“Fulano é pós-moderno”, mas você sabe o que isso significa?

Não, pós-moderno não é o "Social Justice Warrior" pregando lugar de fala, a esquerda não ortodoxa, ou a arte que você não entende. Para compreender isso, você precisará, antes de tudo, saber o que é modernidade e onde ela falhou.

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O Facebook é inundado diariamente por opiniões das mais inusitadas. Todos comentam sobre tudo, conhecem todos os assuntos e reagem de modo agressivo contra aqueles que discordam. Sobram opiniões e faltam argumentos. Tanto o dogmatismo quanto o relativismo são ferramentas usadas ao bel-prazer. Quando ataco, tenho certezas. Quando me defendo, sou relativista.

As adjetivações também são utilizadas sem a mínima fundamentação. Fulano é pós-moderno, sicrano é positivista. Mas será que as pessoas realmente sabem do que estão falando? Existe alguma relação entre política e verdade? Se a resposta for afirmativa, onde estaria a verdade? Se a resposta for negativa, tudo não passaria de opinião? Infelizmente a questão é um pouco mais complexa do que um simples “sim” ou “não”.

Sinto desapontá-lo logo no início, mas preciso avisá-lo, o objetivo deste texto não é responder a essas questões de modo cabal. Se, por um lado, nós não podemos viver sem algumas certezas básicas, por outro, a verdade nos aprisiona.

O niilismo leva à inação. O dogmatismo, ao abismo. É possível sair dessa aporia? Creio que sim. Ou não. Na verdade estou em dúvida. Vamos pensar juntos?

Ciência e Verdade

A passagem da Idade Média para a modernidade foi caracterizada por uma profunda crise de consciência. O período histórico conhecido como Renascimento é marcado pelo embate entre a antiga tradição medieval e a nova tradição; que estava emergindo, porém ainda não se encontrava consolidada.

O indivíduo renascentista se encontrava, portanto, profundamente dividido. Verdades que durante milênios eram vistas como inquestionáveis evaporaram em poucos anos. Essa crise existencial, que num primeiro momento provocou o retorno do ceticismo antigo, foi vertida, num segundo, em uma profunda confiança nas virtudes humanas.

Ora, se todas as certezas estavam se mostrando ilusórias, havia duas reações possíveis frente aos novos desafios: a primeira seria se refugiar no ceticismo. Colocar em dúvida a capacidade cognitiva de produzir um conhecimento objetivo da realidade.

A segunda seria olhar tais mutações de modo mais positivo, ou seja, o homem estaria finalmente se libertando das amarras de um falso paradigma intelectual. E teria a chance de construir algo novo. A obra do filósofo francês René Descartes é o maior exemplo dessa virada.

O cogito cartesiano começa com o exercício filosófico de colocar em dúvida todas as verdades que ordenavam a realidade, até chegar a uma certeza básica: “penso, logo existo”. Ou seja, mesmo que o sujeito estivesse iludido por uma realidade construída por um “anjo maligno”, ainda restaria uma certeza: nós raciocinamos.

Partindo deste “chão”, Descartes buscou desenvolver bases mais sólidas para o conhecimento objetivo do mundo. É, com efeito, dessa viragem intelectual que nasce a chamada “Revolução Científica”, que, como lembrou o historiador israelense Yuval Noah Harari, não foi uma revolução do conhecimento, mas, acima de tudo, uma revolução da ignorância.

O método científico é resultado dessa crise das certezas. Dessa revolução da ignorância. Se a natureza é regida por uma lógica causal, caberia ao cientista decifrá-la por meio de uma metodologia específica, capaz de afastar os aspectos subjetivos, e assim extrair leis regulares, verdades universais.

Se, digamos, os astros fossem mapeados, qualquer navegador poderia se localizar em qualquer ponto do oceano. O mesmo valeria em relação às correntes marinhas ou à direção do vento. Por mais que tais verdades fossem colocadas em cheque pelos empiristas, é inegável a utilidade prática que estas transformações trouxeram.

