Defende o capitalismo e usa a máscara do V de Vingança? Você não entendeu nada.

V de Vingança foi criado por um anarquista e é uma obra crítica a qualquer tipo de hierarquia e autoritarismo, e isso inclui o próprio capitalismo.


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Precisamos compreender V de Vingança

V de Vingança é uma obra literária em forma de quadrinho publicada em 1983, escrito por Allan Moore e ilustrado por David Lloyd e é, por muitos, considerado como uma das maiores HQs já feitas.

A história central é encenada em uma Inglaterra distópica entregue a um regime fascista e trata de uma força redentora – figurada em V (personagem principal) – que se rebela contra o autoritarismo em nome de sua vingança.

Contudo, o fundo político do quadrinho é de uma complexidade poética, recheado por referências literário-políticas diversas, passando várias mensagens implícitas e interpretativas ao alinhamento ideológico de cada um, provavelmente atingindo a finalidade visionária do emissor. Mas qual foi a verdadeira intenção de Alan Moore?

Para compreender isso, primeiramente, devemos ingressar na cabeça de seu autor e nas origens de seu fundo historiográfico.



A História real que inspirou a HQ

A Revolta da Pólvora, de Ernest Crofts

A história do quadrinho é baseada na Revolução da Pólvora, de 1605. Foi uma tentativa de assassinar o rei inglês Jaime I, por uma insatisfação sobre suas políticas tendenciosas ao protestantismo, não concedendo direitos iguais aos católicos.

Organizada por um grupo de fundamentalistas que pretendiam explodir o Parlamento em uma sessão na qual o Rei discursaria, teve como principal figura do levante foi Guy Fawkes, um soldado católico especialista em explosivos, que angariou 36 barris de pólvora para o acontecimento do dia 5 de novembro.

Contudo, foi descoberto um dia antes, levado até Jaime I, que lhe perguntou o porquê da realização de um atentado que mataria tantas pessoas, ele respondeu: “Tempos desesperadores exigem medidas desesperadas”. Foi enforcado e esquartejado. E é justamente na ideia de Fawkes que é construído V de Vingança e seu personagem principal, o qual representa o continuador atemporal de causas diferentes da revolta de Guy Fawkes.

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Alan Moore: de origem proletária e anarquista

Alan Moore, autor de V de Vingança

Nascido na década de 50 britânica, Moore cresceu em meio a ascensão do Punk Rock e da explosão de movimentos culturais e políticos. Oriundo de uma família de operários pobres, sempre teve que se ocupar com empregos temporários para sua manutenção pessoal, mas aos poucos mostrava-se interessado pelo universo dos quadrinhos.

Apelidado de “Bruxo de Northampton”, Moore sempre mostrou-se rebelde às burocracias institucionais e aos 17 anos foi expulso de seu colégio por uso/venda de drogas. Então lhe restou ingressar no mundo dos roteiros pra revistas e HQs britânicas em 1980. Hoje, ainda vive em sua cidade natal, recluso da mídia e sem acesso à internet nem à televisão.

Alan nunca escondeu seus posicionamentos, demonstrando-lhes com total transparência em suas obras; considera-se, como se auto denomina, um “anarquista romântico”. Veja suas palavras em uma breve entrevista recente:

“Anarquia é, e sempre foi, um romance. Claramente é a melhor e a única forma moralmente sensível forma de conduzir o mundo. Que todo mundo deveria ser o mestre do seu próprio destino, que todo mundo deveria ser seu próprio líder. Isso é algo em que eu ainda acredito, eu penso que até um olhar grosseiro pelo mundo de hoje – particularmente nos dias de hoje – iria relevar que é uma minoria das minorias que causam a maioria dos problemas do mundo. E esta porcentagem são os líderes. Não precisamos de pessoas nos tratando como empregados.” (Alan Moore)

Moore sempre abominou o lucro e as grandes corporações, por isso foi completamente avesso à transformação de suas obras em representações cinematográficas, tanto V de Vingança como Watchmen, pedindo até que seu nome fosse retirado dos créditos. A partir disso podemos compreender qual a verdadeira premissa artístico-política que a obra tenta nos passar: a Anarquia.

V de Vingança como uma crítica ao governo de Margaret Thatcher

O quadrinho começa a ser escrito em 1981 e finalizado em 1983, logo quando Margaret Thatcher gere primeiro mandato como 1ª ministra da Inglaterra e ingressa na Guerra das Malvinas, contra a Argentina. Grande combatente do sindicalismo, praticou sua austeridade em nome do capital e privatizou empresas estatais, chegando a proferir em um de seus discursos que “A ganância é um bem”. Hoje, é considerada um dos ícones do neoliberalismo conservador.

Então Moore se inspira nos caminhos que seu governo toma para projetar a história em 1997, representando um possível destino que aquele autoritarismo estatal e privado causado pelos 3 mandatos de Thatcher poderia causar ao futuro britânico, adjuntos a um capitalismo conservador e o crescimento explosivo da globalização.

