10 fatos de Singapura que invalidam o discurso de que ela é um “paraíso liberal”

Singapura é sempre citada pelos defensores do liberalismo como um exemplo, mas será que seu modelo de desenvolvimento seguiu mesmo a cartilha do liberalismo econômico?


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Singapura é uma cidade-estado localizada no sudeste asiático, mais precisamente em uma ilha ao sul da Malásia, sendo conhecida na internet por seu altíssimo índice de liberdade econômica, tanto pela Heritage Foundation quanto pelo Fraser Institute (2º lugar dentre todos os países do mundo em ambos os rankings na data de publicação desse artigo).

Baseados nesses rankings, muitos veem Singapura como a terra da oportunidade, da liberdade econômica, onde o estado não atrapalha os empresários e a população pode desfrutar de liberdade irrestrita.

Parece ótimo, mas os entusiastas da “liberdade econômica” esqueceram de levar em consideração alguns fatos sobre Singapura, que nos levarão a sérios questionamentos quanto a credibilidade do uso desses índices para justificar a adoção de políticas liberais (neoclássicas ou não).

Vale ressaltar que em todo o artigo será utilizada a taxa de câmbio comercial obtida no dia 24/01/2017.



1. Singapura tem o carro mais caro do planeta

Ter um carro em Singapura não é para todos, e não apenas pelos altos preços e taxas, mas também devido a restrições impostas pelo Governo local.

Antes de comprar um carro, você precisa primeiro ter um “Certificado de Titularidade” (Certificate Of Entitlement) que custa em torno de R$ 113.808 (S$ 50.991) para carros até 1600 cilindradas (categoria A) e R$ 125.903 (S$ 56.410) para carros acima de 1600cc (categoria B). Esses certificados são limitados e a Autoridade de Transporte Terrestre (órgão estatal) faz 2 sorteios mensais, com uma quota de aproximadamente 2.000 certificados para a categoria A e 1.350 para a categoria B. Para se ter uma ideia do quão limitadas são as licenças, em todo ano de 2015 foram sorteadas 32.862 categoria A e 21.578 categoria B, pouco mais de 54.000 licenças para uma população de mais de 5.6 Milhões de pessoas. [1] [2] [3]

Após obter o seu certificado você finalmente pode comprar um carro, bastando agora apenas pagar as taxas e impostos de registro e circulação [4]:

  • Taxa de Registro: S$ 140 (Dólares de Singapura), aproximadamente R$ 312.
  • Taxa de Registro Adicional: Para os primeiros S$ 20.000,00 a taxa é de 100% o valor de mercado do carro, para os próximos S$ 30.000,00 são 140% e acima dos S$ 50.000,00 mais 180%. Para adquirir um carro com valor de mercado de S$ 75.000,00 você pagaria 100% x S$20,000 + 140% x S$30,000 + 180% x S$25,000 = S$20,000 + S$42,000 + S$45,000 = S$107,000 ou aproximadamente R$ 238.817 de taxa adicional de registro.
  • Imposto de consumo: 20% do valor de mercado do carro
  • Imposto de Bens e Serviços (GST): 7% do valor de mercado
  • Imposto de circulação (válido por 6 meses): [S$475 + S$0.75(CC – 1,600)] x 0.782 para carros entre 1600 e 3000 cilindradas

Como exemplo prático vamos pegar uma Captiva 2.4, que tem um valor de mercado de R$ 108.190,00 no Brasil e IPVA de aproximadamente R$ 3.500,00 [5]:

Preço de mercado em Singapura: S$ 21.146 ou R$ 47.196 [6]

  • Taxa de Registro: S$ 140, aproximadamente R$ 312.
  • Taxa de Registro Adicional: (S$ 20.000,00 x 100% = S$ 20.000,00) + (S$ 1.146,00 x 140% = S$ 1.604,40) = S$ 21.604,40, equivalentes a R$ 48.219
  • Imposto de Consumo: S$ 4.229,20 ou R$ 9.439
  • GST: S$ 1.480,22 ou R$ 3.303
  • Imposto sobre Circulação: [S$475 + S$0.75(2.400 – 1,600)] x 0.782 = S$ 840,65 ou R$ 1876.
  • Certificado de Titularidade: S$ 56.410 ou R$ 125.903.

