A parte que não te contaram sobre “A América Grande Novamente”: o será com Mão de Obra Escrava.

O trabalho escravo está de volta aos EUA disfarçado de presídios, o que desperta o interesse de suas próprias corporações com fábricas ainda instaladas na Ásia. "A Nova América Grande" será erguida explorando trabalho escravo moderno.

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Desde a década de 80, com a subida de Xiaoping ao poder na China, o mundo assiste à transferência das indústrias de transformação de mão-de-obra extensiva de países europeus e americanos para a terra de Confúcio. Os salários de fome pagos aos operários chineses de baixa qualificação compensava a transferência de indústrias de baixa tecnologia, as quais se utilizam de muita mão-de-obra e são menos produtivas por empregarem menos tecnologias.

A China então tornou-se a terra dos sweatshops, ou seja, das fábricas que pagam salários irrisórios a trabalhadores pouco qualificados. Basicamente, o país que sonhou com o socialismo, terminou sendo um açougue de seres humanos. O PIB – a riqueza abstrata, monetária – do país cresceu, tanto que seu PIB em paridade de poder de compra hoje é de 19 trilhões de dólares. Maior do que o dos EUA. Em renda por cabeça, já empata com a América Latina. Mas o preço que os trabalhadores pagaram com seu sangue e sofrimento foi alto. Alguém já escutou a história da Foxconn colocando grades nas janelas para evitar que os explorados se jogassem por elas? E muitos “socialistas” ocidentais aplaudindo, por imaginar que finalmente a derrota da URSS para os EUA na década de 90 seria vingada por outro país de bandeira vermelha e amarela. O que tais pessoas se esquecem é que a China é planta de transformação para produtos de companhias norte-americanas, os quais são consumidos por famílias anglo-americanas.


Contudo, será que isso irá permanecer por muito tempo? De acordo com o Boston Consulting Group, é provável que não. Segundo o instituto, por conta do aumento dos salários, do preço das terras para instalação das plantas, da diminuição dos subsídios estatais em infraestrutura gratuita para as empresas, do custo com o transporte dos componentes de alta tecnologia dos EUA para a China e depois das mercadorias acabadas da China para os EUA, as vantagens de custo chinesas parecem se estreitar a cada dia. Além disso, a produtividade por trabalhador chinês, que vinha crescendo 10% ao ano na última década, desacelerou para 8,5% enquanto os salários aumentaram desproporcionalmente. Logo, a relação produtividade por trabalhador/salário por trabalhador não está mais compensando na China. Muitas empresas de produção de produtos de baixo valor agregado já pensam em voltar aos EUA para fabricarem ao lado do mercado consumidor. Além disso, há outra coisa, muito sinistra, a acontecer num dos três países do topo tecnológico do mundo… Mas antes de falar dessa coisa sinistra, gostaria de mostrar que há um grande exagero ao dizer que o poder dos EUA, que hoje nada mais é do que um conjunto de complexos empresariais com um exército privado, esteja em queda acelerada.

O Poder Corporativo dos EUA é sem igual no mundo

[dropcap]P[/dropcap]rimeiro, tenhamos em mente que, sempre que o capitalismo enfrenta uma crise gigantesca, os capitais se concentram ainda mais em menos mãos, ou, melhor dizendo, em menos corporações. Até 2009, as 100 maiores empresas do mundo tinham um poder de capitalização de 8 trilhões de dólares. Hoje, as 100 maiores empresas do mundo possuem um poder de capitalização de 16 trilhões de dólares. Um crescimento gigantesco da concentração de capitais mundiais em apenas 7 anos. Desses 16 trilhões de dólares, 9 trilhões são capitalizadas pelas 53 maiores companhias norte-americanas. Isto significa quase 60% do poder de capitalização das 100 maiores empresas do mundo está nas mãos de corporações dos EUA. Todas as outras empresas de todos os outros países da lista conseguem capitalizar 7 trilhões de dólares. Se aumentarmos esse número para as 140 empresas que efetivamente dominam o mundo globalizado, os EUA são donos de 62 delas. São 8 no setor financeiro, 9 no de tecnologia, 14 no setor farmacêutico, 7 no de bens de consumo, 6 no de petróleo e energia, 8 no de serviços de consumo, 6 no de fornecimento para a indústria e 3 na de telecomunicações. Das 50 maiores empresas, que tem 50% do poder de capitalização no mundo, 31 são norte americanas. O país que vem em seguida, a China, tem apenas 14 empresas entre as top 140. Contudo, dessas 14 empresas, metade se encontra no setor de finanças. 4 na de petróleo e energia, 1 na de telecomunicações, 1 na de serviços de consumo e 1 na de tecnologia. Entre as top 50, que controlam 50% da capitalização mundial, a China tem 9 empresas, sendo 5 no setor financeiro. Ou seja, a diversificação é muito menor e podemos ver que o setor especulativo e bancário domina entre as empresas chinesas. A título de curiosidade, o Brasil possui 6 empresas entre as top 140 que dominam o mundo, mesmo número do gigante da produtividade Japão. O problema do Brasil não é falta de empresas e sim o fato de serem, na maior parte, empresas que não investem em alta tecnologia e pesquisa avançada (entre outros problemas). As top 6 do Brasil em poder de capitalização são: Ambev, Vale, Itaú, Petrobrás, Braskem (indústria química fina), JBS (alimentos). Infelizmente, nenhuma delas está entre as 50 que mais investem em pesquisa e tecnologia no mundo. Já os EUA, possui 19 das 50 empresas que mais investem em tecnologia em relação a seus ganhos. O Japão, apesar de só ter 6 empresas na lista das 140 maiores em poder de capitalização, possui 9 das 50 que mais investem em pesquisa. Já o Reino Unido tem 10 empresas entre as top 140, mas apenas 1 entre as 50 que mais investem em pesquisa. Entre as top 50, controladoras de 50% da capitalização mundial, 3 são suíças, 1 belga, 1 holandesa, 1 francesa, 1 inglesa, 1 dinamarquesa, 1 coreana e 1 japonesa.

