Fora do senso comum. Para além da órbita da desinformação. Rumo ao cosmo do conhecimento.

Pequeno Dicionário dos Fascismos Europeus entre 1914 e 1945

Fascismo: sua definição, suas características e um pouco de sua história nos países europeus onde ocorreu.

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Países onde os movimentos fascistas foram vitoriosos
  • 1. O que é o fascismo?
  • 2. Países onde os movimentos fascistas foram vitoriosos
  • 3. Países onde os fascismos tiveram menos sucesso
  • 4. Países onde os movimentos fascistas foram pouco expressivos
  • 5. Para saber mais
Países onde os movimentos fascistas foram vitoriosos

2. Países onde os movimentos fascistas foram vitoriosos

[Alemanha] [Áustria] [Itália] [Hungria] [Iugoslávia] [Romênia] [Tchecoslováquia]

ALEMANHA

Tal como a Itália, a Alemanha foi um país unificado tardiamente. O desenvolvimento do capitalismo foi, em larga medida, impulsionado pelo Estado — deu-se através de construções de ferrovias, indústria pesada, e bancos. A expansão econômica foi muito rápida, aumentando também a urbanização — Berlim tinha, em 1870, 775.000 habitantes; em 1900, 1.888.000 (nesse período 50.4% da população já morava em cidades)[11].

Além disso , ao contrário dos EUA ou da Inglaterra, o sistema político no Segundo Império era praticamente dominado pelo imperador e seu indicado ao cargo, o Chanceller, sustentados pelas elites agrárias (Junkers) — nesse contexto era difícil surgir algum grupo ultra-reacionário como a Action Française (França), que criticasse a democracia e enxergasse nesse sistema político a causa da decadência do país, etc.

Por outro lado, o antissemitismo já era presente em alguns setores alemães, principalmente em círculos intelectuais. Paul de Lagarde, já em 1852 proclamava que os judeus teriam que se adaptar ou ser expulsos da Europa; William Houston Chamberlain defendia a tese da luta racial entre arianos e judeus[12]. O antissemitismo também encontraria base popular em associações populares como a liga Hammer, de Theodor Fritsch ou a liga pan-germânica, que pregava a união do povo alemão, cuja intenção era promover o “senso étnico da população alemã”[13].

No entanto, nesse contexto de desenvolvimento industrial, emergiu um proletariado carente de representação, que, a partir de 1870, aglomerar-se-ia em volta dos social-democratas alemães.

Todo esse cenário sócio-político, tal como para a Itália, foi completamente mudado com a entrada e posterior derrota da Alemanha na guerra. Após serem derrotados em 1918, o que foi inexplicável para a maior parte dos alemães, dada que a propaganda oficial dava a entender que se ganhava a guerra, o império alemão cai e tem-se início a república de Weimar — cidade onde foi promulgada a nova constituição democrática do país.

Devido à crise de abastecimento que se abatera sobre o país, juntamente a insatisfações populares, e a agitação da esquerda revolucionária, ocorre uma tentativa de revolução por parte dos comunistas, que seria brutalmente reprimida pelo governo social-democrata através dos paramilitares reacionários do Freikorps.

Esse ambiente de crise — política, econômica, cultural, social — marcaria a República de Weimar e proporcionaria as condições para a sua eventual obliteração:

  • as tentativas de golpe, tanto à direita, com o putsch de Kapp em 1920, até o putsch da cervejaria do NSDAP alemão em 1923, quando Hitler seria preso; quanto à esquerda, em 1919 e em 1923;
  • a crise hiperinflacionária causada em grande parte pelo excesso de dívida contraídas pelo Estado alemão para financiar a guerra e a necessidade subsequente de honrar os pagamentos impostos pelas potências vencedoras no Tratado de Versalhes;
  • o próprio tratado, que se tornou fonte de crise de legitimidade da democracia pois, para grande parte da população, era um motivo de vergonha nacional, uma vez que parte expressiva do território alemão fora perdido — sentimento que fora explorado pelos direitistas de todo espectro alemão, desde os reacionários do DVNP até os nazistas;
  • a constante insatisfação da população com a República e a frequente imagem de uma ordem política corrupta e de líderes que davam as costas para o sofrimento popular;
  • o caráter antidemocrático e reacionário de muitos grupos e classes que sustentavam República, como o exército, a burocracia civil e o judiciário;
  • os valores ultranacionalistas, reacionários e antissemitas partilhados por uma parte significativa da população;
  • a crise econômica de 1930, que jogaria muitos alemães na miséria, e a crise institucional que se seguiu, tendo à frente governos de direita (formados por coalizões de partidos direitistas como o ZENTRUM, o DVNP, DVP) que governavam por decretos, abrindo o caminho legal para uma eventual ditadura;
  • o ambiente de guerra civil entre comunistas, social-democratas e suas organizações paramilitares de um lado, e os nazistas e as SAs de outro;
  • o ultranacionalismo e oportunismo das elites conservadoras, as quais se aliaram aos nazistas, tentando utilizá-los para subjugar a esquerda.

Esse conjunto de fatores forneceu um ambiente ideal para a tomada do poder dos nazistas em 1933. O NSDAP, formado a partir do DAP (Partido dos Trabalhadores Alemães), era, após 1919, um dos muitos grupos völkissch — isto é, ultranacionalista e racista — que apareceram na cena política alemã no início do século XX. Formado na Bavária- – por Anton Drexler e Karl Harrer– o NSDAP lá encontraria, como também outros grupos de extrema-direita, o ambiente ideal para o florescimento de seu partido, muito devido ao sentimento antirrevolucionário e antissemita gerado pela revolução de 1919, liderado na Baviera por um homem de origem judaica, Kurt Eisner. O NSDAP cresceu chefiado por Hitler, um “demagogo de cervejaria”[14], que atraía um número cada vez maior de apoiadores devido aos seus discursos inflamados e carregados de ira antissemita. Hitler, nascido na Áustria, fora influenciado por antissemitas como Dieter von Schönerer, Richard Wagner e Karl Lueger, prefeito de Viena- de Lueger ele aprenderia que a propaganda antissemita tinha forte apelo popular e poderia limitar o espaço político dos socialistas. Hitler, ao se tornar membro e liderança do partido, escrevera com Drexler o programa do NSDAP, os 25 pontos: exigia a unificação da Alemanha (ponto 1), fim dos efeitos do tratado de Versalhes (ponto 2),medidas “socializantes” como reforma agrária, nacionalização dos trusts ,entre outras (pontos 11 a 15,etc); , “terras para colonização do nosso povo” ( ponto 3) e a atribuição de cidadania somente àqueles que possuíssem sangue alemão , i.e., excluindo judeus (ponto 4 ). Em suma, uma mistura de ultranacionalismo racial, antissemitismo e anticapitalismo reacionário.

A ideologia nacional-socialista era simplista, mas extremamente perigosa e também atraente para muitos alemães: o mundo seria regido pelas leis dos mais fortes. Não existiria luta de classes, mas lutas de “raças”, sendo que a “raça ariana” era superior a todas as outras.  O emblema do partido, a suástica, tinha tal conotação, isto é, de representar a raça ariana- como fizeram alguns grupos völkisch antes do nacional-socialismo.

Nas próprias palavras de Hitler:

“A questão racial dá a chave não somente para a história mundial, também para toda cultura humana” – dizia, no Mein Kämpf.

Essa “raça” deveria submeter e eliminar outras “inferiores”, principalmente os judeus, já que eram os responsáveis pelas agruras do mundo — sendo que aos arianos existia a necessidade de um espaço vital (Lebensraum), o qual era necessário para que pudessem viver. Os judeus e os comunistas, ou o “bolchevismo judeu”, deveriam ser extirpados da face da terra. Em resumo, a “missão” do movimento nazista era clara: destruir o “bolchevismo judeu”. Ao mesmo tempo (…) isso propiciaria ao povo alemão o “Lebensraum”  para que a “raça superior” se sustentasse[15].

Tentando realizar um golpe de estado em 1923, falhando, sendo Hitler e outros nazistas presos, o partido quase se desmembrou, devido a desentendimentos internos. Hitler, após um curto período na prisão, com extrema habilidade reverteu as tendências centrífugas do partido e submeteu todo o aparato do partido a sua liderança, expulsando e eliminando dissidentes — desde Gregor Strasser, partidário da área mais “socialista” do NSDAP até E. Röhm, chefe das SAs — que seria posteriormente reincorporado ao partido; ele foi também o principal ideólogo do partido, publicando o seu pensamento no famigerado Mein Kämpf (cujas ideias acima apresentamos), que, entre 1933-45 tornou-se um best-seller, por motivos óbvios.

