16 economistas ilustres derrubam o mito “esquerda não sabe economia”

Será mesmo que apenas a direita entende de economia? Uma seleção de economistas de esquerda celebrados na academia por sua inestimável contribuição ao debate econômico prova que não.

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Quando ouvem alguém falar “economistas de esquerda”, algumas pessoas têm o impulso de dar uma risadinha. Muitos conservadores consideram que um economista precisa ser de direita para poder ser considerado sério, tendendo a dar preferência aos liberais neoclássicos.

Na esquerda, por sua vez, existe um certo desprezo por análises puramente econômicas, principalmente vindo das ciências sociais.

Contudo, a verdade é que sim, a esquerda também está presente no debate econômico. Ao contrário do que o senso comum pensa, que é fortalecido pelos grupos políticos acima mencionados, a economia possui seus representantes à esquerda e que produziram contribuições acadêmicas importantes, o que invalida completamente o mito de que “a esquerda entende nada de economia”.

Para demonstrar que esse mito não se sustenta, abordaremos neste texto a vida e a obra de destacados economistas de esquerda do passado e do presente, cuja obra e análises econômicas continuam, infelizmente, muito restritos aos que estudam economia e que acompanham suas colunas (os do presente, no caso). Evidentemente existem economistas de esquerda mais próximos do público leigo e que contribuem com partidos, sindicatos e movimentos sociais, mas não têm grande produção para a academia. Estes escrevem muitos artigos e colunas para a imprensa, mas escrevem poucos papers para journals. Eles são importantes, pois a academia, para ter importância política, deve se comunicar com o público leigo. Mas não é deste tipo de economista que este texto trata. Qualquer pessoa que simplesmente acompanha as notícias no dia a dia sabe que existe este tipo de economista de esquerda. O tema deste texto serão economistas que têm contribuição importante para a economia, e não apenas para a esquerda.

Não há espaço aqui para apresentar detalhes sobre a obra de cada economista listado. Aqui está presente apenas um breve resumo sobre o que cada economista pesquisou. Quem tiver maior interesse, sugerimos conferir as referências que se encontram no fim do texto. Como toda lista, esta também é limitada e alguns poderão perguntar: “Por que não incluiu esse? Por que não incluiu aquele?”. Então, sim, alguns nomes importantes ficaram de fora, mas, para uma lista cuja finalidade é invalidar a crença de que a esquerda sabe nada de economia, contar um pouco sobre a vida e a obra de dezesseis economistas renomados de esquerda é mais do que suficiente.

Antes de prosseguir, também lembramos que o mito da esquerda que apenas faz ciências sociais foi derrubado no texto 10 Célebres Cientistas que Invalidam o Estereótipo “Esquerdista de Humanas”. Sobre as diferentes escolas de economia, inclusive à direita, também vale conferir o Pequeno Guia de 9 Tribos do Pensamento Econômico.

1 Rudolf Hilferding (1877–1941)

Rudolf Hilferding (1877–1941)

Rudolf Hilferding nasceu na Áustria. Estudou medicina, filosofia e economia. Pouco depois de concluir os estudos, se mudou para a Alemanha. Tornou-se intelectual importante do Partido Social Democrata Alemão (SPD). Durante a Primeira Guerra Mundial, se opôs ao apoio deste partido à participação da Alemanha na guerra e entrou no Partido Social Democrata Independente (USPD), uma dissidência de esquerda. Muitos integrantes desta acabaram  aderindo ao recém criado Partido Comunista Alemão (KPD).

Hilferding retornou para o SPD por discordar dos rumos da Revolução Bolchevique na Rússia. Foi Ministro das Finanças de governos do SPD em 1923 e em 1928-1929. Na segunda passagem pelo ministério, se demitiu depois de se desentender com Schacht, o poderoso diretor do Banco Central. Quando Hitler assumiu o poder em 1933, Hilferding se exilou na Suíça, mudando-se mais tarde para a França, em 1938. Quando a Alemanha invadiu a França, em 1940, a polícia francesa entregou Hilferding para a Gestapo, que o executou.

Hilferding foi um defensor da Escola Marxista de economia e um oponente da Escola Austríaca. Um de seus primeiros trabalhos foi uma refutação da crítica de Böhm-Bawerk a Karl Marx. A obra mais importante de Hilferding foi O Capital Financeiro, publicada em 1910. Nesta obra, Hilferding descreve as mudanças ocorridas no capitalismo no final do século XIX e no início do século XX. De acordo com o autor, o surgimento de novos setores industriais, que exigem grandes somas de capital, fez substituir os capitalistas individuais pelas sociedades por ações. Como os bancos se tornaram grandes acionistas, passou a haver uma grande ligação entre o capital bancário e o capital industrial, com predominância do capital bancário. A livre concorrência do início do capitalismo foi substituída pelos monopólios, cartéis e trustes. O liberalismo econômico foi substituído por intervencionismo estatal, pois os grandes capitais precisavam do Estado para conquistar novos mercados (Dottschalch, 2010).

