Fetichismo da mercadoria não é ostentação; saiba o real significado

Não, o fetichismo da mercadoria não tem absolutamente nada a ver com status, consumismo, adoração por marcas ou mercadorias. O fetichismo da mercadoria é uma crítica do nosso modo de produção, não do consumo.

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“Fetichismo da mercadoria” é uma crítica da produção, não do consumo

Quantas vezes ouvimos dizer que a crítica do “fetichismo da mercadoria”, segundo Marx, seria uma crítica romântica voltada contra a posse de objetos ou o consumo ostentatório, escondendo um desejo de retorno a um mundo artesanal, pré-industrial, de tipo comunitário?

Ora, nem os ditos marxistas costumam entender bem o que Marx pretendeu com esse conceito. Certamente não foi uma crítica do consumismo, que na sua época nem mesmo existia como padrão cultural. Então o que é o fetichismo?

Não, o fetichismo da mercadoria não tem absolutamente nada a ver com status, ou com consumismo, adoração por marcas ou mercadorias, muito menos com moda, luxo, ostentação material ou de alta cultura. Ao contrário, o fetichismo apontado por Marx vai numa direção totalmente oposta: aponta para o que há de mais rude, bárbaro e arcaico em nosso modo de produção e de socialização através de objetos “enfeitiçados”, portadores de “valor”, como a mercadoria e o dinheiro.



Arcaísmo moderno: fetichismo da mercadoria e fetichismo religioso

O conceito parte de uma analogia entre a economia mercantil e os fenômenos da alienação religiosa: em ambos os casos um produto humano torna-se uma entidade autônoma, “metafísica”, com poderes reais sobre a sociedade que a criou. O “fetichismo” é, em primeiro lugar, a aparência objetiva de que o valor de um objeto socialmente produzido é uma “propriedade natural” e portanto “eterna” desse objeto. O dinheiro é sua expressão mais ofuscante. Como na mente do Tio Patinhas, o ouro ou a moeda parecem ser um meio “mágico”, que tem valor por si próprio e surge não se sabe bem de onde.

Na verdade, essa coisa – a mercadoria, o dinheiro – apenas corporifica e expressa um valor econômico, que por sua vez nada mais é que cristalização de uma média de tempo de trabalho social ditada pela concorrência. Logo, o valor apenas expressa uma relação social invisível e abstrata dentro do sistema capitalista, assim como um talismã ou qualquer objeto “mágico” para uma tribo dita “primitiva” corporifica e expressa forças míticas ocultas num certo contexto social e cultural. Há assim algo de “primitivo” na sociedade moderna: lá como cá, projetamos nossas relações sociais abstratas em objetos concretos, que se tornam meios inconscientes e obscuros de nossa socialização e parecem então dotados de vida própria, como que produzindo até mesmo relações entre si. Se conforme o imaginário religioso as forças divinas interagem entre si, as forças “divinas” do Mercado também interagem chocando-se entre si, independentes do controle social consciente.

Assim, por exemplo, os preços se movimentam como que por si mesmos nas bolsas de valores, destruindo qualquer relação racional entre a produção e as verdadeiras demandas sociais: por exemplo, há mais capital investido na produção de armas ou automóveis do que na produção sustentável de alimentos, habitação, saúde e educação para todos. E assim surgem crises e colapsos econômicos e socioambientais irrefreáveis, porque a sociedade humana não organiza diretamente, na prática, de maneira consciente e dialógica, sua própria produção social. As forças produtivas, regidas pela lógica do valor e do mercado, tornam-se forças alienadas incontroláveis até mesmo para a dita classe dominante.

Estamos no altar de uma inversão de papeis: os objetos da produção (a mercadoria e o dinheiro, que servem à valorização do Capital) ganham vida própria e tornam-se um “sujeito automático” (Marx), enquanto o seu sujeito ou agente mais efetivo (a classe trabalhadora) torna-se um objeto do processo. Tais forças produtivas fetichizadas, tornadas meios de produção do Capital, aparecem então como um verdadeiro “deus” imprevisível, que exige sacrifícios diários de simplesmente todos os membros da sociedade. Tais são os fenômenos “religiosos” da alienação moderna analisada por Marx.

Poderíamos parar por aqui. O fetichismo da forma-mercadoria é essencialmente isto. O rigor desse diagnóstico e as várias consequências dessa análise podem ser conferidos no restante do texto.