Assim, além de um partido unificado, umas das causas pelas quais os nazistas conseguiram se enraizar e criar bases de sustentação foi justamente quando as necessidades locais não eram atendidas pelo Estado. Onde não havia um movimento/partido conservador influente e quando os socialistas ou comunistas não eram fortes, caso de Schleswig-Holstein, também foram fortes fatores.

Grande parte do apoio dos nazistas originou-se de regiões agrárias e com forte presença protestante (como Schleswig-Holstein). É interessante notar que a composição dos membros do partido, quanto a sua ocupação, mudara com o tempo — principalmente com relação ao proletariado. Se a base inicial era composta de ex-combatentes, estudantes, e membros da classe média (desde pequenos comerciantes, servidores públicos, professores, estudantes, etc.[16]), em 1930, o NSDAP contaria com 26,8% de operários, aumentando, em 1933, para 28,6%, de acordo com estatísticas do partido- outros setores expressivos seriam também o de pequenos proprietários rurais (se bem que em 1933, o número proporcional diminuiria, de 13,2% em 1930, para 6,2% em 1933).[17]

Assim, inicialmente, em 1928, nas votações para o Reichstag (parlamento alemão), obtiveram 2,6% dos votos.  O grande salto aconteceu com a crise econômica dos anos 30- dependente de financiamento externo, as indústrias ruíram com a escassez de crédito que se seguiu e a queda abrupta dos preços agrícolas e a quebra de negócio agrícolas levaram grande parte da população do campo à miséria- e da incompetência e cegueira dos governos que se seguiram, perseguindo políticas deflacionárias que agravaram ainda mais a crise.

Em 1930, os nazistas conseguiram 18,3% dos votos, e 37,4%, em 1932, tornando-se, então, uma força considerável a qual nenhum dos conservadores poderia mais ignorar. O uso eficaz da propaganda, com apelos diferentes a grupos diversos- nem sempre o antissemitismo estava presente, além da criação de organizações estudantis, de médicos, mulheres, etc foi essencial na obtenção de resultados eleitores. Em janeiro de 1933, após uma extensa crise constitucional que se prolongava, o presidente Hindenburg deu o aval ao político conservador e ex-chanceler Franz von Papen para formar um governo de coalizão de conservadores com os nazistas, sendo Hitler nomeado chanceler.

Além de tudo o que foi até aqui descrito, devemos enfatizar que o NSDAP conseguiu tomar o poder de forma legal também devido a desunião da oposição, principalmente entre o KPD e o SPD. O KPD, até 1935, atacava os sociais-democratas classificando-os como “social-fascismo”, isto é, irmãos do fascismo e defensores do capitalismo. Os sociais-democratas, por sua vez, rechaçavam qualquer tentativa de um front comum com o KPD. Além disso, o SPD permaneceu apegado a um legalismo suicida, isto é, permitiu que atos ilegais, como o governo por decretos de Brünning e Von Papen, entre 32 e 33, fossem postos a cabo na tentativa de preservar a república e nunca sequer utilizou sua formação paramilitar, a Reichsbanner, para lutar militarmente contra o fascismo alemão.

A partir daí os nazistas realizaram o Gleichschaltung (coordenação), submetendo toda a sociedade alemã aos seus desígnios em menos de 6 meses, enquanto o fascismo italiano, mutatis mutandis, levou 6 anos para realizar o mesmo feito.[18]

Podemos classificar aqui como o início da primeira fase do regime nazista, da sua ascensão e consolidação. Governando por decretos, Hitler convoca as eleições em março de 1933; o incêndio do Reichstag (atribuído a um militante comunista), pouco tempo antes da votação, forneceria a ocasião ideal para jogar na ilegalidade o KPD e impor o decreto que suspendia, de fato, a constituição de Weimar, a Ermächtigungsgesetzt.

Até julho, o judiciário, a burocracia civil, as escolas, as universidades e o exército sofreram expurgos — sofreriam principalmente judeus, comunistas, socialistas e democratas; os partidos, com exceção do NSDAP, foram dissolvidos e proibidos; os sindicatos fechados, sendo substituídos pelo Deutsche Arbeitsfront (Frente de Trabalho Alemã), controlado pelo nazista Robert Ley. O primeiro campo de concentração, em Dachau, perto de Munique, foi aberto em 1933, com amplo conhecimento da população, para prisioneiros políticos.

Entre 1933 e 1939, Hitler concentrou cada vez mais o poder em suas mãos, submetendo a política externa e o exército ao seu comando direto, além de eliminar a oposição política dentro do NSDAP na Noite das Facas Longas, em 1934, quando o comando das SAs e outros políticos conservadores- como Kurt von Schleicher, general das Reichswehr e ex-primeiro ministro, que pensara ser possível utilizar os nazistas para impor sua ditadura- foram assassinados pelas SSs com apoio do exército.

Nesse mesmo período, a economia alemã voltou a crescer chegando ao pleno emprego, sob o comando de Hjalmar Schacht , banqueiro e antigo membro do Zentrum (conferindo legitimidade ao regime nazista, mesmo entre aqueles estratos que votaram contra o nacional-socialismo – apesar do exíguo crescimento dos salários até 1939 ), até que Hitler decidiu, com Göring no ministério das finanças, que a Alemanha deveria entrar em guerra em 4 anos; com isso, todos os esforços do país dirigiram-se à guerra. Ainda nesses anos, Hitler conseguiu se livrar do Tratado de Versalhes, rearmando a Alemanha, invadindo e conquistando territórios, sem perdas militares significativas: a região do Ruhr, depois a anexação da Áustria e a invasão da região dos Sudetos, na Tchecoslováquia.

Tudo isso contribuiu para o estabelecimento do consenso de Hitler e do NSDAP entre os alemães, que somado tanto com os permanentes esforços de Goebells( que, apesar de ter se tornado um hitlerista fanático, na década de 20 fazia parte da ala “esquerda” do NSDAP, junto ao Strasser) no Ministério da Propaganda, valendo-se de veículos como rádio, cinema e jornais, quanto com o terror implacável promovido pela Gestapo polícia secreta do regime , pelas SAs e as SSs, criaria uma das ditaduras mais sanguinárias e genocidas da história.

Não só pela força se constituiu o regime, mas pelo consenso. A figura de Hitler era uma das peças importantes desse processo. Mas também eram as iniciativas como a Força através da Felicidade (Kraft durch Freude– KDF), programa do Front de Trabalho Alemão, como tentativa de cooptação dos trabalhadores: organização de eventos esportivos, embelezamento das fábricas (criação de um ambiente mais confortável de trabalho), feriados subsidiados e mesmo a construção do “carro do Povo” (Volkswagen), foi obra do  KDF.

A falta de movimentos de resistência significativos, exceto pelo atentado perpetuado por militares em 20 de julho de 1944, chefiado por Claus von Stauffenberg, oficial do exército alemão, atesta quão potente fora a junção desses fatores. As duas instituições que até 1937 não tinham sido ainda “coordenadas” [gleischgeschaltet] foram o exército alemão e as igrejas. No entanto, o exército fora submetido completamente ao poder de Hitler em 1937, após supostos escândalos sexuais que envolviam o ministro da guerra, Von Blomberg e o chefe do exército, von Fritsch

A igreja católica,por sua vez, passou de uma postura beligerante para uma atitude mais simpática após 1933, pois tentaram preservar a integridade e legalidade das instituições católicas. Assim, não houve, na Alemanha, nenhuma resistência institucional por parte da igreja católica contra o nazismo. Já as igrejas protestantes demonstravam, antes de 1933, simpatia pelo nazismo. A tentativa de submeter as igrejas protestantes ao nacional-socialismo obteve um sucesso inicial, mas foi depois abandonada devido à resistência organizada dessas. Por outro lado, tal como a Igreja Católica, a protestante também não ofereceu resistência institucional ao nazismo — sequer contra o Holocausto.

Assim, não houve, na Alemanha, nenhuma resistência institucional
— apesar de, haver, sim, indivíduos que lutaram contra o nazismo, como o pastor protestante Niemoller. O pastor ficaria famoso por este poema: “Quando os nazistas levaram os comunistas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os sociais-democratas, eu calei-me, porque, afinal, eu não era social-democrata. Quando eles levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque, afinal, eu não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque, afinal, eu não era judeu. Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”.