Hilferding defendia a transição para o socialismo e, ao contrário dos primeiros marxistas, não acreditava que o capitalismo entraria sozinho em colapso, mas que a transição dependeria da ação política da classe trabalhadora. Para o autor, o socialismo poderia ser alcançado pela via eleitoral, e a nova fase do capitalismo facilitava esta transição, pois os capitais já haviam sido coletivizados com a formação dos grandes grupos econômicos.

A contribuição de Hilferding para o pensamento econômico não é de interesse apenas daqueles que desejam fazer a transição para o socialismo, mas também daqueles que desejam simplesmente estudar as crises do capitalismo. Hilferding teve contribuição importante para tratar de crises de superprodução e ausência de demanda. E fez isso bem antes de Keynes.

2 Nikolai Dimitrievich Kondratiev (1892–1938)

Nikolai Dimitrievich Kondratiev (1892–1938)

Nikolai Kondratiev foi um economista russo. Estudou na Universidade de São Petersburgo antes da revolução. Sua área de interesse inicial era a economia agrícola. Foi membro do Partido Social Revolucionário, chegando a participar do governo provisório de Alexander Kerensky. Apoiava uma forma de socialismo que aceitava a convivência com empresas privadas. Por isso, participou da Nova Política Econômica (NEP), implementada por Lenin nos anos iniciais da União Soviética. Em 1928, quando Stalin decidiu coletivizar toda a economia e introduzir a industrialização pesada, Kondratiev passou a ser visto como um inimigo do regime. Acabou preso em 1930 e executado em 1938.

A obra mais conhecida de Kondratiev foi publicada em 1926, tratando das “ondas longas da economia capitalista”. De acordo com esta obra, o capitalismo teria ondas de expansão e contração que duravam aproximadamente 50 anos. A expansão seria causada pela introdução de novas tecnologias, que induziria novos investimentos. Depois de realizados os investimentos e aumentado o estoque de capital, haveria um declínio dos investimentos, e, portanto, desaceleração. Esta teoria de Kondratiev não foi formulada de forma abstrata. O economista russo utilizou dados empíricos sobre o desempenho da economia dos países mais ricos do mundo entre 1790 e 1925. Percebeu uma primeira onda durando de 1790 a 1844, fomentada pela máquina de tecer algodão; uma segunda onda durando de 1845 a 1890, fomentada pela máquina a vapor, ferrovia e aço; e uma terceira onda que estava acontecendo durante a publicação a obra, fomentada pela eletricidade, pela indústria química e pelos motores.

As análises de Kondratiev sobre os ciclos econômicos no capitalismo influenciou diretamente as obras do liberal Joseph Schumpeter (Bresser Pereira, 1986).

3 Paul Howard Douglas (1892–1976)

Paul Howard Douglas (1892–1976)

Um dos critérios para estar nesta lista é ter tido contribuição para a academia, e não apenas para políticos, partidos, sindicatos, movimentos sociais e proximidade com o público leigo. Ainda assim, a contribuição acadêmica de muitos desta lista atrai muito mais professores e pesquisadores de esquerda. Não é o caso de Paul Douglas. Este economista norte americano foi um dos inventores da famosa função de Cobb-Douglas, presente em qualquer livro-texto básico de Microeconomia. A função básica de Cobb-Douglas é Y = ALαKβ com α + β = 1. Nesta função, Y é o produto, L é a quantidade de trabalho necessária para produzir o produto e K é a quantidade de capital necessária para produzir o produto. A ideia básica desta função é representar de forma simples que uma quantidade maior de insumos produz uma quantidade maior de produtos e que uma quantidade média de dois insumos produz mais do que uma quantidade muito alta de um insumo e uma quantidade muito baixa de outro insumo. Os insumos utilizados na função podem ser outros, a função serve para qualquer par de insumos. E também pode ser utilizada para medir a satisfação de um consumidor com dois bens.

Os outros economistas presentes nesta lista são famosos por suas posições políticas, mas pode ter causado surpresa a alguns leitores a informação de que um dos elaboradores da famosa função de Cobb-Douglas tinha posições de esquerda. Paul Douglas foi senador pelo estado de Illinois entre 1949 e 1967, pertencendo à ala esquerda do Partido Democrata (como é o caso de Bernie Sanders hoje). Ele foi um grande defensor dos direitos civis, da proteção ao meio ambiente e da construção de moradias populares. Martin Luther King descreveu Douglas como o maior de todos os senadores (Merriner, 2003). Antes de ser senador, Douglas lecionou na Universidade de Chicago, o que é inusitado para um economista com posições de esquerda.