Em sua publicação final pela DC Comics, escreveu um breve prefácio; aqui um trecho:

“Estamos em 1988 agora. Margaret Thatcher fala de uma liderança ininterrupta dos Conservadores no próximo século (…) Um jornal tabloide acalenta a ideia de campos de concentração para pessoas com AIDS. Os soldados da tropa de choque usam visores negros (…) O governo expressou o desejo de erradicar a homossexualidade até mesmo como conceito abstrato (…) estou pensando em deixar o país com minha família em breve, eu não gosto mais daqui”. (Alan Moore)

A partir daí ele idealiza o mundo da história, uma Inglaterra mergulhada em um regime fascista que dizima minorias, impõe a força militar, a censura, o controle das ações públicas e é controlado por grupos políticos e econômicos minoritários. É uma grande representação sobre quanto o estado e a propriedade privada podem se tornar um atentado à sociedade civil organizada, aos olhos de Moore. Um verdadeiro ode ao anarquismo clássico. Aqui estão algumas frases proferidas por V do quadrinho que explicitam isso:

“O povo não tem que temer seu governo, é o governo que tem que temer seu povo”

“Roubo implica propriedade, e não se pode roubar do governo. Digamos que tomei o que era nosso.”

“A anarquia ostenta duas faces. A de destruidores e a de criadores. Os destruidores derrubam impérios, e com os destroços, os criadores erguem mundos melhores.”

“Igualdade, justiça e liberdade são mais que palavras; são perspectivas!”

A influência de V de Vingança no ativismo moderno


Não é a toa que a figura do anti-herói é utilizada amplamente nos dias de hoje para representar ideias, se tornando onipresente em protestos e passeatas que tratam desde a queda do sistema financeiro às mais simples reivindicações. A máscara se tornou um emblema do ativismo moderno.
Em uma entrevista ao The Guardian sobre essa repercussão popular, Alan retrata o seguinte:

Já me acostumei com o fato de algumas das minhas criações se infiltrarem no mundo material. Imagino que quando estava escrevendo ‘V de vingança’ pensava no fundo do meu coração: ‘Não seria ótimo se essas ideias tivessem impacto?’. Então quando você começar a ver a fantasia indolente invadir o mundo real… é peculiar. Sinto como se um personagem que criei há 30 anos de alguma forma escapasse do mundo da ficção; quando você tem um mar de máscaras do V,  faz os manifestantes parecerem um organismo único – o 99% que ouvimos tanto. Isso é formidável. (Alan Moore)

Porém o claro caráter subversivo e libertário da obra V de Vingança não evitou que ela fosse distorcida. Muitos jovens conservadores usaram a máscara de Guy Fawkes para defender o establishment, o fascismo e a narrativa midíatica sobre o mundo.

“Anonymous” cantando o hino em frente a FIESP, representante da classe patronal brasileira: os “anonymous” do Brasil não entenderam nada…

Foi o que aconteceu com uma célula da legião Anonymous no Brasil, tomada por uma pessoa autoritária e que acabou crescendo muito durante as manifestações de junho de 2013. Sua página, Anonymous Brasil no Facebook, atingiu mais de 1 milhão de seguidores, enganando e confundindo muita gente sobre os verdadeiros ideais libertários dos anonymous originais. Conforme relata o próprio site oficial dos anonymous:

 É fato que Anonymous no Brasil vem perdendo credibilidade gradualmente há alguns anos, e a @AnonymousBr4sil tem uma grande parcela de responsabilidade nisso. Criada em 12 de julho de 2012 por um jovem rapaz chamado Fabricio*, um líder autoritário que comandava a célula somente para aumentar o número de seguidores, buscando parcerias desconhecidas e duvidosas para troca de compartilhamento, evitando, também, posturas que atentassem contra o senso comum a respeito de drogas, religiões, sexualidade e direitos humanos, apelando sempre para “o que vocês acham”, vontades de maiorias e senso comum midiático.

Esses ex-membros, com perseverança e esperança no ideal Anonymous criaram outra célula, mais combativa e intolerante com falsos idealistas Anonymous, intitulada Frente Unificadora de Emancipação e Libertação, a @AnonymousFUEL. Em paralelo a isso, várias outras células também se desligaram da @AnonymousBr4sil, num processo independente em que todos os grupos sérios passaram a perceber a má qualidade ou má intenção do trabalho realizado por eles. A convicção no ideal conseguiu unir vários idealistas Anonymous, que já não tinham esperanças no ideal. Logo em seguida, com a necessidade de mudança, a #OpWalküre foi criada em paralelo com a #OpFakeAnon para combater falsos Anonymous que utilizavam a ideia para interesse próprio e econômico, propagar o fascismo, ditar opiniões, espalhar informações falsas e defender valores completamente contraditórios à Ideia.

Movimentos sociais ou ativistas já não olhavam para nós como tão importantes ou essenciais para a luta por direitos. Já associavam nós, Anonymous, à voz dos opressores.”

Considerações finais

Então quer dizer que é uma obra sobre o caos? Muito pelo contrário, V de vingança é uma obra sobre a ordem; a destruição de ícones e de instituições para a construção de uma sociedade sem hierarquias, de qualquer tipo que sejam. Sim, destruir para construir, já que é baseado em obras como “Estadismo e Anarquia”, de Mikhail Bakunin, e “A Propriedade é um roubo” de Proudhon.

V não se trata da figura de um líder/condutor revolucionário; sua figura é completamente simbólica, por isso o uso da máscara e o desconhecimento de sua verdadeira identidade. V se trata de um espectro, um espírito representativo de toda a sociedade e sua capacidade de mudança. Aos amantes da cultura pop, política, história, sociologia e filosofia, essa obra trata explicitamente desses temas de forma poética e sua leitura é imprescindível.

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