É importante notar também o peso da figura de Hitler: pela propaganda oficial, ele era figurado como uma figura heroica, um messias que veio para salvar o povo alemão- tanto um sacerdote como um guerreiro, um homem de ação e de grande envergadura intelectual . Isso conduz ao seu papel de fato- era Hitler um ditador absoluto ou uma figura fraca dentro da ditadura nazista? A conhecida controvérsia entre estruturalistas e intencionalistas na historiografia do terceiro Reich versa sobre isso. O que é mais aceito é que a estrutura de poder nazista era uma poliarquia, mas que Hitler possuía a última palavra em todas as decisões- além de chefiar diretamente as áreas de interesse, como o exército e política externa.

Nesse mesmo período ocorre, progressivamente, com algumas interrupções após 1933 e na olimpíada de 1937 realizada em Berlim, a cada vez maior perseguição aos judeus e aos “indesejáveis ao regime”. Em 1935, a medida mais simbólica desse processo é quando são promulgadas as leis de Nuremberg, que proibiam relações entre “arianos” e judeus. Além disso, pari passu, foi realizado a “arianização da economia”, isto é, quando bens e propriedades daqueles caracterizados como “judeus”eram vendidas e/ou tomadas pelo Estado ou por pessoas e organizações privadas, muitas vezes a preços irrisórios. Por fim, em 1937, ocorre o famoso pogrom, a noite das facas longas, momento simbólico que marca o recrudescimento da violência antissemita.

A segunda e última fase do regime nazista deu-se entre 1939 e 1945, início e fim da Segunda Guerra. Primeiro ocuparia a região do Ruhr, fonte de carvão e tomada pela França após a primeira guerra. Ainda em 1937, ocuparia os Sudetos, anexando parte Tchecoslováquia. Em seguida, em 1938, anexaria a Áustria, no Anschluss.Perseguindo seus objetivos delineados desde o Mein Kämpf, Hitler então invade a Polônia, em 1939. Por tal evento, França e Inglaterra declaram guerra à Alemanha.  A URSS ficaria temporariamente de fora- até 1941- pois havia assinado o pacto de não agressão Ribbentrop-Molotov; de todo modo, Hitler obtém uma série de vitórias rápidas, com a tática da “guerra-relâmpago” (Blitzkrieg), conquistando rapidamente a Dinamarca e Noruega, e depois a Bélgica, Holanda e França ,conquistando todos esses países antes do fim do verão europeu.Convencido, através das vitórias, de ser um gênio militar e cercado de bajuladores, como o general Keitel, Hitler torna-se mais ambicioso. No entanto, o primeiro revés acontece com a perda da batalha da Inglaterra, em 1940. Direcionando seus esforços ao que já preconizava em 1924, isto é, procurando a aquisição do espaço vital (Lebensraum), Hitler decide assim invadir a URSS em 1941, dando início a Operação Barbarossa.

A Alemanha entra em diversas outras frentes de guerra- na África, no sul da Europa, guerras marítimas. Nesse período se estabelece uma “nova ordem europeia” sob o domínio nazista. Os países conquistados são subjugados politicamente — não sem a cooperação e colaboração dos locais, como o regime de Vichy, na França — e espoliados economicamente, enviando divisas para a Alemanha. O mesmo ocorreu com os trabalhadores (muitos escravos) e mesmo bens (roupas, joias, matérias-primas , etc.).

Estava criado o Grande Reich Alemão (Grossdeutsches Reich). Além disso, nesse período, ocorreu a radicalização do eliminacionismo nazista: primeiro, matando os “doentes mentais” (categoria elástica que incluía até pessoas com depressão). O regime nazista, a partir da invasão da Polônia, exterminaria, subsequentemente, um número cada vez maior de pessoas. Eslavos, ciganos, prisioneiros de guerra, socialistas, comunistas, homossexuais e judeus, entre outros. Desde os Pogrons, foi instaurada a prática de violências diárias contra populações inteiras, extermínios em massa realizados por Einsatzgruppen (grupos de ação), marchas da morte, até a criação de campos de extermínio (Sobibor, Treblinka e o mais conhecido, Auschwitz), onde milhões de judeus foram assassinados.

A ideologia de extermínio nazista não conheceria limites, até sua destruição em maio de 1945. Muito disso foi posto a cabo por pessoas comuns e não monstros. Adolf Eichmann, o burocrata da SS que liderou a implementação do Holocausto, é um exemplo. É sabido que a política do extermínio era conhecida pela população, mas o grau de apoio do homem comum a isso é motivo de debates. De todo modo, mesmo que não fossem a favor, poucos foram aqueles que resistiram ou ajudaram judeus a escapar e poucos realmente se importavam..

Retornando ao teatro de guerra: a partir da perda da batalha de Stalingrado, em 1943, e com a entrada dos estadunidenses na guerra (principalmente a partir da invasão da Normandia, em 1944) a Alemanha já teria seu destino selado. À medida em que o regime entrava em colapso, tanto militarmente como economicamente, ele se radicalizava no extermínio dos judeus, na eliminação de qualquer dissidência interna e na utilização de todos os recursos materiais e humanos em uma guerra já perdida.

A virulência destrutiva da ideologia nacional-socialista só foi derrotada militarmente quando a URSS tomou Berlin e pelo subsequente suicídio de Hitler e de sua mulher Eva Braun. O exército, tendo jurado lealdade ao Führer, só parou de combater a partir de sua morte.

Notas e Referências
[11] CARSTEN, 1980, p. 22; Praticamente tudo aqui exposto vem de EVANS (2005;2007;2009), KERSHAW (2010), PAYNE (1995); MORGAN (2003); CARSTEN (1980); NICHOLS (2000) ;EATWELL(1995).
[12] EVANS, 2004, p.23-41; 45-47 CARSTEN, 1980, p. 25-6
[13] IDEM
[14] Expressão de Kershaw (2010)
[15] KERSHAW, 2010, p. 181
[16] MÜHLBERGER, 2003, p. 43
[17] MERKL, 1980, p. 260
[18] WIPPERMAN, 1983, p. 56

ÁUSTRIA

O ditador austrofascista Engelbert Dollfuss (1892-1934) em um comício.

A Áustria tornou-se uma república após a primeira-guerra, com território extremamente reduzido, depois da derrota do império austro-húngaro. A esquerda socialdemocrata, junto ao partido social cristão, conservador, ergueu os alicerces constitucionais da república. Nessa situação a esquerda emergiu com força, especialmente em Viena; foi inclusive responsável pelas agitações revolucionárias, tal como na Alemanha, que se deram após a primeira guerra, em conselhos de soldados e de indústrias.

Vários foram os fatores para o desenvolvimento dos movimentos fascistas austríacos, entre os principais:

  1. As ameaças de invasão iugoslava e da esquerda revolucionária, tanto na Áustria como na Alemanha (na Baviera), motivaram a formação de unidades paramilitares. Mesmo após o fim da ameaça de invasão estrangeira, tais movimentos permaneceram mobilizados em várias províncias da Áustria, como a Stiria e Tyrol, financiadas também por industriais para defender seus interesses;
  2. A crise econômica e o desemprego no pós-guerra, cujos efeitos foram explorados pelos fascistas- as indústrias de carvão austríacas, após o desmembramento do império, perderam as conexões com as regiões fornecedoras de matérias-primas. Isso resultou, juntamente à desmobilização do exército, um desemprego em massa[19].

Com a crise econômica, que também teve caráter inflacionário (que tanto afetou os países europeus no pós-guerra), e o desmembramento da monarquia dos Habsburgos, muitos oficiais, ex-combatentes e pequenos proprietários decidiram se juntar a essas formações paramilitares, as Heimwehr (defesa da pátria). Ao contrário dos Freikorps alemão, as Heimwehr não foram dissolvidas após a vaga revolucionária. Por outro lado, contrário às Heimwehr, estavam os paramilitares da Schutzbund 
formação paramilitar do SPD austríaco, que contava, inclusive, com armas que não foram recolhidas após a primeira guerra. Esse clima de tensão e de potencial guerra civil permeou a república austríaca até o golpe de Dolfuss, em 1934[20].

