Revolução Russa: 100 anos do evento que sacudiu a geopolítica mundial

Um retrospecto da revolução socialista que deu origem à União Soviética e provocou mudanças em todo o globo, inclusive no próprio capitalismo.

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No dia 9 de abril de 1917, Vladimir Ilitch Ulianov, mais conhecido como Lenin, embarcou em um trem na cidade de Zurique, para uma viagem de oito dias com destino a Petrogrado. Essa cidade era a capital da Rússia naquele tempo. Tinha o nome de São Petersburgo, mas mudou em 1914, por aquele nome ser muito germânico. A cidade ainda seria rebatizada como Leningrado, em homenagem a Lenin, até voltar a se chamar São Petersburgo em 1991. O trem no qual viajava Lenin havia sido fornecido pelo Kaiser Wilhelm II da Alemanha. Lenin certamente não concordava com as ideias políticas do kaiser, que por sua vez certamente não concordava com as ideias políticas de Lenin. Mas, na política, a máxima do “o inimigo do meu inimigo é temporariamente meu amigo” é válida. O kaiser tinha disposição em ajudar alguém que poderia tirar a Rússia da guerra. Lenin ainda era uma voz minoritária contra a guerra. Os partidos social-democratas da Segunda Internacional decidiram apoiar seus respectivos países na guerra, ou seja, apoiar trabalhador de um país matando trabalhador de outro país, sob comando de generais oriundos das classes dominantes, subordinados a governos que representavam os interesses das classes dominantes. Mesmo na Rússia, em abril de 1917, o pacifismo revolucionário ainda não tinha adesão de parcela muito grande da população. A situação de penúria, mais as mortes provocadas pela guerra, haviam estimulado os movimentos de rua que derrubaram o tzar Nicolau II em fevereiro de 1917 (ou março, no calendário ocidental). Mas o governo provisório, formado logo depois da queda do tzar, decidiu manter a Rússia na guerra, e a troca de regime deu um ímpeto renovado à guerra. Os governos dos aliados ocidentais saudaram a revolução de fevereiro, por considerarem que a queda dos Romanov, depois de 300 anos de dinastia, facilitaria a narrativa de que a causa do combate ao kaiser alemão era a luta pela liberdade e pela democracia.

Lenin estava voltando para a Rússia depois de muitos anos no exílio. Sua vida nunca havia sido parada em um mesmo lugar. Nasceu em 1870, em Simbirsk, uma cidade bem interiorana, localizada às margens do Volga. Filho de um professor, teve cinco irmãos (três mulheres e dois homens). Entrou em atividades revolucionárias depois que seu irmão mais velho foi enforcado por ter participado de um complô contra o tzar Alexandre III. Aos 17 anos, ingressou na Universidade de Kazan, participou de círculos revolucionários e foi expulso da universidade por causa de seu radicalismo político. Depois, mudou com sua família para Samara, onde se manteve envolvido em círculos políticos revolucionários e obteve contato com a obra de Karl Marx. Em 1893, mudou-se para São Petersburgo, onde conheceu a ativista socialista e feminista Nadya Krupskaya, que passaria a ser sua companheira. Passou a se dedicar à construção de células marxistas em grandes centros urbanos da Rússia. Era crítico de movimentos socialistas não marxistas. Escreveu “O desenvolvimento do capitalismo na Rússia”. Durante a década de 1890, chegou a ser preso, exilado por um breve período na Sibéria. Em 1898, foi um dos fundadores do Partido Social Democrata Russo. Entre 1900 e 1917, residiu em Munique, Londres, Cracóvia, Genebra e Zurique. Em 1917, além de se envolver na revolução, ainda teve tempo para escrever “Imperialismo, o estágio superior do capitalismo”.

A chegada de Lenin na Estação Finlândia.

Quando o trem chegou à Estação Finlândia, em Petrogrado, Lenin fez um discurso para uma plateia de bolcheviques que o aguardavam. O discurso não foi gravado, e por isso não se sabe completamente todo o seu conteúdo, mas é conhecido que Lenin criticou o governo provisório, defendeu o fim da guerra. Os bolcheviques ainda não estavam em número muito grande naquele tempo, mas sua organização permitia feitos formidáveis. É preciso ter em mente que a tecnologia daquele tempo era bem mais precária do que a tecnologia disponível nos dias de hoje. Se Lenin tivesse vivido nos dias atuais, ele poderia ter um tablet no trem, para publicar suas teses em forma de posts no Facebook, recebendo likes, comentários e compartilhamentos (isso se o trem tivesse wi-fi). A sua chegada à estação com a consequente aglomeração de pessoas para ver o discurso poderia ser um evento de Facebook com muitos “going to”. O discurso poderia ter tido transmissão ao vivo via web, e a audiência poderia ter tirado selfies e postado imediatamente. Mas tudo isso era longe de ser realidade cem anos atrás. Todos esses progressos mencionados dependeram dos satélites artificiais, e o primeiro satélite artificial foi o Sputnik, lançado 40 anos depois. Em 1917, porém, com comunicações e transportes tão precários, a disciplina na organização era ainda mais importante.