4 Michal Kalecki (1898–1970)

Michal Kalecki (1898–1970)

O economista polonês Michal Kalecki foi uma ponte entre a obra de Marx e a obra de Keynes. Assim como Keynes, Kalecki escreveu sobre a demanda efetiva, considerando que é o gasto dos agentes econômicos que gera a renda, e não o sentido oposto. Mas na forma de descrever o sistema econômico, Keynes e Kalecki eram diferentes. Assim como os neoclássicos que o influenciaram, Keynes — que era liberal, apesar de ter tanta gente, inclusive na esquerda, que o define como economista social-democrata — enxergava a economia como um conjunto de indivíduos. Já Kalecki trabalhava com conceitos marxistas como classes sociais, capital constante, capital variável e mais-valia. Kalecki, na verdade, publicou sobre a demanda efetiva antes da principal obra de Keynes, mas não teve a mesma repercussão porque publicou em polonês. Ao elaborar a teoria sobre a demanda efetiva, Kalecki teve influência de outros autores marxistas, como Rosa Luxemburgo e Tugan Baranovski (Jobim, 1981).

Kalecki estudou engenharia e tinha muito interesse em matemática. Viveu na Polônia até a década de 1930, quando se mudou para a Inglaterra. Lá, ele participou do círculo dos economistas de Cambridge. Durante a Segunda Guerra Mundial, colaborou com o governo britânico para o planejamento da economia. Depois da guerra, trabalhou na ONU, em Nova York, até 1955. Aí sofreu pressões do macarthismo. Retornou para a Polônia, onde trabalhou como conselheiro do governo comunista e depois como professor universitário.

O principal modelo de Kalecki foi feito a partir de uma matriz que considerava que a economia tinha três departamentos: o de bens de produção, o de bens de consumo para os capitalistas e o de bens de consumo para os trabalhadores. Era considerado que os três departamentos pagavam salários e lucros. Como o modelo considerava que os trabalhadores consumiam toda a renda, a decorrência matemática era a de que o lucro total da economia correspondia à soma do investimento com o consumo dos capitalistas. Kalecki não considerava ajustes nos preços porque considerava que a economia tinha estrutura oligopólica. Maior poder de mercado das empresas implicava em maior participação dos lucros e menor participação dos salários na renda nacional. O modelo considerava um multiplicador (o quanto um aumento de investimento se converte em aumento do produto), que dependia da propensão a consumir dos capitalistas e da participação dos salários na renda nacional. Kalecki ainda formulou teorias sobre decisões de investimento por parte dos capitalistas e sobre ciclos econômicos (Jobim, 1981).

A obra de Kalecki não se limitou à pura teoria macroeconômica. O economista polonês também discutiu as implicações políticas. Em um artigo, escreveu que as políticas de fomento à demanda agregada para gerar pleno emprego, embora teoricamente corretas, poderiam falhar se conduzidas por governos de esquerda, pois os empresários tenderiam a ver o desemprego baixo como uma ameaça e reagir negativamente à política. Isto é uma lição que dura até os dias atuais (Kalecki, 1943). Alô alô, Dilma!

5 Piero Sraffa (1898–1983)

Piero Sraffa (1898–1983)

Piero Sraffa nasceu na Itália, filho de uma família de judeus. Estudou economia na Itália e na London School of Economics. Lecionou economia na Itália até 1927, quando teve que se mudar para o Reino Unido por causa de divergências políticas com o regime de Benito Mussolini. A partir de então, lecionou em Cambridge. Embora fosse amigo pessoal de Gramsci, nunca foi marxista. Teve influência de Marx, mas foi um neo-ricardiano e conviveu em círculos de economistas keynesianos na Inglaterra.

A primeira contribuição importante de Sraffa para o pensamento econômico foi a teoria da concorrência imperfeita, exposta em um artigo publicado em 1926. Até então, a economia neoclássica, dominante naquele tempo (e também nos dias atuais), considerava apenas dois extremos opostos de mercado: a concorrência perfeita e o monopólio (Miranda, 1987). Na situação de concorrência perfeita, várias empresas produzem um bem homogêneo, e o preço de oferta tem que ser idêntico para todas as empresas, pois se uma empresa cobrar um centavo a mais, ela não conseguirá vender seu bem. Na situação de monopólio, uma única empresa produz determinado bem. Para determinar o custo, esta empresa precisa considerar apenas seu custo e a demanda, não precisando se preocupar com preços de empresas concorrentes. Na concorrência imperfeita, descrita por Sraffa, existe uma situação intermediária: há várias empresas que produzem determinado bem, que não é exatamente idêntico se comparado o de uma empresa com o de outra. Cada empresa tem alguma liberdade para fixar seu preço, pois seu produto tem alguma diferenciação, mas ainda assim precisa se preocupar com os preços praticados por concorrentes (imaginem, por exemplo, uma rua com várias pizzarias, um consumidor pode preferir uma delas e aceitar a pagar um pouco mais caro pela pizza, mas não muito mais caro). A concorrência imperfeita é encontrada no mundo real com muito mais frequência do que a concorrência perfeita e o monopólio. Posteriormente à obra de Sraffa, a teoria da concorrência perfeita foi incorporada por modelos matemáticos neoclássicos, e está presente em qualquer livro-texto de Microeconomia para iniciantes.