Desse modo, deve-se mencionar que as Heimwehr tiveram um papel importante em reprimir as greves e revoltas operárias de esquerda que se alastraram pelo país em 1927, muito também a comando de governadores de província do Partido Social Cristão como quanto do primeiro ministro austríaco durante a década de 20, Ignaz Seipel ( também do mesmo partido)[21]. A partir daí tal agremiação tornou-se um movimento cada vez mais forte e, em grande parte, com contornos expressamente fascistas: antiparlamentar, antidemocrata, antimarxista, além de contar com apoio financeiro de Mussolini, sugerido pelo primeiro ministro da Hungria, Istvan Béthlen.

No entanto, a Heimwehr era um movimento sem unidade, sendo alguns mais reacionários e outros mais próximos à ideologia nacional-socialista. De todo modo, em 1929, eles tentaram compor um programa comum, apresentando como um partido político que proclamava a necessidade de “erigir um Estado autoritário baseado em fundações fascistas”[22] e também declaravam: “estamos determinados a tomar o Estado e remoldar sua economia aos interesses do Volk [povo] (…) estamos determinados a realizar um desenvolvimento independente da economia baseado em corporações”[23]. Em 1930, algumas seções paramilitares da Heimwehr tentam realizar um putsch na Styria, mas, como não tem o apoio de outras seções do movimento, inclusive do chefe, Stahremberg, a tentativa de golpe de estado culmina em fracasso. O judiciário, tal como na Alemanha, deu penas brandas para os putschistas.

Outro grupo fascista que surgira após a primeira-guerra foi o Partido Nacional-Socialista Austríaco, fundado em 1903 sob o nome de Partido dos Trabalhadores Alemão (DAPDeustche Arbeiterpartei). Em 1918, mudaram seu nome para Partido Alemão Nacional Socialista (DNSAP). Combinava, inicialmente, o “antissemitismo e uma visão mais socialista com relação aos aspectos econômicos, incluindo demandas de nacionalização de grandes propriedades”[24]. Uma cisão do DNSAP ocorreu em 1926, tendo uma facção se aglomerado e permanecido no partido, que, apesar de antissemita, não se tornou fascista, mas, de todo modo, permaneceu muito marginalizado na política austríaca[25]; outra parte, mais radical e violenta, formou o partido nacional-socialista alemão (NSDAP), versão austríaca da matriz alemã. Tal como na Alemanha, o NSDAP austríaco tinha uma base significativa de proletários em suas fileiras até 1933: 36%, sendo que 4% eram trabalhadores sem qualificação. O restante era composto por integrantes da classe média (vendedores, profissionais liberais, estudantes, etc[26]).

A depressão econômica no início da década de 30 mostrou-se, assim como na Alemanha, o contexto ideal para o sucesso de movimentos fascistas, além de outras condições essenciais já postas, como o irredentismo (Áustria perdera seus territórios após a primeira guerra) e a ameaça da esquerda.

Desta forma, a Heimwehr e o NSDAP austríaco obtiveram, nas eleições do início da década de 30, uma boa votação , atrás do Partido Social Cristão e dos social-democratas.

Após a eleição, em parte devido aos resultados dela, houve uma cisão na Heimwehr[27]: o grupo mais ideologicamente próximo aos nazistas abandonou o partido e uniu-se aos nacional-socialistas austríacos; o restante, ideologicamente conservadores autoritários, formou uma coalizão com o Partido Social Cristão, de Engelbert Dolfuss, que assumiu o poder como chanceler, e, junto com Starhemberg, chefe da Heimwehr, como vice-chanceler, em 1932. Em 1933, Dolfuss fecha o parlamento e governa a Áustria por decreto. Muito do que acontecera na década de 30 na Áustria foi, em grande parte, devido à ameaça que o nazismo alemão constitui para o país, já que lá se propunha a anexação da Áustria pela a Alemanha. Alguns historiadores alegam que Dolfuss derrubou a democracia parlamentar para defender a Áustria contra o gigante fascista alemão (que é uma tese muito discutível).

Pondo o SPD austríaco na ilegalidade, Dolffuss, em 1934, promulga uma nova constituição, corporativista e autoritária. Seu autoritarismo era defendido por correntes do próprio partido social cristão, muito do qual foi baseado na encíclica papal Quadragesimo Anno, em que propunha um sistema anti-liberal e anti-socialista, tanto na economia quanto no social. Nesse sistema, o único partido político permitido, as Heimwehr, permaneceram algum tempo também legais, mas foram desmanteladas pelo governo em 1936. Por outro lado, o Front da Pátria, tal como a F.E.T. na Espanha[28], foi criado pelo governo para aliciar os militantes de movimentos fascistas e controlá-los em uma estrutura hierárquica rígida.

Esse novo regime é classificado como clérico-fascista, tanto pela inspiração católica da nova constituição, quanto pelo fato que o catolicismo se tornou a religião oficial da Áustria. Há debates sobre o quão fascista era o regime de Dolfuss. Alguns afirmam que era fascista, semi ou parafascista. De todo modo, não era um simples regime autocrático.

Os nazistas austríacos tentam, no mesmo ano, tomar o poder e matam o chanceler Dolfuss, mas, no fim, são derrotados, sendo inclusive postos na ilegalidade. Ele é sucedido por Kurt von Schuschnigg, o qual, devido às desavenças com a Heimwehr, dissolve também esse movimento. Entre 1934 e até 1938, quando ocorreu o Anschluss (anexação da Áustria pelos nazis), o regime começara a sofrer pressões cada vez maiores da Alemanha, sendo obrigado, em 1937, a legalizar novamente o NSDAP austríaco. Por fim, após o sucesso da invasão alemã no Ruhr, em 1937, Hitler invade a Áustria e integra o país no recém-constituído Grande Reich Alemão (Grossdeustches Reich).

Referências

[19] WIPPERMAN, 1983, p. 81. .
[20] IDEM, 85-6
[21] CARSTEN, 1980, p. 223
[22] IDEM
[23] IDEM, p. 225
[24] PAYNE, 1995, p. 247
[25] IDEM
[26] BOTZ, 1980, p. 207
[27] MORGAN, 2003, p. 35
[28] PAYNE, 1995, p. 249

ITÁLIA[29]

País que foi unificado tardiamente, como a Alemanha, a Itália, no início do século XX, era uma monarquia constitucional. Em 1882, somente 600.000 de 20 milhões de pessoas podiam votar; o voto universal masculino só é instituído em 1912[30]. Com o sufrágio limitado, o rei tinha amplo poder político. O país era extremamente pobre e possuía graves desigualdades econômicas entre norte e sul do país.

O que dificultava mais a situação italiana era sua falta de recursos internos. Muito tinha que ser importado, fora que o solo, muito árido, e técnicas agrícolas atrasadas impediam o aumento da produtividade no campo. Assim, o país teve de desenvolver suas indústrias com o incentivo estatal, o que não evitou os prejuízos internos, pois a eliminação de barreiras tarifárias entre norte e sul destruiu as indústrias do sul. De qualquer maneira, forma-se um proletariado que, em poucos anos, procurou representação política (tal como também a massa de camponeses presentes no país)[31].

A política italiana, no entanto, era regida pelo “transformismo”, isto é, a cooptação de políticos de diversas matizes por meio de algumas concessões, mas que mantinham o jogo político intacto, preservando o poder político-econômico. O primeiro-ministro, Giolitti, foi o símbolo desse tipo de política, sempre preservando o poder nas mãos da aristocracia e da burguesia, e por outro, fazendo algumas concessões, como a extensão do voto a todos os homens. O jogo parlamentar italiano era dominado pela corrupção, tendo como consequência uma grande desconfiança por parte da população a respeito das instituições políticas do país.

Sob essas condições[32], um dos principais problemas da Itália nesse período, como também em outros países europeus, foi como integrar as massas na política, principalmente o proletariado urbano e o campesinato rural, já que, apesar da industrialização, a economia italiana ainda era subdesenvolvida.

Por tais razões, no final do século XIX, três forças políticas novas foram formadas, que seriam muito influentes nos anos seguintes: os socialistas, que se aglomerariam no Partido Socialista Italiano – PSI; os católicos, que formariam o Partido Popular Italiano – PPI, e os nacionalistas, em que uma parte aglomerar-se-ia em partidos da ordem e a outra em uma das correntes que formaria o fascismo.Ideólogos como Enrico Conradini eram um dos expoentes desse ultranacionalismo, para quem a Itália era uma “nação proletária” e que, tal como o Japão superaria as “nações” decadentes como França e Inglaterra. Outro intelectual era Giovanni Papini, que, inpirado no darwinismo social, cria na renovação nacional promovida pela guerra. Esse nacionalismo também levaria a fundação da ANI (Associação Nacionalista Italiana), donde sairia Alfredo Rocco, teórico do corporativismo fascista.


