A Mentira Por Trás do Crescimento Chinês (e que ninguém fala para você)

Desde o começo dos anos 2000 que a China se tornou a esperança do capitalismo, o bastião responsável pela sua segurança, a fábrica do mundo, o provável novo líder mundial. Tudo ilusão.

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A Última Modernização
Atrasada do Capitalismo

O destino da China será semelhante aos países da América Latina que tentaram a industrialização

Faz 20 anos que o mundo está olhando para a China. Desde o começo dos anos 2000 que a China se tornou a esperança do capitalismo, o bastião responsável pela sua segurança, a fábrica do mundo, o provável novo líder mundial. Tudo ilusão. A China nada mais fez nesses últimos 40 anos, desde a subida de Xiaoping, do que seguir os passos que a América Latina tinha trilhado nos 40 anos anteriores, de década de 40 a década de 80: uma industrialização atrasada.

Portanto, chamar o que a China vem fazendo de milagre é se esquecer do que a América Latina fez nos 40 anos anteriores. Assim como acontece com a China, a região ibero-americana também apelou a ditaduras ou máquinas partidárias, como o PRI mexicano, para fazer sua industrialização atrasada – a URSS também fez sua industrialização atrasada baseada em ditadura a partir dos anos 30, mas não vou falar dela aqui, apesar de podermos comparar com a AL e a China.

O crescimento da AL a partir da década de 40 foi tão grande ou até maior do que o que verificamos na China a partir de 1982. Acontece que o mundo tem memória fraca e esquece-se que a AL deixou de ser uma região rural, mais atrasada do que a URSS em 1917, para se tornar uma considerável força industrial no início da década de 80. Pode-se dizer que essa industrialização tardia da AL se concentrou em algumas regiões, como o Sudeste brasileiro, a Argentina ou o norte do México. E, assim como a industrialização que ocorreu na AL, seu processo na China também é concentrador, acontecendo quase que totalmente em sua costa Leste. Todavia, nos anos 80, a AL enfrentou os mesmos problemas que a China vem apresentando hoje: endividamento gigante, que desacelerou o crescimento que vinha experimentando, falta de poder de capitalização próprio, insuficiente nível tecnológico nas manufaturas, mercado consumidor interno com renda insuficiente para permitir a continuação robusta do crescimento, crise capitalista, etc.


Claro, ao contrário da AL, a China conseguiu driblar as sanções de Washington e conseguiu maior transferência de tecnologia, exigindo-a quando permitiu as instalações das plantas industriais em seu território. Mas mesmo com altos investimentos em ciência e desenvolvimento, ela dificilmente conseguirá alcançar o nível dos três verdadeiros líderes mundiais em manufaturas: EUA, Japão e Alemanha. Nos últimos anos, o dragão do Leste vem perdendo forças. Precisa apostar na construção civil para não desacelerar de vez. Mas claro, isso não é apenas culpa da China. A própria conjuntura mundial passou a desfavorecê-la. Ela precisa dos EUA como mercado consumidor, mas a renda das famílias anglo-americanas vem caindo desde os anos 80, assim como seu nível de endividamento vem subindo vertiginosamente – ao ponto da relação [créditos externos] – [dívidas externas] ter chegado a 7 trilhões negativos nos EUA. Além disso, com a impossibilidade de gerar valor o suficiente na produção de mercadorias para manter o sistema funcionando bem, os investimentos estão indo para a financeirização, com o peso da manufatura mundial em relação ao pib mundial caindo de 21% em 1995 para 13% em 2016. Basicamente, a China veio com sede, mas chegou atrasada à festa. A festa do capitalismo não permite mais grandes lucros na manufatura e, por essa razão, precisa apostar na especulação financeira.

Muitos dirão que a China, em algumas categorias de mercadorias, chega a fabricar 90% daquilo que o mundo consome. Concordo. Mas pergunto: vale mais a pena fabricar toneladas de tênis e camisetas ou apenas alguns quilos de máquinas de imagem médica? A China não fabrica máquinas de imagem médica, ao menos os seus componentes finos. Só os EUA, a Alemanha e o Japão o fazem.

É necessário esclarecer algo em relação à manufatura de hoje: o mundo funciona agora por meio das chamadas “cadeias de valor”. Isso significa que não se fabricam mais produtos inteiros num país só. Ao menos aqueles de maior complexidade. E é claro que faz uma grande diferença um país estar no início das cadeias de produção, onde as partes mais complexas e tecnologicamente mais avançadas se encontram, e estar no fim, apenas na montagem do produto final. A China, infelizmente, aposta ainda na baixa complexidade tecnológica de seus produtos ou na posição de montadora dos produtos mais complexos (rankings de complexidade infelizmente não diferenciam em que posição nas cadeias de valor um país se encontra: se Brasil e Alemanha participam da fabricação de aviões, pouco importa se a Alemanha fabrica o painel e o Brasil fabrica a porta para esses rankings).