A segunda contribuição importante de Sraffa foi a retomada da teoria do valor, exposta por David Ricardo no início do século XIX. Ricardo considerava que a origem do preço da mercadoria estava no valor, que dependia da quantidade de trabalho existente na mercadoria. Marx continuou a teoria do valor, mas já no terceiro livro de O Capital percebeu a dificuldade de mensuração do valor individual de cada mercadoria, pois mercadorias diferentes tinham composições orgânicas diferente do capital (umas tinham maior peso de salários no custo, outras tinham maior peso de máquinas e matérias-primas). A teoria do valor foi abandonada pelos neoclássicos, que surgiram por volta de 1870. Para os neoclássicos, mercadorias tinham preços que dependiam de oferta e demanda, que a demanda era determinada pela utilidade, e que o conceito de valor era irrelevante. Sraffa reconsiderou a teoria do valor, mostrando em um sistema de equações que o preço de uma mercadoria individual não é equivalente a quantidade de trabalho presente nela, mas que o preço de um conjunto de mercadorias diferentes é equivalente à quantidade de trabalho presente neste conjunto (Nicolau, 1989).

6 Gunnar Myrdal (1898–1987)

Gunnar Myrdal (1898–1987)

O sueco Gunnar Myrdal escreveu sobre papel das expectativas na formação de preços, e sobre a moeda endógena, ou seja, aquela que o próprio sistema econômico cria. Foi entusiasta da econometria ainda nos anos 1920, quando esta técnica ainda não estava muito bem estabelecida. Ganhou o Prêmio de Economia em Memória de Alfred Nobel (o qual não é um Prêmio Nobel; não existe Nobel de economia) em 1974. Inusitadamente, o vencedor no mesmo ano, que dividiu o prêmio, foi o austríaco Friedrich Hayek.

O sueco Gunnar Myrdal escreveu sobre papel das expectativas na formação de preços, e sobre a moeda endógena, ou seja, aquela que o próprio sistema econômico cria. Foi um dos fundadores da Sociedade de Econometria, em Londres, na década de 1920, quando a Econometria ainda não era muito difundida. Deixou esta sociedade quando percebeu a falta de preocupação com questões como distribuição de renda. Foi forte crítico da teoria econômica ortodoxa, a qual, pare ele, provocava distorções para defender o status quo (Miterhof, 2014).

Gunnar Myrdal foi deputado pelo Partido Social Democrata da Suécia a partir da década de 1930. Ajudou a desenhar o Estado de Bem-Estar Social, algo do qual a Suécia é um grande modelo. O economista participou do governo de Tage Erlander entre 1945 e 1947. Depois, foi Secretário Executivo da Comissão Econômica das Nações Unidas para a Europa.

Sua área de atuação acadêmica e política não se restringiu à Europa. Escreveu “Um dilema americano: problema racial e democracia moderna” (1944), que foi um estudo sobre as relações raciais no Estados Unidos financiado pela Carnegie Corporation. Este estudo foi citado pela Suprema Corte dos Estados Unidos ao decidir pela inconstitucionalidade da segregação racial nas escolas.

A partir do final dos anos 1950, voltou sua atenção para o Terceiro Mundo, com maior ênfase para a miséria no Sudeste Asiático. Escreveu O Drama Asiático: Uma Investigação sobre a Pobreza das Nações e Desafio à Pobreza Mundial: Esboço de um Programa Mundial Contra a Pobreza. Defendeu a reforma agrária e melhoria da distribuição de renda.

Ganhou o Prêmio de Economia em Memória de Alfred Nobel (o qual não é um Prêmio Nobel; não existe Nobel de economia) em 1974. Inusitadamente, o vencedor no mesmo ano, que dividiu o prêmio, foi o austríaco Friedrich Hayek.

7 Raúl Prebisch (1901–1986)

Raúl Prebisch (1901–1986)

O pensamento do argentino Raúl Prebisch é visto como um sinônimo do pensamento da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), organização que ele dirigiu entre 1949 e 1963. Prebisch teorizou sobre a divisão internacional do trabalho e a presença do sistema centro-periferia observando a experiência da Argentina, que inicialmente enriqueceu exportando carne para o Reino Unido, mas estagnou depois do fim da hegemonia de seu principal mercado (Furtado, 1986).

De acordo com Prebisch, os preços de commodities primárias tinham tendência de declínio a longo prazo porque a demanda por esses produtos aumentava menos do que a renda. Por causa disso, os ganhos de progresso técnico do capitalismo mundial eram retidos pelo centro industrializado, e não pela periferia agrícola. Dessa forma, os países periféricos deveriam se industrializar para escapar do subdesenvolvimento.

No início, Prebisch era defensor da industrialização por substituição de importações. Posteriormente, passou a defender que isto não era suficiente, e que os países em desenvolvimento também deveriam exportar manufaturados (Couto, 2017).

Além de teórico, Prebisch teve uma longa carreira como homem público. Foi presidente do Banco Central Argentino de 1935 a 1943. Nunca teve bom relacionamento com o presidente Perón (1945–1955) e por isso não exerceu cargos públicos na Argentina durante seu governo. Mas depois da Segunda Guerra Mundial, sua principal carreira pública foi internacional. Participou da Cepal e da Unctad.