Em abril de 1917, nem os bolcheviques mais fanáticos esperavam que tomariam o poder, ainda no final do mesmo ano, mas o acúmulo de fracassos na guerra contra a Alemanha, somado com o prosseguimento da deterioração dos padrões de vida da população, criou gradualmente um clima favorável a quem propunha três coisas muito simples: paz, terra e pão.

Uma pergunta inevitável é: como foi possível que um país com cem milhões de camponeses e apenas três milhões de operários tenha sido o lar da primeira revolução operária do mundo? Para responder esta pergunta, é importante retroceder ao século XIX.

Porém, antes de prosseguirmos, também aconselhamos a leitura do artigo A esquerda não precisa defender eternamente Stalin: resposta ao PCO como complemento.


A Revolução de Outubro e o surgimento da URSS

Soldados da Revolução, de Vladimir Kholuyev (1964).

O Império Russo no século XIX era gigante em termos de território. Era maior não apenas do que a Federação Russa dos dias atuais, como também maior do que a União Soviética. Incluía até mesmo parte das terras que hoje fazem parte da Polônia e da Finlândia. Na virada do século XIX para o século XX, o Império Russo tinha aproximadamente 125 milhões de habitantes. A esmagadora maioria destes habitantes era composta por camponeses, muito pobres. Havia uma quantidade grande de nacionalidades, idiomas e religiões dentro do império, mas a Igreja Católica Ortodoxa era a religião oficial. Até 1905, o império era uma autocracia. Até 1861, existia servidão. A Rússia era um centro de conservadorismo dentro da Europa. Havia uma disputa entre os defensores de maior ocidentalização e defensores da preservação das tradições russas. Havia alternância entre tzares mais modernizantes e tzares mais retrógrados. A Rússia passou por um processo de industrialização e crescimento econômico da metade do século XIX até as vésperas da Primeira Guerra Mundial. Contou com muito investimento francês. Ainda assim, continuava um país rural e mais pobre do que os países da Europa Ocidental.

A cultura da Rússia imperial não era pobre. Afinal, era o país de Fiodor Dostoievski, Leon Tolstoy, Alexander Pushkin, Ivan Goncharov, Piotr Tchaikovsky, Igor Stravinski, Rimsky-Korsakov, Ivan Shishkin, Dmitri Mendeleiev. É óbvio que em um país de 120 milhões de habitantes, expoentes das artes, da filosofia e das ciências apareceriam. Havia uma vida cosmopolita nas cidades de Moscou e São Petersburgo. Esta vida cosmopolita permitiu inclusive o surgimento de pessoas como Lenin. Contudo, para a grande maioria da população, camponesa e rural, a vida era de muita pobreza e pouca instrução. Não só na economia, como também na cultura; a Rússia vivia um “desenvolvimento desigual e combinado”.

Marx considerava por muito tempo que a revolução socialista só poderia ocorrer onde as forças produtivas capitalistas estivessem plenamente desenvolvidas. Não era o caso da Rússia. Mas, na Rússia, havia, já no século XIX, um movimento chamado narodnik, o qual, por considerar que o campo russo já tinha um regime de comunas agrárias, seria possível passar diretamente para o comunismo, sem a necessidade do pleno desenvolvimento do capitalismo.

Porém, no final de sua vida, em trocas de cartas com Engels e com revolucionários russos, reunidas posteriormente na publicação “Lutas de classes na Rússia”, Marx flexibilizou a ideia do etapismo. Passou a aceitar a possibilidade da Rússia não seguir caminho semelhante àquele trilhado pelos países da Europa Ocidental. Os narodniks, e Marx e Engels nas cartas, não previram como acabaria realmente acontecendo a Revolução Russa, mas flexibilizar o etapismo foi um passo importante, uma vez que as revoluções socialistas do século XX aconteceram na periferia do capitalismo.

