87]. No entanto, o movimento não logrou sucesso algum, permanecendo uma ideologia de jovens estudantes radicalizados.

Outro movimento fascista, que se tornaria o partido de Franco na guerra civil, era a Falange, liderada pelo sobrinho do ditador Primo de la Rivera, José Antonio. Fundada em Madrid em 1933 tinha, inicialmente, 2000 membros – muito mais do que a J.O.N.S. podia mobilizar[88]. Esses dois grupos, após reuniões entre seus líderes, fundiram-se em 1934, constituindo a Falange Espanhola das Juntas de Ofensiva Nacional-Sindicalista. Poucos meses depois, Ledesma Ramos seria expulso do movimento. Rivera tornou-se o chefe (jefe) supremo do partido.

A ideologia da Falange estava registrada no programa de 27 pontos, o qual pregava uma ditadura de partido único estruturada sobre uma economia corporativista. Um sistema “nem de direita, nem de esquerda, repudiando tanto o capitalismo financeiro, o laissez-faire e o marxismo como encarnação da mesma civilização materialista”[89]. Pregava a construção de uma nova ordem e de um novo homem, inspirado no ideal católico mesclado a ideais do século XX. Essa nova ordem pregada pela ideologia nacional-sindicalista seria imposta por um movimento cujos membros viveriam “uma vida como uma milícia e cujo modo de vida militar e estético serviria como modelo de uma nação regenerada”[90]. A economia seria regida por corporações, eliminando o conflito de classes, em um regime político ditatorial, regido pelo jéfe.

Tal como o Hungarismo de Szalási, a ideologia nacional-sindicalista tentava arregimentar apoio do proletariado. Não é por menos que José Antonio dizia:

“Estou convencido que achei a saída: nem capitalismo, nem socialismo. Enfrentado pela economia individualista da burguesia, a [economia] socialista emergiu, a qual entregou os frutos da produção para o estado, escravizando o indivíduo. Nenhuma delas resolveu a tragédia do produtor. Para resolver esse problema, que nós erijamos a economia sindicalista, que nem absorve a personalidade individual no estado, nem transforma o trabalhador em um aparato na maquinaria da produção burguesa. A solução nacional sindicalista é aquela que promete dar mais frutos. Ela eliminará de uma vez por todas os parasitas e os intermediários políticos. Ela liberará a produção dos fardos financeiros, a qual o capital financeiro esmaga. (…) Esse sistema econômico fará coisa do passado o espetáculo depressivo do desemprego, dos cortiços e da miséria”[91].

Contudo, o movimento permaneceu, no início, tal como J.O.N.S. , composto majoritariamente por estudantes, não conseguindo penetrar em ambientes de operários. O movimento cresceria, chegando a ter 8.000 membros em 1935, daí tentaria disputar os votos dos eleitores. Entretanto, na eleição de 1936, antes da guerra civil, a Falange obteve um percentual insignificante dos votos: 0.7%. Muito do seu fracasso eleitoral foi resultado da recusa, por parte de Rivera, de firmar compromissos com a direita por ele classificada de “democrática” (CEDA). Em 1936, a Falange seria proibida pelo governo republicano e José Antonio, condenado a morte.

O cenário político mudaria completamente quando generais se rebelaram contra a república espanhola. Comandados por Franco, em agosto de 1936, foi assim deflagrada a guerra civil espanhola. Uma vez que a Falange se abstivera de realizar alianças, aos olhos de muitos, que apoiavam o campo político da direita autoritária, ela fornecia o guia ideológico para o qual os militares, apesar de contra a república, pouco tinham a oferecer[92]. A partir daí, nas zonas controladas pela Junta militar, a Falange tornou-se um movimento de massas-, quando o número de militante cresceu, em 1937, para 240.000 e, em 1938, para 362.000, chegando a 942.000 em 1943[93].

No entanto, a Falange não era mais um movimento independente. Franco subordinaria o partido aos seus desígnios durante a guerra civil, criando um novo partido e incorporando todas as correntes de direita anti-democráticas (tais como os monarquistas Carlistas, os conservadores reacionários alfonsinistas e os fascistas da Falange). Assim, Franco compõe a Falange Espanhola Tradicionalista ou F.E.T., cuja ideologia oficial eram os 27 pontos da Falange. Contudo, Franco afirmava que o programa poderia ser alterado com as circunstâncias, o que, portanto, na prática, significava que o documento tinha pouca valia. A Falange original teve pouca influência sobre a FET. Após o fim da guerra civil, o movimento foi fagocitado pelo regime autoritário de Franco. Aliás, um destino comum para os movimentos fascistas que operaram em um contexto autoritário.

O regime de Franco, até 1945, possuía características semi-fascistas, mas, após a derrota do eixo e, juntamente a opiniões antifascistas por parte de direitistas espanhóis apoiadores de Franco, moveu-se para a desmobilização popular. Até mesmo quando Franco falava em totalitarismo, ele invocava nem Mussolini ou Hitler, mas a monarquia absolutista medieval espanhola[94]. Nesse contexto, então, desmembrou a F.E.T. e limitou as atividades dos grupos remanescentes. Além disso, proibiu o cumprimento fascista e restringiu o orçamento destinado ao partido.

Destarte, o regime tornou-se, gradualmente, uma ditadura autoritária não fascista. De acordo com alguns historiadores, isso já havia sido posto em marcha a partir de 1943, quando já era claro que o eixo perderia a guerra.[95]

Na nova ordem franquista, o catolicismo voltou a ser a religião oficial da Espanha e dos espanhóis; a igreja e organizações católicas retomaram seu poder sobre a educação formal no país, mantendo seu banco e sua imprensa; os industriais e grandes proprietários de terra tiveram suas propriedades mantidas. “Franco estava no topo da pirâmide de um regime, apoiando forças políticas e instituições, balanceando e movendo o poder e influência de cada um deles. A Falange era uma peça do sistema, uma dentre outros componentes, e isso significou que mesmo que o regime franquista fosse uma ditadura, não era uma ditadura fascista”[96].

Após 1945, o país foi isolado internacionalmente, mas, posteriormente, devido à guerra fria (como também ocorrera com Portugal), a Espanha seria aceita na ONU. Entre a década de 40 até o final dos anos 60, haveria um certo afrouxamento na censura e, pari passu, reformas econômicas de cunho liberal. O regime chegaria ao seu fim com a morte de Franco em 20 de Novembro de 1975.

Referências

[83] PRESTON, 1980
[84] WIPPERMAN, 1983, p. 109
[85] IDEM, p. 113
[86] CARSTEN, 1980, p. 195
[87] IDEM, p. 197
[88] IDEM, p. 198
[89] MORGAN, 2003, p, 110
[90] IDEM
[91] PRIMO de LA RIVERA, José Antonio, p. 189 in GRIFFIN,1995
[92] CARSTEN, 1980, p. 201
[93] PAYNE, 1980, p. 429
[94] MORGAN 2003, p. 113
[95] PAYNE, 1995, p. 267
[96] IDEM

FRANÇA

A extrema-direita tem uma longa tradição na França. A herança contra-revolucionária é uma das fontes do extremismo, como é o caso de Charles Maurras. Os primeiros grupos ultranacionalistas e populares foram formados após o fim da ditadura de Louis Bonaparte e da guerra franco-prussiana. O próprio regime de Napoleão III foi uma ditadura sui generis, que foi erigida por uma aliança entre a burguesia, fragmentada e fraca após as revoluções de 1848, Bonaparte e o exército, com base popular. Com a guerra franco-prussiana e a queda de Bonaparte, foi inaugurada a terceira república.

O novo regime, para muitos – desde reacionários, conservadores e seções populares – simbolizava a “decadência” e a perda do status da França como potência. Um novo tipo de nacionalismo, não mais ligado a tradição jacobina, de esquerda, irrompeu com a Liga dos Patriotas, de Paul Déroulède. Defendiam um nacionalismo autoritário, irracionalista e militarista, que seria capitaneado por Déroulède e concentraria o poder em suas mãos[97].