Para entender o quanto um país está na nascente ou na foz, no começo ou no final, das cadeias produtivas, basta observar, entre outras coisas, a relação entre sua população total e a população mundial e a quantidade de valor com a qual esse país contribui para o valor total das manufaturas mundiais. Óbvio que, geralmente, um país com baixa população e grande adição de valor nas manufaturas possui uma alta produtividade e fabrica produtos de alta tecnologia – quanto mais tecnologia, menos gente necessária à produção e mais eficiência produtiva: mais mercadorias fabricadas em menos tempo.

Vejamos, pois, onde se encontra a China.  Hoje ela possui 19% da população mundial e contribui com 22% do valor total produzido no mundo, segundo o MAPI. Ou seja, a China funciona numa relação mais ou menos de 1 para 1 quando se compara total da população mundial e total do valor produzido, já a América Latina possui 8,5% da população mundial e contribui com 9% do valor adicionado às manufaturas no mundo. Praticamente uma relação de 1 para 1 também. E isso depois de passar por uma violenta desindustrialização desde a década de 80, quando contribuía ainda mais para o valor adicionado mundial. Todavia, a crise da dívida que assolou a América Latina destruiu o sonho da industrialização de ponta na região.

A União Europeia tem 7% da população mundial e contribui com 20% do valor adicionado no mundo, uma proporção de quase 3 para 1. Nessa medição, estamos considerando Suíça e Noruega como partes da EU para fins analíticos, e, fazendo isso, descobrimos que o eixo Alemão – Alemanha, Escandinávia, Suíça, Holanda, Bélgica – contribui com metade desse valor total mesmo possuindo menos de um terço da população total da UE. Industrialmente falando, sem esse eixo do norte girando em torno da Alemanha, a UE seria hoje uma América Latina melhorada, com exceção da região noroeste da Itália (só por curiosidade, a relação em Reino Unido, Espanha e França é de 2 para 1).

Pois bem, observemos agora o Japão. O rei da Ásia tem 1,7% da população mundial e contribui com 9% do valor total adicionado na manufatura. Ou seja, o Japão tem uma incrível proporção de 5 para 1 na manufatura. Já os EUA, com apenas 4,5% da população mundial, é responsável por 17% do valor adicionado na manufatura, uma proporção de mais ou menos 4 para 1 (e já foi muito maior). Além disso, enquanto Alemanha e Japão tem mais de 20% do pib oriundo da indústria de transformação, no restante da Europa Ocidental esse número não passa de 14%, com Inglaterra e França lidando com menos de 9% de seu pib vindo da manufatura transformadora e precisando confiar em produtos financeiros e remessas de lucros para manter o padrão de vida de suas populações.

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Ou seja, já sabemos quem manda na manufatura de alta tecnologia no mundo. Em realidade, muitos europeus já entenderam que a União Europeia foi apenas uma forma da Alemanha garantir mercado cativo para seus produtos de alta tecnologia, já que os EUA dominavam a América e o Japão sempre teve força na Ásia. Basicamente, nós temos esses três países e seus satélites (Canadá, Holanda-Suíça-Escandinávia-Bélgica e Coreia do Sul) fabricando o grosso dos produtos de mais alta tecnologia e investindo o grosso em tecnologia enquanto à América Latina, China e Sul/Leste da Europa foi relegado o papel de fabricar o grosso das manufaturas de média ou baixa tecnologia).

Xangai, uma das Zonas Econômicas Especiais da China.

É improvável, com essa desaceleração forte que vem sofrendo, que a China consiga se tornar realmente um centro de alta manufatura dentro de um mundo dominado pelas relações capitalistas subordinadas ao dinheiro fazer mais dinheiro.

Essa lógica pede um alto retorno dos investimentos, ou seja, altas taxas de lucros. Nos últimos 30 anos a concentração de capitais necessária ao investimento em manufaturas de ponta se tornou extremamente alta. Com exceção de poucos países com uma taxa de investimento internacional positiva (créditos externos – dívidas externas) considerável, como Japão, Suíça e Alemanha, o restante do mundo simplesmente não tem capitais suficientes para conseguir competir com esses centros de alta tecnologia.