8 Joan Robinson (1903–1983)

Joan Robinson (1903–1983)

A economista britânica Joan Robinson fez parte do círculo de Cambridge assim como Michal Kalecki e Piero Sraffa, também presentes nesta lista. Joan Robinson foi a primeira mulher a receber honraria do King’s College. O primeiro trabalho importante da economista, publicado em 1933, foi sobre a concorrência imperfeita, dando continuidade ao que foi desenvolvido por Piero Sraffa. Robinson ainda introduziu o conceito de monopsônio, que é um mercado com vários vendedores e um único comprador. O monopsônio é muito importante para descrever o mercado de trabalho (Heller, 1997).

Pouco tempo depois, quando Keynes lançou a Teoria Geral do Emprego, dos Juros e da Moeda, Robinson se tornou uma forte defensora das ideias daquela obra. Mas havia uma diferença ideológica entre Keynes e Robinson: ele fez uma crítica à teoria econômica neoclássica e ao capitalismo laissez-faire com a intenção de salvar o capitalismo. Apesar de algumas semelhanças com Marx, Keynes rejeitava sua orientação política. Ela, por sua vez, não estava muito preocupada em salvar o capitalismo, e se tornou interessada na obra de Marx, embora nunca tivesse sido estritamente marxista (Singer, 1996).

Depois da Segunda Guerra Mundial, Robinson passou a se preocupar com problemas das economias dos países em desenvolvimento. Viajou para a Coreia do Norte e para a China para conhecer as experiências socialistas.

9 Oskar Lange (1904–1965)

Oskar Lange (1904–1965)

O polonês Oskar Lange tentou combinar a teoria econômica marxista com a teoria econômica neoclássica. Foi defensor de uma economia centralmente planificada, mas com mecanismos de mercado para a determinação de preços.

Nasceu, cresceu e se formou na Polônia, morou na Inglaterra e nos Estados Unidos nos anos 1930 e 1940, e depois da Segunda Guerra Mundial retornou para a Polônia, onde participou do governo comunista.

10 Paul Malor Sweezy (1910–2004)

Paul Malor Sweezy (1910–2004)

O norte americano Paul Sweezy foi um economista marxiano. Durante sua longa vida, lecionou em Harvard, trabalhou para a administração de Franklin Roosevelt no New Deal e, durante a Segunda Guerra Mundial, foi enviado pelo governo dos Estados Unidos para observar a política econômica do governo britânico. Depois da guerra, escreveu regularmente artigos em revistas de esquerda, como The Nation e The New Republic. Foi fundador da revista Monthly Review, em que Albert Einstein publicou o seu artigo Por Que Socialismo?. Foi amigo de Schumpeter e elogiado por Samuelson apesar da diferença ideológica com ambos. Sweezy ainda teve grande interesse pela política latino americana, apoiando Fidel Castro, Che Guevara e Salvador Allende (Cotrim, 2009).

Na sua primeira grande obra, Teoria do Desenvolvimento Capitalista, publicada em 1942, tratou do problema da transformação do valor em preço. Em Capitalismo Monopolista, obra publicada em 1966, substituiu o conceito marxista de “mais-valia” por “excedente”, e mostrou como o capitalismo monopolista permite gerar elevado excedente, e como este excedente é utilizado: expansão da produção, consumo capitalista e militarismo.

11 Celso Furtado (1920–2004)

Celso Furtado (1920–2004)

Assim como o argentino Raul Prebisch, o brasileiro Celso Furtado é bastante identificado com as ideias da Cepal. Furtado nasceu na Paraíba, participou da Força Expedicionária Brasileira (FEB) durante a Segunda Guerra Mundial e fez doutorado em Paris, logo depois, escrevendo a tese sobre a economia colonial brasileira. Trabalhou na Cepal desde sua fundação. Dirigiu o CEPAL-BNDE, que fez um estudo sobre a economia brasileira e forneceu as sugestões que seriam implementadas pelo presidente Juscelino Kubitschek durante o Plano de Metas. Em 1957, viajou para Cambridge, na Inglaterra, onde teve contato com muitos economistas presentes nesta lista, e escreveu sua obra prima, Formação Econômica do Brasil (Mantega, 1989). De volta ao Brasil, criou a Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), ainda durante o governo Kubitschek. Foi Ministro do Planejamento durante o governo João Goulart. Depois do Golpe de 1964, perdeu os direitos políticos e foi exilado. Durante o governo Sarney, foi o primeiro Ministro da Cultura no Brasil.

Celso Furtado foi grande estudioso de temas como relação centro-periferia, origens do subdesenvolvimento e políticas para superá-lo. Este pensador foi um dos introdutores do “estruturalismo”, que é a ideia de que economias subdesenvolvidas não podem ser estudadas através de modelos matemáticos abstratos. Isto porque as “estruturas”, produzidas por relações não econômicas, são fatores determinantes para o desenvolvimento ou subdesenvolvimento e por isso não podem ser desconsideradas (Furtado, 1989).