Metafísica imaginária e “Metafísica” real

Apesar da analogia, há uma diferença de grau entre os dois fetichismos. Pois se no mundo tradicional o imaginário mítico-religioso apenas oculta relações materiais reais (a lança “enfeitiçada” mata um animal de caça não exatamente pela magia em si, mas por uma relação física entre coisas físicas, como se sabe), para nós modernos as relações sociais materiais ganham a forma de uma fantasmagoria real que aliena, persegue e coage os homens como se fossem verdadeiramente forças metafísicas abstratas. Eis o que faz dos ideais modernos de liberdade e igualdade meras ficções mentirosas, ou ideologias de classe, principalmente vividas imaginariamente por certas classes, apenas porque podem carregar o poder do fetiche do dinheiro “no bolso”.

O nosso fetichismo não é uma simples ilusão ideológica, imaginária, subjetiva que desapareça com uma “conscientização”. Ele é uma ilusão real. Ele atinge todas as classes, e não depende da vontade moral ou consciente executá-lo ou não. Por trás do fetiche não temos “na verdade” simples relações sociais diretas entre as pessoas ou as classes, mas relações impessoais, coisificadas, dominadas pelo Sistema abstrato do Capital, que subjuga a consciência e a ação de todos. O poder social foi transferido para esse sistema de relações capitalistas como um todo, não para uma classe capitalista ou para um Estado particular qualquer, que apenas podem deter partes do dinheiro e dos meios de produção, os quais podem ser utilizados – com mais ou menos respeito à civilidade – segundo as leis da valorização capitalista desse sistema. O “feitiço” da forma-mercadoria é apenas isto, nada mais que isto: a naturalização e eternização do valor mercantil e, com ele, de processos histórico-sociais de poder, dominação e exploração capitalista hipercomplexos que se autonomizaram e ganharam vida própria.

O ocultismo da mercadoria e do valor: o fundo material da riqueza abstrata

Determinadas classes podem até imaginar ideologicamente viverem aqui o ápice da razão, da liberdade e da humanidade. Essa linguagem liberal da mercadoria costuma contaminar, aliás, todas as classes. Por que isso ocorre? Os processos sociais alienados de dominação e exploração podem ser mais ou menos conhecidos pela consciência e a opinião pública – mas são abstraídos e apagados no momento da troca, aparecendo como trocas voluntárias, isto é, livres, justas, entre “iguais”. Daí o aspecto aparentemente “inocente” das mercadorias e das trocas: elas soterram o cheiro de porão, sangue e graxa, o lado obsceno de sua produção, pois aparecem como uma relação contratual entre proprietários de valores (dinheiro x mercadoria; capital x trabalho assalariado).

Assim, o fetichismo inverte não apenas sujeito e objeto, mas essência e aparência: o mais concreto (a mercadoria) torna-se uma simples abstração cegante, que apaga todas as pistas e conexões entre valor e sua produção; o mais difuso e abstrato (o sistema de produção do capital) torna-se o mais concreto.

É assim que fetichismo e ideologia se entrelaçam no sistema de produção moderno. A “objetividade fantasmagórica” do valor esconde uma realidade dura, complexamente mediada, resultante de relações sociais subjacentes – as relações de trabalho socialmente travadas pelo capital no processo social de produção –, relações jamais compreensíveis através do brilho imediato da mercadoria. Por isso mesmo o fetichismo da mercadoria é a forma mais simples da ilusão fetichista. Esta se amplia ainda mais na autonomização fetichista do dinheiro e do capital na modernidade.

Com isso, é fácil compreender que ambos se obscureçam sob uma aura religiosa. Daí o mistério sobre as origens da riqueza social, o ar quase sagrado portado pelos milionários e mesmo todo irracionalismo e obscurantismo propagados ideologicamente pelas classes dominantes, que chegam a crer realmente que sua fortuna é o fruto de seu “trabalho individual” em conjunção com as forças dos astros, dos deuses ou do diabo.

Na verdade, como foi demonstrado pela economia clássica e por Marx, o valor de uma mercadoria é a cristalização de tempo de trabalho socialmente necessário para a sua produção. Esse tempo social expressa-se numa média social conhecida através dos níveis de produtividade do trabalho global. Mesmo a economia neoclássica, com sua teoria do valor subjetiva, tem de calcular preços objetivamente em termos de custos de produção e níveis de produtividade do tempo de trabalho.

O tempo abstrato de trabalho se impõe socialmente através da concorrência mundial, do entrechoque cego e coisificado entre todos os agentes do mercado. Onde está o fetiche, aqui? Está nessa origem misteriosa do valor, não apenas como grandeza quantitativa representada pelas mercadorias (só realizável no ato da troca do mercado, parecendo por isso meramente subjetiva, isto é, dependente dos interesses do momento, como um preço variável conforme a lei da oferta e da procura), mas na própria forma do valor, reproduzida pela sociedade “livre” de maneira coercitiva e totalmente inconsciente sobre o seu sentido e necessidade.

