Adeus ao Trabalho: Crise do Sistema e Revolução Tecnológica

Ficaremos todos sem emprego em breve. Um futuro de Miséria ou de Liberdade dependerá das decisões políticas que fazemos agora, neste instante.

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Em qualquer fábrica de primeiro mundo, no lugar de operários agrupando peças e apertando parafusos, encontraremos diversas máquinas de última geração. Ao mesmo tempo, casas inteiras são construídas em poucas horas por uma impressora 3D gigante, envolvendo apenas uma ou duas pessoas no processo.

Esta é a previsão do jornalista David Baker para os próximos anos, e ele não está exagerando, basta constatarmos o avanço da automação na vida diária dos cidadãos que vivem nos países centrais. Na Suíça, a maior parte dos supermercados já conta com caixas automatizados, permanecendo apenas um ou no máximo dois caixas humanos, e mais por uma questão de não espantar os clientes mais velhos, que costumam ser avessos aos caixas automáticos.

Mas não é apenas para grandes empreendimentos que a automação avança a passos largos, ela também ganha espaço nos pequenos negócios ou mesmo no uso doméstico, como é o caso do robô Baxter desenvolvido pela empresa Rethink Robotics, que poderia ser considerado o carro popular dos robôs autônomos.  O atual estágio de automação é tanto que a maior parte das profissões será substituída por máquinas em questão de pouco tempo.

Caixa automático de supermercado, na Suíça.

No entanto, não serão apenas os trabalhos da “blue collar” (classe trabalhadora que realiza trabalho manual) que serão substituídos por máquinas de todo tipo. Os da “white collar” (trabalhadores cujo trabalho não é considerado manual) também estão ameaçados para os próximos 10 ou 20 anos. Basta observar a quantidade de empregados que são necessários em diversos trabalhos burocráticos hoje e quantos eram necessários antes da revolução digital.

Um software pode substituir muitos profissionais e ainda tornar o trabalho deles muito mais rápido, eficiente e produtivo: “no site da revista Forbes, notícias sobre mercado já são redigidas em nanossegundos por um robô. Existe um software capaz de diagnosticar pacientes com câncer com muito mais acerto do que os próprios médicos. Um programa de computador acerta 7 a cada 10 decisões da Suprema Corte nos Estados Unidos. Qualquer trader do mercado financeiro sabe que computadores potentes são capazes de fazer transações mais rápidas e lucrativas do que eles próprios”, relata Baker.

A ficção prevendo o inevitável: mesa de cirurgia automatizada, do filme Prometheus, de Ridley Scott.

A maior parte das profissões não braçais tem grandes chances de ser robotizadas nos próximos anos. A profissão de contador, por exemplo, tem 98% de chances de ser completamente automatizada. A de programador de computadores, 50% de chances. Mas mesmo que não haja uma automatização total das profissões, grande parte delas será automatizada em muitos níveis, o que torna o já famoso desemprego estrutural próprio ao capitalismo ainda mais desesperador.

Nem empregos que antes eram considerados totalmente seguros, como os de médico, professor e advogado, escaparão à quarta revolução industrial, pois, diferentemente das outras três, ela atingirá a totalidade da sociedade e não apenas o chão da fábrica. É o caso dos professores, que já estão sendo substituídos por vídeo aulas gravadas ou ao vivo.

Diagnósticos de doenças já são dados com precisão por máquinas utilizando-se apenas de uma gota de sangue dos pacientes. Mesmo operações cirúrgicas estão na mira da robótica: em outubro de 2016, um robô realizou uma cirurgia para a restauração de visão na Inglaterra. Apesar de ser operado por um médico, ele já eliminou a necessidade de alguns auxiliares na mesa de cirurgia e, provavelmente, daqui a poucos anos, o próprio médico poderá ser eliminado do procedimento.

Basicamente, hoje em dia não apenas os trabalhos braçais estão ameaçados, mas também os chamados trabalhos qualificados. E as consequências sociais desse processo podem ser terríveis numa sociedade que se ergueu sobre a ideia da sacralidade do trabalho.

Um servo da Idade Média trabalhava bem menos do que você

A dança camponesa, de Peter Bruegel (1568).

Como já ficou claro num dos artigos da jornalista Lynn Parramore (o qual você pode conferir na própria Voyager aqui) e assim como muitas pesquisas históricas mostram, a ideia de que no feudalismo as pessoas trabalhavam até cair duras é apenas um mito criado por ideólogos iluministas com o intuito de naturalizar longas jornadas de labuta.