Assim como Prebisch, Celso Furtado considerava que a industrialização era necessária para superar o subdesenvolvimento. Como considerava o estudo da História fundamental para o entendimento da economia, a obra mais importante de Furtado discutiu como a economia cafeeira, as políticas de defesa desta economia e o choque externo em 1929 induziram a industrialização no Brasil. Mas este economista não apoiava qualquer industrialização: considerava que a introdução de indústrias feitas exclusivamente para que minorias privilegiadas copiassem os padrões de consumo dos países desenvolvidos agravava a concentração de renda. Furtado considerou o planejamento econômico realizado pelo Estado fundamental para a industrialização dos países subdesenvolvidos. A partir da década de 1970, passou a tratar também de problemas ambientais. Em O Mito do Desenvolvimento Econômico (1974), mostrou que seria impossível todos os países subdesenvolvidos alcançarem o nível de renda dos países desenvolvidos, porque haveria o limite dos recursos naturais.

Apesar de ter sido um grande crítico do liberalismo, Celso Furtado nunca foi o espantalho que liberais fazem de seus críticos. Defendeu o planejamento estatal e as ideias keynesianas, mas nunca foi partidário da ideia de que gastar mais é sempre melhor ou que inflação nunca é ruim (Bresser Pereira, 2004). Quando foi ministro de João Goulart, tentou reduzir o déficit público e a inflação. No final dos anos 1980, escreveu que o Estado brasileiro exagerou no seu papel de empresário, e que isto teria sido resultado de falta de planejamento adequado. E diferente de alguns keynesianos, Celso Furtado considerava o acúmulo de poupança interna muito importante para o desenvolvimento.

Celso Furtado pode ser visto como um grande medidor de como o debate econômico brasileiro se deslocou para a direita se comparar os anos 1950 com o início do século XXI. Ele não deu guinadas ideológicas ao longo de sua vida. Quando jovem, era criticado pela esquerda radical por ser reformista (o que era um xingamento), por ser muito conivente com o capitalismo. Faleceu no início do governo Lula, quando a equipe econômica daquele governo estava nitidamente à sua direita.

12 Amartya Sen (1933–)

Amartya Sen (1933–)

O economista indiano Amartya Sen foi muito importante para a criação de indicadores de desenvolvimento que vão além do PIB per capita. Em sua famosa obra Desenvolvimento como Liberdade (1999), argumentou que os seres humanos precisam de diferentes tipos de liberdade, e não apenas as negativas, aquelas que o Estado deve simplesmente não subtrair, mas também as positivas, aquelas que o Estado deve prover. Estas liberdades abrangem a participação política, o poder de comprar bens necessários à sobrevivência, a disponibilidade de serviços de educação e saúde e as relações de confiança dentro da sociedade. Anos antes, Sen ajudou a desenvolver o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), muito utilizado pela ONU. Amartya Sen também foi muito interessado no estudo sobre a fome, defendendo, a partir da observação da experiência da Índia, que a fome não é necessariamente causada por falta de alimentos, e sim pela impossibilidade de muitas pessoas de comprar alimentos (Dana, 2017).

Amartya Sen lecionou em Cambridge, no MIT, na Delhi School of Economics, na London School of Economics, em Oxford e em Harvard. Ganhou o Prêmio de Economia em Memória de Alfred Nobel em 1998.

13 Joseph Stiglitz (1943–)

Joseph Stiglitz (1943–)

O estadunidense Joseph Stiglitz se destacou pelo seu trabalho sobre os efeitos da informação assimétrica na economia. De acordo com este economista, a existência de informação assimétrica faz com que o livre mercado não seja necessariamente a maneira mais eficiente de alocar recursos. Stiglitz observou a assimetria da informação no desemprego, nos contratos de seguro, no racionamento de crédito, nas crises financeiras e no regime de parceria na agricultura. No caso do crédito, por causa da assimetria de informação entre credor e devedor, os bancos simplesmente não concederiam crédito para alguns tomadores, e isto poderia gerar declínio do investimento, e, dessa forma, uma crise macroeconômica (Aldrighi, 2004). Em 1979, esses trabalhos renderam a Stiglitz a Medalha John Bates Clark, e o Prêmio de Economia em Memória de Alfred Nobel em 2001.

Sua carreira acadêmica inclui formação no MIT, em Cambridge, na Inglaterra, e passagem como professor nas universidades de Yale, Stanford, Princeton e Columbia.

Stiglitz não pode ser considerado de esquerda somente por causa de seu trabalho acadêmico, uma vez que não é necessário ser de direita para perceber que existem falhas de mercado. Qualquer livro-texto básico de Microeconomia fala sobre falhas de mercado. O que coloca Stiglitz à esquerda é a sua atividade como homem público que passou a exercer depois de já consagrado como acadêmico. Foi economista chefe do Banco Mundial entre 1997 e 2000, mas pediu demissão por discordar do conservadorismo desta organização. Em 2000, criou a Initiative for Policy Dialogue, que tinha como objetivo reunir acadêmicos e ativistas de diferentes áreas para discutir propostas de desenvolvimento para países pobres. Ao longo das décadas de 2000 e 2010, foi forte crítico da desregulamentação bancária, das agências de classificação de risco, do crescimento da desigualdade, e das políticas de austeridade adotadas por países europeus depois da crise de 2008. Escreveu livros voltados para o grande público como A Globalização e Seus Malefícios (2002) e O Preço da Desigualdade (2012).