A situação política do país até 1914 permaneceria dominada pelo transformismo, apesar da emergência de novos movimentos e partidos.

No entanto, o país mudaria com a entrada da Itália na guerra: a mobilização da população para os esforços bélicos, as promessas feitas aos trabalhadores e camponeses por mais direitos (que não seriam realizadas), as aspirações territoriais (irredentismo) que não foram alcançadas (o que mobilizaria os ultra nacionalistas no pós-guerra) seriam fatores que desestabilizaram posteriormente o país. É necessário também mencionar a Revolução Russa em 1917, que serviria de inspiração ao Biênio Vermelho, período de revoltas e greves chefiado pela esquerda socialista entre 1919-20. Com o fim da guerra, uma crise econômica inflacionária eclode, tal como em outros países após a primeira guerra, devido a emissão de papéis pelo governo para financiar os esforços bélicos.

Além disso, outra crise, de natureza institucional instaura-se no país, após as eleições de 1919, quando os socialistas do PSI e os católicos do PPI, que se recusaram a formar um governo, e os partidos conservadores, em minoria, não conseguiram formar sozinhos um governo de coalizão. Suceder-se-iam diversos ministros até que Mussolini assumisse o poder. Esse conjunto de crises era o cenário ideal para tomada de poder pelos fascistas.

O movimento fascista – os Fascii Italiani di Combatimento – foi fundado em 23 de março de 1919, em Milão. Um pequeno grupo, por volta de 200 pessoas, cujo núcleo era composto por egrégios do movimento de vanguarda futuristas, os Arditi, (veteranos de guerra), e diversos grupos de revolucionários intervencionistas (isto é, que apoiaram a guerra), como sindicalistas revolucionários, ex-socialistas e anarquistas. O programa desse fascismo inicial pregava políticas que, aos olhos atuais, estão bem próximas da esquerda, como a proclamação da república, supressão do serviço militar obrigatório, educação e saúde públicas, taxação dos ricos, anticlericalismo (tema que permaneceria constante na ideologia dos fascistas mais radicais), etc.

O chefe desse movimento era Benito Mussolini, um ex-dirigente do PSI e ex-editor do jornal do partido, o Avanti. Hábil e oportunista, fora expulso do partido após apoiar a entrada da Itália na guerra, pois aclamava que a guerra aceleraria o processo revolucionário. Participando da guerra, quando é ferido, volta para casa convencido da necessidade de uma liderança forte, da violência, do sacrifício, enfim, da Vontade (em termos simples, da necessidade de se passar a ação) e de um regime com líderes fortes que possam “salvar a nação”. A guerra fornecera-lhe, ao seu ver, elementos concretos daquilo que leituras como Nietzsche, Sorel e Pareto haviam lhe proporcionado teoricamente. Mussolini inspirou-em também DD´Annunzio, poeta futurista e que, com tropas rebeldes, tomou Fiume, em 1919, hoje na Croácia- devido às tensões nacionalistas que se seguiram no pós-guerra. O governo de D´Annunzio em Fiume foi inspirador para o fascismo. As paradas militares, os discursos de D´Annunzio para o público, os desfiles de camisas pretas e sua tentativa de sintetizar, ideologicamente, aspectos das direita e da esquerda foram inspiradores para regime fascista. Esses traços ideológicos sedimentaram-se com o tempo, como podemos ver em um discurso de Mussolini sobre os temas centrais da ideologia do fascismo italiano, poucos anos depois da guerra:

“Nós criamos nosso mito. O mito é a fé, a paixão. Não é necessário que seja real; é real no sentido em que é um estímulo, é esperança, é fé, é coragem. Nosso mito é a nação, nosso mito é a grandeza da nação! E a esse mito, a essa grandeza, que nós queremos traduzir em realidade total, nós subordinamos toda a realidade. Para nós a nação não é só território, mas algo espiritual. Existem estados que tiveram territórios imensos e que não deixaram traços na história da humanidade. Não é só questão de tamanho, pois houve estados microscópicos que duraram pouco tempo na história, mas que legaram imortais e memoráveis espécimes de arte e filosofia[33]”.

Nas eleições de 1919, entretanto, o fascismo original, assim como Mussolini, fracassam, fazendo com que o movimento se movesse cada vez mais à direita, aproveitando-se, principalmente, da situação política do país.

Com o Biênio Vermelho, muitos proprietários de terra, donos de indústria e a pequena burguesia ficaram extremamente assustados e começaram a incentivar os Squadristi, composto de ex-combatentes, camponeses e filhos de grandes proprietários de terra (principalmente no campo), a destruir sindicatos e sedes dos socialistas e atacarem camponeses que invadiam suas terras, em um processo muito violento, com apoio velado da polícia e do exército. Esses Squadristti seriam incorporados pouco tempo depois ao movimento fascista, modificando a estrutura (agora grande parte dos membros eram pequenos proprietários e trabalhadores rurais) e o direcionamento político do movimento, cada vez mais à direita.

No congresso de 1920, o programa fascista passa por uma mudança radical e passa a propor políticas econômicas liberais, defesa de um estado forte que proibisse greves públicas, defesa da propriedade privada e adoção de uma política externa imperialista. Mussolini incorporou-os ao partido, ora incentivando a violência de seus asseclas, ora tentando controlá-los, limitando a barbárie violenta de seus grupos paramilitares.

Em 1921, o fascismo tinha se tornado um importante ator político na Itália, o qual ninguém poderia ignorar. Tentando dar um golpe de Estado, mas que na verdade foi um grande blefe, dado que o exército e a polícia possuíam forças superiores em número e em armas em comparação aos fascistas, Mussolini ordena aos seus Squadristti que marchem sobre Roma. Por tal feito, em 1922, o rei Victor Emanuel III autoriza, em seguida, a composição de um governo com Mussolini como primeiro ministro, junto com conservadores, liberais e católicos, que enxergavam em Mussolini aquele que poderia ajudar a resolver a crise institucional e política pela qual passava o país.

Entre 1922 e 1925, Mussolini e os fascistas administravam um governo em que o Estado liberal vai gradualmente se decompondo (até a promulgação das leis fascistas em 1925/6) tentando, de um lado, apaziguar os grupos que apoiam seu governo, liberais e conservadores, como também a burguesia, a igreja católica e os industriais, e, de outro, a base do partido fascista, que clama por uma segunda revolução: um estado ditatorial de partido único. Um exemplo dessa política de apaziguamento foi a nomeação de Alberto de Stefani, um economista liberal, para o ministério da economia, o qual, por sua vez, procurou de um lado, balancear o orçamento do governo e por outro reduzir as taxas que incidiam sobre industriais e bancos.

Em 1924, os fascistas ganharam a eleição em uma lista conjunta (“Listone”) com conservadores e liberais, o que fortaleceu o governo Mussolini, até que uma grave crise atingisse o mesmo governo, quando Giacomo Mateotti, dirigente do PSI, foi assassinado. Sendo pressionado por antifascistas e também por alguns conservadores e liberais que apoiavam seu governo, Mussolini hesitava em tomar responsabilidade pelo feito, até que, em janeiro de 1925, ele assume total responsabilidade pelo ato e anuncia a criação da ditadura. Daí a milícia fascista e a polícia atacaram opositores, fecharam sindicatos, organizações antifascistas, etc.

Ao longo de 1925-26 a ditadura fascista foi instaurada e legalizada, com a promulgação das leis fascistas, como a subordinação do legislativo ao executivo, proibição de partidos (exceto o Partido Nacional Fascista – PNF) e pena de morte àqueles que apresentassem perigo “à segurança do estado”[34]. Até 1929, ocorreria a consolidação da ditadura fascista, por meio da criação da política secreta e política Organizzazione per la Vigilanza e la Repressione dell’Antifascismo (OVRA), da destruição do sistema parlamentar, da implementação do sistema de corporações (que na prática só servira para eliminar a resistência operária e permitir que a burguesia operasse como antes), da promulgação das leis do trabalho (carta del lavoro), do acordo com o Vaticano (Pactos de Latrão), etc.