Totalizando incríveis S$ 105.850,47 ou R$ 236.251,37, sem contar os custos de importação, lucro dos vendedores, etc… O valor real de venda de uma Captiva nova em Cingapura é de S$ 149.999,00 ou R$ 334.778,02. [6]


2. O Estado controla o mercado imobiliário e as terras

Como vice-campeã de liberdade econômica você deve imaginar que Singapura tem um mercado imobiliário livre e competitivo, dominado pela iniciativa privada e com pouca interferência estatal, mas pode-se dizer que é exatamente o contrário.

A habitação pública sempre foi uma importante política de Estado desde sua independência na década de 60 quando tinha algumas das mais precárias favelas do mundo.

Fundada em 1960, a Housing and Development Board (Agência para Habitação e Desenvolvimento) é hoje responsável por mais de 80% das habitações do país.

Antes de ser criada, na décaca de 60, a agência antecessora – o Singapore Improvement Trust – tinha construído 20.907 unidades de unidades de habitação pública no período de 12 anos entre 1947 e 1959, o que era insuficiente para abrigar a população de cerca de 1,6 milhão de habitantes da época.

Com apenas 3 anos após a formação da HDB, foram construídos 31.317 apartamentos e a crise imobiliária já havia sido amenizada com sucesso. Os apartamentos eram básicos, contando com água canalizada e saneamento básico, mas forneciam habitação decente e abrigo para a população em geral.

Em 1964, o governo introduziu o Home Ownership for the People Scheme para dar aos cidadãos um ativo tangível no país e uma participação na construção da nação. Este empurrão para a posse de uma casa também melhorou a estabilidade econômica, social e política em geral do país.

Em 1968, para ajudar mais habitantes a “comprarem” (o termo comprar nesse caso necessita de explicações adicionais) sua casa, o governo permitiu o uso da poupança do Fundo Central de Previdência (CPF) para entrada e parcelas mensais do empréstimo hipotecário. Isto, juntamente com outros programas de subsídios introduzidos ao longo dos anos, tornou a casa própria mais acessível e atraente. [7]

Conjuntos habitacionais públicos e modernos substituíram as favelas e a ruralidade periférica com uma oferta abrangente de infraestrutura e serviços. Inicialmente, a habitação pública foi introduzida para combater a escassez severa de habitação como uma resposta política ao “direito universal à habitação”, e em apoio à industrialização liderada pelas exportações. Tem servido assim como um mecanismo chave de “construção nacional”, e como um atrativo internacional de capital que tem gerado altas taxas de crescimento econômico.

A forma mais comum de “venda” de terras e habitação é o arrendamento ou concessão, onde na verdade você tem a “posse” por 99 anos, ou seja, em última instância a posse ainda é do Estado. [8]

É visível que Singapura conta, desde sua independência, com um dos maiores programas de habitação pública do mundo, fazendo o Minha Casa Minha Vida e o BNH brasileiros parecerem algo inexpressivo.


3. O governo de Singapura possui dois dos maiores fundos soberanos do mundo e está presente nas principais empresas do país

O Estado de Singapura possui dois fundos soberanos do planeta, mais precisamente o 8º e o 12º maiores do mundo: Government of Singapura Investment Corporation (também conhecido como GIC Private Limited, fundado em 1981) e Temasek Holdings (fundado em 1974).