A Revolução Científica, como bem lembrou o sociólogo Michael Löwy, também foi impulsionada (e impulsionou) pelas mudanças políticas. As relações de poder na Idade Média eram sustentadas pela cosmologia religiosa do homem medieval. “Todo questionamento da ideologia estabelecida, com seus sistemas complexos de dogmas e sua explicação precisa, coerente e rigorosa da ordem fixa e imutável do universo, era, portanto, percebida como ameaça subversiva e tratada como tal” (LÖWY, p. 197). O comércio estava em expansão e, com ele, o universo mental do homem europeu. Novas técnicas precisavam ser inventadas. A dominação europeia dos outros povos está intrinsecamente imbricada com o progresso da ciência.

Tais amarras foram aos poucos sendo superadas e o Estados nacionais modernos percebendo que o conhecimento era uma poderosa maneira de dominação. O auge do racionalismo aconteceu durante o iluminismo. Immanuel Kant, o maior de todos os pensadores do período, ao responder a pergunta sobre o que seria o esclarecimento, louvava o progresso da razão humana num texto que se tornou clássico:

Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direção de outrem. Sapere aude! Tem coragem de fazer uso de teu próprio entendimento, tal é o lema do esclarecimento.

Como podemos ver, o progresso da ciência era entendido também como o caminho para a superação das amarras do misticismo. A razão libertaria o homem. Como lembrou o filósofo francês Michel Foucault, o texto de Kant é ambíguo. Em certos momento, ele dá a entender que o esclarecimento é um processo evolutivo no qual toda a humanidade estaria passando, rumo a uma era das luzes. Em outros, porém, parece que tal transformação seria individual. O sujeito que ao “ousar saber” deixaria de ser tutelado por outrem. Seja como for, o texto é profundamente otimista sobre a capacidade humana de compreender e interpretar o real.

Poderíamos dizer, inclusive, que Kant estava excessivamente entusiasmado com o esclarecimento. Século depois, os também filósofos alemães Theodor Adorno e Max Horkheimer avaliaram o esclarecimento de maneira bem distinta. Para eles, o movimento das luzes não seria um progresso constante, mas dialético, contraditório. O esclarecimento, que pretendia suplantar o pensamento místico, transforma-se igualmente num mito. “O mito converte-se em esclarecimento, e a natureza em mera objetividade. O preço que os homens pagam pelo aumento do seu poder é a alienação daquilo sobre o que exercem poder.” (Adorno e Horkheimer).

A ciência, filha do humanismo, havia se deslocado das preocupações antropocêntricas. A técnica transformara pessoas em objetos e, como tais, eram descartáveis. A evolução do conhecimento não seria acompanhada do progresso do espírito humano.

A ciência, longe de libertar, teria tornado possível as maiores catástrofes que a humanidade conheceu. A crença moderna nas virtudes humanas entrava em crise. Com a descoberta dos horrores do holocausto, ficava evidente que éramos tão bárbaros quanto nossos antepassados, porém mais poderosos. E isso era algo extremamente perigoso. É nesse período também que a capacidade de destruição atinge seu paroxismo, com o advento da bomba atômica.

A filosofia, seguindo essas transformações, passou a destacar com frequência a condição paradoxal do progresso científico. Outra filósofa alemã, Hannah Arendt, num artigo sobre a conquista do espaço, lembrava que, a despeito dos progressos técnicos, ainda éramos humanos e dependíamos de certas condições básicas para continuar vivendo. “Ao contrário, somos tentados a dizê-lo, é muito mais provável que o planeta por nós habitado se esvaia em pó em consequências de teorias que são inteiramente apartadas do mundo e dos sentidos” (Arendt).
O progresso técnico, portanto, que surgiu para emancipar o homem, acabou por se emancipar do homem. Ficando preso a um mundo em que a realidade cotidiana não fazia mais sentido. Em que as palavras perderam as suas funções.

Enfim, na segunda metade do século XX, a modernidade parecia estar esgotada. As ambiguidades estavam evidentes. Com seu meio dominado, o homem passou a olhar para o espaço, pois acreditava que o progresso não poderia parar, mesmo com o planeta dando sinais de esgotamento. Ele pensa cada vez mais distante, pensa em ampliar seu poder frente ao desconhecido. Entretanto, essa ambição não o permitia perceber que o progresso, longe de ser evolutivo, tende a confrontar-se consigo mesmo. Pois estamos presos à condição humana. Para Arendt, a expansão do domínio técnico sobre a natureza nada mais é que essa condição em diferentes disfarces. Se, para o homem, vagar pelo espaço é o seu consolo, ficar preso numa “cápsula terrestre” parecia ser o seu destino.

