“Capitão América: O Soldado Invernal” é uma ficção que mostra o quanto você é espionado na vida real

Longe de ser uma mera obra de ficção, "Capitão América: O Soldado Invernal" trata de um problema atual, e que se torna cada vez mais invasivo e perigoso.

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Longe de ser uma mera obra de ficção, o filme trata de um problema atual, e que se torna cada vez mais invasivo e perigoso

*Contem spoilers

Capitão América e o Soldado Invernal foi um dos mais bem sucedidos filmes lançados pela Marvel, tendo os estreantes irmãos Russo na direção de um dos títulos mais famosos do entretenimento geek dos últimos anos. O filme se destaca entre os da “primeira geração” de filmes da Marvel - com destaque para as sequências de Homem de Ferro, Thor e Os Vingadores - por apresentar temáticas mais densas e uma atmosfera menos dualista (o eterno embate entre bem e mal), além de apresentar debates que viriam não somente a pavimentar os próximos lançamentos da Marvel (Os Vingadores: Era de Ultron e o mais recente, Capitão América: Guerra Civil) como também a ditar o universo para o grande desfecho, ansiosamente aguardado pelos fãs: Os Vingadores e a Guerra Infinita, partes 1 e 2.

Mas o que torna realmente o segundo filme do herói americano tão cativante? Alguns poderiam sugerir a dinâmica entre Steve Rogers e Natasha Romanoff, ou talvez o “plot twist” que foi a volta de James “Bucky” Barnes, recém ressuscitado melhor amigo de Steve, como seu inimigo e agente da HYDRA, o temível Soldado Invernal. Outros poderão ir além e argumentar que talvez o que torne o filme tão especial seja a história de como HYDRA cresceu paralelamente à SHIELD, revelando assim não somente as falhas da instituição como também as daqueles que a dirigiam e trabalhavam para ela. Porém, o que ninguém considera é que talvez o sucesso de O Soldado Invernal se dê justamente graças às suas similaridades com o nosso mundo, o mundo do espectador.

Claro, não há nenhum super-soldado pulando por aí e fazendo acrobacias com um escudo redondo (pelo menos que se tenha notícia) mas é inegável o fato de que o filme utiliza avidamente de cenários e acontecimentos reais para estabelecer um plano de fundo para seus personagens. A realidade é tão evidente que a história se repete, e mesmo dois anos após o lançamento do filme, os acontecimentos podem ter inspirado sua história principal continuam se repetindo.

Uma metáfora sobre um mundo cada vez mais controlado e vigiado

O filme se inicia com uma operação de resgate de reféns em um navio sequestrado por piratas e de interesse direto da SHIELD chamado Lumerian Star (ou Estrela de Lumerian, em uma tradução livre). Enquanto Steve se dedica a resgatar os reféns e a neutralizar Batroc, um pirata francês que seria um dos responsáveis pelo sequestro, Natasha realiza sua parte da missão: coletar os dados produzidos no navio de origem da SHIELD e apagar os discos rígidos. O Capitão, se sentindo enganado por Nick Fury a respeito do verdadeiro objetivo da missão e do papel da Viúva Negra, o confronta e é aí que temos o primeiro vislumbre do Projeto Insight, revelado por Fury a Steve. O projeto, segundo o diretor, seria de garantir a segurança mundial por meio de helicarriers altamente armados, que supostamente poderiam detectar ameaças e neutralizá-las. O projeto, tal como Nick o apresenta, é produzido após a Batalha por Nova York, de Os Vingadores, e impulsionado pelo fator de aparente imobilidade sentido pelos humanos diante das ameaças intergalácticas (como os Chitauri ou Loki).
Porém, a questão principal é que o navio foi sequestrado pela própria SHIELD, mais especificadamente pelo próprio Nick Fury, que, suspeitando dos motivos particulares tanto do Comitê de Segurança Internacional quanto da própria agência, decide por si mesmo averiguar a informação contida nesse navio, informação essa supostamente ultra-secreta, e quais seriam suas consequências e reais intenções.

E é a partir da investigação de Steve e Natasha que a verdade finalmente se mostra: A agência HYDRA vem crescendo paralelamente à SHIELD desde o fim da Segunda Guerra Mundial, com agentes infiltrados, e aplicando os motivos escusos da Primeira Guerra por meio do operacional da última. E essa informação surpreendente nos é apresentada por Zola, assistente do Caveira Vermelha e principal antagonista do Capitão América durante a Segunda Guerra, assim como no primeiro filme da franquia.