Somados, esses fundos estão avaliados, na data de elaboração desse artigo, em 543 bilhões de dólares americanos, o equivalente a 1,722 trilhões de reais. Para fins de comparação: nessa mesma data a dívida total do governo de Singapura estava próxima de 300 bilhões de dólares americanos (aproximadamente 55% do valor de mercado dos fundos soberanos), o PIB estava próximo de 277 bilhões de dólares americanos (aproximadamente 50% do valor dos fundos soberanos) e todas as ações negociadas na Singapore Exchange avaliadas próximo de 640 bilhões de dólares americanos (aproximadamente 118% do valor dos fundos soberanos). [9] [10] [11] [12] [13]

O Temasek Holdings foi criado através do Singapore Companies Act, para administrar os investimentos e ativos que já eram propriedade do governo de Singapura, feitos na primeira década de construção da nação a partir de 1965. Dentre esses ativos, já constavam desde o início o Development Bank of Singapore Ltd (atual DBS Group), Jurong Holdings, Jurong Shipbuilders, Jurong Shipyard (parte da Sembcorb Industries ltd todas as três) e Singapore Airlines, empresas que ainda hoje estão entre as maiores de Singapura. [13] [14]

No caso do GIC Private Limited, o fundo foi criado para administrar as reservas internacionais do país. Desde sua independência da Malásia, o país não desejava lastrear sua moeda somente em confiança e o GIC foi um importante passo para que o governo construísse um grande patrimônio em ativos localizados no exterior, que permitiriam um grande controle sobre a moeda local que permanece nos dias de hoje. [15]

Dentre as 10 maiores empresas de Singapura em valor de mercado nos dias atuais (que podem ser conferidas na lista da Forbes) 6 estão na carteira da Temasek (SingTel, DBS Group, CapitaLand, Singapore Airlines, ST Engineering e Keppel Corp), que também é a controladora das companhias (sozinha ou em conjunto com outros acionistas). O GIC, por outro lado, está presente em 2 (Oversea-Chinese Banking e United Overseas Banking), porém, como acionista minoritário (sem participar diretamente do controle). [16] [17] [18] [19]


4. O Estado controla a maior parte dos serviços essenciais, dando pouco espaço para a iniciativa privada

A presença massiva do Estado nas necessidades básicas da cidade em questão não se resume apenas ao setor habitacional e de terras, mas se expande por todos os serviços essenciais presentes na ilha.

O setor de telecomunicações, por exemplo, foi um monopólio da SingTel até o ano de 2000, cujo fim foi anunciado em 1997. Apesar da quebra de monopólio estatal, permaneceram restrições sobre o controle estrangeiro (como um limite mínimo de 51% de propriedade local nos novos participantes do setor) e, apesar da aparente diversificação, os dois competidores da Singtel (que permanece a maior empresa de telecomunicações do país) com presença relevante possuem o Estado como um dos principais acionistas. [20] [21]

A segunda maior empresa de telecomunicações é a Mobile One, que possui como segundo maior acionista a Keppel Telecom, que é uma subsidiária integral da Keppel Corp, a qual, por sua vez, é controlada pela Temasek. Além disso, o terceiro maior acionista (SPH Multimedia Private Ltd) possui entre seus controladores a própria SingTel. Ambas as empresas citadas estão entre os controladores da companhia. [22] [23] [24] [25]

No caso da terceira empresa de telecom singapuriana, a Starhub, o controle é exercido pela Asia Mobile Holdings. Esta é subsidiária da Singapore Technologies Telemedia, que também é uma empresa controlada pela Temasek. [26] [24] [27]

Desta forma, o governo mantém, via Temasek, sua influência em praticamente todo o setor de telecomunicações do país.

O setor de energia de Singapura é controlado por uma empresa 100% estatal chamada Singapore Power (seu único acionista é a Temasek). Ela é a única fornecedora, operadora e transportadora de gás natural do país (via PowerGas), única transmissora de energia elétrica (via SP PowerAssets), única distribuidora de energia e operadora do sistema (via SP PowerGrid), deixando para a iniciativa privada espaço apenas na área de geração de energia elétrica. [28] [29]

Contudo, mesmo na área de geração de energia elétrica, a presença do Estado é relevante (apesar de ter diminuído significativamente nos últimos anos). Por meio da SembCorb e Keppel Corp, o Estado de Singapura controlava no final de 2015 (últimos dados disponíveis na data de elaboração do artigo) 22,8% da geração de energia.