A Reação Pós-Moderna

O termo pós-moderno virou moda em tempos recentes. Quase todos o usam, porém sua definição é extremamente imprecisa. Autores dos mais diversos já foram em algum momento acusados de “pós-modernos”; sendo, por tal motivo, quase impossível definir esse conceito. Porém, há um tronco comum entre pensamentos tão diferentes. As ideias do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Nietzsche era um crítico do cientificismo quando este estava no auge, no século XIX. No texto “Verdade e Mentira no Sentido Extramoral”, ele descreve as ilusões cientificistas com uma bela imagem: “No desvio de algum rincão do universo inundado pelo fogo de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da história universal, mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer.” (NIETZSCHE, 2001, p. 07).

Como podemos observar, o texto é construído de modo sarcástico. A intenção é mostrar a pequenez humana frente ao universo que este imagina dominar. A verdade no sentido extramoral, portanto, sempre estaria para além das faculdades cognitivas humanas. O que seria o conhecimento, então? Nietzsche, sempre metafórico, define a verdade como uma “centelha entre duas espadas”.

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A verdade, neste caso, não é uma melhor adaptação da ideia à realidade, tampouco uma aproximação; ela não está no sujeito, como queriam os idealistas, nem no objeto, como acreditavam os realistas. Para Nietzsche, a verdade é produto do conflito, é uma forma de “acordo” entre as forças. Sua importância consiste no fato de, ao se definir o que é o verdadeiro, uma das partes estabelece um domínio sobra a outra. Ou seja, a verdade é tão somente um instrumento constitutivo das relações de sujeição e dominação, portanto uma relação de poder. Os conceitos seriam signos cuja função seria “aprisionar” a realidade numa definição imutável. O problema é que a natureza estaria em constante mutação, estando o conhecimento aquém da realidade.

Michel Foucault, outro importante filósofo, partindo dessa constatação, construiu um método de pesquisa histórica. Ora, se o conhecimento não é uma busca pela verdade, mas produto da “vontade de poder”, seu efeito não é epistemológico, mas político.

Portanto, o objetivo do método arqueológico, pensado por Foucault, não é buscar as condições de acesso à verdade, mas entender as condições sociais, históricas e culturais que permitiram a um discurso ganhar status de verdade. Nietzsche, de modo sempre provocativo, dizia que a história da ciência seria a história de uma mentira que chamamos de verdade. Situando a filosofia de Foucault nesta frase, poderíamos afirmar que seu trabalho é o de identificar os motivos pelos quais determinadas “mentiras” tornaram-se verdade ao longo do tempo.

Para Foucault, existem duas histórias da verdade. A primeira interna, epistemológica, calcada nos seus próprios mecanismos de regulação. A segunda é a externa, ou seja, das condições históricas que permitem o nascimento de um determinado tipo de saber, que ele conceituou “episteme”. A função da filosofia seria a de desconstruir tais dogmas por meio de uma crítica histórica dos mecanismos de produção das verdades. A liberdade, portanto, ao contrário de Kant, estaria no afastamento dos saberes científicos. Esse interesse pela desconstrução é uma das características mais marcantes destes autores que ficaram conhecidos como pós-modernos.

Considerações Finais

A reação pós-moderna à arrogância da modernidade trouxe alguns avanços. Abriu-se espaço para as diferenças, para a multiplicidade, para que o papel das ciências fosse repensado, saberes relegados ao silêncio foram valorizados, etc.

Entretanto, precisamos destacar, o discurso relativista precisa ser dosado. Não podemos transformá-lo num novo dogma, numa nova verdade. Caso contrário, outros problemas se apresentam. Principalmente nas ciências humanas.