Lenin e Trotsky não eram narodniks. Eles concordavam com a ideia marxista original de que a Rússia precisava do desenvolvimento das forças produtivas capitalistas antes de entrar no comunismo. Consideravam que a revolução poderia acontecer na Rússia antes de acontecer nos países da Europa Ocidental, mas que a consequência da revolução na Rússia não seria implantar o comunismo na Rússia, e sim detonar as revoluções na Europa Ocidental.

Em 1898, Lenin foi um dos fundadores do Partido Social Democrata Russo. Apesar do nome, o partido nada tinha a ver com o Partido Social Democrata Brasileiro atual. Naquele tempo, “social-democrata” ainda era sinônimo de marxista. O termo “social-democrata” virou pejorativo para comunistas marxistas a partir de 1914, quando cada partido social-democrata ocidental decidiu apoiar seu país na guerra, e mais especificamente com a formação da Terceira Internacional, depois da Revolução de 1917, algo que será abordado posteriormente.

Em 1903, ocorreu a cisão no Partido Social Democrata Russo entre os bolcheviques e os mencheviques. Ao contrário do que algumas pessoas pensam erroneamente, a principal divergência naquele tempo ainda não era o fato dos bolcheviques serem os “radicais” e os mencheviques serem os “moderados”. A principal divergência não estava nas ideias, mas na forma de organização. Os mencheviques aceitavam a adesão de qualquer um que fosse vagamente socialista. Os bolcheviques defendiam um partido de militantes profissionais, fiéis ao princípio do centralismo democrático, ou seja, defendia um modelo de partido em que todos que estivessem nele só falassem em público em nome do partido, e não em nome de si próprio. Lenin foi líder da facção bolchevique. Martov foi líder dos mencheviques. Inicialmente, Trotsky era menchevique.

Além das facções do Partido Social Democrata Russo, outro grupo político importante era o dos Social Revolucionários, um movimento de camponeses.

Em 19041905, ocorre a Guerra Russo-Japonesa. Por causa do desgaste provocado por esta guerra, aconteceu uma série de insurreições na Rússia ao longo de 1905. Em janeiro de 1905, ocorreu o Domingo Sangrento (não confundir com o do U2, ocorrido na Irlanda décadas depois), em que uma manifestação pacífica de trabalhadores  que não pedia a derrubada do tzar, apenas liberdade política, liberdade sindical, eleições e melhores condições de trabalho é recebida a bala por soldados do tzar, terminando em muitos mortos. Posteriormente, ocorreram motins no exército e na marinha, sendo o mais conhecido deles aquele ocorrido no Encouraçado Potemkin, retratado anos depois no famoso filme de Eisenstein. Foi em 1905 que surgiram os sovietes, que eram conselhos de trabalhadores. No final de 1905, o tzar é forçado a ceder, abre (parcialmente) a mão de seu poder autocrático e aceita a formação de um parlamento, o Duma, a realização de eleições e a existência de partidos legais.

Ao longo do século XX, muitos ditadores tinham o hábito de parecer democratas na fachada. Não era o caso de Nicolau II. Quando ele cedeu e aceitou o parlamento, ele expressou abertamente que esta não era a sua vontade. Mesmo com as mudanças de 1905, a Rússia não se tornou uma monarquia constitucional idêntica às da Europa Ocidental. O tzar ainda dissolvia parlamentos que não fossem de sua preferência. Jamais se tornou uma figura meramente decorativa.

Em 1912, ano do centenário da vitória sobre Napoleão, parecia que os momentos mais tensos de 1905 haviam ficado para trás. A Rússia parecia estar vivendo um período de prosperidade econômica. Não havia mais grandes rebeliões populares. Até que… dois anos depois, teve início uma nova guerra, muito maior que a de 1905, capaz de impulsionar revoluções muito maiores também.

Em 1914, teve início a Primeira Guerra Mundial. Não se concretizou a estrofe da letra da Internacional que diz “paz entre nós, guerra aos senhores, façamos greve de soldados, somos irmãos trabalhadores, se a raça vil cheia de galas, nos quer à força canibais, logo verá que as nossas balas, são para os nossos generais”. Os partidos social-democratas da Segunda Internacional, como o Partido Social Democrata Alemão e o Partido Trabalhista Britânico, decidiram apoiar seus respectivos países. Operários sindicalizados se alistaram nos exércitos. Os representantes destes partidos nos parlamentos não votaram contra o orçamento destinado para a guerra. Lenin pode ter ficado decepcionado com a postura desses partidos, mas também pode ter visto que o momento de seu pequeno grupo estava chegando.