Essa pequena participação do Estado na geração se trata de um evento recente. A Tuas Power Generation e a Senoko Energy (que possuem somadas 41,1% do market share) foram vendidas pela Temasek em 2008, enquanto a PowerSeraya (17,9% do market share) foi vendida pela mesma em 2009. [30] [31] [32] [33]

No setor de transportes terrestres, os preços proibitivos e as dificuldades em se obter licença para uso de carros fazem com que o transporte público seja o principal meio de locomoção do país. Nesse setor, o LTA (Land Transport Authority, órgão governamental) é proprietária de todos os ativos (ônibus, rodovias, linhas de trem e trens), deixando para a iniciativa privada somente a possibilidade de operá-los. [34] [35] [36]

Apesar da possibilidade de transportes terrestres serem operados pela iniciativa privada, o Estado mantém amplo controle do setor. Existem apenas 2 operadores de trens, que são a SMRT TRAINS e a SBS Transit. A primeira se trata de uma empresa controlada pela Temasek, enquanto a segunda é controlada pela ComfortDelGro Corporation Limited, que por sua vez tem entre seus controladores a Singapore Labour Foundation (órgão sindical ligado ao governo). Dentre os operadores de ônibus, existem 4, com as 2 empresas operadoras de trem (SMRT e SBS) sendo as maiores do setor e as outras 2 (Tower Transit Singapore e Go-Ahead Singapore) sem ligação com o Estado. [37] [38] [39] [40]


5. Os serviços públicos de Singapura são majoritariamente estatais, universais e pagos de acordo com a renda de cada cidadão


O mundialmente aclamado sistema educacional de Singapura, que frequentemente aparece nas primeiras posições em exames como o PISA, também é praticamente todo controlado pelo Estado (atendendo mais de 70% dos estudantes nos níveis primário e secundário), sendo que 100% das escolas (mesmo privadas) recebem dinheiro do Estado e são obrigadas a seguir o mesmo currículo. [41] [42]

A possibilidade de colocar seus filhos no jardim de infância está disponível para toda a população de Singapura, com o custo variando de acordo com a capacidade de pagamento das famílias. O valor mensal varia entre S$ 1,50 (aproximadamente R$ 3,35) para a população mais carente e S$ 150 (aproximadamente R$ 334) para a população mais abastada. [43] [44]

Os ensinos primário e secundário em Singapura são praticamente gratuitos. Se aplicam taxas mensais na faixa de S$ 6,50 (aproximadamente R$ 14,47) para o ensino primário e S$ 15 (aproximadamente R$ 33,40) para o ensino secundário, que são isentas para os alunos carentes (elegíveis aos programas de subsídio). [45] [46] [47]

No nível superior de ensino, a situação não é muito diferente: Essa pequena cidade-estado possui 6 universidades públicas (National University of Singapore, Nanyang Technological University, Singapore Management University, Singapore University of Technology and Design, Singapore Institute of Technology e SIM University), que dominam amplamente o ensino superior local. Os alunos pagam de acordo com sua renda, podendo ser integralmente isentos no caso de alunos carentes. [48]

O sistema de saúde de Singapura é público e universal, amplamente dominado pelos hospitais do Estado, principalmente após a crise asiática de 1997, sendo também construído de tal forma que as pessoas pagam de acordo com suas capacidades financeiras, chegando à gratuidade para as populações carentes. [49] [50]



Confira também
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6. Singapura possui um fundo de previdência obrigatório e diversos direitos trabalhistas


Diferente do que é defendido pelos (neo)liberais, os direitos trabalhistas em Singapura existem:

– A carga horária é limitada a 44 horas semanais, com uma hora de almoço.

– Deve haver um dia de descanso remunerado mínimo por semana.

– Existem 11 feriados nacionais pagos que, caso haja trabalho, deverão ser compensados pelo empregador.