Outro fato a ser destacado nesse período é a subjugação do PNF a Mussolini, principalmente por meio da neutralização dos Ras (chefes dos Squadristti), desde através distribuição de cargos, como ao Ras Roberto Farinacci – que se tornou secretário-geral do PNF em 1925, até expulsão do partido. Além disso, perseguiu-se uma intervenção econômica crescente, como a estabilização da Lira e a procura por autarquia econômica, com a chamada “Batalha pelo Grão”. A partir de 1929 esse processo também se consolida com a depressão econômica, já que o Estado teve de intervir fortemente na economia lançando medidas como a criação do IRI, que comprava empresas quebradas e bancos com problemas financeiros (em 1938, o IRI possuía 18% do capital social das empresas do país) e a imposição de tarifas. Tudo isso permitiu, junto a outras medidas, que a Itália se recuperasse da crise econômica (apesar da estagnação do salário real na década de 30).

Com a consolidação do regime, perseguiu-se um caminho cada vez mais “totalitário”, isto é, no sentido estrito de tentar subjugar toda sociedade à ideologia fascista.A palavra totalitarismo foi pela primeira vez empregado por Mussolini em um discurso de 1925- o filósofo fascista, Giovanni Gentile, usava o termo com o significado de um sistema social que unisse os indivíduos e romperia o abismo entre líder e as massas-  pouco em comum com o conceito cunhado na década de 50. O partido agora, desde 1930, era dirigido por Achilles Starace, posto no lugar de Augusto Turati. Starace era totalmente subserviente a Mussolini — enfatizou o papel de líder do Duce a frente da Itália e ajudou na construção de mitos acerca de Mussolini e do fascismo, em detrimento da atividade política organizada o partido .


O regime empenhava-se em construir o consenso através da força, da propaganda e do culto à personalidade do Duce — “Mussolini tem sempre razão”, repetido sem cessar pela propaganda do regime é a expressão que caracteriza todo esse processo- o próprio esporte, como o futebol, era um dos foco de propaganda fascista.

A criação do consenso era feita desde a idade infantil, por meio de uma pedagogia fascista: criação das organizações de juventude como as Balila, criação de grupos universitários fascistas, obrigatoriedade dos professores de adentrarem em associações fascistas, etc.

Essa construção também se estendia aos adultos, principalmente em relação aos trabalhadores: a instituição de uma grande quantidade de atividades de lazer e socialização fascista por meio de uma organização destinada a cooptá-los após as horas de trabalho. Cada cidade e vila possuía um clube da Opera chamado Opera Nazionale Dopolavoro, onde havia uma pequena biblioteca, auditório para filmes e pequenas agências de turismo[35].

Os veículos de massa foram usados para produzir o consenso, como o rádio e o cinema (apesar de ser um processo menos intenso em comparação com a Alemanha nazista). O projeto ideológico fascista é criar um “homem novo”, que creia, obedeça, combata e contribua para a criação de um império-o mito da “Romanità” (“Romandade”), era característico disso. Não só servia para unificar o povo italiano além das divisões de classe, mas também para justificar sonhos de dominância sobre o Mediterrâneo.

A atividade imperialista foi outro fator que aumentou a popularidade do Duce e do fascismo: a invasão e conquista da Etiópia ( onde, tal como na Líbia, a ocupação italiana foi brutal: na Etiópia, os italianos cometeram crimes de guerra, como uso de gás mostarda, extermínio de civis, uso de campos de concetração,etc) , a qual marcou também uma política externa mais agressiva, que durou até o início da segunda guerra. Essa política externa imperialista concebida por Mussolini, transformou-o em mediador dos conflitos diplomáticos entre Alemanha, França e Inglaterra, em especial quando a Alemanha ameaçava invadir a Tchecoslováquia e anexar os Sudetos (o que se concretizou). Outro importante fato da política externa do período é que a Itália fascista apoiava uma grande quantidade de grupos fascistas e semi-fascistas na Europa, como as Heimwehr na Áustria, em uma tentativa de tanto criar uma internacional fascista quanto de compor uma gama de influência do fascismo italiano sobre outras nações.

No final da década de 30, Mussolini alinhava-se diplomaticamente cada vez mais da Alemanha nazista, inclusive mimetizando suas práticas internas nazista-, com o Pacto Anticominterm e com o Pacto de Aço, assinada com a Alemanha e Japão, que garantia a o apoio militar em caso de guerra contra um dos seus membros (além de, evidentemente, da criação do Eixo Roma-Berlin). A mais simbólica desse processo foi tornando a Itália um Estado antissemita: todos os judeus- 48.000 pessoas em 1938, a partir desse ano, foram oficialmente discriminados. O efeito prático disso foi menor que na Alemanha, já que muitos italianos não apoiavam essa política; muitos dentro do próprio partido eram contra: um em cada 3 judeus era membro do PNF na década de 30; Aldo Finzi, que tinha uma cadeira no Grande Conselho Fascista, era judeu.

É justamente a partir do início da segunda guerra que se iniciou a derrocada do regime. A Itália entrou tardiamente na guerra, em 1940, depois que a França já estava sendo derrotada pelos nazistas. Ela invade a Albânia e uma parte do sul da França, anexando tais territórios. Esse sucesso inicial leva Mussolini a invadir a Grécia em outubro de 1940, o que se mostra desastroso, devido a incompetência militar dos generais e do Duce, além da falta de equipamentos e do despreparo das tropas: 14.000 homens são mortos, 3000 desaparecem e outras dezenas de milhares são gravemente feridos, sem qualquer resultado militar crível. Os gregos foram derrotados somente com a ajuda dos alemães. As outras experiências fascistas na guerra são igualmente desastrosas, como as operações no norte da África. 

A vitória decisiva dos aliados contra a Itália dá-se na invasão da Sicília, em 10 de junho de 1943. Além das derrotas militares, internamente, os grupos que apoiavam o fascismo desde início do regime, já haviam se afastado desse, uma vez que grande parte do povo, do exército, da igreja, da burguesia e o próprio rei tentavam sair da guerra- as sucessivas derrotas quebraram a moral das tropas, além da escassez interna de produtos básicos . Além disso, a resistência antifascista crescia cada vez mais, tanto a ligada aos comunistas e socialistas, quanto a outros grupos que agora pregavam a derrubada do fascismo. Em 25 de julho de 1943, o conselho fascista, órgão consultivo criado em 1923 que reunia os dirigentes do PNF, cuja função era em geral propagandística, toma a decisão de retirar Mussolini da liderança e prendê-lo, a partir de uma moção de Dino Grandi.

Hitler não deixaria seu flanco sul sem defesa e, por isso, logo invade a Itália, resgatando Mussolini da prisão e dando-lhe, em teoria, o controle de um novo regime, que na prática, era uma mera marionete nas mãos dos alemães. Um novo partido fascista foi fundado: o PFR: em 1943, contava com 250,000 membros . O exército- na verdade, uma junção de alguns grupos do antigo exército, outros paramilitares e até gangues-de Salò era comandado pelo marechal Rodolfo Graziani. A República de Salò, como foi conhecida, formada pelos fascistas mais radicais e sanguinários, tentou restituir ideologicamente as forças originais do fascismo: o anticlericalismo, o anti-capitalismo, a ética irracional do sacrifício, o espírito guerreiro- os fascistas mais fanáticos aliaram-se a Mussolini, como Roberto Farinacci. No congresso de novembro de 1943, do novo Partido Fascista Republicano, foram aventadas propostas como estabelecimento de conselhos de operários em fábricas, criação de um judiciário independente, programa de nacionalização de empresas, etc . Tais aspirações não se realizaram, com exceção da extrema violência contra dissidentes e do antissemitismo virulento, provocando a deportação de  7000 judeus para campos de concentração. No período da república fascista, eclode, de fato, uma guerra civil na Itália, entre fascistas e nazistas de um lado, e antifascistas e aliados de outro. Ao contrário da Alemanha, cuja resistência ao nazismo fracassou, na Itália comunistas e não-comunistas uniram forças para lutar contra o fascismo. Tal união antifascista foi o cimento ideológico fundante da República Italiana no pós-guerra. O Regime e Mussolini conheceriam seu fim em 28 de abril, quando o Duce e sua amante, Clareta Petacci, foram capturados, fuzilados e seus corpos expostos na Piazza Loreto em Milão, tornando-se alvo da fúria popular.