Depois de dois anos e meio de guerra, o regime tzarista ficou completamente desgastado. Um movimento de operárias, no Dia Internacional da Mulher, 8 de março do calendário ocidental, foi o estopim de uma série de movimentos de rua que fizeram o Duma destituir o tzar. Foi formado um governo provisório, liderado por Lvov. O socialista moderado Alexander Kerenski, que antes era apenas um ministro, passou posteriormente a chefiar o governo.

Pouco depois, Lenin retornou da Suíça, conforme mencionado no início deste texto. Trotsky também retornou à Rússia, e aderiu aos bolcheviques. Os sovietes, depois de duramente reprimidos em 1905, voltaram a funcionar. No início, os sovietes ainda estavam mais ligados aos mencheviques e aos social-revolucionários do que aos bolcheviques. Ainda assim, uma das bandeiras de Lenin era “todo poder aos sovietes”. A outra era também muito simples de ser compreendida: “paz, terra e pão”. Paz para toda a Rússia, ou seja, fim de seu envolvimento na guerra (e se possível, extensão da revolução nos outros países beligerantes e fim da guerra), pão para os trabalhadores urbanos, algo que faltava, uma vez que o país estava em guerra, e terra para os trabalhadores rurais, ou seja, reforma agrária. Lenin enxergava que a revolução socialista deveria ser uma revolução operária, mas, por pragmatismo, compreendeu que o apoio dos camponeses era fundamental, uma vez que eles eram a esmagadora maioria da população. Por isso, se aliou aos social-revolucionários.

A reivindicação de “paz, terra e pão” passou a ganhar força à medida que a Rússia continuava acumulando fracassos na guerra, e o otimismo inicial com a revolução de fevereiro ia se dissipando. Os sovietes foram se tornando cada vez mais bolcheviques. O governo Kerensky ficou tão fraco que sofreu uma ameaça de golpe feita por Kornilov, um general monarquista. Kerensky contou com a ajuda dos bolcheviques para derrotar este golpe. Observando o vazio de poder, os bolcheviques perceberam que a hora deles havia chegado, não sendo relevante no momento a “questão da necessidade da fase capitalista”. Isso era algo a se pensar depois da tomada do poder. Uma resolução de Lenin defendendo a tomada imediata do poder foi aprovada pelo comitê central do Partido Bolchevique. Em 7 de novembro de 1917, no calendário ocidental, os bolcheviques tomaram sem resistência o Palácio de Inverno e pontos estratégicos de Petrogrado. Não houve participação de grandes multidões no movimento de tomada do poder pelos bolcheviques, nem a favor, nem contra.

Imediatamente foram estabelecidas medidas como a expropriação de grandes propriedades rurais, a expropriação de imóveis urbanos vazios, a criação de uma seguridade social, a permissão para o voto feminino, a legalização do divórcio e a legalização do aborto.

Poster “Por uma Rússia Unida”, em que o exército vermelho é retratado como um dragão e o exército branco como um cavaleiro templário.

Se a tomada do poder pelos bolcheviques foi um acontecimento relativamente pacífico, sua manutenção não foi. Dependeu de uma Guerra Civil, que durou cinco anos, e matou entre 7 e 12 milhões de pessoas, somando militares e civis. Do lado dos contrarrevolucionários, estava o Exército Branco, que uniu todas as tendências políticas anti-bolchevique, que iam de monarquistas a socialistas moderados. Do lado dos revolucionários, estava o Exército Vermelho, no qual Trotsky teve importância muito grande para a formação. Mesmo com intervenção de potências estrangeiras em favor do Exército Branco, o Exército Vermelho acabou vencedor. Fato interessante a ser observado é que uma das potências estrangeiras interventoras foram os Estados Unidos. Apesar da Guerra Fria ter durado de 1945 a 1991, e ter gerado temor de guerra nuclear entre norte americanos e soviéticos, a única vez em que exércitos norte americano e soviético se enfrentaram diretamente, em lados opostos, ocorreu em 1918.

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Os exércitos interventores estrangeiros eram originários dos países aliados. Em março de 1918, o recém instalado governo bolchevique selou a paz com a Alemanha através do Tratado de Bret-Litovsky. Antes de fechar o tratado, o exército alemão ainda estava avançando sobre a Rússia, e, por medida de segurança, a capital foi transferida de Petrogrado para Moscou, que era a antiga capital russa até 1721. Moscou, por ter uma localização mais interiorana, é uma cidade mais protegida. Além disso, pesou na decisão o fato de São Petersburgo ter sido por muito tempo o símbolo da Dinastia Romanov.