– Os trabalhadores tem direito a até 14 dias de pagamento sem trabalho em caso de doença e até 60 dias em caso de hospitalização dependendo do tempo de vínculo empregatício.

– Também possuem direito a férias remuneradas, que variam entre 7 e 14 dias úteis dependendo de seu tempo de casa.

– Seu empregador é obrigado a pagar a previdência pública, chamada CPF.

– Contam com o direito a faltar 6 dias no ano para cuidar de suas crianças, porém não remunerados. Caso a criança tenha menos de 2 anos, goza-se de outros 6 dias adicionais remunerados.

– As mulheres tem direito a até 16 semanas de licença-maternidade e 2 semanas de licença paternidade.

Entre outros direitos trabalhistas. [51] [52] [53] [54] [55] [56]


7. Os impostos de Singapura são baixos, porém progressivos

Singapura é um país conhecido por cobrar impostos relativamente baixos e isso não se trata de um mito: Efetivamente os impostos cobrados em relação ao PIB estão abaixo da média da OCDE. Em 2016, o governo calculou a carga tributária em 16,7% do PIB, sendo que a média da OCDE de 2015 foi 34,3% do PIB e o Brasil esteve próximo dessa média. [57] [58] [59]

Obviamente, isso tem impacto nas políticas de bem-estar social da ilha e, apesar do Estado oferecer muito para a população em comparação a países subdesenvolvidos (como pode ser visto nos itens anteriores), são benefícios menores do que os oferecidos pelo governo da Noruega, por exemplo. [60]

Apesar disso, pode-se dizer que a cidade-estado passa longe de seguir o ideário liberal nesse quesito. Conforme o próprio governo, 3 objetivos são levados em consideração para definir os gastos: Promover o crescimento econômico com baixa inflação, manter o orçamento equilibrado e focar os investimentos governamentais em prover serviços públicos essenciais (educação, saúde, infraestrutura, habitação e programas de proteção ao meio ambiente), ou seja, tudo aquilo que foi listado nos itens 2, 3, 4 e 5 desse artigo, acrescido de programas de proteção ao meio ambiente. [61]

Outros sinais que mostram afastamento do método liberal de cobrar impostos estão na origem da receita. O item que mais contribui para a arrecadação são as taxas sobre lucro das empresas, seguido pelos impostos sobre consumo, renda de pessoas físicas, veículos (que são um tipo de propriedade) e propriedades. Pode-se dizer que mais da metade da receita de impostos provém de renda e propriedade, que são os mais difíceis de ser repassados para os consumidores e cujos cortes são mais defendidos pelos novos liberais (os liberais clássicos possuem uma visão mais crítica em relação à propriedade). [62]

É notório e bem sabido que os impostos sobre consumo pesam mais sobre os pobres, pela facilidade de se repassar no preço dos produtos vendidos e também por eles gastarem praticamente todo o salário, o que torna a tributação brasileira regressiva (no Brasil a maior parte dos impostos é sobre o consumo), de forma inversa à tributação singapuriana. [63] [64]

Também surpreende os brasileiros que, diferente do nosso país, Singapura não isenta o lucro dos ganhos de capital de investimentos estrangeiros em bolsa nem a distribuição de dividendos por empresas de capital aberto. [65] [66]


8. Os Singapurianos tem sua liberdade individual extremamente restrita pelo governo

A ilha tem diversas leis que restringem a liberdade individual, ao ponto de o país ser alvo sistemático de listas de “leis inacreditáveis”, justamente pelo fato do governo tentar controlar detalhes ínfimos da vida de seus habitantes por meio de leis específicas.