Podemos ver então que o poder corporativo dos EUA é quase imbatível e, provavelmente, na próxima crise, que não está muito longe de ocorrer, esse poder vá crescer ainda mais, visto que empresas com maior poder de capitalização conseguem suportar melhor a pancada e, no fim, terminam por absorver aquelas que não conseguem sobreviver. Para se ter uma ideia, as 10 maiores empresas dos EUA possuem um poder de capitalização maior do que todas as empresas europeias que fazem parte do top 100. Mas claro que todo esse poder corporativo não significa melhora na vida do povo comum dos Estados Unidos. Muito longe disso.

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O sinistro futuro do trabalho nos EUA

[dropcap]P[/dropcap]ois bem, dito tudo isso, vamos agora ao que interessa: os EUA querem as sweatshops instaladas na China de volta. Isto é, além de ser uma potência na produção de mercadorias de alto valor agregado e alta tecnologia, os EUA querem voltar a ser a casa das plantas industriais de baixo valor agregado e baixo know how. E como vai fazer isso? Bom, além do fato de que, com o avanço tecnológico e diminuição das vantagens que a China vinha apresentando, muitas empresas acham melhor voltar aos EUA, há outra coisa: a mão de obra presidiária.

Como nos informa Ozório de Melo “Muitas das grandes corporações americanas usam a mão de obra prisioneira, como se fossem os melhores trabalhadores do mundo: eles não fazem greves, trabalham mais de oito horas por dia, sem receber horas extras, não chegam tarde ao trabalho, nem saem mais cedo, não faltam ao trabalho por doença de algum membro da família. Além disso, não têm férias, seguro-desemprego, custo de assistência social, licença para tratamento de saúde remunerada, pensão ou aposentadoria e não são sindicalizados. Em suma, não têm qualquer direito trabalhista”. Basicamente, o trabalho escravo está de volta aos EUA disfarçado de prisões. “E o salário é de apenas US$ 0,25 por hora, em média – ou seja, US$ 2 por dia […] Na realidade, o salário, por hora, varia de US$ 0,13 a US$ 0.,50 – este para mão-de-obra qualificada – nas prisões privadas”. Com esses salários de fome, as prisões agora fazem concorrência com sweatshops de regiões miseráveis do mundo. No Vietnã, por exemplo, se paga $ 0,26 por hora. “Com a mão-de-obra prisional nos EUA competindo com as “sweatshops” internacionais, o ex-deputado federal por Oregon, Kevin Mannix, pediu à Nike para interromper sua produção na Indonésia e trazê-la para o estado. Segundo o deputado, a empresa economizaria seus custos de transporte, com um custo de mão-de-obra equivalente […] Uma empresa que operava uma fábrica de produção e montagem no México, uma das chamadas “maquiladoras”, terminou suas operações no país e as relocou para a prisão estadual de San Quentin, na Califórnia. No Texas, uma fábrica demitiu seus 150 operários e contratou mão-de-obra da prisão Lockhart Texas, onde se produz, por exemplo, circuitos impressos para a IBM e a Compaq.” (MELO, 2014). Além disso, os prisioneiros não possuem qualquer direito ou proteção trabalhista. Na verdade, trabalham em condições insalubres correndo riscos a sua saúde física e psicológica e muitas vezes sem equipamento adequado. Ou seja, os prisioneiros do país com a maior população carcerária do mundo – cuja maioria esmagadora é negra ou parda – são o sonho de todo empresário tornado real.

Por conta disso, muitas plantas industriais de média ou baixa produtividade instaladas na América Latina, China e Leste/Sul da Europa irão se transferir para os EUA e se servirem com a fartura da quantidade massiva de prisioneiros negros e latinos que existem no país. A China continuará sossegadamente sendo o centro manufatureiro de baixo e médio valor agregado do mundo. Japão, EUA e Alemanha – assim como seus satélites Coréia do Sul, Canadá, e Escandinávia-Holanda-Suíça-Bélgica – continuarão a ser o centro da manufatura de alta tecnologia. Mas, com a concorrência das prisões dos EUA, que pagam 50 centavos a hora para os prisioneiros-operários, a América Latina e o Sul da Europa vão sofrer ainda mais. O que dirá países que agora começaram a sonhar com a industrialização, como Índia e Camboja.

À América Latina, restará o humilhante retorno à condição de extrativista e processadora de produtos primários. Ao Sul da Europa, restará continuar a cerimônia de beija mão da primeira-ministra alemã Angela Merkel – e não adianta tentar fugir. O Reino Unido com o Brexit, apesar de barrar o acesso livre de europeus a seu território – que pouca diferença irá fazer, visto que, de seus 62 milhões de habitantes, apenas 2 milhões nasceram em outro país europeu – irá continuar com o livre comércio com o “Reino da Alemanha”, ou melhor dizendo: irá continuar a tomar porrada da manufatura germânica. Na verdade, quem sabe se, com esse imenso fluxo de imigrantes pobres, a primeira-ministra alemã não pense em instalar algumas prisões-fábricas no centro do Novo Império Carolíngio, mais conhecido como Alemanha.

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