A Liga dos Patriotas uniu-se alguns anos mais tarde[98] a membros da esquerda blanquista. Eles formariam a base popular do General Boulanger, um general anti-germânico e nacionalista, que prometia cruzar o rio Reno e reconquistar as províncias perdidas para a Alemanha. Ideologicamente os boulangistas eram favoráveis a um nacionalismo popular estruturado em um regime plebiscitário com um executivo forte. O boulangismo – compostos por membros tanto da esquerda, quanto da direita – conseguiu algumas vitórias eleitorais na década de 1880, até se tornar um perigo real para a republica em 1889. Após rumores de golpe de Estado, o governo suprimiu a Liga e Boulanger fugiu para o exterior. O movimento se dissolveu pouco tempo depois.

Se em 1870 a república tinha problemas de legitimação, também em parte pela crise econômica dessa década, pós 1880 a república ganhara legitimidade e superara a crise. No entanto, a crise do caso Dreyfuss mostraria as potencialidades para o possível irromper de um movimento popular de direita ultranacionalista. O Caso Dreyfus dividiu a França no final do século XIX; o caso girava em torno da suposta traição do capitão Dreyfus ao ter sido espião alemão (o que não procedia). Dreyfuss era judeu, e o antissemitismo presente em setores da população levou a sua culpabilização imediata.

Émile Zola escrevera o famoso artigo J´accuse, em 1898, defendendo Dreyfuss. Descobriu-se que o documento que provara sua suposta traição era forjado. As consequências do caso estenderam-se muito além da culpabilidade ou não de Dreyfuss. Na verdade, servira como pretexto para determinar o futuro da França: elitista, antissemita e chauvinista ou democrática e igualitária[99]. No fim, venceram os defensores de Dreyfuss, que garantiram a derrota de nacionalistas autoritários franceses.

O antissemitismo era uma ideologia aglutinadora de massas no país, muito mais que na Alemanha ou na Áustria. Edouard Drumont, escritor antissemita, vendeu um milhão de cópias do seu livro “La France Juive” (A França Judia). Seu movimento, a Liga da França, chegou a ter 10,000 membros e elgeu deputados em Algiers, na Algéria. A Liga incitou um pogrom contra judeus em 1898, matando dezenas. Contudo, a vitória dos dreyfusards levou a derrotas desses grupos[100].

O primeiro proponente de um socialismo nacionalista foi Marquis de Morès. Apesar de não ter sucesso, Marquis e seu círculo tentaram criar uma ideologia unindo racismo, socialismo nacionalista, ultranacionalismo e ação direta[101]. Quem cunhou esse título foi Maurice Barrès. Antes poeta, Barrès desenvolveu uma concepção mística sobre a terra e os mortos (influenciado por Déroudès), aliado a um tipo de racismo pseudodarwiniano, ultranacionalista e autoritário[102].

O fascismo amadureceu intelectualmente cedo na França, como demonstram os estudos de Zeev Sternhell. De um lado, um nacionalismo orgânico, antiliberal, que procurava “redimir” a nação ; de outro, um socialismo antimarxista e antidemocrático, cujo expoente era Georges Sorel, que pregava o uso da violência, de mitos heroicos para a construção nacional. Ambas ideologias encontrar-se-iam no Círculo Proudhon, uma agremiação intelectual fundada, entre outros, por George Valois, futuro chefe do Les Faisceaux (tradução literal dos Fascii italianos)[103].

Se intelectualmente o fascismo estava maduro antes da primeira guerra, faltavam condições materiais para que um movimento de massas se consolidasse. Por outro lado, um importante precursor em tal período do fascismo francês foi a Action Française (AF), movimento ultra-reacionário surgido no final do século XIX, chefiado por Charles Maurras.

Enxergando a emergência da terceira república, após a derrota na guerra franco-prussiana e a vitória dos “dreyfusards” como padrões de “decadência” da nação francesa, Maurras une-se a Henri Vaugeois e Maurice Pujo e criam a Action Française.

Tal liga cresceria após 1902, publicando um jornal que chegou a ter 45.000 assinantes. O movimento contava também com uma ala que, inicialmente criada para vender os jornais da AF, os Camelots du Roi, frequentemente entreva em combates físicos com socialistas e sindicalistas. Possuía também uma seção paramilitar (apesar de não contar com armas de fogo), os Comissários.

A doutrina da AF era essencialmente um reacionarismo xenófobo e corporativista, que pregava a volta da Monarquia. Os estrangeiros, judeus, republicanos, democratas, socialistas e os estrangeiros (alemães, russos, etc.) eram responsáveis pela “decadência da nação francesa”. Defendiam um regime corporativista anti-democrático, antissemita e xenófobo, chefiado por um rei, que defendesse os valores católicos e familiares.

O movimento floresceu até a década de 20 até que, em 1926, o próprio Maurras foi excomungado pela Igreja Católica. Isso causou um afluxo de membros e o movimento dissolveu-se junto com o fim do regime de Vichy. O interessante é que Maurras, apesar de seu nacionalismo, apoiou Pétain e seus asseclas, e também foi simpático aos nazistas.

Das fileiras da AF originou-se o primeiro forte movimento fascista francês na década de 20: O Les Faisceaux, de George Valois. Foi um dos muitos grupos radicais de direita que foram formados na França durante esse período, tal como as Jeunesse Patriotes, liderado por Pierre Taittinger, grupo ultranacionalista, anticomunista e antiparlamentar, que defendia o fortalecimento do poder executivo.

Esses grupos emergiram a partir da crise inflacionária que se abateu sobre a França (apesar de sua rápida recuperação industrial) no pós-guerra e da vitória de um governo de centro-esquerda nas eleições de 1924, o Cartel des Gauches. Esse governo sofrera pesada oposição de grupos conservadores e de empresários franceses. Pregando um fascismo que apelava diretamente aos trabalhadores, a ideologia do Les faisceaux era resolutamente socialista-nacional, violentamente anti-burguesa e anti-conservadora, tentando conquistar seguidores tanto à esquerda quanto à direita[104]; a fórmula ideológica que sintetizava o pensamento de Valois era “nacionalismo + socialismo= fascismo”[105].

O movimento, apesar disso, nunca conseguiu convencer muitos trabalhadores a se juntarem às suas cortes, pois a maior parte de seus membros eram oriundos da classe média. Outro fato importante a ser mencionado era o apoio financeiro aos Faisceaux por muitos empresários, uma vez que a agremiação de Valois poderia se tornar um bloco popular anti-esquerda. Isso, ao longo do tempo, foi uma fonte de problemas para o movimento, dado que sua ideologia anticapitalista conflitava diretamente com os interesses dos empresários.

O movimento, juntamente a outras agremiações de extrema direita, entrou em declínio a partir de 1926, quando assumiu o poder o governo conservador de Raymond Poincaré, que, somado a melhora econômica do país, arrefeceu os ânimos da burguesia. Esses fatores tomados em conjunto levaram os empresários a cortar o financiamento do movimento, levando ao seu declínio. Contudo, o Les Faisceaux chegaria ao fim quando o próprio Valois abdicara do fascismo, movendo-se em direção do comunismo na década de 30. George Valois fez parte da resistência contra o nazismo e morreu em um campo de concentração, em 1945.

A segunda geração do fascismo francês emerge a partir da década de 30. A maior agremiação no pré-guerra foi o Partido Popular Francês (PPF) de Jacques Doriot. Outra agremiação de direita, que na época fora considerada como fascista por muitos socialistas e comunistas, foi o Croix-de-Feu (Cruz de Fogo), liderada pelo Coronel de la Rocque, veterano da primeira guerra.

O início da década 30 forneceu novamente um ambiente propício ao florescimento de movimentos de extrema direita: tanto a deterioração econômica, devido à crise econômica mundial, quanto um governo de centro-esquerda fraco, eleito em 1932, forneceriam combustível para uma crise social.

Nesse período surgiu o Croix-de-Feu , a partir de uma associação de veteranos de guerra, em 1928. O movimento cresceu muito no início dos anos 30, chegando a ter, em 1934, 150.000 membros. Possuindo uma ala paramilitar, os “Dispos” (de Disponibles, disponíveis em francês), frequentemente os membros da Cruz de fogo digladiavam-se nas ruas com comunistas e socialistas.