A “liberdade” anárquica da produção, erigida como fim em si da humanidade, levada ao extremo nas crises que paralisam toda a produção social, é o resultado de seu contrário: da ditadura dos regimes fabris e empresariais em geral, voltados para a produção de riqueza abstrata na forma de lucros, ou seja, de mais-valor, mais-trabalho e mais-dinheiro. As necessidades sociais reais – por exemplo, a redução da jornada de trabalho a um mínimo, o atendimento das necessidades básicas da humanidade, a redução de impactos ambientais globais – ficam totalmente em segundo plano.

As relações fantasmagóricas entre as coisas e a dialética de uma sociedade antissocial

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Por tradição e costume, o valor-trabalho se naturaliza – com dignas exceções, é verdade: as relações no seio da família e de grupos comunitários, as relações políticas, as relações em movimentos genuinamente sociais, independentes de qualquer laço mercantil e monetário entre seus membros. Daí o ódio dos que possuem poder econômico a relações não-coisificadas, principalmente as relações políticas e culturais, que colocam o valor e seu regime repressivo em questão.

Contudo, para eles, as exceções confirmariam a sua regra fundamental eterna. Assim, na aparência, para termos acesso à riqueza material teríamos que primordialmente nos relacionar para sempre através da troca de mercadorias, como eternos proprietários/produtores de valores que “somos”, o que faz parecer realmente que toda relação social só possa se dar como uma relação objetiva entre os nossos produtos do trabalho. Ou seja, a sociabilidade tende a aparecer eternamente travestida, como diz Marx, pela “forma fantasmagórica de uma relação entre coisas”. Como se todas as sociedades anteriores ao capitalismo só pudessem organizar a sua vida através da compra e venda, e não por relações pessoais abertas e diretas, baseadas em valores simbólicos variados (e portanto não totalitários como a forma-mercadoria).

O etnocentrismo do valor moderno aparece não só como “pura natureza“, mas como o “fim da história“. Bilhões de espoliados e estropiados pelo mundo do Capital são calados à força, pois não têm mais valor para o mercado, muito menos o direito de mudar a História. Aos que resistem, o capital trata com suas forças auxiliares diretas: o Estado e a polícia. Eles garantem a eternidade do fetiche do Capital.

Entretanto, o feitiço da mercadoria age sempre contra seus feiticeiros, que nunca souberam a receita nem a razão de seu próprio feitiço: a lei do valor se impõe contra seus próprios proprietários/produtores, há muito despossuídos do controle da sua própria vida. Do campesinato ao proletariado urbano-industrial, passando pelos setores terciários da reprodução social, o valor é a forma de mediação social objetivada, e assim é transferido de uma classe para outra, acumulando-se como patrimônio no andar de cima da pirâmide social.

Desta forma se cria uma sociedade violentamente cindida entre ricos, ricos imaginários, remediados, espoliados e excluídos. Alguns deles nutrindo mentirosamente ilusões de serem “sujeitos” da própria existência. São meros devotos do Santo Anônimo, sacerdotes do deus Mercado. O fetiche do valor portanto não tem nada a ver com utilidade, qualidade natural ou mesmo caráter técnico ostentatório de um bem. Isso ocorre por efeito da forma capitalista de produção, não pelo lado da cultura do consumo. Sua razão de ser é uma socialização econômica que perdeu a razão de ser: tornou-se irracional como uma nova forma de religião secularizada.

A forma-mercadoria só surge como meio cego de socialização de uma sociedade que se tornou antissocial: após a emergência da sociedade individualista, que expropriou os meios de produção dos trabalhadores e explodiu as comunidades tradicionais. Na moderna sociedade de proprietários atomizados, toda a relação social torna-se, assim, coisificada, exercendo-se através da troca comercial entre os trabalhos privados de cada um. A vida depende do trabalho útil que podemos oferecer, que no entanto, é avaliado pela concorrência no mercado. O direito à vida está sempre em “stand by”, como que suspenso. Quem não tem nada a oferecer no mercado está, assim, virtualmente excluído e morto.

O ódio dos endinheirados a tudo o que não é coisificado

Portões de Auschwitz: “o trabalho liberta”.