A HYDRA usa a SHIELD para produzir os helicarriers, que utiliza um algoritimo altamente sofisticado produzido por Zola, cientista nazista e assistente de Caveira Vermelha, do primeiro O Capitão América, para analisar a vida das pessoas e eliminaria qualquer um que se mostrasse como provável inimigo da HYDRA. O nível de aparelhamento é tão grande que até mesmo o Senador Stern, personagem conhecido dentro do universo Marvel por apresentar oposição clara à Tony Stark em Homem de Ferro 2 e 3, acaba se mostrando como um agente da HYDRA, além de, é claro, o Agente Rumlow (que em Os Vingadores A Era de Ultron viria a ser apresentado como Crossbones) e o Agente Jasper Sitwell, ambos membros do alto escalão da SHIELD e presentes no suposto sequestro do navio Lemurian Star.

Quando Steve e Natasha confrontam Sitwell, a resposta recebida se mostra além do imaginado por qualquer um, já que o agente explica em detalhes o funcionamento do algoritimo criado por Zola:

“Sitwell: O algoritimo de Zola é um programa para escolher alvos para o Projeto Insight.

Steve: Que alvos?

Sitwell: Uma âncora de TV no Cairo, o Sub-secretário de Defesa, a paraninfa de uma escola em Iowa City, Bruce Banner, Stephen Strange, qualquer um que seja uma ameaça para a HYDRA. Agora, ou no futuro.

Steve: No futuro? Como poderiam saber?

Stiwell: Como não poderiam? O século 21 é um livro digital. Zola ensinou a HYDRA como lê-lo. Seus históricos bancários, históricos médicos, padrões de voto, e-mails, telefonemas, sua nota no ENEM*! O algoritimo de Zola avalia o passado das pessoas para prever seu futuro.

[...]

Steve: E depois o quê?

Stiwell: O helicarrier do Projeto Insight risca as pessoas da lista. Alguns milhões por vez.”

É aqui que se encontra o cerne da questão, porque as pessoas já são, de fato, espionadas. Pelo seu próprio governo, por governos estrangeiros e até mesmo por companhias, cujo único interesse é entender seu padrão de vida, de consumo, interesses particulares, consciência, associações políticas e até lugares visitados.

O algoritimo Zola da vida real


Os principais provedores de e-mails, como Google, Microsoft, Yahoo e Apple, já assumiram publicamente, em 2014, que autorizar o acesso da empresa ao conteúdo dos e-mails é um dos itens presentes em termos de contrato e serviço. A Google até mesmo sofreu uma ação penal nos Estados Unidos em 2013 por cooperar com o governo estadunidense em espionar o conteúdo dos e-mails particulares do Gmail. A empresa assumiu publicamente que “Da mesma maneira que o remetente de uma carta a um parceiro de negócios não pode se sentir surpreso se o assistente do destinatário abrir a carta, pessoas que utilizam e-mails em hosts online não podem se surpreender se suas comunicações são processadas pelo serviço de comunicação eletrônico do servidor no processo de entrega”. A afirmação foi considerada chocante pela Consumer Watchdog que deixou claro o fato de que a Google ainda não explicou seu papel no monitoramento em massa feito pela NSA (Agência de Segurança Nacional dos EUA) tanto de cidadãos estadunidenses quanto de países estrangeiros.

Além disso, o feed de notícias de mais de 70 mil usuários do Facebook foram manipulados para que seus resultados fossem utilizados em uma pesquisa sobre contágio emocional. O que choca é estar nos termos de serviço do site que o usuário, ao criar sua conta, abdica de seus dados para “análises, testes e pesquisas”. O experimento, que não foi avisado aos usuários, consistiu em propositalmente ocupar o feed de notícias de mensagens positivas ou negativas. O experimento, apesar de seguir as premissas legais, fora completamente antiético ao se utilizar de humanos, e diversos usuários demonstraram seu repúdio ao ocorrido após a notícia do experimento vir a público.