A ideologia do movimento rejeitava tudo aquilo que alegavam poder dividir a nação: a luta de classes, clientelismo político, etc. Eram partidários de um executivo forte, da diminuição dos poderes do parlamento, mas que mantivesse o sistema representativo. O corpo doutrinal do movimento fundamentava-se em um “espírito de fraternidade combatente [repousando sobre] a família e a empresa, concebidos de acordo com um modelo tradicional e paternalista. Adiciona-se a importância atrelada à religião cristã, à primazia do espiritual e dos valores tradicionais”[106].

Por outro lado, não eram racistas e o próprio coronel de la Roque condenava o antissemitismo. Contudo havia, de fato, membros do Croix-de-Feu que eram fascistas. O movimento não é caracterizado por historiadores, desse modo, como fascista, mas de direita autoritária. Com a proibição das milícias e grupos militares pelo governo do Front Populaire de Leon Blum, o movimento transformou-se em partido, o Parti Social Français (Partido Social Francês – PSF). Portando possuía os mesmos valores da Cruz-de-fogo, além de ferozmente anticomunista. O PSF tinha 600.000 membros em 1936, chegando a ter, em 1939, 1.200.000 membros. Caso houvesse eleições em 1940, seriam uma força considerável no parlamento francês.

Poster anti-comunista do Partido Popular Francês.

O movimento genuinamente fascista de maior sucesso na década de 30 foi o Parti Populaire Français (Partido Popular Francês – PPF) de Jacques Doriot. Superando agremiações fascistas menores como os Francistes e o Solidarité française, chegou a ter 60.000 membros (apesar de professarem possuir 300.000). Doriot fora secretário-geral da juventude comunista em 1923 e chegou a ser candidato a secretário-geral do Partido Comunista Francês (PCF). Foi expulso do partido em 1933, quando era prefeito de Saint-Denis. Levou consigo para fora do PCF 1/3 do politburo do partido e também muitos militantes oriundos da classe operária.

O PPF foi criado em 1936 na mesma Saint-Denis, juntando ex-membros do PCF e nacionalistas autoritários. Contou desde o início com o apoio da burguesia industrial e financeira. Ideologicamente, apesar de nominalmente antiburguês e antiparlamentar, o PPF não tinha um programa anticapitalista, como nacionalização de empresas, nem muito menos colocava em questão a legitimidade do capitalismo. Pregava-se a criação de um novo homem, baseado em uma filosofia vitalista, e propunha-se a criação de uma sociedade fundada na cooperação, na família, na comunidade e na religião, que fosse posta a cabo por um Estado descentralizado e corporativista. O movimento mostrava o típico estilo de um movimento fascista: violento, uso de insígnias e adereços militares, cumprimento fascista, culto ao chefe, etc. O PPF entraria em declínio em 1939, tendo muitos de seus membros se dissociado do partido.

O fascismo, portanto, não se expandiu na França, nem se tornou um movimento de massas no final da década de 30 por alguns motivos:

  1. Os conservadores não tentaram se utilizar politicamente dos fascistas, enfatizando a necessidade de consenso nacional entre os moderados.
  2. Além disso, o Front Popular, governo de coalizão entre comunistas e socialistas, rompeu-se em 1938.
  3. Nem as classes médias nem os camponeses sofreram tanto com a crise econômica da década de 30 como na Alemanha. Não se pode esquecer também que, apesar de sua dissolução em 1938, o Front Popular de Léon Blum foi sedimentado sobre um forte consenso nas esquerdas sobre a união contra o fascismo, levando à proibição de grupos paramilitares, em 1936.

O fascismo só retornaria à França pela derrota militar em 1940. Feito o armistício entre França e a Alemanha, forma-se no sul do país o regime de Vichy, chefiado pelo marechal Pétain, herói da Primeira Guerra Mundial.

Ideologicamente, o regime tentou buscar uma “revolução nacional”, como a restruturação corporativista do governo aliado a um “tipo de revolução cultural baseada nos valores conservadores e nas famílias grandes. A instrução religiosa foi reinserida nas escolas públicas, educação física foi enfatizada, [consumo de] álcool desencorajado, sendo o motto do regime Trabalho, Família, Pátria”[107] – em oposição à tríade simbólica da revolução francesa liberdade, igualdade e fraternidade.

O regime teve três fases, a primeira em que se tentou institucionalizar a “revolução nacional’, até 1941; entre 1941 e 43 se destaca o aumento do autoritarismo, da presença da tecnocracia e do aumento da burocracia pública. A partir de 1943, o regime tornou-se praticamente uma marionete nas mãos dos nazistas, tendo Pétain o poder nominal e os nazistas, o factual.

Apesar de não ser considerado fascista, mais próximo ao regime de Franco e Salazar do que a Hitler e Mussolini[108] (de direita autoritária para alguns especialistas, semi ou parafascista para outros), o que não significa dizer que eram melhores que regimes completamente fascistas, tais regimes foram tão sanguinários e atrozes quanto os assim ditos fascistas: o regime de Vichy ajudou na perseguição e deportação de judeus para campos de concentração e extermínio; a ditadura de Antonescu, na Romênia, foi responsável pela aniquilação de 200 a 300 mil judeus.

No entanto, o regime de Pétain contou com muitos colaboradores fascistas. Entre eles Doriot e seu PPF, que renasceria durante a ocupação nazista, tornando-se o maior partido fascista na França. Outro movimento/partido importante foi o Rassemblemént National Populaire (RNP) do ex-socialista e trânsfuga, Marcel Déat, o qual chegou a ter 20.000 membros em 1942. Outros pequenos grupos fascistas floresceram nesse período como o movimento social revolucionário de Eugène Deloncle, que lutou contra a resistência, o partido nacional-socialista de Christian Message, entre outras agremiações menores.

O autoritarismo de Pétain e seus colaboradores conservadores, reacionários e fascistas seria esmagado pelos aliados e pela resistência, entre 1944-5.

Referências

[97] PAYNE, 1995, p. 43
[98] CARSTEN, 191, p. 11
[99] IDEM,p. 45
[100] IBIDEM
[101] IBIDEM
[102] IDEM, p. 4
[103] STERNHELL, 1994
[104] STERNHELL, 1980, p. 486
[105] PAYNE, 1995, p. 292
[106] MILZA, 2018, p. 168
[107] PAYNE, 1995, p. 397
[108] IDEM

INGLATERRA

Oswald Mosley, líder da União Britânica de Fascistas, em uma manifestação em East London (04 de outubro de 1943).

A Inglaterra não era o ambiente mais propício ao desenvolvimento do fascismo. Uma democracia parlamentar consolidada, tendo vencido a primeira guerra e não havendo clamor por aquisição de territórios, já que o império inglês ainda continuava de pé, logo, o terreno político e cultural era árido para o desenvolvimento de movimentos fascistas.

Além disso, outros importantes fatores que contribuíram para o fracasso do fascismo foram a crise econômica da década de 30 razoavelmente moderada (em comparação com os EUA e a Alemanha) e a sua rápida solução efetuada pelos governos eleitos. Não podemos deixar de mencionar também a falta de interesse por parte dos conservadores britânicos em realizar alianças com os fascistas. Mosley, o chefe do principal movimento fascista na Inglaterra, o União Britânica dos Fascistas (BUF), até tentou travar uma aliança com Winston Churchill, mas não obteve sucesso.

No entanto, na década de 20, motivado pelo governo do Partido Trabalhista britânico e pelo temor infundado de que os trabalhistas preparavam uma revolução no país, emergiu um movimento que se auto intitulava Fascistas Britânicos (“British Fascists” – BF), de aproximadamente 100.000 homens[109]. Tratava-se de um agrupamento paramilitar, inclusive com seções de infantaria, mas que, ideologicamente, esposavam uma forma de conservadorismo ultra patriótico – apesar de professarem ter se inspirado no PNF italiano, de Mussolini[110]. Um fato inusitado é que um de seus líderes era uma mulher, Rota Lintorn-Orman, e, ao contrário de outros movimentos fascistas europeus, possuíam, comparativamente, grande quantidade de mulheres em suas cortes. Os BF tentaram ser a ponta de lança do governo britânico para reprimir manifestações e greves, mas não lograram sucesso quanto a isso.

