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Culpar socialistas pela queda do Império Romano é anacronismo grosseiro

Jornal conservador revive interpretação positivista da queda do Império Romano já ultrapassada pela historiografia e cai no anacronismo.

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Há alguns dias, um artigo publicado no jornal conservador Gazeta do Povo, intitulado “Como o socialismo imperial arrasou o Império Romano e levou ao feudalismo”, causou espanto entre historiadores, especialmente aqueles dedicados ao estudo da Antiguidade.

Com uma chamada que afirmava a existência de um “socialismo imperial” na Roma Antiga, reproduzia um trecho da obra de Will Durant, História da Civilização, escrita há mais de 70 anos, em um momento em que muitos achados arqueológicos que iluminaram o entendimento sobre as sociedades clássicas — Grécia e Roma — ainda não tinham vindo a público e quando nos EUA — país de produção dos livros — imperava uma escrita da História de viés positivista.

Entendamos, então, os motivos segundo os quais a visão de Durant (e, portanto, do jornal) sobre a economia antiga e a transição entre o Império Romano e o Medievo não é mais aceita pelos especialistas e por que a publicação do trecho da obra dos Durant é falaciosa.

A origem da falácia “socialismo imperial que destruiu o império romano”

Curso do Império — Destruição, de Thomas Cole.

William “Will” J. Durant (1885–1981) foi um importante intelectual público dos Estados Unidos. Foi crítico da intolerância étnica vivenciada nos anos 1930–40, escreveu sobre o Irã, defendeu a independência da Índia contra os abusos do imperialismo britânico. Doutor em Filosofia pela Universidade de Colúmbia, foi jornalista e professor. É lembrado por duas grandes obras: a primeira foi História da Filosofia, livro publicado em 1926, focado na apresentação das ideias de alguns filósofos ocidentais, de Sócrates a John Dewey, de quem foi aluno. A segunda foi elaborada juntamente com sua esposa, Chaya (Ida) “Ariel” Durant (1898–1981). História da Civilização é a grande obra dos Durant, um compêndio sobre história mundial em 11 volumes, publicada entre 1935–1975 e inspirada em An Introduction to the History of Civilization, do britânico Henry Thomas Buckle, também uma coleção sobre História Geral. Ariel só recebe os créditos por seu trabalho a partir do sétimo livro da série.

A virada entre os séculos XIX–XX foi rica na elaboração de compêndios de História Mundial. Isso tem conexão com a afirmação da História como disciplina nos meios universitários, impulsionada pelos crescentes movimentos nacionalistas europeus, especialmente o francês e o alemão. A partir de meados do século XIX buscou-se a aplicação de técnicas rigorosas na análise da documentação: desejava-se uma objetividade que trouxesse aos estudos históricos um rigor científico e o reconhecimento dos mesmos como uma ciência. Pululam, então, manuais escolares que, em sua maioria, interpretavam os acontecimentos históricos das diversas sociedades como estágios em seu desenvolvimento civilizacional inspirados pelo evolucionismo das ciências biológicas, o que hoje não é mais aceito pelos historiadores. Assim, a história de sociedades como Grécia e Roma era tida como um primeiro passo no processo civilizatório ocidental, o que é ainda advogado por grupos conservadores, que tendem a negar a pluralidade dessas sociedades e a inspiração que outros povos próximos deram à sua cultura, política e economia. A noção de História contida nesses manuais e compêndios muitas vezes buscava justificar a dominação sobre os povos e territórios da Ásia e da África durante o século XIX como meio de levar “civilização” a essas partes do globo. Não era o caso de História da Civilização.

Tendo como foco o público geral, a coleção logo se tornou um grande sucesso e os autores ganharam o prêmio Pulitzer de Não-Ficção em 1968 pelo décimo volume do compêndio, cujo tema é Iluminismo e Revolução Francesa. A História da Civilização tinha como mote levar ao público não especializado conhecimento sobre o desenvolvimento das grandes sociedades europeias não apenas por viés político, como era de praxe nos manuais da época, mas também abordando seus traços culturais.

Por fim, devido ao escopo da obra, acabaram por escrever uma análise que dependia e utilizava largamente as conclusões de outros historiadores, estes sim especialistas em suas respectivas temporalidades, uma vez que não é possível dar conta de pesquisar todos os períodos históricos. Tratou-se, portanto, de uma “história de segunda mão”, que sintetizava as visões dos historiadores famosos da época.