Contribuiu para a vitória do Exército Vermelho o fato de antigos oficiais tzaristas terem feito parte, por patriotismo, e não por simpatia às ideias comunistas. Eles consideravam que os bolcheviques teriam mais capacidade de manter a Rússia forte e unida do que os liberais. E de fato estavam corretos: a Rússia se manteve unida, enquanto que o Império Austro-Húngaro e o Império Turco-Otomano, que também foram impérios destruídos pela Primeira Guerra Mundial, se esfacelaram em muitos pedaços.

Terminada a Guerra Civil, em dezembro de 1922, foi criada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), composta pela Rússia, a maior destas repúblicas, e por repúblicas de menor extensão territorial e população, como a Ucrânia, a Bielorússia, etc. Mesmo as repúblicas não russas faziam parte do Império Russo. Quem fazia parte do Império Russo, mas não entrou na URSS, foram a Polônia e a Finlândia, que causaram as únicas derrotas do Exército Vermelho.

A vitória dos comunistas, porém, foi apenas interna. A esperança de que a Revolução Russa seria um detonador de revoluções no ocidente, no início parecia promissora, pois ocorreram levantes na Alemanha e na Hungria logo depois da Primeira Guerra Mundial. Mas estes movimentos foram derrotados. Na China, fracassou a tentativa de aliança do Kuomitang com os comunistas. A URSS ficou sozinha na construção do socialismo.

Os problemas a serem enfrentados pela recém-criada URSS eram bem diferentes daqueles descritos por Marx nos países avançados da Europa Ocidental no século XIX. Marx via a crise do capitalismo como uma crise de superprodução e subconsumo. O problema da URSS, em 1922, definitivamente não era a superprodução. Tratava-se de um país que já era pobre e ainda havia sido devastado por uma guerra mundial e uma guerra civil, e, além de tudo, estava isolado do mundo. O problema maior naquele momento não era distribuir, e sim voltar a produzir. A discussão da “necessidade do desenvolvimento das forças capitalistas” foi irrelevante na tomada do poder pelos bolcheviques, mas com o poder já consolidado, tornou-se inevitável. Não havia consenso sobre esta questão. Havia duas soluções possíveis: permitir a existência de uma economia capitalista, com propriedade privada dos meios de produção e leis de mercado em funcionamento, ou fazer que o Estado exercesse o papel dos capitalistas, ou seja, se tornasse diretamente um produtor, tentasse extrair o maior lucro possível (leia-se comprimindo salários) para poder reinvestir este lucro em aumento da produção.

Lenin criou a Nova Política Econômica (NEP), permitindo práticas capitalistas. Mas não teve muito tempo de ver os resultados. Faleceu em janeiro de 1924. Para sua sucessão, houve a famosa disputa entre Trotsky e Stalin. Quem conhece a História por meio de memorização de apostilas de cursinho, sabe que Trotsky defendia a “revolução permanente” e Stalin defendia o “socialismo em um só país”. Bem, esta visão não é equivocada, mas é exagerada. Mesmo sob Stalin, a URSS nunca deixou de se envolver na tentativa de espalhar o socialismo pelo mundo. Mesmo Trotsky aceitava o fato de que se a revolução mundial fracassasse, os comunistas deveriam continuar governando a URSS. Trotsky às vezes é utilizado como um símbolo de comunismo libertário, em contraposição ao autoritarismo de Stálin. Trata-se de um símbolo equivocado. Trotsky e Stalin tinham muitas divergências, mas autoritarismo não era uma delas. Trotsky não recusava o autoritarismo. Trotsky era contra a NEP. Desejava o fim imediato de práticas capitalistas e o início da industrialização pesada comandada pelo Stalin. Bukharin era entusiasta da Nova Política Econômica, defensor da existência de práticas capitalistas no socialismo, e ajudou Stalin inicialmente a manter a NEP. Em 1928, era perceptível como a NEP havia recuperado a atividade agrícola. Porém, era insuficiente para o início da industrialização forçada. Nesse momento, Stalin adotou a sugestão de Trotsky (sem dar o devido crédito), acabou com a NEP, iniciou a coletivização forçada das terras e iniciou a industrialização pesada liderada pelo Estado. Bukharin passou para a oposição. Stalin não admitia contestações. Tanto Trotsky pela esquerda, quanto Bukharin pela direita, seriam assassinados. Ainda sobre a relação de Stalin com seus dissidentes, não é verdadeira a história de que Stalin não atendia o telefone porque existia o risco de ser um Trotsky. Na verdade, Stalin não atendia o telefone porque a secretária dele fazia isso. Stalin não falava Português, e é pouco provável que em Russo ou em Georgiano, a palavra Trotsky tivesse semelhança com trote.