O principal movimento fascista inglês foi o BUF; fora o sucessor ideológico de grupos fascistas formados na década de 20, os acima mencionados Fascistas Britânicos e a Liga Imperial Fascista. Parte expressiva de seus membros filiar-se-iam, posteriormente, ao BUF.

O chefe e ideólogo do BUF, Oswald Mosley, após sua saída do Labor Party, criou um movimento que proclamava ser a terceira via entre capitalismo e socialismo. A ideologia de Mosley era estruturada a partir das características clássicas do fascismo, como sincretismo, anti-socialismo, culto a violência, militarismo, mito de decadência e renascimento, etc.

Mais detalhadamente, Mosley defendia a constituição de um Estado autoritário e corporativista, governado por tecnocratas apolíticos, que manteriam a integridade e autarquia do Império Britânico. Os escritos de Mosley afiguravam um mundo onde a Grã-Bretanha teria cada vez mais competidores, na qual ciência e a tecnologia teriam um papel fundamental para superar as dificuldades impostas pelo ordem mundial e que cada vez menos trabalhadores seriam necessários.

Nessas condições a autarquia do império seria necessária. Dentro desse contexto, a sociedade britânica seria estruturada em corporações. Apesar der deixar a propriedade privada intacta, as corporações teriam poder de decisão sobre bancos e grandes empresas. Os sindicatos teriam seu poder limitado[111]. Mosley concluía seu escrito proclamando que o “declínio” da Grã-Bretanha só seria vencido por uma nova geração de “novos homens”, que preservassem a “civilização”. Além disso, ideologicamente, outra importante característica a ser mencionada é que o BUF e o próprio Mosley só se tornariam plenamente antissemitas em 1935, muito por influência de membros como William Joyce e John Beckett – uma vez que anteriormente chegara até a acolher judeus no BUF.

O BUF teve 50.000 membros entre 1933 e 1934, número que cairia progressivamente até a prisão de Mosley, na década de 40. A maior parte de seus membros vinham da classe média, como militares e autônomos, apesar de haver, em determinadas áreas, forte presença da classe trabalhadora[112]. Seu reduto mais forte era Londres.

Além dos motivos já mencionados, o movimento não teve sucesso na Inglaterra pois:

  • enfrentou resistência organizada de uma frente anti-fascista, como quando fora enfrentado na rua por milhares de antifascistas gritando “they shall not pass!”- ecoando os gritos de guerra dos republicanos espanhóis na guerra civil espanhola (“no passarán!”) – na chamada “Batalha de East End”, em 1936;
  • financeiramente teve uma crise série em 1937, já que as doações de empresários secaram em 1934 (devido ao apoio do BUF à Alemanha);
  • além disso, politicamente, sofreu um revés quando o governo proibiu a utilização de uniformes e deu à polícia os poderes para atacar as manifestações públicas do BUF por meio do Public Order Act, além de outras medidas tomadas anteriormente, como proibir a propaganda dos fascistas nos jornais e rádios;
  • nunca conseguiu criar raízes entre a população inglesa, com exceção da região de East End, em Londres, e em algumas pequenas áreas do campo;
  • por fim, a gota d’água seria o crescente apoio de Mosley à Alemanha e aos nazistas (Mosley viajou em 1937 para a Alemanha, onde se casou com sua segunda mulher), que era malvisto por grande parte da população – muito também devido à violência nacional-socialista, como expressada na Noite das Facas Longas. Mosley, ao apoiar os nazistas, com o tempo foi considerado traidor; consequentemente, durante a Segunda Guerra foi preso, e o BUF, dissolvido. Mosley seria solto em 1943, sob alegação de doença, apesar das objeções de comunistas, socialistas e socialdemocratas.

Após o fim da guerra, Mosley voltaria ao palco político do país, defendendo uma plataforma anti-imigração, mas sem muito sucesso. Morreu na França, em 1980.

Referências

[109] WIPPERMAN, 1983, p. 136
[110] BLAMIRES, C, “ Britain” in BLAMIRE, ,p. 105
[111] EATWELL,1995, p. 231
[112] IDEM, p. 233

PAÍSES BAIXOS (Bélgica e Holanda)

Manifestação dos membros do Verdinaso na Bélgica.

Os votos nos Países Baixos eram muito atrelados às comunidades e suas religiões[113] – ou seja, os católicos, em sua maior parte, votavam em partidos católicos e os protestantes, em partidos protestantes. Isso dificultou a ascensão tanto dos fascistas quanto dos socialistas, pois a vida política já tinha sido “hegemonizada” pelo campo conservador/religioso. Além disso, as igrejas protestantes e católica possuíam organizações de juventude, associações e sindicatos que serviam como barreira contra a influência do fascismo local.

Dito isso analisemos primeiro o caso da Bélgica: o estado Belga foi fundado em 1830, formado por populações de duas nacionalidades, os wallons, próximo aos franceses – tanto linguisticamente quanto culturalmente, e os flamencos, mais próximo aos holandeses. Os movimentos nacionalistas que surgiram em cada uma dessas regiões defendiam ou a nação wallon ou a flamenca[114].

Um dos primeiros foi o Jovem Flander (JV), que, em 1914, proclamava a necessidade da abolição do Estado belga e sua substituição por um reino autônomo dos flamencos.

Em seguida, na década de 20, após a introdução do voto universal masculino, o partido católico belga, dominante, começou a perder influência. Assim, um dos movimentos pré-fascistas a surgir na região flamenca, que tentaram angariar apoio daqueles insatisfeitos com o partido cristão foi o de Joris van Severen. Inicialmente Severen formou uma milícia, vestida de camisas verdes e armada com paus e bastões. Alguns anos depois criaria o Verbond van Dietsche Nationaal Solidaristen (Verdinaso), um pequeno agrupamento fascitizante antidemocrático, antissemita e paramilitarizado. Severen defendia a instauração de um estado corporativista sob a sua própria chefia[115]. Contudo, teve, no máximo, 3.000 membros e permaneceu irrelevante na política belga[116].

Outro agrupamento a ser mencionado é o grupo ultranacionalista católico, o V.N.V.. Apesar de autoritário e antissemita, alguns autores não o classificam como fascista[117]; autonomista, tinha como objetivo unir toda população flamenca em só país. No entanto, após a invasão dos alemães, apoiou os nazistas. O V.N.V. obteve grande sucesso eleitoral na região flamenca, chegando a ter 35 % dos votos na eleição de 1936.

Contudo, o maior movimento fascista na Bélgica emergiu na parte flamenca: o REX (Christus Rex – Cristo Rei em latim), liderado por Léon Degrelle. Insatisfeito com a corrupção do partido católico belga, fundou seu próprio movimento em 1935. Ele obteria, em 1936, uma expressiva votação nas eleições legislativas: 11.49%.

Nesses primeiros anos, porém, O REX era um partido que pretendia instalar um governo autoritário e corporativista, mas ainda não era, de acordo com historiadores[118], fascista. Em uma segunda eleição, um ano depois, o REX conseguiria 20% dos votos, mas perderia para o líder do partido católico, Van Zeeland, que obteve 75%.

Em virtude disso, o movimento radicalizou-se tornando-se um “fascismo antissistema”, baseado no para-militarismo, no princípio do líder (Führerprinzip), no racismo secular e na ideologia do novo homem[119]. Tal mudança causou perda de apoio popular, uma vez que o fascismo não era bem quisto pela população.