[29] DE GRAND (2000); BERNSTEIN&MILZA (1980); BOSWORTH(2002) ;EATWELL (1995); TANNEBAUM (1970); PAYNE (1995); GENTILE (2002); PAYNE (1995); MORGAN (2003).
[30] CARSTEN, 1980, p. 17
[31] CARSTEN, 1980, p. 18
[32] DE GRAND, 200, p. 3-20
[33] MUSSOLINI, p.44 IN GRIFFIN, 1995
[34] GENTILE, 2002, p. 20
[35] IDEM, p. 33

HUNGRIA

Membros da Cruz Flechada fazendo saudação fascista.

A Hungria foi um país que, logo após a primeira guerra, fornecia as condições necessárias e suficientes para o desenvolvimento de um fascismo local:

  1. Perda de territórios – já que era uma pequena parte do antigo império austro-húngaro; após o acordo de paz em 1919, o país perdeu 53.5% de seu território- o que geraria demandas subsequentes por parte de nacionalistas pelo repatriamento das terras perdidas- restando somente 7,600,000 pessoas no país[36].
  2. O país foi palco de uma revolução socialista, chefiado por Béla Kun, em 1919. Ela seria derrotada pelo almirante Horthy com ajuda de exércitos romenos. Seguiu-se um período de brutalidade contrarrevolucionária, no qual pogroms foram feitos contra judeus e comunistas, cortes especiais julgaram e condenaram a morte ou a longas penas muitos revolucionários. Esses eventos enfraqueceriam a esquerda na Hungria até 1945, quando a URSS invadiu o país. Todos esses acontecimentos deixaram a burguesia e oligarquias rurais amedrontadas, o que as conduziu a apoiar movimento autoritários e de extrema direita.
  3. Uma crise econômica que se abateu sobre o país após a primeira guerra.

De todo modo, o regime político imposto ao país no pós-guerra foi um autoritarismo “moderado” (em comparação com o regime nazista, por exemplo), com eleições fraudadas, nas quais se alternavam liberais e conservadores – sendo que aos socialistas foi permitido participarem do pleito, mas negado aos comunistas (postos na ilegalidade). Além disso, a partir das leis eleitores de 1922, somente a 50 % da população era permitido votar. Chefiado pelo almirante Horthy e pelo primeiro ministro István Béthlen, o regime tornou-se menos repressivo e estável ao longo da década de 20, o que não possibilitou a tomada de poder por parte de um movimento fascista. Porém o antissemitismo na Hungria era muito difundido e aceito, tanto que leis antissemitas, como a restrição a judeus no serviço público e em repúblicas estudantis, foram promulgadas no governo Béthlen. Em 1936 seriam promulgadas leis semelhantes às Leis de Nuremberg.

Apesar disso, o exército era fortemente anticomunista, antiliberal e em grande parte fascista. O jovem oficialato era mais suscetível à cooptação por ideais extremistas: “o exército tornou-se um corpo separado do corpo político, e os oficiais consideravam-se destinados a salvar a nação”[37].

Das fileiras militares surgiram movimento extremistas como o MOVE- Associação de Defesa Nacional Húngara, formado por oficiais, de ideologia ultranacionalista e antissemita, liderado por Gyula Gömbos. Gömbos já sonhava em tomar o poder e realizar, tal como os fascistas italianos em Roma, a sua “marcha sobre Budapeste”. No entanto, o movimento permaneceu marginal durante esses anos.

Com a crise econômica na década de 30, a qual, na Hungria, foi causada pela queda dos preços agrícolas devido à ascensão do nazismo na Alemanha, o ambiente político interno tornou-se cada vez mais repressivo e autoritário. O primeiro-ministro Béthlen não agradava aos ultranacionalistas e antissemitas, pois seguiu as diretivas do tratado de paz de 1919 e tratava os judeus com leniência.

Diante dessa pressão, Gömbos tornou-se, na década de 30, primeiro-ministro. Mas, para o desapontamento de seus antigos companheiros fascistas, permaneceu mais ”moderado”, devido ao poder de Horthy. Gömbos nem dissolveu o parlamento, nem conseguiu se tornar ditador como o Mussolini (apesar das intenções de transformar a Hungria em uma ditadura fascista de partido único). Entretanto conseguiu impor medidas autoritárias, como restrições à liberdade de imprensa e pactuou, em secreto, com Göring, o estabelecimento de um sistema similar ao terceiro Reich no país. Esses planos falharam quando Gömbos faleceu em 1936.

Nesse ambiente emergiram diversos movimentos e partidos fascistas, dentre eles, a Cruz da Foice, liderada por Zoltán Bözörmeny, cujo programa era cópia do NSDAP de 1920; e o Partido Nacional Socialista Húngaro dos Trabalhadores e Camponeses, cujo emblema era uma suástica.

O partido fascista Cruz Flechada de Szálazi.

No entanto, o único deles a se tornar um movimento de massas foi a Cruz Flechada, liderado por Szálazi, um antigo oficial do exército Húngaro. Fundado em 1935, sua ideologia e princípios eram designados pelo epíteto “Hungarista”: um “socialismo” ultranacionalista, racista, antissemita, corporativista, que pretendia integrar as classes sociais em uma comunidade nacional; e imperialista, pois também ambicionava conquista a Eslováquia, Croácia, Eslovênia e outros países.

Tal sociedade, para Szalási, só seria possível por meio de uma guerra que introduziria um “cataclismo mítico”, culminando em uma ”nova ordem milenária”[38] liderada pelos húngaros. A ideologia do movimento apelava em especial aos trabalhadores: Szalási defendia o planejamento agrícola, transformação do proletariado rural em pequenos proprietários e a criação de cooperativas. Além disso, a economia seria dirigida por corporações, os bancos nacionalizados, o trabalho transformado em direito, enquanto as greves eram proibidas[39]. Filosoficamente, a visão de mundo de Szalási era fundamentalmente vitalista, aliada a um irracionalismo místico. Tudo isso pode ser atestado em suas próprias palavras:

“O Hungarismo é um sistema ideológico. É a prática húngara da visão socialista nacional do mundo e do espírito do tempo. Não o hitlerismo, nem o fascismo, nem o antissemitismo, mas Hungarismo. Assim, O Hungarismo significa socialismo, o afinar junto aos interesses morais, espirituais e materiais do Eu e do Nós. Tem como objetivo não a felicidade de indivíduos particulares privilegiados ou classes, mas a totalidade dos indivíduos e das classes. (…) O Hungarismo não é designado para um país mutilado, (…) nem para as necessidades do povo húngaro, mas para todos [que vivem] nos arredores do rio Danúbio, [em volta] das montanhas do Cárpato(…). O Hungarismo assegura a paz para os húngaros e para as nações vivendo aqui, a Pax Hungarica(…). O Socialismo nacionalista é o expert da paz, da paz de todos. Seu executor: a Nação. (..) ele, portanto, existe sem o judeu. (…) [devemos] solucionar a questão judaica, não de acordo com um “sistema estrangeiro”, (…) mas de acordo com nossas circunstâncias peculiares, nacionais e habilidades nacionais húngaras”[40].

Em outro escrito ele complementaria:

“Eu fui selecionado por uma autoridade divina para redimir o povo Magyar [etnia majoritária na Hungria]. Aquele que não me compreende ou perde confiança que se vá! No máximo, eu permanecerei sozinho, mas mesmo sozinho, eu criarei o Estado hungarista com a ajuda da força secreta que está dentro de mim!”[41]

Assim, em 1937, pouco tempo após a fundação do movimento, a Cruz Flechada uniu-se a diversos outros grupos fascistas, criando o “Movimento Nacional Socialista Húngaro Unido”. Em 1938, Szalási foi preso, o que contribuiu aos olhos do público para a criação de um mártir. Esses dois fatores, e o apoio material ideológico da Alemanha nazista, ajudaram a impulsionar o movimento. Estimativas vão de 200 até 300 mil militantes entre 1938 e 1939[42].

Pelas análises de historiadores, o movimento era composto de partes da pequena burguesia (artesãos, pensionistas, etc), partes diversas de elementos lumpem da sociedade – muitos indivíduos que haviam cometidos crimes não políticos (roubo, assassinato, etc) – e também do proletariado urbano e trabalhadores rurais. Quanto aos líderes do movimento, eram geralmente provenientes de meios militares e/ou servidores públicos.

Em 1939, os Nacional-socialistas húngaros obtiveram, oficialmente, na última eleição antes da guerra, 25 % dos votos, o que lhes garantiu 1/5 das cadeiras do parlamento caíram nas mãos dos fascistas. Grande parte dos votos, refletindo em parte a composição do partido, vieram do proletariado urbano, de trabalhadores rurais, mineiros e funcionários públicos. Parte disso se explica pela impossibilidade dos socialdemocrats organizarem essas categorias, devido à proibição governamental após 1920[43].