Os EUA, apesar de estar 40% negativo em investimentos internacionais, é país sede de 80% das 50 maiores corporações mundiais e se beneficia com o envio de lucros das filiais espalhadas pelo mundo para suas matrizes na América Saxônica, o que possibilita investimentos em tecnologia e ciência no país – 19 das 50 empresas que mais investem em tecnologia são estadunidenses. Em seguida aparece o Japão com nove empresas e depois a Alemanha com oito. Completam o quadro de regiões com mais de duas empresas a Escandinávia com quatro, Suíça com duas e Coreia do Sul com duas.

No entanto, ser país sede de empresas num mundo global é secundário. O que importa é o país ter regiões com infraestrutura, tecnologias e mão de obra qualificada. Claro, existem as chamadas remessas de lucros para a matriz. Hoje, grande parte do pib dos EUA é baseado em remessas de lucros de filiais. Contudo, devemos ter em mente que essas remessas não vão para o bolso do povo dos EUA e sim para acionistas. Pode-se dizer que 50% dos norte americanos possuem ações por diferentes meios, como fundos de pensão. Mas o quanto são concentradas essas ações? Se dos 50% que possuem ações, 1% for dono de 80% das mesmas? Nós sabemos que essa é a realidade, uma super concentração de ações nos bolso de poucos. Além disso, o benefício resultante da cobrança de impostos sobre essas remessas está se tornando cada dia mais complicado de se obter, visto que a maioria das transnacionais norte americanas sonega os impostos ou esconde os lucros em paraísos fiscais.

De todo modo, as maiores empresas dos EUA possuem um poder de capitalização de 9,3 trilhões de dólares, as maiores do Japão possuem um poder de capitalização de 300 bilhões, já as do Reino Unido conseguem capitalizar 940 bilhões. Porém, produtivamente, o Japão é muito superior ao Reino Unido. As cadeias produtivas de alta tecnologia preferem se instalar no Japão em vez de fazê-lo no RU, que, industrialmente, vem perdendo mais força a cada ano que passa.

Além disso, temos de ter em mente que hoje, economicamente falando, são muito mais importantes regiões do mundo do que países em si. Quais regiões ainda conseguem fazer parte e ter importância nas chamadas cadeias de valor? Evidentemente o Estado nação ainda tem sua importância, principalmente nos programas sociais, mas, atualmente, até as forças de segurança estão se tornando privadas. No Brasil, existem mais efetivos de segurança particular do que efetivos do exército brasileiro. Ou seja, o Estado vem perdendo sua característica de detentor do monopólio da violência nesse mundo altamente concentrador de renda.

Em relação às regiões de cadeias de valor, basta olhar para a China. Lá, enquanto o Leste do país é a fábrica mundial de produtos de baixo valor agregado e montadora dos de alto valor agregado, o restante do país, com mais de 900 milhões de pessoas, é quase que excluído das cadeias produtoras de valor. No interior da China, as pessoas ficam rodando sem ter o que fazer da vida, principalmente por conta da mecanização da agricultura. Por lá existe até mesmo um passaporte interno para impedir a livre circulação de pessoas do interior para o litoral. Por isso a China é como uma América: na América, há uma região dinâmica e rica no Norte, mas aos povos das outras regiões, inclusive a de dinamismo médio do Cone Sul, é vetada a entrada nessa região dinâmica do Norte.

Enquanto isso, a população das regiões medianamente dinâmicas do Sul e fracamente dinâmicas do Centro do continente podem circular quase livremente pelas suas terras, desde que não decidam morar no Norte. Mesmo num país produtor de alto valor agregado e territorialmente pequeno como o Japão isso já pode ser visto. O chamado Cinturão do Pacífico, onde fica Tóquio, é muito mais dinâmico do que a região Oeste do país.


Por essas e outras eu acredito que a China está apenas passando pelo mesmo processo que a América Latina passou há 80 anos: uma rápida industrialização, a qual não consegue abandonar o atraso tecnológico em relação aos países centrais, os quais hoje são representados por EUA, Alemanha e Japão. Por essa razão, a desaceleração, quando chega, é devastadora. Alguns podem dizer que concordam que o atraso chinês em relação ao centro não pode ser eliminado, mas que a China não será a última industrialização atrasada no mundo capitalista.

Como até mesmo o neoliberal Economist admite, hoje, por conta da grande automatização industrial, ficou complicado para qualquer país esperar um desenvolvimento do padrão de vida por meio de uma industrialização atrasada. Países que já experimentaram um desenvolvimento de infraestrutura voltado à indústria, como Brasil e Argentina, podem voltar a se beneficiar com investimentos em desenvolvimento técnico na produção manufatureira, mas países como a Índia dificilmente vão conseguir sair do lugar, precisando confiar em serviços como os de TI.

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