Léon Degrelle, durante a ocupação alemã, tornar-se-ia um colaboracionista na Nova Ordem nazista, junto com muitos membros do REX. Degrelle chegou também a formar uma brigada voluntária para os batalhões SSs, além de criar uma milícia local para combater opositores. Até 1943, quase todas as cidades belgas, nas quais majoritariamente se falava francês, possuíam membros do REX em cargos administrativos. Até a ocupação aliada, o REX passou por um processo de intensa nazificação. No fim, Degrelle conseguiria fugir dos aliados e se exilaria na Espanha, donde falsificaria a história se tornando um oráculo para movimentos neofascistas europeus.

Anton Mussert, líder do partido NSB (1941).

Na Holanda, o mais importante movimento fascista foi o Movimento Nacional Socialista (NSB), fundado em 1931 por Anton Mussert. Apesar do nome, não eram inicialmente nazistas, porém mais próximos ideologicamente do fascismo italiano, inclusive aceitando judeus em suas fileiras. O movimento, apesar da depressão econômica que atingira o país, não conseguiu obter expressivas vitórias eleitorais: 8% dos votos nas eleições regionais de 1934, caindo para 4.2% em 1938. Sua base de apoio estava localizada em bairros ricos das cidades grandes, além de ter conseguido angariar votos de eleitores insatisfeitos do Partido Liberal.

Qual a razão para seu fracasso? Primeiro, não havia ameaça da esquerda revolucionária, já que o partido socialista holandês tinha renunciado ao marxismo em 1934. Além disso, o movimento não conseguiu fechar alianças com conservadores. Os partidos de direita não-fascista evitaram, devido ao sucesso do nazismo e do fascismo italiano, a repetir a estratégia fracassada dos conservadores daqueles países.

Durante a guerra os membros do NSB e Mussert colaboraram com os nazistas, sendo que o NSB se tornou o único partido legal na Holanda, mas não lograram apoio da população. Isso não impediu que 7 das 11 províncias holandesas possuíssem membros do NSB em altos cargos da administração. Com a invasão dos aliados, 40.000 membros do NSB e suas famílias fugiram para a Alemanha. Após o fim da guerra, 120.000 colaboracionistas seriam presos, mas um número menor foi executado, dentre esses, Anton Mussert.

Referências

[113] MORGAN, 2003, p. 98
[114] CARSTEN, 1980, p. 206
[115] CARSTEN, 1980, p.206-8
[116] PAYNE, 1995, p. 300
[117] IDEM
[118] MORGAN, 2003, p. 99-100
[119] PAYNE,1995, p. 100

POLÔNIA

Evento com membros da Organização Nacional de Combate. Ao centro, o logo da organização com a frase “Życie i Śmierć dla Narodu” (Vida e Morte para a Nação).

Movimentos fascistas não obtiveram sucesso na Polônia, em grande parte pois, principalmente, não havia nem ambiente democrático no qual poderiam florescer, nem ameaça da esquerda revolucionária. Apesar das tensões étnicas quer permearam o país até 1939 (35% da população era composta por minorias), do antissemitismo muito presente entre a população e das consequências econômicas da crise da década de 30, que atingiu, em particular, as indústrias polonesas[120], o fascismo local não prosperou.

Constituída uma democracia parlamentar, em 1918, após sua independência no pós-guerra, o regime pouco durou, pois não conseguira manejar os diversos problemas que então se apresentavam, tal como a questão agrária (nas províncias centrais e do leste foi conduzida uma reforma agrária, mas não nas províncias do oeste) e o problema das minorias étnicas como já mencionado.

Essas condições forneceram a ocasião para o golpe de Estado de Pidulski, em 1926. Pidulski, originalmente era um homem de esquerda, socialista; quando deu o golpe de estado em 26 foi inclusive apoiado por socialistas e comunistas. No entanto, ao longo dos anos, deixando de lado suas raízes ideológicas, aproximou-se cada vez mais da direita, levando o regime para um caminho mais autoritário; por fim, em janeiro de 1935, foi promulgada uma nova constituição que eliminou de vez o regime democrático. Pidulski morreria pouco depois, assumindo em seu lugar coronéis, que implementariam uma ditadura militar.

Um movimento autoritário e proto-fascista que emergiu nessas condições foi o Partido Nacional Democrático, ultranacionalista, antissemita e católico. Tal movimento, por sua vez, deu origem a um movimento radical, o Campo da Grande Polônia (OWP). Coligiu grande quantidade de membros (falava-se em 500.000 militantes) e logo fora proibido pelo governo, entre 1932-33, quando pretendiam realizar um golpe de Estado.

Dessa agremiação surgiu um grupo ainda mais radical, influenciado pelo nazismo, o Campo do Radicalismo Nacional (ONR). A associação estudantil da ONR formaria o Falanga (nome inspirado na Falange espanhola), o mais genuinamente fascista dos movimentos poloneses: ultranacionalista, antissemita e corporativista e cristão. No entanto, nunca chegaram a mais de 2.000 membros. A ONR foi responsável por ataques a judeus e organizações de esquerda no final dos anos 30 e conseguiram forçar universidades a segregar fisicamente judeus e não-judeus em seus campos.

O fascismo polonês de fato não conseguiu obter uma base de massas, tendo majoritariamente como base de apoio estudantes e intelectuais.

Outro projeto de extrema-direita, mas imposto pelo governo, que pregava um corporativismo autoritário aliado a uma milícia paramilitar, foi o Campo da Unidade Nacional (OZN), partido liderado pelo coronel Adam Ignacy Koc, o qual, por sua vez, tentou incluir a Falanga nos seus quadros. O partido cresceu e ficou cada vez mais radical, mas o governo expulsou Koc da direção do partido e limitou contatos com a Falanga. Desse modo, o novo OZN tornou-se uma organização conservadora com um braço paramilitar. Na eleição de 1938, obtiveram 29% dos votos. Esse foi o maior sucesso de um movimento fascista na Polônia antes da invasão dos nazistas em 1939.

Referência

[120] PANKOWSKI, Rafal, “Poland” p. 522 in Blamires, 2006.

PORTUGAL

Francisco de Barcelos Rolão Preto, fundador do Movimento Nacional-Sindicalista, discursando aos seus simpatizantes.

Portugal deixou de ser uma monarquia em 1910, sendo posto no lugar um regime republicano, com sufrágio limitado e “marcado por rusgas de violência de milícias e de elitismo autoritário”[121].

Após a Primeira Guerra, Sidônio Pais deu um golpe e constituiu um governo autoritário, que pouco durou. Algum tempo depois, o poder é retomado pelos republicanos. Esse regime republicano duraria até 28 de maio de 1926, quando um golpe militar põe abaixo a república, quase sem violência, apoiado por setores de esquerda e da direita.

O regime de exceção tinha a base de suporte nos republicanos conservadores, militares e na extrema-direita; seu objetivo era superar a crise econômica, que se devia tanto à estrutura atrasada da economia, quanto aos problemas relacionados às finanças estatais[122].

Salazar, professor de finanças e ministro da economia do regime, após conseguir equilibrar as contas governamentais, torna-se o líder (logo, o ditador) do regime, assumindo até 1936, os ministérios de relações exteriores, do interior e de guerra[123].

Dito isso, deve-se mencionar que faltava a Portugal as condições para a vitória de um movimento fascista:

  • Não havia irredentismo- pretensão a territórios que não estavam dentro do país;
  • Portugal não foi derrotado na primeira guerra;
  • Não existiu uma esquerda suficientemente forte que pudesse incitar medo nas elites;
  • Não havia ambiente democrático que permitiria aos fascistas florescer- como na Itália e na Alemanha.

O movimento fascista mais forte durante o regime salazarista foi o Nacional Sindicalismo de Rolão Preto. Tendo origem no integralismo lusitano, movimento reacionário, elitista e monarquista, que permaneceu restrito a círculos universitários e intelectuais, o Nacional-Sindicalismo daí emerge focando seu apoio no proletariado e na pequena burguesia. Não por menos que a maior parte dos membros do Nacional Sindicalista era composto por operários, seguido de elementos do exército português.