Outra mudança que ocorreu quando Stalin assumiu o poder foi uma guinada conservadora. Stalin passou a incentivar o nacionalismo, retomou tradições do tempo do tzar, melhorou a relação com a Igreja Católica Ortodoxa Russa e reverteu a legalização do aborto.

A partir de 1928, a URSS passou por um intenso processo de industrialização pesada. Ficou imune à Depressão dos anos 1930, que ocorreu no mundo capitalista. Sua capacidade de produzir um número superior de veículos blindados em comparação com a Alemanha foi decisiva para a vitória na Segunda Guerra Mundial. Os soldados do Exército Vermelho, que colocaram a bandeira vermelha com a foice e o martelo no alto do Reichstag, poderiam ter deixado um bilhetinho de agradecimento por aquele trem emprestado 28 anos antes. Na década de 1950, a URSS já estava dominando a tecnologia nuclear e espacial. A proporção PIB per capita da Rússia / PIB per capita dos Estados Unidos, que era de 28% em 1913, passou a ser de 35% em 1960 (ver Figura 1). Por outro lado, a coletivização forçada das terras gerou milhares de presos políticos e períodos de fome. Os expurgos realizados entre 1936 e 1939 geraram um número de execuções na casa dos seis dígitos. Quadros do Partido Comunista e altos oficiais do Exército Vermelho foram executados. A NKVD aterrorizava até quem fazia parte dela. Em 1956, sob Nikita Khrushchev, a própria URSS decidiu remover Stalin do seu quadro de heróis nacionais.


O impacto da Revolução no movimento operário internacional e no mundo

Até o início da Primeira Guerra Mundial, os partidos social-democratas, fundados na segunda metade do século XIX, eram os partidos de orientação marxista. Exemplos são o Partido Social Democrata Alemão, o Partido Socialista Francês e o Partido Trabalhista Britânico. Eles não eram os únicos representantes do movimento operário. O anarquismo era forte. Depois da Revolução de 1917, houve uma cisão definitiva com social democratas. Em 1921/1922, foram fundados os Partidos Comunistas no mundo inteiro. Estes partidos seguiam os princípios do centralismo democrático dos bolcheviques e estavam vinculados à Terceira Internacional, também chamada de Comitern, comandada por Moscou. Enquanto isso, os partidos social-democratas passaram a aceitar o capitalismo e se limitar a propor reformas, como a tributação progressiva e o Estado de Bem Estar Social. Foi a partir desse momento que o termo “social-democrata” se tornou pejorativo para comunistas marxistas revolucionários. Na maioria dos países, os partidos social-democratas eram maiores do que os partidos comunistas. Mas por muito tempo, os partidos comunistas de orientação leninista, da Terceira Internacional, dominaram o espaço da extrema esquerda no espectro político. Os anarquistas, que eram muito fortes no início do século XX, passaram a ter importância muito grande apenas na Espanha depois da Primeira Guerra Mundial. Os partidos trotskistas da Quarta Internacional nunca tiveram a mesma relevância do que os partidos leninistas da Terceira. Somente a partir da década de 1960 que partidos, movimentos e líderes políticos e intelectuais de extrema esquerda, críticos da social-democracia, mas também críticos da orientação de Moscou, passaram a ter grande influência.

No período entreguerras, as únicas experiências socialistas fora da URSS ocorreram na Mongólia e em algumas partes da China. Porém, ao fim da Segunda Guerra Mundial, houve nova onda de revoluções socialistas. Meio século depois da chegada de Lenin à Estação Finlândia, um terço da humanidade vivia em algum país governado por um partido que seguia princípios leninistas. Rússia, Leste Europeu, China, Cuba, Vietnã, Argélia… As revoluções socialistas ocorreram todas na periferia do capitalismo global, diferente do que Marx pensava durante a maior parte de sua vida, e, portanto, a revolução socialista no século XX significou muito mais desenvolvimento nacional, independência e industrialização do que igualitarismo.

Uma conquista soviética na capa da revista Time: Yuri Gagarin, o primeiro homem no espaço.