Mesmo defendendo que Grécia e Roma eram devedoras das trocas com o Oriente no primeiro volume da História da Civilização, as ideias nas quais se basearam para explicar a economia e a política antigas eram, principalmente, as de Mikhail Rostovtzeff (1870–1952), classicista nascido na Rússia e que emigrara para os EUA na década de 1920, vindo a se tornar uma grande referência para a História Antiga feita neste país durante os anos 1920–1950. É interessante perceber que — mesmo defendendo várias pautas progressistas para a época, como descolonização, voto feminino, equidade salarial, direitos para o operariado americano, e tendo flertado com ideais socialistas, além de terem participado da Escola Moderna (de princípios anarquistas) —, os Durant muitas vezes fizeram uso de autores que não compartilhavam de suas visões, mas que eram famosos em sua época nos EUA, como Rostovtzeff.

Fiel a uma visão da escrita da história chamada de metódica ou positivista, Rostovtzeff entendia a História como um fazer literário que devia tratar das grandes narrativas e grandes feitos: sua preocupação estava na formação e queda dos impérios ateniense e romano.

Acreditando ser a tarefa do historiador investigar e descobrir as leis que regem as sociedades humanas; para ele, sociedades antigas passariam por processos semelhantes aos da Europa Ocidental da virada dos séculos XIX e XX. A diferença entre o que ele via como um capitalismo antigo e o de seu tempo seria em termos de quantidade, não de qualidade: para ele, a economia antiga tinha livre comércio e iniciativa pessoal, ignorando em sua análise diversos aspectos das economias capitalistas contemporâneas, como especulação e a existência de salários mínimos.

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Rostovtzeff via a democracia ateniense como equivalente ao socialismo soviético, podando a livre iniciativa da “burguesia”. O Império Romano teria também se tornado muito parecido com a Rússia pré-Revolução: no século III de nossa era, segundo o entendimento de Rostovtzeff reproduzido na obra de Durant, teria havido uma aliança entre camponeses e militares. Os imperadores da Roma tardia, oriundos nessa época de setores do exército, teriam estrangulado a “livre iniciativa” econômica ao controlar preços e distribuir alimento à população. A interpretação desse historiador sobre o declínio do Império Romano relega a segundo plano até as tensões provocadas pelas invasões bárbaras.

Logo, Rostovtzeff se encaixa no que os historiadores chamam de corrente modernista, aplicando noções de seu tempo (burguesia, capitalismo, etc.) às sociedades que tinham uma lógica comercial bastante diferente do capitalismo da transição entre os séculos XIX e XX.

O erro de observar o passado com a visão do presente

Como bem colocou G.W. Bowersock em 1974, “hoje não há, provavelmente, nenhum historiador respeitável que aceite as teses básicas do livro de Rostovtzeff”. Não era o que ocorria quando os Durant, na década de 1940, escreveram o volume sobre a história de Roma. Hoje entende-se, conforme lembra Pierre Grimal, que as ações de Aureliano e Diocleciano ampliaram a sobrevida do Império. O que vai contra ao argumento presente nos trabalhos de Rostovtzeff, que serviram de base para a História da Civilização de Durant.

As discussões entre as duas correntes clássicas sobre a economia antiga, chamadas pelos especialistas como “Debate do Oikos”, tiveram início em 20 abril de 1895 em Berlim, no Terceiro Congresso de Historiadores Alemães. Eduard Meyer, que se tornou um dos principais defensores do que ficaria conhecido como a “visão modernista”, se opôs às visões do economista Karl Bücher, entendido como principal nome do que viria a ser conhecido como “corrente primitivista”. A “Economia do Oikos”, formulada pelo último, defendia que, na Antiguidade, a casa/oikos (no sentido de household, em inglês), não era apenas um local para habitar, mas consistia na agregação de homens de forma a constituir uma comunidade econômica.

Conforme esclarecem Michel Austin e Pierre Vidal-Naquet, Bücher se inspirou nas ideias de Karl Rodbertus e formulou três estágios evolucionistas pelos quais a história econômica da humanidade teria passado: Economia doméstica fechada, Economia Urbana e Economia Nacional, cada um deles correspondendo à Antiguidade, ao Medievo e o último configuraria a economia capitalista. Na visão de Bücher, as sociedades antigas não possuíam sistema de trocas. O oikos (casa) seria uma unidade autônoma, produziria tudo o que ele mesmo consumisse. Assim sendo, caracterizar-se-ia o primitivismo da economia antiga, pois produção e consumo se dão no mesmo âmbito, a circulação econômica ocorreria dentro da casa — daí o nome que identificou os adeptos dessa corrente: primitivistas.