A ideologia nacional-sindicalista era um ultranacionalismo fundado no anti-individualismo, no qual o problema social da nação (pobreza, etc.) seria resolvido através da integração das massas na nação por meio de corporações; tudo isso feito em um Estado sob a liderança do “chefe”, Rolão Preto, e de seu partido, o Nacional-Sindicalismo. Outros aspectos da ideologia do N.S. acentuado nos discursos políticos de Preto, eram o militarismo, o anti-liberalismo e o anticomunismo.

O fascismo nacional-sindicalista tornou-se a única força política capaz de rivalizar com o partido único do novo regime, a União Nacional. A partir daí os nacional-sindicalistas foram vistos por Salazar como perigosos para a estabilidade do regime, o que levaria a sua extinção. Assim, jornais e periódicos dos N.S. foram censurados e centros do partido foram fechados. Além disso, o regime de Salazar cooptaria muitos integrantes do N.S., incorporando-os à União Nacional e promovendo um regime corporativista – algo que os próprios N.S. defendiam – e também criando um movimento paramilitar de juventude, a Mocidade Portuguesa.

No fim, Rolão Preto e Mensaraz, dirigentes do Nacional Sindicalismo, foram presos e depois expulsos do país por 6 meses. Apesar de formalmente dissolvido, o movimento continuaria operante até a tentativa de golpe de 1935 contra Salazar, que depois perseguiria mais fortemente os fascistas. Depois disso, seria totalmente desmantelado.

O regime de Salazar, mesmo contando com um partido como a União Nacional e com as tropas que combateriam ao lado de Franco na guerra civil espanhola, a Legião Portuguesa, não pode ser classificado como fascista. Mesmo que suas instituições mimetizassem o comportamento fascista, como rituais, símbolos do cumprimento fascista e o Princípio do Líder (FührerPrinzip), elas não tinham qualquer poder e o salazarismo não procurou mobilizar as massas durante seu regime, pelo contrário. Durante a Segunda Guerra, Portugal permaneceu neutro, apesar de, por um lado, realizar transações comerciais com a Alemanha nazista e, por outro, oferecer as ilhas dos Açores primeiros aos britânicos e depois aos americanos como base de reabastecimento[124].

Tal como a Espanha, após o fim da Segunda Guerra, Portugal foi boicotado pelo Ocidente, mas devido ao contexto da Guerra Fria, em 1949, foi admitido na OTAN e, em 1955, na ONU. O Regime de Salazar cairia em 1974, na Revolução dos Cravos.

Referências

[121] IDEM, p. 142
[122] WIPPERMAN,1983, p. 181
[123] IDEM
[124] LOYD-JONES, Stewart, “Portugal “in Blamires, 2006

Países onde os movimentos fascistas foram pouco expressivos

[Bulgária]
[Rússia e Ucrânia]
[Grécia]
[Irlanda]
[Países Bálticos – Estônia, Letônia e Lituânia]
[Suíça]

BULGÁRIA

Hristo Lukov, fundador da Legião Nacional Búlgara, cumprimenta o rei da Bulgária Boris III (1918).

Um país predominantemente agrário e com poucas indústrias, a Bulgária, ao apoiar a Alemanha na Primeira Guerra, perdeu parte do seu território no Tratado de Neuilly. O partido militar que controlou o país durante a guerra conseguiu votos suficientes nas eleições de 1919[125], mas os grandes ganhadores foram o Partido Agrário (Semledelzi), de Alexander Stambolinski, e o Partido Comunista Búlgaro. Stamboliski, pouco tempo depois, em 1921, chegou ao poder e implementou uma reforma agrária no país.

Deposto pelos militares em 1923, a Bulgária seria desde então, controlada pelo Rei Boris III, pelos militares e por alguns partidos conservadores, apesar de ainda permanecer, formalmente, uma democracia parlamentar, tendo inclusive os comunistas participado de eleições. Durante as décadas de 20 e 30, o regime em voga era uma forma de parlamentarismo oligárquico, típico do século XIX[126].

Emblema da Legião Nacional Búlgara.

Dentre os grupelhos fascistas na Bulgária, os únicos a terem mais sucesso foram o Ratnitsi (Guerreiros), a Legião Nacional Búlgara do general Hristo Lukov e a réplica do NSDAP alemão, o Partido Nacional Socialista Búlgaro.

Outro importante evento a ser mencionado para compreender a história do fascismo local: Um grupo de oficiais de extrema direita, o ZVENO, conseguiu retirar o rei Boris do poder em 1934, mas não por muito tempo. Boris retornaria ao poder e reprimiria tanto os fascistas do Ratnitsi quanto os comunistas e organizações camponesas de esquerda.

Durante a Segunda Guerra, a Bulgária aliou-se aos nazistas (chegando a enviar homens para lutar com as SS na Iugoslávia), sendo que o movimento do general Lukov ganharia apoio dos nacional-socialistas e conseguiria se expandir durante esse período.

O governo autoritário e os fascistas foram escorraçados do poder pelos soviéticos, sendo possível que milhares deles tenham sido executados pelas “Cortes do Povo” impostas pelos soviéticos no pós-guerra.

Referências

[125] NOLTE, 1982, p. 195
[126] PAYNE, 1995, p. 326

RÚSSIA E UCRÂNIA

Konstantin Rodzaevsky (ao centro) discursando aos membros do Partido Fascista Russo.

Pode parecer um contrassenso incluir a Rússia nesse dicionário, mas houve um pequeno movimento fascista russo que tentou se constituir no exterior da URSS. O ultranacionalismo russo tem precedentes já na primeira década no século XX, ainda quando a Rússia era um império.

Na eleição para a Duma (parlamento) de 1907, os ultranacionalistas da “União do Povo Russo”, cuja ideologia era uma mistura de antissemitismo, anti-liberalismo, cristianismo ortodoxo e defesa do czarismo, conseguiu 10 % de votos[127].

No entanto, houve um único verdadeiro movimento fascista russo, composto por emigrados da URSS, que se estabeleceram na Manchúria, cujo líder foi Konstantin Rodzaevsky. Juntamente a outro pequeno grupo que imigrara para os EUA, eles formaram o “Partido Fascista Russo”. Uma vez que toda a propaganda dentro da URSS foi direcionada contra os fascistas, tal grupo nunca conseguiu lá se enraizar.

Rodzaevski, apesar de tudo, no fim da Segunda Guerra, se uniu aos comunistas para lutar contra os nazistas. Em uma carta a Stálin, Rodzaevski escrevera que “o Estalinismo era exatamente aquilo que eles [os fascistas russos] tinham erroneamente nomeado de Fascismo, sanado dos exageros, ilusões e erros [dos fascistas][128]”. De todo modo, Rodzaevski foi condenado a morte e executado em Moscou, em 1946[129].

Já a Ucrânia, por sua vez, era, desde a década de 20 uma república da URSS, sem autonomia política. No entanto, a direita radical fascista conseguiu se organizar a partir do final da década de 20, cuja organização mais importante era a Organização de Ucranianos Nacionalistas (OUN), cuja ideologia muito se assemelhava ao nazismo, tendo inclusive a ênfase na pureza racial ido além daquilo que as ideologias fascistas professavam[130].

Isso era claro na seção jovem e mais radical da OUN, a OUN-B, de Stepan Bandera. “A OUN adotou um programa de nacionalismo integral e autoritário, enfatizando a ação direita e uma ideologia romântica, mística, não-racional e vitalista. Enfatizava-se a identidade e pureza raciais dos ucranianos em comparação com os povos vizinhos inferiores, como os russos. Em 1944, a OUN desenvolveu um programa socialista-nacional (…) que propunha a propriedade estatal da indústria pesada e de transporte, além dos recursos naturais[131]”.

Referências

[127] CARSTEN, 1981, p. 43
[128] NOLTE,1982, p. 230
[129] IDEM
[130] PAYNE, 1995, p. 428
[131] IDEM, p. 428-9

GRÉCIA

Saudação fascista ao primeiro-ministro grego Metaxas (1940).

Faltavam as condições para que a Grécia pudesse produzir um movimento fascista: não havia nem irredentismo, nem extrema polarização política. No entanto, a Grécia oscilava, desde a década de 20, entre república e monarquia parlamentar, entre medidas políticas ora liberais ora conservadoras, entre democracia e golpes militares.