14 Paul Krugman (1953–)

Paul Krugman (1953–)

O também estadunidense Paul Krugman teve uma trajetória intelectual e política muito parecida com a de Joseph Stiglitz. Se consagrou na academia com pesquisas sobre temas “ideologicamente neutros”, ganhou a Medalha John Bates Clark em 1991, e somente com idade razoavelmente avançada tornou-se conhecido pela atuação política voltada para a esquerda. Ainda ganhou o Prêmio de Economia em Memória de Alfred Nobel em 2008. Este tipo de carreira é necessário para quem deseja ser reconhecido pelo meio acadêmico de ciências econômicas nos Estados Unidos. Lá, são muito mais valorizados os temas abstratos, a especialização e a publicação de papers em journals especializados (Earp, 1996). Um jovem que deseja ser multidisciplinar, generalista e ativista político dificilmente obteria reconhecimento na academia dos EUA. Por isso, é recomendável seguir este caminho só depois de já ter tido consideráveis anos de carreira acadêmica e consagração como especialista. Foi isso que fizeram Joseph Stiglitz e Paul Krugman.

O trabalho que consagrou Krugman foi sobre comércio internacional. As teorias tradicionais de comércio consideravam as vantagens comparativas como causa do intercâmbio de mercadorias. Países exportariam produtos agrícolas mais compatíveis com seu clima, e demais produtos de acordo com sua dotação de fatores: países com muito capital exportariam bens intensivos em capital, países com muito trabalho não qualificado exportariam bens intensivos em trabalho não qualificado e países com muito trabalho qualificado exportariam bens intensivos em trabalho qualificado. A teoria de comércio de Krugman conseguiu explicar o que as teorias tradicionais não conseguiam: por que havia comércio também entre países muito semelhantes? A resposta estaria nas economias de escala (Krugman, 2015). Consumidores gostam de diversificar sua cesta de bens, mas é economicamente mais eficiente não que todos os países produzam todos os bens, e sim que se especializem em alguns bens para produzir em grande quantidade. Por ter reconhecida competência neste tema, Paul Krugman foi autor de um livro-texto de Economia Internacional muito utilizado em cursos de graduação. É um grande defensor do livre comércio e crítico dos protecionistas. Apesar de neste ponto Krugman concordar com economistas de orientação liberal, o debate protecionismo versus livre comércio não é de fato um debate esquerda versus direita.

Foi quando entrou nos debates de Macroeconomia que Paul Krugman demonstrou um posicionamento à esquerda. Ao observar as crises da Ásia em 1997, da Argentina e dos Estados Unidos em 2001, e do mundo em 2008 e enxergar semelhanças com a crise de 1929, este economista passou a defender que a economia mundial foi mais estável durante a era keynesiana, no imediato pós-Segunda Guerra Mundial. Todas essas ideias foram apresentadas no famoso livro The Return of Depression Economics and the Crisis of 2008 (2008) [lançado no Brasil como A Crise de 2008 e a Economia da Depressão]. Em seu blog no New York Times, Krugman é grande defensor de políticas fiscal e monetária ativistas para tirar economias da recessão, e grande crítico das políticas de austeridade praticadas por países europeus depois de 2008. Krugman também é um grande crítico da guinada à direita que os Estados Unidos deram a partir da eleição de Ronald Reagan em 1980. Estas mudanças incluem a redução do imposto de renda para os ricos, a redução do valor real do salário mínimo, o aumento explosivo dos salários dos CEOs, o enfraquecimento dos sindicatos, a desregulamentação do sistema financeiro. A obra The Conscience of a Liberal (2007) [lançado no Brasil como A Consciência de um Liberal] mostra as causas desta guinada à direita, e as consequências, que incluem brutal elevação da concentração de renda.

15 Yánis Varoufákis (1961–)

Yánis Varoufákis (1961–)

O economista grego Yánis Varoufákis foi Ministro das Finanças do governo de seu país durante o governo Syriza, de esquerda, no primeiro semestre de 2015. Se demitiu, quando, discordando do primeiro-ministro Tsipras, não aceitou as condições impostas pela União Europeia para a renegociação da dívida.

Antes desta atuação na política, teve uma longa carreira acadêmica. Lecionou em Essex, em Cambridge, em Sydney, em Atenas e em Austin (Varoufakis, 2018). Seus primeiros trabalhos acadêmicos foram sobre a Teoria dos Jogos. A partir de 2010, passou a escrever sobre a crise econômica mundial e a crise econômica europeia. A obras que se destacam são O Minotauro Global (2011) e A Modest Proposal for Resolving the Eurozone Crisis (2013). Na primeira, é discutida a origem da crise de 2008, que começa com mudanças na economia norte-americana e na economia mundial a partir da década de 1970. Na segunda, são propostas alternativas para resolver a crise do Euro, sem passar pelos cruéis programas de austeridade impostos para os países da periferia da União Europeia.