E qual foi o legado da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia? Como foi dito anteriormente, 50 anos depois dessa revolução, um terço da humanidade vivia em países governados por partidos comunistas. Esses governos, em geral conseguiram elevar a taxa de alfabetização e a expectativa de vida das populações. A fome no socialismo, alardeada por órgãos de propaganda anticomunista, foi muito mais exceção do que regra. Ocorreu na União Soviética nas décadas de 1930 e 1940, na China entre 1958 e 1962, na República Democrática e Popular da Coreia na década de 1990. Entre 1947 e 1991, não houve fome na URSS. O consumo médio diário de calorias do cidadão soviético era semelhante ao consumo médio diário de calorias do cidadão norte americano, embora a dieta do soviético fosse menos diversificada (ver Figura 2). Mas os regimes liderados por partidos comunistas falharam miseravelmente tanto em proporcionar possibilidades de consumo para a população além do básico do básico, quanto em liberdades individuais e pluralismo político. Mesmo em relação ao crescimento econômico, no qual a URSS teve bom desempenho até 1970, os resultados positivos pararam de aparecer. A economia russa entrou em colapso nos anos 1990, no período imediatamente seguinte ao do fim da URSS, mas o declínio já estava ocorrendo nas décadas de 1970 e 1980. O catch-up do PIB per capita da Rússia em relação ao dos Estados Unidos entre 1913 e 1988 foi menor do que o de Portugal, Espanha e Itália, países que também faziam parte da periferia europeia, mas não tiveram regimes socialistas (ver Figura 1).

Figura 1: Evolução da relação do PIB per capita dos países selecionados com o PIB per capita dos Estados Unidos entre os anos de 1870 e 2008. Fonte: Anatoly Karlin.
Figura 2: Calorias consumidas por habitante dos EUA e da URSS em datas selecionadas. Fonte: Igor Birman – Personal consumption in the USSR and the USA.

Os efeitos da revolução, porém, não devem ser observados apenas dentro dos países que fizeram parte do chamado “bloco comunista”. A existência de um bloco comunista foi mais benéfica para quem estava fora dele, do que para quem estava dentro dele. É importante lembrar como era o mundo antes do início da Primeira Guerra Mundial: uma parcela enorme do mundo era colônia de potências europeias. O analfabetismo fora da América do Norte e da Europa Ocidental era realidade para mais da metade da população adulta. Mesmo nos países capitalistas avançados, os Estados de Bem Estar Social ainda engatinhavam. O voto feminino não existia em quase nenhum lugar do mundo. Mesmo o sufrágio universal masculino ainda não era realidade em alguns países capitalistas avançados. Direitos trabalhistas eram mínimos. A concentração de renda na França e no Reino Unido naquele tempo era semelhante à do Brasil atual — altíssima. Os impostos sobre renda, riqueza e herança eram insignificantes. A “ameaça comunista” acabou forçando algumas reformas sociais no mundo capitalista. Depois do fim do bloco comunista, em 1989–1991, houve retrocessos em alguns avanços sociais que ocorreram no mundo capitalista ao longo do século XX. Não foi este o único problema causado pelos eventos de 1989–1991. Quando a URSS acabou, apareceram muitas previsões otimistas de que o perigo de uma guerra nuclear havia terminado. Bom, a atual Rússia nacionalista de Putin, saudosa dos tempos do tzarismo e de Stalin, ligada a ele não por saudosismo do comunismo, mas por saudosismo de uma época de grandeza nacional, tornou-se muito mais perigosa do que a URSS.

A entrada na Segunda Revolução Industrial através do planejamento estatal inspirou até mesmo países periféricos com governos não comunistas. Embora a industrialização com intervenção do Estado já tivesse sido realidade na Alemanha e no Japão no século XIX, a URSS deu um impulso ainda maior. O Brasil de Juscelino Kubitschek fez um plano quinquenal. Não apenas a Coreia “ruim”, ou seja, a do Norte, fazia planos quinquenais. A Coreia “boa”, ou seja, a do Sul, também fazia.

Revoluções terem efeito fora de seus domínios territoriais não é novidade. A Revolução Francesa (1789) poderia ser chamada de “fracassada”, uma vez que os Bourbon retornaram ao poder em 1815. Mas foi o estopim de uma série de revoluções liberais da Europa que acabaram com monarquias absolutistas.

A Revolução Norte Americana (1776) teve alguns feitos inegáveis, mas quando alguém fala que foi a única revolução “boa”, uma revolução que não aboliu a escravidão nem introduziu o sufrágio universal, a única resposta possível é “então tá”.