Além disso, na década de 30, uma grande crise econômica afetou o país, resultado da grande depressão econômica mundial. Como resultado de todo esse processo, em 1936, o general Ioannis Metaxas, que tinha se tornado primeiro-ministro, declarou estado de emergência e tomou o poder para si.

Apesar da ideologia nacionalista do regime, “um novo estado que levaria a Grécia a terceira civilização”[132], do uso da saudação fascista, de associações de juventudes e paramilitares estatais, além do culto de personalidade, fundamentalmente o regime não apresentava mobilização de massas, sendo considerado, por isso, um “autoritarismo burocrático”[133] ou “parafascista”[134].

Os grupos realmente fascistas eram oposicionistas, mas de todo modo eram muito pequenos: o maior deles era o partido nacional socialista de Georg S. Mercouris, que não chegou a ter 3.000 membros.

Referências

[132] PAYNE, 1995, p. 319
[133] IDEM
[134] KALLIS, Aristotle in BLAMIRES, 2006, p. 292

IRLANDA

O general Eoin O’Duffy, criador do Partido Corporativista Nacional..

Na Irlanda, o movimento mais perto do fascismo foi liderado pelo chefe de polícia (destituído pelo presidente da Irlanda Eamon de Valera), o General Eoin O ‘Duffy. Conhecidos como os Blue Shirts (Camisas Azuis) e apoiado por uma parte da pequena burguesia, era autoritário, mas autores disputam se ele deveria ser classificado como fascista ou não.

Sua ideologia era centrada no anticomunismo, pregava uma nova ordem social baseada no corporativismo e que se desenvolvesse baseada na ação social católica[134]. O movimento, em parte pela concorrência do IRA, foi declarado ilegal e fundiu-se com o partido conservador Fine Gael.

Logo após esse fato, O´Duffy criou o Partido Corporativista Nacional, plenamente fascista, mas que pouco durou. O general o’Duffy posteriormente foi lutar, com 700 de seus partidários, ao lado de Franco na Guerra Civil Espanhola. Após 1937, qualquer traço de ação política por parte dos Blue Shirts deixou de existir.

Referência

[135] CRONIN, Mike. “Ireland”in BLAMIRES, 2006, p .344

PAÍSES BÁLTICOS (Estônia, Lituânia e Letônia)

O general Andres Larka recebe as “boas-vindas” na estação ferroviária de Võru (1933).

Tal como em outros casos, nos Estados bálticos, movimentos fascistas foram impedidos de surgir devido a governos autoritários. Na Lituânia, o movimento protofascista Lobo de Ferro (Geležinis Vilkas), fundado por Algirdas Sliesoraitis, tentou, com apoio do então primeiro-ministro Augustinas Voldemaras, realizar uma marcha sobre Kaunas (capital da Lituânia), tal como fizeram os fascistas italianos. Ele foi suprimido pelos militares sob ordens do presidente Antanas Smetona. Após esse fato, Smetona aumentou seus poderes e transformou o país em uma ditadura de direita autoritária, mas não fascista.

Na Letônia não existiu um movimento fascista de grande porte, já que o regime de direita autoritária, que se instalou no início dos anos 30, não era um ambiente ideal para a consolidação de movimentos fascistas, vide os casos de Espanha ou Portugal.

Cartaz da Cruz do Trovão (1930).

Foi criado, na Letônia, um pequeno movimento fundado por Gustav Zelmin, o Cruz de Fogo (Ungustkruz), depois nomeado de Cruz de Trovão (Perkonkrusts). Sua ideologia era ultranacionalista e antissemita; seus membros portavam roupas cinza e suásticas (apesar de, contraditoriamente, ser também anti-germânico), típicos de movimentos fascistas, e performavam um cumprimento com o braço direito estendido dizendo “Zihnai sweiks[136]. A agremiação atraia jovens universitários do sexo masculino, principalmente. Foi proibido em 1934, pelo governo do primeiro ministro Ulmanis, que, com um putsch, derrubou a incipiente democracia do país.

Já na Estônia, havia a agremiação “ Lutadores da Liberdade” (Vaps), liderado pelo general Andres Larka e pelo advogado Artur Sick e formado por combatentes que lutaram contra os soviéticos e os comunistas do país. O movimento era estruturado em formações paramilitares, as quais portavam camisas verde e cinza, performando um cumprimento que simulava o desembainhar de espada.

O Vaps foi a maior agremiação fascista da Estônia. Sua ideologia era antissemita, antimarxista e pregava a eliminação dos partidos e da democracia parlamentar[137]. Com a crise econômica que atingiu o país na década de 30 e a contínua mudança de governos no parlamento, o Vaps conseguiu angariar grande apoio entre a população.

Em 1934, o chefe de governo, Päts, juntamente a Laidoner, posteriormente nomeado chefe do exército, realiza um putsch sob a alegação dos perigos do fascismo no país, uma vez que nas eleições o Vaps obtivera 72,5% dos votos[138]. O movimento seria dissolvido em 1935 pelo regime (como também o partido comunista), que então já havia dissolvido a democracia e instalara, em seu lugar, uma ditadura.

Referências

[136] NOLTE, 1982, p. 235
[137] IDEM
[138] WIPPERMAN, 1983, p. 179

SUÍÇA

A Primeira Guerra não provocou grandes mudanças na Suíça, já que permanecera neutra durante o período, apesar das greves incitadas pelos socialistas em 1918, que foram reprimidas com muita violência pelo governo. Outro fator importante para se compreender as condições em que movimentos fascistas por lá surgiram é que a Suíça é uma nação composta por três nacionalidades (italiana, francesa e alemã), o que dificultava qualquer tipo de fascismo que estivesse atrelado a uma nacionalidade específica.

Apesar de pequenos, houve uma proliferação, durante a década de 20, de movimentos fascistas devido às transformações econômicas e sociais e ao fortalecimento da esquerda. Dentre os pequenos grupos autoritários na Suíça, o Front Nacional, originário da região alemã, era o mais genuinamente fascista, sendo muito próximo ideologicamente do nazismo.

Sua base de sustentação era a classe média: em cartazes de propaganda do partido era frequente a frase “estratos médios, levantem-se! (Mittlerstand erwache!)”[139]. Defendiam posições anticomunistas, antissocialistas, antissemitas, e, por fim, antidemocráticas. Orientava-se em concepções como o saudosismo de “tempos gloriosos” da Idade Média, do valor do “Povo Racial (Volk)”, do “Solo” e da “Pátria”[140].

A Suíça contava, entretanto, com movimentos conservadores fortes como a Liga Aufgebot (Mobilização), o Front Católico, entre outros, os quais competiam com os fascistas por adesões, o que impediu a proliferação do fascismo no país. No entanto, a crise econômica mundial também chegaria à Suíça na década de 30, resultando em 124.000 desempregados. A crise poderia, em tese, fornecer as condições para o sucesso de um eventual movimento fascista.

Cartaz do Nationale Front de 1933.

Ora, em tais condições, o Front National conseguiu angariar 10.000 membros durante os anos 30. Em um país onde uma das maiores forças políticas, os sociais-democratas, possuíam 40.000 membros[141], a força do movimento não podia ser negligenciada. Contudo, o partido, apesar de alguns sucessos nas eleições municipais de 1933, como 27% no distrito de Schaffenhausen e 7.7% em Zurique, pouco conseguiu nas eleições nacionais, elegendo somente um deputado.

Outro movimento a ser mencionado, desta vez originário da região francesa do país, é o União Nacional. Era o grupo fascista mais importante, contando, inclusive, com apoio financeiro de Mussolini.

No entanto, após 1936, os movimentos fascistas no país foram dissolvidos, mas continuaram na clandestinidade até 1943.[142]

Além das razões acima mencionadas, o fracasso do fascismo da Suíça ocorreu também pois os comunistas permaneceram uma pequena agremiação, quase sem nenhum poder, desse modo não houve qualquer motivação para que um movimento fascista alegasse a necessidade de defender o país de um suposto “perigo vermelho”.