Eduard Meyer se opôs de forma contundente às noções de Bücher, aplicando conceitos e terminologias da economia capitalista de fins do século XIX às sociedades clássicas, tais como indústria, classe e status. Em sua análise, o que muda da economia antiga para contemporânea é a escala: o comércio e a indústria ocorriam em menor escala na Antiguidade pois a população era em número menor. Os autores que defendiam essa linha de interpretação da economia antiga (incluindo Rostovtzeff) ficaram conhecidos como modernistas justamente por transportarem noções de seu tempo para sociedades da Antiguidade.

O tempo acirrou os debates entre as duas correntes e, por fim, a posição modernista prevaleceu entre os historiadores até meados do século XX, pois essa fazia um melhor uso das fontes escritas. Como principal erro de ambas as teorias, Pierre Vidal-Naquet e Michel Austin apontam a crença numa evolução econômica unilinear, enquanto a discussão sobre a validade do uso de categorias modernas nem sequer entrou em pauta, o que hoje é visto como anacronismo. Neste sentido, a contribuição de Max Weber para o estudo da economia das cidades antigas foi fundamental, pois mudou o foco do debate: a questão não era mais dos estágios de evolução econômica, mas sim a articulação entre economia e política.

Dentre as interpretações sobre a economia antiga que se seguiram, desconstruindo os argumentos das posições anteriores, temos Moses Finley, que adotou a noção de “cidade antiga” como um tipo ideal, concordando com a ideia weberiana da cidade antiga grega e romana como centros não produtores, mas consumidores. Karl Polanyi também contribuiu largamente para a área, defendendo que um mercado regido por autorregulação era algo recente na história humana, não existindo na Antiguidade.

Conclusão

Assim sendo, ao reproduzir o trecho da obra dos Durant em que atribui ao controle imperial da economia as motivações para a queda do Império Romano, cuja origem está nos trabalhos de Mikhail Rostovtzeff, chamando-a mesmo de um “socialismo imperial”, o jornal conservador Gazeta do Povo não é apenas anacrônico, como ignora mais de 70 anos de pesquisas e debates na área que mostram que a desestruturação do império romano do Ocidente foi um processo multifacetado, com razões não apenas econômicas, mas também políticas e culturais.

Trata-se, portanto, de uma manipulação do passado para interesses do presente, pois não analisa a economia romana sob sua própria lógica, mas sim procura projetar no passado ideias que corroborem suas crenças contemporâneas. Ao reproduzir as convicções de Rostovtzeff para a queda do Império Romano, a História da Civilização acabou por ver na Roma Antiga a Rússia do início do século XX.

Referências

AUSTIN, M. & VIDAL-NAQUET, P. Economia e Sociedade na Grécia Antiga. Lisboa: Edições 70, 1986.

BOURDÉ, G. & MARTIN, H. As Escolas Históricas. Mem Martins: Publicações Europa-América, 2012.

BOWERSOCK, G.W. The Social and Economic History of the Roman Empire by Michael Ivanovitch Rostovtzef. Daedalus, 103, n.1, 1974, p.15-23.

CARVALHO, Alexandre Galvão. A Economia Antiga: História e Historiografia. Vitória da Conquista: Uesb, 2011.

DURANT, W. A História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 1996.

DURANT, W. Story of Civilization: Our Oriental Heritage. Nova York: Simon & Shustler, 1935.

DURANT, W. Story of Civilization: The Life of Greece. Nova York: Simon & Shustler, 1939.

DURANT, W. Story of Civilization: Caesar and Christ. Nova York: Simon & Shustler, 1944.

GRIMAL, P. História de Roma. São Paulo: Unesp, 2011.

REINHOLD, M. Studies in Classical History and Society. Oxford: Oxford University Press, 2002.

ROSTOVTZEFF, M. História de Roma. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977.

ROSTOVTZEFF, Mikhail. The social & economic history of the Roman Empire. Nova Iorque: Biblo & Tannen, 1926.

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