Na realidade, grande parte da demonização do feudalismo como uma idade das trevas é pura propaganda feita por esses ideólogos, com o intuito de convencer  que o novo sistema que surgia, o capitalismo, era um avanço em relação à Idade Média. Um servo feudal trabalhava muito menos do que um brasileiro do século XXI – e menos ainda do que um operário do século XIX, o qual chegava a fazer jornadas de 16 horas diárias – e a esmagadora maioria das perseguições das igrejas católica e protestante aos “desvios”, como bruxaria e judaísmo, aconteceram na Idade Moderna, entre os séculos XVI e XVIII, em pleno Iluminismo.

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A verdade é que o trabalho – palavra que deriva de tripalium, um instrumento de tortura – sempre foi visto como atividade de escravos e servos e não de seres humanos dignos. A ideia de que o trabalho dignifica o homem surgiu no capitalismo junto das instituições criadas para disciplinar os nascentes operários assalariados, como prisões e escolas. Antes disso era visto como uma punição de Deus ao pecado original, não possuindo nada de edificante.

A nossa sociedade naturalizou o trabalho e o tornou atividade própria ao ser humano virtuoso. Aquele que trabalha é um homem de bem, honesto, provavelmente uma boa pessoa. O que não o faz, é um vagabundo, parasita, desonesto e merece ser colocado a ferros. E, durante o surgimento do capitalismo industrial, homens que não trabalhavam eram realmente colocados a ferros. Pessoas eram presas para serem disciplinadas no trabalho industrial nas prisões – ou seja, a Gulag soviética nada mais foi do que a versão do socialismo real para o trabalho forçado já existente no capitalismo industrial.

Camponeses, os quais estavam acostumados a seguir a vida natural – ditada pelas estações do ano e pelo clima, pelos ciclos da natureza, pelo dia, tempo de trabalho, e pela noite, tempo de descanso – de repente se viram obrigados a trabalhar sob a luz de lâmpadas, fazendo da noite dia e precisando seguir os ritmos ditados pelas máquinas e não pela mãe natureza. Na verdade, dificilmente pode-se chamar o que o camponês feudal fazia de trabalho como entendemos hoje em dia, pois suas atividades de produção eram ditadas por lógicas completamente diferentes das lógicas próprias à sociedade capitalista industrial. Eram guiadas pelas lógicas da tradição, religião, costumes, ciclos naturais, etc. Já na sociedade do Capital – a máquina puramente numérica de moer gente – o trabalho é guiado pela lógica do dinheiro fazer mais dinheiro e pelo tempo vazio e abstrato do relógio, o qual é sempre igual – diferentemente do tempo feudal, que era concreto, pois regulado pelas atividades sociais – como festas religiosas –, biológicas e naturais, ou seja, pelos tempos do corpo e da natureza.

Na sociedade feudal, o sono era sagrado, e não o trabalho. O descanso, as festas religiosas, isso era sagrado. Já no capitalismo, o sono é uma afronta, pois quem dorme não produz. Dessa forma, até mesmo o sono deve ser eliminado para aumentar a produtividade. E para que aumentar a produtividade? Para fazer o dinheiro fazer mais dinheiro e não para melhorar a vida das pessoas. O Iluminismo, com sua lógica pragmática e utilitária, prometeu ser a luz do mundo e realmente assim se tornou: não deixa mais as pessoas dormirem à noite, pois o trabalho deve se estender até quando a luz elétrica o permite.

Hoje em dia, com essa montanha de desempregados e subempregados que existem no mundo, alguém realmente acha que são necessárias 40 horas de trabalho semanal para manter a produtividade existente? Com esse monte de tecnologias produtivas? É claro que não. Só um louco ou um cínico para afirmar que sim. Mas a sociedade do Capital é a sociedade do cinismo, pois nela a liberdade depende do dinheiro e a igualdade é só no papel, pois alguns precisam vender sua força de trabalho para não morrerem de fome enquanto outros não.

A Crise do Trabalho

A quantidade de desempregados realmente existentes hoje no mundo é sempre maquiada por dados viciados. Por exemplo, nos EUA, só são considerados desempregados para as estatísticas oficiais aqueles que procuraram emprego nos últimos 12 meses. Se um camarada simplesmente desistiu de procurar trabalho, é simplesmente eliminado dos números oficiais. O capitalismo sempre precisou dos desempregados para forçar os trabalhadores a aceitarem baixos salários e cortes em seus direitos trabalhistas. Como dizem por aí, não dá para fazer greve em crise econômica, pois você pode ser facilmente substituído por outro dos milhões que estão na fila do desemprego.