Além disso, o nazismo provocava grande apreensão dentre o governo e os partidos de todos os espectros, o que levou também a dissolução oficial do NSDAP suíço, logo após o próprio líder de tal partido ter sido assassinado.[143]

Por outro lado, a Suíça, apesar de neutra durante a guerra, colaborou com os alemães, dado que o governo suíço permitiu, entre 1939 e 45, tanto o tráfego de veículos do eixo pelo seu território quanto a instalação de uma política de imigração restritiva, impedindo muitos judeus de adentrarem no país.

Além de tudo, é importante relembrar que a Suíça também foi palco de reuniões da primeira tentativa de criação de uma Internacional fascista. A primeira foi esboçada em 1934, organizada pelos fascistas italianos. As reuniões foram sediadas em Montreaux, com a participação de representantes dos movimentos fascistas da Romênia, da Noruega, da Grécia, da Irlanda, etc ( menos os nazistas). Devido à falta de coerência entre as agremiações e suas divergências, a internacional não teve sucesso.

Referências

[139] WIPPERMAN, 1983, p. 243
[140] IDEM, p. 166
[141] IDEM, p. 167
[142] KOLLER, Christian, “Switzerland”, p. 648 in BLAMIRES, 2006
[143] IDEM

Para saber mais

Glossário

Anschluss – em alemão anexação, um eufemismo para o que foi de fato, a invasão e posterior união política e econômica da Áustria com a Alemanha.

Bergson, Henri – filósofo do final do século XIX, caracterizado como defensor da filosofia vitalista- um dos conceitos principais de sua filosofia é o Élan Vital, que descreve a natureza daquilo que é vivo. Apesar de vitalista, não é considerado de modo algum como precursor das filosofias vitalistas que levaram ao fascismo.

Corporativismo, Estado corporativista – “pode ser definido como o sistema de arranjos institucionais pelos quais capital e trabalho são integrados em unidade hierárquicas, obrigatórias e funcionais reconhecidas pelo estado, que tornam-se órgãos de autodesenvolvimento para problemas relacionados à categorias específicas como também [serve] como fundamento para participação com outros interesses organizados corporativamente em decisões de políticas públicas que afetem toda a sociedade( Parlamento corporativo. As corporações podem ser o poder controlador no estado, ou podem ser, como na Itália, controladas por uma autoridade política que exista independentemente de ou fora do sistema corporativo”[144]. Em outras palavras, um tipo de organização definida juridicamente que tenta regular, através do estado, as relações do trabalho e capital em unidades atreladas a um setor econômico específico.

Colaboracionismo – qualquer pessoa, grupo, movimento etc. que pretende ou colabora com o inimigo

Dreyfusards(caso Dreyfus) – partidários da inocência do capitão Dreyfus. O Caso Dreyfus dividiu a França no final do século XIX; o caso em si (se Dreyfus era ou não um espião alemã-que não era) serviu como pretexto para determinar o futuro da França- elitista, antissemita ( Dreyfus era judeu) e chauvinista ou democrática e igualitária[145]. No fim, venceram os defensores de Dreyfus, que garantiram a derrota de nacionalistas autoritários franceses.

Gleichschaltung (Coordenação) – termo retirado da tecnologia elétrica, foi apropriado pelos nazistas para designar o processo de subordinação de toda a sociedade à ideologia nazista. Por exemplo, o federalismo do estado alemão, a democracia e os direitos individuais foram as primeiras vítimas do Gleichshaltung nazista. Assim como, posteriormente, as cortes, a burocracia civil e o exército.

Irredentismo – termo original do italiano que aparece, no século XIX, para designar o programa daqueles que queriam a unificação do Estado italiano e a inclusão de territórios os quais estavam fora do Estado italiano. Depois ele foi usado para descrever qualquer ideologia que procura anexar territórios estrangeiros sob a alegação de pertencerem ao território nacional.

Führerprinzip (princípio do chefe) – originalmente, ideologia que pregava sistema radicalmente antidemocrático de liderança, que caracterizava o nazismo, mas que é usado para nomear qualquer sistema político, forma de governo ultra autoritário em que tudo e todos se submetem ao líder.

Filosofia vitalista – tipo de filosofia, em especial na Alemanha, “que têm em comum as características de considerar a filosofia como vida”[146] ou filosofia que enxerga a vida como princípio de todas as coisas. Vários autores podem ser postos como partidários dessa corrente como Bergson, Ludwig Klages, etc.

Lebensraum (Espaço vital) – ideologia propagada no final do século XIX por conservadores alemães e influente durante o império alemão, que, após certas mudanças conceituais, foi usado por Hitler no Minha Luta para descrever a necessidade de um povo “superior”, que “não possuísse espaço suficiente”, pudesse conquistar o território de povos “inferiores”.
Holístico: concepção de mundo que engloba todos os aspectos da realidade
Ideologia Sincrética: conjunto de ideias que mistura fontes de diversos matizes, muitas vezes contraditórias entre si

Lumpem – seção desestruturada e desorganizada de algum estrato ou classe.

Pareto, W. – sociólogo e economista, professor em Lausanne na Suíça, cujas teorias das Elites, da importância dos mitos no governo,etc como também seu desprezo pela democracia[147] influenciaram o jovem Mussolini.

Parafascismo/parafascista[148] – regimes políticos que mimetizam as práticas genuinamente fascistas, mas com a intenção de cooptar seus membros e desmobilizar a população. Adotam o estilo (militarismo, gestos), partidos únicos e seções paramilitares e, ao menos publicamente, defendem muitas ideias da ideologia fascista mimetizada; mas o partido geralmente tem pouca influência sobre o regime, as seções paramilitares são subordinadas ao exército, e a ideologia não é seguida pelo regime. Os regimes de Franco, Salazar e até mesmo de Antonescu, na Romênia ou de Metaxas, na Grécia, podem ser considerados, então, parafascistas.

Putsch/putschistas – golpe ou tentativa de golpe através de forças militares e/ou paramilitares.

Squadristi – grupos paramilitares formados entre 1920-1, a princípio, no norte da Itália, no campo, para combater organizações, políticos e militantes socialistas, após o conjunto de greves, tomadas de fábricas e terra entre 1919 e 1921, conhecido como biênio rosso-vermelho, em italiano; recorreriam à violência e muitas vezes, com extrema brutalidade, resultando na morte de seus oponentes.

Sorel, Georges – teórico do sindicalismo revolucionário, promoveu a revisão do marxismo, produzindo uma teoria em que enfatiza a necessidade da violência e de mitos para a revolução. Serviu de inspiração para Mussolini e para os primeiros círculos intelectuais fascistas em suas respectivas teorias.

SAs – grupos paramilitares, a princípio liderados por E. Röhm e depois submetidas às SS de Himmler, que entravam em confronto com sociais-democratas e comunistas até que eles mesmos fossem cassados, presos ou perseguidos depois da tomada de poder, e responsáveis por ações violentas e brutais, como a noites dos cristais quebrados, em 1937, um pogrom contra os judeus.

SS – Originalmente um setor das SAs, após o assassinato de Ernst Röhm, estabelece-se como a polícia do NSDAP, chefiada por Heinrich Himmler. Progressivamente torna-se cada vez mais importante dentro do partido e estado nazistas, até que Himmler é designado chefe das polícias e da Gestapo (polícia secreta). As SSs tornam-se um estado dentro do estado, chegando a ter uma divisão do exército (as Waffen-SS). Foram responsáveis em coordenar a solução final- o plano de eliminar fisicamente todos os judeus na Europa.

Ultranacionalismo – qualquer forma de ideologia nacionalista que seja anti-individualista (que sobreponha a nação aos direitos individuais), imperialista (não respeite o direito de autodeterminação das nações e de outros povos), antidemocrática e xenofóbica.

Referências

[144] CANNISTRARO, 1982, p. 138
[145] PAYNE,1995, p. 45
[146] ABBAGNO, 2007, p. 1197
[147] CANNISTRARO, 1982, p. 392
[148] GRIFFIN, 1992

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