Se as ciências exatas não são capazes de alcançar a verdade, como afirma Nietzsche, elas possuem uma utilidade prática claramente identificável. Um paciente não quer saber a verdade por trás das aparências da dor causada por uma doença. Ele quer ficar curado, ou melhor, ele quer se sentir curado. Se a medicação alivia apenas os sintomas e não a causa propriamente dita, não importa. Sua intenção é acordar disposto no dia seguinte e ir trabalhar. Para isso, a química, a biologia e a medicina são eficientes.

O caso das ciências humanas é mais complicado. O cientista político, o sociólogo e o historiador precisam ter clareza de até que ponto a relativização pode ser uma aliada ou não. Um exemplo: entender que culturas diferentes produzem saberes diferentes, de acordo com suas necessidades e seu universo mental, é extremamente útil para evitar os famosos etnocentrismos. Porém, justificar atos cruéis, que, diga-se, são cometidas por todas as culturas, usando o relativismo seria um erro. As ciências humanas precisam trabalhar com certos critérios éticos.

O historiador Carlo Ginzburg fez algumas observações argutas a respeito do pensamento nietzschiano e apontou de modo brilhante os limites teóricos do ceticismo:

Mas o ceticismo de Nietzsche também não era ilimitado. Após ter rejeitado como insensata a questão de saber se o mundo percebido pelo homem é mais adequado à realidade do que o mundo que o mosquito vê, Nietzsche postula tacitamente a existência de um mundo único dominado por uma luta implacável pela sobrevivência, no qual o homem mata o mosquito e o mosquito contamina o homem com a malária, matando-o. (Ginzburg, 2002, p. 37).

Mesmo considerando que todo observador parte de um referencial, que a neutralidade absoluta é uma ilusão, é preciso ter em mente que existe uma realidade objetiva para além das subjetividades. O mundo em que o homem mata o mosquito e o mosquito mata o homem, independe do sentido que ambos deem para tais atos. E é justamente essa busca pela verdade, por mais que ela seja impossível de ser alcançada, que distingue o trabalho do cientista político da mera opinião. A verdade não é algo a ser descoberto, desvelado, mas a ser buscado. É a bússola a orientar as pesquisas. Se não podemos dominá-las, devemos nos esforçar para chegarmos o mais perto possível. Mesmo sabendo que nosso trabalho nunca terá fim, pois o objeto se transforma de forma muito mais rápida que a capacidade humana de interpretá-lo.

Para Ginzburg: “o limite do relativismo é, ao mesmo tempo, cognitivo, político e moral”. O historiador também apresenta uma contradição interessante no pensamento pós-moderno:

Centenas de milhares de homens e crianças morrem em consequência de massacres, das epidemias e da fome, circundados por funcionários da ONU e vigiados por emissoras de televisão via satélite. Sob os olhos do ocidente, o mundo está, de fato, se tornando uno: um mundo no qual a homogeneidade e a diversidade cultural, subordinação e resistência se entrelaçam inextrincavelmente. Para compreender esse processo, o modelo relativista, inaugurado por Nietzsche, não ajuda muito.” (Ginzburg)

Ao mesmo tempo em que o mundo se globaliza, o comércio e a política passam a atuar em redes globais, o conhecimento se fragmenta. Muitas vezes, as causas de fome na África podem ser entendidas olhando, por exemplo, para medidas agrícolas protecionistas adotadas pela União Europeia. Ou a queda no preço do petróleo (ou o aumento), provocado por disputas políticas, pode ensejar a crise de um governo do outro lado do mundo.

É preciso ter o cuidado para não reduzir os saberes às subjetividades, pois, caso contrário, haverá “o risco de fragmentar o conhecimento (e a sociedade) numa série de pontos de vistas incomunicáveis, nos quais cada grupo se vê murado no interior da sua própria relação com o mundo” (Ginzburg, 2000, p 39).