Depois de ter deixado o Ministério das Finanças da Grécia, Varoufákis foi um dos criadores do Democracy in Europe Movement 2025, um movimento pan-europeu, apoiado por proeminentes intelectuais, que tem como objetivo reformar a União Europeia.

16 Thomas Piketty (1971–)

Thomas Piketty (1971–)

O economista francês Thomas Piketty foi grande responsável por colocar novamente a desigualdade de renda e riqueza como uma questão política importante, levando este debate até mesmo para fora de círculos intelectuais de esquerda. Piketty é bem recebido por muitos periódicos de economia e negócios, mesmo tendo posições políticas mais voltadas para a esquerda.

Diferente de outros estudiosos de desigualdade, que utilizam dados do censo, Piketty utiliza dados do imposto de renda dos países que ele estuda. Países como França, Estados Unidos e Reino Unido, que armazenam dados muito antigos do imposto de renda, têm longas séries históricas sobre desigualdade. Mesmo quem não concorda com todas as ideias do economista francês pode considerá-lo útil por causa dos dados que ele disponibiliza em seus trabalhos.

Na sua mais conhecida obra, O Capital no Século XXI (2013), Piketty demonstrou que a desigualdade nos países desenvolvidos, mais notadamente nos países de língua inglesa, fez uma curva com formato de U ao longo do século XX. Caiu depois das duas guerras mundiais e da Grande Depressão e voltou a subir a partir de 1980. O economista francês considera que a desigualdade de renda e riqueza tende a elevar quando a taxa de retorno do capital é superior à taxa de crescimento do produto. Propõe um imposto global sobre grandes fortunas e o retorno das alíquotas elevadas de imposto de renda para os muito ricos. Piketty aceita que empreendedores bem sucedidos sejam mais ricos que o conjunto da população, mas não que seus trinetos também sejam. Ele concorda que a desigualdade em patamar moderado é útil para a sociedade por premiar o esforço, mas considera que acima de determinado patamar a desigualdade já não tem qualquer efeito benéfico para a sociedade, e que a desigualdade que vemos atualmente é superior ao patamar aceitável.

Piketty já lecionou na Paris School of Economics e atualmente leciona na London School of Economics. É conselheiro de vários partidos de esquerda na Europa.

Observações finais

Em vários economistas presentes nesta lista, verifica-se a influência das ideias de John Maynard Keynes. Portanto, alguns leitores poderiam perguntar: e o Keynes? Por que ele não se encontra nesta lista? Porque, por autodeclaração, ele não pode ser considerado um pensador de esquerda. Seu posicionamento no espectro político está no centro. Keynes dizia abertamente que não gostava do Partido Trabalhista, nem do Partido Conservador. Preferia o Partido Liberal, que era um meio termo entre os dois maiores partidos britânicos (Fonseca, 2010).

Outros leitores poderiam perguntar: e o Ha-Joon Chang? De acordo com sua própria declaração, o economista coreano seria considerado de esquerda no Reino Unido, mas de direita na Coreia do Sul, pois suas ideias sobre desenvolvimento com intervenção do Estado estão muito associadas com o regime militar. Seu clássico Chutando a Escada (2002) diz que os países desenvolvidos só adotaram o livre comércio, o livre fluxo de investimento estrangeiro e o respeito à propriedade intelectual depois que se tornaram desenvolvidos, mas também diz que esses mesmos países só adotaram a democracia e o Estado de Bem-Estar Social depois que se tornaram desenvolvidos.

Os pais da Microeconomia Neoclássica, Leon Walras e Alfred Marshall, embora não tenham sido de esquerda, também não podem ser considerados de direita. Leon Walras defendia a coletivização da propriedade da terra. Alfred Marshall era bastante preocupado com a elevada desigualdade de renda de sua época.

Se verificar a história do pensamento econômico, é possível perceber que existiram grandes economistas de direita, mas também existiram grandes economistas de esquerda, assim como também existiram grandes economistas de centro e grandes economistas sem posicionamento político.

Alguns defensores da ideia de que um economista precisa ser conservador para poder ser considerado sério, ao lerem esta lista, diriam que os únicos respeitáveis da lista foram Joseph Stiglitz e Paul Krugman, que eram “economistas sérios” antes de entrarem no “esquerdismo” com idade já avançada. A ideia de que economista precisa ser conservador para ser sério poderia ser válida se houvesse alguns critérios objetivos para definir o que é sério e que não é, e por que apenas os conservadores preencheriam esse critério. Mas não é isto que ocorre. Quem diz que economista precisa ser conservador para ser sério pensa assim porque já estabeleceu como critério que o que define seriedade é o conservadorismo. É uma lógica muito parecida com “minha noiva nunca se atrasa, porque caso ela se atrase, não será mais minha noiva”, ou seja, não tem sentido algum.

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