Entre essas leis (todas com punição prevista no código penal local), podemos citar as proibições de vender e mascar chicletes, incomodar alguém com instrumentos musicais em local público, soltar pipa ou jogar qualquer jogo que atrapalhe o trânsito, cantar músicas com letras obscenas em público, cuspir, distribuir material obsceno (inclui fotos, DVDs e revistas com pornografia), conectar no wi-fi de outra pessoa, esquecer de dar descarga no vaso, andar nu dentro de casa (em público também é ilegal, mas isso já é comum em outros países), alimentar pombos, usar drogas antes de entrar no país (se fizerem teste antidrogas logo na sua entrada você pode ser preso mesmo não tendo feito nada em terras singapurianas), ter relações sexuais com alguém do mesmo sexo, atravessar a rua fora da faixa, beber álcool em locais públicos entre 22:30 e 7:00… [67] [68] [69]


9. Existem acusações bem fundamentadas de que Singapura possui um regime de partido único e não uma democracia

Apesar de existirem diversos partidos registrados em Singapura, sua política é totalmente controlada pelo People’s Action Party (PAP), que possui o primeiro-ministro desde que a cidade deixou de ser um protetorado britânico em 1959. Isso inclui o período em que o país esteve unido com a Malásia e todo o período pós-independência até a data de elaboração do artigo (1965-2017).

Analistas e partidários da oposição acusam frequentemente o país de funcionar com um regime de partido único disfarçado, acusação similar à que ocorre com o governo da Coréia do Norte (que também possui diversos partidos, mas inexiste alternância de poder), o que parece ser corroborado pela realidade (é no mínimo estranho um único partido permanecer no poder por quase 60 anos ininterruptos).

Lee Kwan Yew foi o governante do país e o comandou com mão-de-ferro de 1959 até 1990, sendo substituído por seus correligionários Goh Chok Tong até 2004 e desde então pelo atual primeiro-ministro Lee Hsien Loong (que é inclusive um dos filhos do ex-primeiro ministro Lee Kwan Yew).

O PAP foi um partido leninista em sua origem, porém é extremamente árduo de ser definido ideologicamente com precisão. Apesar do partido ter se declarado socialista democrático historicamente, esse artigo não tem nenhuma pretensão de posicioná-lo no espectro ideológico. O que não muda o fato de um importante ministro do PAP ter declarado em homenagem a Lee Kwan Yew na ocasião de sua morte que “Este país não deve jamais esquecer seu coração socialista, que sempre fará mais por aqueles que tem menos”. [70] [71] [72] [73] [74] [75] [76] [77]


10. Há sérias dúvidas quanto à existência de liberdade de imprensa no país

As acusações de violações à liberdade de imprensa nessa cidade-estado são diversas. No ranking do índice mundial de liberdade de imprensa feito no ano de 2016 pela organização independente Repórteres sem Fronteiras, Singapura aparece na posição 154 (de 180 países avaliados), atrás de nações acusadas sistematicamente no ocidente por violações à liberdade de imprensa como Coréia do Norte (152ª posição), Rússia (148ª posição) e Venezuela (139ª posição). [78]

Ao descrever a situação da imprensa no país, o Repórteres sem Fronteiras cita a possibilidade do Media Development Authority (MDA) censurar conteúdo jornalístico, incluindo conteúdo online, respaldado pelo Media Development Authority Act, Films Act e Broadcasting Act. No ano de 2015, o governo chegou ao ponto de ordenar o fechamento do site de notícias The Real Singapore (TRS) por conteúdo “excessivamente crítico” e acusar 2 de seus participantes pelo crime de sedição (insubordinação contra o Estado), razão pela qual foram condenados à prisão. [79] [80]


Considerações Finais

Nessa altura, já deve estar claro que:

– A liberdade individual é coibida com uma legislação extremamente rígida, bem diferente dos países ocidentais.

– O Estado de Singapura é muito grande e interfere nos negócios não apenas através de regulação, mas sendo controlador de uma grande quantidade de empresas (incluindo 6 das 10 maiores do país) em áreas estratégicas.

– O governo de Cingapura não é exatamente um modelo de austeridade, possuindo uma dívida maior do que o PIB ao mesmo tempo que oferece amplos serviços para a população.