A passagem é de uma atualidade impressionante. Sobretudo se considerarmos que ela foi escrita antes da popularização da internet. No início, a rede mundial de computadores era vista como portadora de um potencial revolucionário. Libertaria o homem do jugo dos meios de comunicação. A informação seria plural, o conhecimento estaria ao alcance de todos. O que se viu, no entanto, foi algo contraditório. A informação descontrolada, e financiada por grupos de interesses, borrou as fronteiras entre o real e a ficção. Notícias falsas “viralizam” com uma facilidade impressionante. A verdade é à la carte. Como existe informação sobre praticamente tudo, eu escolho aquilo em que vou acreditar e que, por coincidência, reforça o que eu já sabia. Fatos são detalhes. Na rede, o real é o que eu acredito. Como disse o escritor italiano Umberto Eco, a internet deu voz aos idiotas. E eles se multiplicam, presos numa bolha que ecoa apenas a sua consciência. “O grande isolamento é cercar-se daqueles que pensam igual a você.” (Hannah Arendt).

A fabricação de uma realidade virtual, portanto, levou ao paroxismo esse perigo do conhecimento perder aderência ao real. A tarefa de separar conhecimento de opinião é, mais do que nunca, urgente.

Para Ginzburg, o conhecimento também não foi democratizado. Muito pelo contrário. A internet proporciona possibilidades infinitas de pesquisa. Porém, para aproveitar tais ferramentas é preciso um amplo conhecimento prévio. Um historiador, por exemplo, pode pesquisar com precisão e rapidez sobre a Roma Antiga estando no Brasil. Um economista pode ter acesso a estatísticas econômicas sobre um vilarejo perdido na Savana Africana. Porém, caso o primeiro não conheça a História Romana e os métodos de pesquisa historiográficos, de nada adiantaria o Google. O mesmo vale para o segundo exemplo. A informação em rede, portanto, não democratiza o conhecimento, ela aumenta as diferenças.

Um mundo murado por realidades incomunicáveis certamente não será um lugar melhor que um regido por verdades absolutas.

A filosofia recente, inclusive Derridá, ajuda-nos a ver práticas e as ideias como não sendo naturais nem inevitáveis — mas isso é tudo o que ela faz. Depois que a filosofia termina de mostrar que tudo é constructo social, ela não nos ajuda a diferenciar quais constructos sociais substituir e quais preservar (Richard Rorty, 2013, p. 227).

A filosofia da desconstrução deu um enorme passo na odisseia humana de compreensão da realidade. Se ela não se propôs a explicar o mundo, ou a propor soluções, ajudou na percepção da complexidade do real. Permitiu a valorização da multiplicidade, algo extremamente benéfico para a conformação de uma sociedade mais tolerante. Uma sociedade que dá voz aos negros, aos “loucos” e às mulheres; grupos que historicamente não eram ouvidos.

Porém, não podemos nos contentar em somente descontrair os saberes. Como Foucault afirmou, seu pensamento deveria ser encarado como uma caixa de ferramentas. Numa caixa de ferramentas encontram-se martelos, mas há também chaves de fenda e parafusos; ou seja, os instrumentos necessários para a fabricação de algo novo. Foucault acreditava na força criativa do homem. Por isso, ele se voltou contra os dogmas que engessavam tais potências.

No século XIX, o homem acreditava ser possível a razão espelhar o mundo tal como ela é. No século XX, pelo contrário, passou-se a crer na total impossibilidade de acesso a este mesmo real. Como lembrou Ginzburg, cabe ao nosso século resgatar o valor do conhecimento sem o dogmatismo e a ingenuidade do passado.

Nosso espelho é deformado, mas ainda possui contato com o mundo exterior, mesmo que precário. Os pós-modernos desempenharam uma função análoga à de Descartes, de colocar em dúvida as verdades, mas pararam por aí. O mundo social está sempre em mutação, não podemos nos contentar em apenas desconstruí-lo. Pensar essas questões é a tarefa primordial das ciências sociais. Não precisamos de uma verdade extramoral, mas de uma moral capaz de pensar verdades mais humanas.

Referências

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GINZBURG, Carlos. Relações de Força: história, retórica, prova. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
NIETZSCHE, F. W. Sobre verdades e mentiras no sentido extra-moral (Obras incompletas). Tradução e notas de Rubens Rodrigues Torres Filho. São Paulo: Abril Cultural, 1983.
KANT, Immanuel. Resposta à pergunta: Que é esclarecimento? Textos Seletos. Tradução Floriano de Sousa Fernandes. 3 ed. Editora Vozes: Petrópolis, RJ. 2005.

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