Contudo, a partir da revolução digital da década de 70, quando começou para valer a atual crise estrutural do sistema, o capitalismo criou a categoria dos “inimpregáveis”, gente que já não pode mais ser absorvida pelos mercados de trabalho e consumo sob condições normais e precisa sobreviver comendo o pão que o diabo amassou. E, conforme a tecnologia avança, essa situação tende a piorar muito. Nos próximos dez anos, essa questão já será extremamente insustentável.

A lógica do avanço tecnológico deveria ser o de nos servir e não de causar exclusão.

E por que insustentável? Por duas razões principais. Primeira: com o desemprego estrutural avançando, a demanda por mercadorias cai, pois, com menos gente empregada, menos gente existe para consumir sob condições adequadas à necessária manutenção do crescimento sem fim do dinheiro que mantém o capitalismo. Lembrem-se, no capitalismo existem duas riquezas diferentes: material e imaterial.

A riqueza material são os objetos vendidos como mercadorias, os quais são úteis ou necessários às nossas vidas biológica e social. Um celular não é necessário à vida biológica, mas, hoje em dia, é indispensável à nossa vida social. A riqueza imaterial é o dinheiro, os números que precisam sempre crescer. A “ciência” econômica – sempre estúpida e que só é útil para manter os privilégios de poucos – diz que o objetivo do sistema é produzir aquilo que é necessário à vida das pessoas.

Já a crítica da economia, muito mais sóbria, nos informa que o objetivo do sistema de mercado é fazer o dinheiro crescer cada vez mais, os lucros monetários gerarem mais lucros monetários. E como fazer o dinheiro crescer cada vez mais? Pela transformação das coisas necessárias às vidas das pessoas em mercadorias. Porém, atente que mercadoria não é algo natural e sim social. As coisas não têm naturalmente um preço. Os preços, o dinheiro e a mercadoria são criados por processos sociais. As coisas simplesmente são coisas.

Quando nós usamos o termo “mercados de preços” simplesmente estamos falando de algo criado pela sociedade. Infelizmente a economia – sempre estúpida e tosca – naturaliza algo que é social. E ainda por cima nos diz que existem leis eternas em algo que foi criado pelo homem. Só rindo mesmo. Contabilidade e econometria são o ápice da fetichização humana em cima de coisas que só existem porque nossas mentes fazem com que existam. Quando um economista – esse sacerdote do Capital, esse idiota fetichizado – nos fala sobre crescimento do PIB, está falando do crescimento de números. A reprodução da vida e a produção do que é necessário à vida ficam para segundo ou terceiro planos.

A segunda razão pela qual o processo pelo qual estamos passando é insustentável nos é ensinada pela economia política clássica (e também por sua crítica). A economia política clássica, muito mais inteligente e sensata do que as fantasias neoclássicas, nos diz que o que gera valor é o trabalho humano – valor sendo uma coisa e preço de mercado sendo outra, que bem nos lembremos disso. Ora essa, o valor é criado globalmente pelo trabalho produtor de mercadorias. O trabalho que não produz mercadorias, mas apenas possibilita que elas sejam comercializadas, não gera valor, é trabalho “invalorativo”. E o grosso do valor produzido é gerado na indústria. Pois bem, com a automatização industrial possibilitada pela revolução da automação – analógica e digital – a partir da década de 60, o valor produzido passou a ser insuficiente para fazer o sistema funcionar normalmente. A queda na taxa de lucros é visível desde o final dos anos 60. O neoliberalismo foi uma resposta à queda dos lucros dos empresários. Mais carne e sangue tiveram de ser arrancados para que os números crescessem.

A verdade é que hoje em dia, com toda a tecnologia disponível, já não é necessário a seres humanos, entidades nascidas para a cultura e para o pensamento, se humilharem em jornadas de 10 ou 12 horas diárias. O fenômeno do karoshi, como é chamada a morte por excesso de trabalho no Japão, é a última indignidade produzida por esse sistema em que vivemos. E essa indignidade vai permanecer enquanto a sociedade for guiada pela necessidade fetichizada do dinheiro fazer mais dinheiro, do lucro fazer mais lucros. Ou nos libertamos disso, ou o futuro muito próximo vai ser o de milhões e milhões de desesperados sem encontrarem maneiras de se sustentarem.

Foto de Clare Wade.

Para saber mais

• A Civilização Feudal, de Jéromê Baschet
• The End of the World As We Know It: Social Science for the Twenty-first Century, de Immanuel Wallerstein
• Comprando Tempo, de Wolfgang Streeck
• Marcio Pochmann – Defesa da diminuição da jornada de trabalho

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