Tal experimento demonstrou que os usuários se tornaram mais propensos a publicar postagens e compartilhamentos que seguissem o emocional do seu feed – fosse ele propositalmente feliz ou triste -. Ou seja: manipulando o feed de notícias dos usuários, era possível afetar diretamente o conteúdo postado no site. A razão disso é que “estados emocionais podem ser transferidos a outros via contágio emocional, levando pessoas a experimentarem as mesmas emoções mesmo que sem não tenham percebido tal estado”, de acordo com Adam Kramer, um dos pesquisadores que redigiram o estudo.

Ou seja: companhias e provedores de serviço estão monitorando nossas vidas. E o motivo disso não é sempre acerca de estudos científicos. Assange, o criador do site WikiLeaks, dedicado a compartilhar informações secretas, afirmou este ano que o Brasil é o país mais espionado da América Latina. O motivo? A economia, que é a maior do continente, e o pré-sal, grande reserva de petróleo encontrada na costa brasileira. O site foi além, e revelou que em 2016  Temer, na época presidente interino durante o processo de impeachment de Dilma, se encontrou duas vezes com o Cônsul Geral Americano, Christopher McMullen. O motivo da conversa? O lançamento de um candidato próprio de seu partido (o PMDB às eleições) e críticas às políticas do PT e ao mandato do  Lula, ainda em 2006. O site classificou o conteúdo das visitas, assim como sua presença, provas de que o atual presidente poderia ser considerado como um informante da inteligência americana em território nacional.

Acredita que tudo isso possa ser somente um exagero ou mal-entendido? Pois não é só isso... Foi constatado pela Agência de Inteligência Americana que houve interferência direta da Rússia nas eleições do ano passado, que culminara na eleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Segundo especialistas, a origem do ataque foi de agentes russos que invadiram os e-mails do Comitê Nacional dos Democratas, ganhando acesso a informações confidenciais a respeito da campanha de Hillary Clinton, documentos esses que foram vazados para o WiliLeaks. O conteúdo dos e-mails, entre eles a respeito de doações e intervenções na campanha do candidato Bernie Sanders, também do partido Democrata, teria sido o principal fator para a perda de eleitores de Hilary dias antes da eleição. O governo dos EUA respondeu à altura e anunciou uma série de sanções à Rússia por sua intervenção. Entre elas, cônsules russos em território americano foram convidados a se retirar, agentes russos em território foram considerados como “persona non grata”, entre outras medidas.

O irônico é o fato dos próprios Estados Unidos não serem estranhos a interferência em países estrangeiros. Durante todo o século XX e XXI o país interferiu em eleições no mundo todo por meio de informação, investimentos e doações e até mesmo do uso agentes americanos. Alguns exemplos são a Itália em 1948, o Haiti em 1986, a Nicarágua, a extinta Tchecoslováquia em 1990 e Israel em 1996 e 1999. Apenas nos anos 2000 foram gastos milhões de dólares em campanhas políticas e investimentos midiáticos para eleições em países estrangeiros.

Conclusão

Longe de ser uma realidade de filmes de super-herói, a vigilância e espionagem de dados digitais é uma realidade cotidiana que a sociedade vem enfrentando desde o século XX. A invasão e a distribuição de dados que deveriam ser sigilosos às Inteligências estrangeiras ou à mídia toma as mais variadas formas e justificativas, quando na realidade o objetivo é apenas um: o de controlar ou interferir em determinada situação; seja utilizando usuários de mídias sociais em experimentos anti-éticos, seja com propagandas que visam estimular um consumo desenfreado ou até mesmo interferindo em processos democráticos de vital importância às democracias.

A interferência em direitos políticos e civis é uma característica negativa clara do processo de globalização; longe de apenas monitorar o uso dos usuários, há uma efetiva obstrução de direitos e garantias fundamentais que jamais, em nenhuma hipótese, poderiam ser desconsiderados. Violar o direito à privacidade, utilizar pessoas para experimentos e, por fim, influenciar de maneira negativa, levando para longe da escolha democrática do povo, o resultado de uma eleição se mostra como um atentado não somente às liberdades individuais como também ao próprio processo político reservado a seus cidadãos e governos.

Tal interferência pode não ser tão gráfica como ter helicarriers com armas apontadas para você em plena luz do dia, mas certamente tem efeitos tão preocupantes quanto: você tem se sentido triste hoje? O seu candidato à eleição sofreu alguma espécie de jogo sujo? A razão disso pode estar no seu provedor de e-mail.

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