– Os serviços públicos, assim como os essenciais, são controlados pelo Estado e muito mais bem estruturados que nos países subdesenvolvidos (como o Brasil).

– O mercado imobiliário e de terras é um dos mais concentrados na mão do Estado em todo o planeta.

– O regime tributário é progressivo (não há espaço para a ideia de que se deve taxar menos os ricos do que os pobres, por eles serem geradores de riqueza).

– Singapura não foi construída com base liberal e permanece muito distante de ser modelo de (neo)liberalismo.

– Há evidências de que existe um sistema de partido único disfarçado em Singapura, tendo o único partido de facto (PAP) origem leninista, associado com acusações de perseguição à imprensa.

Duas perguntas ficam em aberto, por não ser parte do escopo do artigo responde-las:

– Dado que Singapura mostra de forma inequívoca que os índices de liberdade econômica visivelmente não medem Estado mínimo nem adoção de medidas (neo)liberais, o que eles medem?

– Por que militantes de direita utilizam esses índices como justificativa de adoção de suas políticas, sendo que nem os primeiros colocados as adotam?

Por fim, é necessário  lembrar que Singapura sequer é um país, mas sim uma cidade-Estado, localizada em uma região estratégica do globo, com uma população em torno de 5 milhões de habitantes. Singapura, como Hong Kong e Taiwan, é uma zona portuária importante do sudeste asiático desde o século XIX, por conta de suas características territoriais que a torna um interposto comercial e por meio das políticas desenvolvimentistas do seu Estado, que a transformaram em uma plataforma de exportação.

Por essas razões, a realidade de Singapura não tem como ser reproduzida nos demais países, ainda mais naqueles que possuem uma grande população, como é o caso do Brasil, que necessita de uma economia diversificada e não tem como sustentar uma população de quase 200 milhões de habitantes apenas com a atividade portuária-financeira.

Singapura não é liberal e tampouco usou do liberalismo econômico em nenhuma de suas etapas de desenvolvimento. Pelo contrário, o Estado cumpriu sempre o papel de organizador da economia e isso se mantem até hoje. Mesmo se tivesse se desenvolvido com liberalismo econômico, porém, o seu exemplo de nada serviria para os demais países por sua realidade bem particular, impossível de ser replicada em países com grande população ou com um território maior, não insular e fora de uma localização privilegiada semelhante, ou seja, Singapura sequer serviria de exemplo se tivesse de fato seguido a agenda dos liberais.