Considerações finais

Antes de concluir, é importante responder a algumas críticas ao legado da Revolução Russa feitas pela própria esquerda, seja por social democratas, seja por trotskistas, seja por anarquistas. Críticas à Revolução Russa, mesmo de esquerda, são necessárias, mas algumas delas são decorrentes de ingenuidade política. Por isso, esclarecimentos são importantes.

Uma delas diz que “o Stalin feio e bobo deturpou os belos ideais da Revolução de 1917, matando muita gente, e criando uma ditadura da burocracia do partido sobre o proletariado, em vez da ditadura do proletariado”. Bem, o “matou muita gente” e o “criou uma ditadura da burocracia do partido” não andam lado a lado. A “muita gente” que Stalin matou era parte da burocracia do partido. A “ditadura da burocracia do partido” se consolidou de verdade no tempo de Brejenev, que não matou muita gente.

Outra diz “eu preferiria morar em um país social-democrata como a Suécia, que combina justiça social, com muitas possibilidades de consumo e liberdades individuais, a morar em países socialistas governados por partidos comunistas”. Bem, o autor deste texto também preferiria. Mas a possibilidade de sete bilhões de seres humanos viverem como se vive na Suécia não existe. Para isso, a renda do mundo precisaria ser multiplicada por quatro. E como foi dito anteriormente, a Revolução de 1917 deu impulso para reformas progressistas que ocorreram em muitos lugares como a Suécia.

Sobre a tentativa de nivelar Hitler e Stalin, é necessário fazer alguns esclarecimentos. Stalin matou muita gente para preservar seu regime, o que já é muito ruim. Mas Hitler inovou ao criar uma indústria de eliminar fisicamente etnias inteiras, incluindo crianças que faziam parte dessas etnias. Muitos prisioneiros dos campos do Gulag faleceram de fome, frio, doenças e exaustão em um período em que até a população “livre” sofria privações. Outros prisioneiros cumpriam a pena e eram libertados. Já os campos nazistas, como Auschwitz e Treblinka, tinham propósito específico de matar.

É necessário também comentar sobre aqueles que pensavam: “No tempo da URSS, o socialismo era visto como uma coisa feia. O fim da URSS pode ser a oportunidade do repúdio ao socialismo diminuir, e existir espaço para construir um socialismo mais bonito”. Bom, em 1991, era possível bem assim, mas os fatos desmentiram. Vinte e seis anos depois, o “socialismo mais bonito” ainda não apareceu. É certo que o anticomunismo no mundo declinou depois de 1991 (e reapareceu no Brasil na década de 2010 por algum estranho motivo), mas o declínio só ocorreu porque o anticomunismo se tornou desnecessário.

A Revolução Russa não criou um mar de rosas, mas defender que houve um legado positivo é muito importante, uma vez que a cada ano terminado com 7, chovem na grande mídia comercial textões falando só de “milhões de mortos”, “modelo econômico fracassado”. Esses textões são normalmente escritos por autores ex-querdistas, escalados por esta grande mídia para fazer leitura deturpada de fatos históricos, com o objetivo de favorecer forças políticas conservadoras do momento.

Por fim, respondendo a uma pergunta que alguns leitores poderiam fazer: Por que existe o costume de publicar textos sobre grandes acontecimentos históricos em aniversários redondos destes acontecimentos históricos? É só porque há dez dedos nas nossas mãos? Não, as publicações de aniversários redondos são importantes para divulgar a história para o público leigo, pois ajudam a fazer com que muitos textos sobre o mesmo assunto sejam publicados simultaneamente, facilitando o diálogo.

Referências

BBC Series. The Russian Revolution and the Civil War
ENGELS, F; MARX. K. Luta de Classes na Rússia. Boitempo, 2017.
FRANCIS, P. A Revolução Bolchevique: Sessenta anos de Lenin, Trotsky e Stalin. Folha de S. Paulo. 6 de novembro de 1977
GALBRAITH, J. K. The Age of Uncertainty. Episode 5. 1977
HOBSBAWM, E. Era dos Extremos – O Breve Século XX 1914/1991. Companhia das Letras. 1994
KARLIN, A. The Soviet Economy – Charting Failure. 2014
NERY, T. Lenin e a Revolução no elo mais fraco. Palestra integrante do curso “Estratégias para a Revolução Socialista” realizada no Sindmed Rio de Janeiro no dia 4 de outubro de 2017
NINTIL. The Soviet Union: The food consumption puzzle. 2016
OLIVEIRA, F. A esfinge do tempo: para onde vai o socialismo? Revista de Economia Política. Vol.1 nº2. 1981
ZIZEK, S. Em defesa das causas perdidas. Boitempo, 2011.

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