Por isso também, no final das contas, o fetiche da mercadoria e do capital converte-se num fetiche do trabalho, o que inclui não apenas os devotos das religiões protestantes, com seu culto da labuta e da poupança, mas virtualmente todos os movimentos: operários, socialistas, trabalhistas, nacionalistas, liberais e nazifascistas. Quando as únicas relações que interessam são as relações de interesse egoísta, estas podem ser contrabalançadas ou potencializadas por formações de sujeitos coletivos voltados para a afirmação do trabalho “justo” e “igual” para todos. Daí então o ódio, principalmente dos estratos médios, aos judeus, aos artistas, aos ciganos, aos “índios”, “quilombolas” e povos tradicionais, aos “vagabundos”, enfim, aos “comunistas” em geral: estes não trabalham, desejam o ócio, ou, como Marx, a superação do trabalho e da forma-mercadoria. 

A crise do fetiche

Entretanto, estamos diante de ilusões históricas. Pois se o mercado entra em crise, se o dinheiro ou as ações se desvalorizam, se o mercado entra em rota de colisão com limites objetivos absolutos para a sua “eterna” expansão – tais como as condições socioambientais e econômico-financeiras hoje presentes –, então elas também podem parar de fazer o seu monólogo teológico ensimesmado. É no momento da crise do capital global que o movimento contestatório, realizado pelos seres sem voz, tem as chances objetivas de virar o jogo e voltar a falar: através da luta política.

O fetiche do crédito como véu de uma crise catastrófica 

Enfim, o teorema do fetichismo critica o fato de que os homens se tornam meras mônadas de trabalho, clientes de suas próprias necessidades, apêndices da maquinaria capitalista, ou simples refugo descartável do processo produtivo vigente. Este é o lado objetivo do fetichismo capitalista.

Já, como ideologia, o fetichismo torna-se a ilusão de que a valorização das coisas e o acúmulo de capital sejam uma lei eterna do processo social, que no entanto há muito superou o trabalho individual, as condições de escassez dos bens mais fundamentais, tal como a necessidade do próprio trabalho humano em tal produção. O fetichismo desapareceria assim que os produtores se apropriassem dos meios de produção e produzissem diretamente, com economia máxima de trabalho e de recursos, aquilo que realmente precisam, sejam telefones celulares, escolas ou pés de alface, o que pressupõe a utilização das tecnologias produzidas pelo “general intelect”, o saber técnico-científico coletivamente alcançado

O privatismo da sociedade das mercadorias destrói tais possibilidades de avanço histórico, e instala definitivamente o inferno na Terra. O que hoje faz o papel de véu sagrado para esse afundamento do terreno capitalista são as políticas de crédito e de endividamento público. De 2008 para cá, por isso mesmo, a economia dita neoliberal tem como sua tarefa ideológica primordial fazer calar os que resistem à “coerção muda da concorrência”, exigindo mais sacrifícios ao Estado e aos trabalhadores, incluindo desregulamentações e privatizações selvagens. Isso inclui uma grande parte da esquerda “trabalhista”, que há muito se tornou neoliberal ou aliada de gestões do apartheid neoliberal. Por isso, não é mero acaso a fusão ideológica entre esquerda e direita nesse novo século.

A crise do capital que se acumula desde os anos 1970, gera uma economia fundada em dívidas impagáveis, ao mesmo tempo em que os custos de produção e reprodução explodem devido aos atuais níveis de produtividade alcançados, poupadores de trabalho humano (e portanto de consumidores), e por conta da queda tendencial das taxas de lucro médio. Por isso mesmo, o capital foge da produção real em direção aos mercados financeiros. A financeirização e as febres especulativas da economia são o ápice do fetichismo da mercadoria: um deus sem substância real (já que valor é nada mais que trabalho morto), que se autoinstitui através do crédito, e que hoje é pura crença em ganhos e pagamentos futuros impossíveis de alcançar. A ruína global desse Templo fetichista é iminente.

Nesse contexto de desfetichização dos deuses modernos, a política pode escapar da “jaula de aço” da burocracia e da política partidária coisificada, renascendo por todos os cantos: manifestações, greves, paralisações, ocupações, movimentos sociais de contestação, num renascimento da esquerda combativa (mas também da extrema direita etc.). Eis o que explica a mudança radical, segundo a dialética de Hegel e Marx: a passagem da substância coisificada para a condição de sujeito, sem uma entidade metafísica para ditar as regras, possivelmente livre e emancipado.

Referências

• DUARTE, Cláudio R. “A superação do trabalho em Marx – em busca do tempo não-perdido”. Sinal de menos, nº 3, 2009 (acesso em dez. 2016: <www.sinaldemenos.org>)

• GRUPO KRISIS, Manifesto contra o trabalho. São Paulo: Conrad, 2003.

• KURZ, Robert. O colapso da modernização. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

• MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política. São Paulo: Nova Cultural, 1988, Livros I e III.

• POSTONE, Moishe. Tempo, trabalho e dominação social. São Paulo: Boitempo, 2014.

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