Referências

[1] One Shift – COE Bidding Prices in Singapore
[2] SGCharts – Feast or Famine A vicious cycle
[3] Department os Statistics Singapore
[4] Land transport Authority – Tax Structure for Cars
[5] Chevrolet – Captiva
[6] One Shift – Chevrolet Captiva 2.4 LT FWD (A)
[7] Housing & Development Board – Public Housing – A Singapore Icon
[8] National Association of Realtors – Singapore Political Environment
[9] SWFI – Sovereign Wealth Fund Rankings
[10] GIC – Investing for the future
[11] Temasek – Site Oficial
[12] National Debt Clock – NATIONAL DEBT OF SINGAPORE
[13] The World Bank – Market capitalization of listed domestic companies (current US$)
[14] Temasek – Review 2016
[15] GIC – Securing Singapore’s Financial Future
[16] Forbes – The World’s Biggest Public Companies
[17] Temasek – Major Investments
[18] OCBC Group – Shareholder Information – Major Shareholders
[19] UOB – Major Shareholders
[20] The New York Times – Analysts Split on Deregulation’s Impact : For Singapore Telecom, Battle on Home Front
[21] Singapore Business Review – Singapore doesn’t need a fourth mobile telco operator: Singtel
[22] M1 – Annual Report 2015 Statistics of Shareholding
[23] Keppel Telecommunication & Transportation
[24] Temasek  – Review 2016 Telecommunications, Media & Technology
[25] Singapore Press Holdings – Main Shareholders
[26] Starhub – Shareholders
[27] TheFinance – The Battle of the Telcos: 6 Things You Need to Know about StarHub
[28] Singapore Power
[29] Energy Portal – How Electricity is Sold and Distributed in Singapore
[30] Energy Market Authority – Market Share for Eletricity Generation
[31] Temasek – Temasek successfully completes divestment of Tuas Power
[32] Temasek – Temasek sells Senoko Power to Japanese consortium
[33] YTL Power Seraya – PowerSeraya divested from Temasek Holdings to YTL Power
[34] Land Transport Authority – LTA’S ROLE IN PUBLIC BUS SERVICES
[35] Land Transport Authority – ROADS & MOTORING
[36] Land Transport Authority – MRT & LRT TRAINS
[37] Temasek – Review 2016 Transportation & Industrials
[38] SBS Transit – Financials
[39] ComfortDelGro – Annual Report 2015
[40] National Library Board – SINGAPORE LABOUR FOUNDATION IS ESTABLISHED
[41] OECD – Singapore tops latest OECD PISA global education survey
[42] NCEE – Singapore: System and School Organization
[43] Ministry of Education – Enrol With Us – MOE Kindergarten
[44] Ministry of Education – Pre-School
[45] Ministry of Education – Primary
[46] Ministry of Education – Secondary
[47] Ministry of Education – MOE FINANCIAL ASSISTANCE SCHEME
[48] Ministry of Education – Education Statistics
[49] Ministry of Health – Financing
[50] Ministry of Health – Singapore Healthcare Market-Share Analysis
[51] Ministry of Manpower – Unpaid infant care leave
[52] Ministry of Manpower – FREQUENTLY ASKED QUESTIONS ON EMPLOYMENT RIGHTS
[53] Ministry of Manpower – I know my employment rights. Do you?
[54] Central Provident Fund Board – CPF Contribution and Allocation Rates
[55] Ministry of Manpower – Maternity leave eligibility and entitlement
[56] Ministry of Manpower – Paternity leave
[57] OECD – Revenue Statistics – OECD countries: Comparative tables
[58] Singapore Budget – ANALYSIS OF REVENUE AND EXPENDITURE Financial Year 2016
[59] Receita Federal do Brasil – Carga Tributária no Brasil
[60] Voyager – O Livre Mercado é a chave para a prosperidade? A Noruega prova que não.
[61] Inland Revenue Authority of Singapore – The Singapore Tax System
[62] Inland Revenue Authority of Singapore – IRAS Annual Report 2015/16
[63] Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação – Estudo indica que pobres pagam mais impostos do que os ricos
[64] BBC Brasil – Rico é menos taxado no Brasil do que na maioria do G20
[65] Inland Revenue Authority of Singapore – Income Tax Rates
[66] Receita Federal do Brasil – Exterior
[67] Choice – Singapore travel guide: what you need to know
[68] GOV.UK – Foreign travel advice Singapore
[69] Business Insider – 16 odd things that are illegal in Singapore
[70] Asia Sentinel – Singapore’s Cadre System
[71] National Library Board –  People’s Action Party is formed
[72] National Library Board – Past and present leaders of Singapore
[73] National Archives of Singapore – SPEECH BY THE PRIME MINISTER, MR. LEE KUAN YEW, AT THE OPENING SESSION OF THE 1965 ASIAN SOCIALIST CONFERENCE IN BOMBAY
[74] National Archives of Singapore – SPEECH BY MR. LEE KUAN YEW AT THE SOCIALIST INTERNATIONAL CONGRESS IN BRUSSELS
[75] Fortune – Singapore, the country run like a corporation (1974)
[76] Harvard Political Review – Singapore’s Stubborn Authoritarianism
[77] The Straits Times – ‘Singapore must never forget its socialist heart’: Chan Chun Sing
[78] Reporters Without Borders – WORLD PRESS FREEDOM INDEX
[79] Reporters Without Borders – Singapore
[80] Human Rights Watch – Singapore: New Repression of Dissenting Voices

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