Apesar disso, o partido não conseguiu se aproximar do poder. A legião falhou em grande parte, pois a crise econômica já arrefecera e também porque o próprio governo conservador Húngaro começou a impor medidas que foram propostas pelos fascistas, como restrições aos direitos dos judeus, aproximação diplomática com os nazistas, entre outras, o que, por fim, enfraqueceu o movimento de Szalási. Outro acontecimento importante foi a cessão de territórios perdidos devido aos tratados de paz de 1919, os tratados de Viena, de 1939, arbitrados pelos nazistas e por fascistas italianos. Isso permitiu a re-anexação de parte da Eslováquia, da Tchecoslováquia, e do norte da Transilvânia, na Romênia[44] — um dos objetivos da doutrina da Cruz Flechada. Dessa maneira, o Movimento perderia militantes a partir de 1941.

Até 1944 não houve nenhum acontecimento que favoreceu os fascistas, até que o próprio Hitler ordenasse a invasão da Hungria para conter o avanço soviético, colocando Szalási no controle do regime. Porém, uma vez no poder, ele não queria se tornar uma marionete nas mãos dos nazistas. Em abril de 44, encontrando-se com um emissário alemão, informou-o que governaria em seus próprios termos. Restaria à Alemanha aceitar o programa do movimento, em que os ministérios chave seriam por ele escolhidos[45]. Além disso, ele se recusava a abandonar suas atividades literárias: mesmo em guerra, devotava grande parte de seu tempo a escrever seu livro sobre a ideologia hungarista[46]. Essa intransigência, falta de praticidade e de saber político contribuiu para que o seu curto regime sofresse cisões internas e imobilismos.

A Hungria rendeu-se aos soviéticos em abril de 45. Szalási e seus asseclas fugiram e adentraram no território alemão. Após o fim da guerra foi condenado e executado por seus crimes de guerra[47]. O regime de Szalási foi curto, mas violento, já que, como colaboracionista dos nazistas, contribuiu para o extermínio de centenas de milhares judeus húngaros.

Referências

[36] CARSTEN, 1980, p. 171
[37] IDEM, p. 172
[38] PAYNE,1995, p. 272
[39] CARSTEN, 1980, p. 177
[40] SZALÁSI in WEBER, p. 157-61
[41] SZALÁSI APUD DÉAK, 1965, p..388-9
[42] LACKÓ, 1980, p. 396
[43] MORGAN, 2003, p. 80
[44] IDEM, p. 81
[45] CARSTEN, 1980, p. 180
[46] PAYNE, 1995, p. 420
[47] IDEM

IUGOSLÁVIA

O ditador croata Ante Pavelić vai até a casa do ditador Adolf Hitler, em Berchtesgaden, Alemanha (1941).

A Iugoslávia era formada por diversas repúblicas, cada uma contendo uma etnia majoritária diferente, como sérvios, bósnios, eslovenos, etc. Após a primeira guerra, a Iugoslávia se torna uma República, porém, devido ao caráter fragmentário do Estado iugoslavo, foi muito difícil a formação de coalizões, prejudicando o sistema parlamentar. Isso fortaleceu, por outro lado, os partidos e organizações nacionalistas, em sua maior parte de direita, caso da Organização Nacionalista da Iugoslávia (ORJUNA), Clube Acadêmico Iusgoslavo (YAK), entre outros. No entanto, somente na Croácia um movimento fascista conseguiu se fortalecer.

Em 1929, o rei iugoslavo imporia sua ditadura, a qual terminaria apenas com sua morte, em 1934. Seguiu-se um regime parlamentarista, mas pouco democrático. Uma das razões para isso foi a estreita relação com a Alemanha nazista, dado que a crise econômica que se abalou sobre o país nos anos 30 foi superada por meio de acordos comerciais com essa ditadura, chegando a corresponder 50% do comércio exterior.

Soldado do temido grupo fascista Ustashi segurando a cabeça de um sérvio.
Soldado do temido grupo fascista Ustashi segurando a cabeça de um sérvio.

Dentre os movimentos fascistas mais importantes desse período se destacaram o ZBOR de Lyotic, na Sérvia, e o Ustashi, de Anton Pavélic, na Croácia. O ZBOR (convenção), o qual alguns autores classificam como autoritária ou proto-fascista (mas não fascista), tinha a ideologia baseada no Führerprinzip, no corporativismo, e foi fundado sobre uma hierarquia rígida. Não teve sucesso em eleições parlamentares, ganhando apenas 0.86% dos votos em 1935 e, em 1938, 1.01%. Quando a Alemanha ocupou a Iugoslávia, o ZBOR apoiou os nazistas, contribuindo desde com soldados para lutar no front e contra o exército partisan de Tito, até com policiais para a repressão interna.

O Ustashi (“insurgente”) foi criado em 1929 e, apesar da ideologia nacionalista croata, tentou angariar apoio de outros movimentos separatistas iugoslavos. Ele recrutou seus primeiros seguidores na Itália, onde muitos imigrantes iugoslavos habitavam, contando com apoio financeiro de Mussolini. O grupo, mesmo que pequeno durante a década de 30 e organizacionalmente mais parecido com uma sociedade secreta[48], era muito ambicioso: foi responsável, junto com os separatistas macedônicos, pela morte do rei Alexandre.

Em 1937, Mussolini cortaria os fundos do Ustashi e também seu apoio bélico, jogando Pavélic na prisão e enviando seus companheiros para as ilhas de Lipari[49]. No entanto, eles foram depois liberados e, durante a segunda guerra, por ordens de Hitler, o Ustashi governou o país, logo após os alemães terem deposto os militares, os quais governavam o país também após um golpe. Antes de chegarem ao poder, o Ustashi contribuiu para inflamar o debate interno no país, tentando culpabilizar os “inimigos internos”, judeus e sérvios, pelos problemas[50].

A ideologia ustashi era um ultranacionalismo místico, no qual a Croácia seria a “parede defensiva do ocidente cristão, primeiro contra os nômades orientais, depois contra os invasores turcos, e contra a tirania “oriental” eslava e o comunismo”[51]. Além disso, o movimento tornou-se plenamente antissemita por influência nazista, apesar de não conter o elemento anticapitalista do NSDAP. A ideologia ustashi era herdeira de um partido nacionalista do século XIX, o Partido da Pura Direita, que defendia a criação de um estado croata[52].

Quanto ao recrutamento, o Ustashi angariava seus membros em extratos pobres da população urbana, mas muitos estudantes, intelectuais e membros do clero também faziam parte do movimento (seminários e escolas da igreja eram locais de forte concentração de apoiadores do Ustashi); já os camponeses eram pouco representativos. Partes do clero, inclusive, tal como na Eslováquia, foram funcionários do Estado Ustahi e estavam entre os ideólogos do partido[53]. No entanto, o Ustashi não era um regime, tal como o Hlinka na Eslováquia, clérico-fascista, uma vez que a facção secular era dominante[54].

Logo que tomaram o poder, a Croácia se tornou uma ditadura de partido único na qual a violência étnica era constante. Em pouco tempo, milhares de pessoas de etnia sérvia seriam expulsas ou exterminadas – aproximadamente 250.000 pessoas foram mortas. Além disso, o Ustashi promoveu a sua própria versão da solução final, sem que houvesse ordens de Berlim, exterminando milhares de judeus. No fim, seus membros foram derrotados pelos partisans iugoslavos de Tito, os quais executaram por volta de 50.000 fascistas.

Referências

[48] BERNSTEIN&MILZA,2015, p. 429
[49] IDEM
[50] AVACUMOVIC, 1970, p.140
[51] IBIDEM, p. 405
[52] JELINEK, 1980, p. 370
[53] IDEM, p. 371
[54] IDEM

ROMÊNIA

À direita: os fascistas romenos General Antonescu e Horia Sima (líder da Guarda de Gvozdene).

A Romênia, mesmo no início do século XX, era um país predominantemente agrário, subdesenvolvido, com poucas indústrias e formado majoritariamente por camponeses de etnia romena e uma pequena classe média e burguesia, as quais, em sua maior parte, ou eram estrangeiras ou judaicas (4.2% da população). Tal configuração das classes mais abastadas, fez muitos trabalhadores rurais identificarem a exploração econômica com o judaísmo . Essa associação seria uma das muitas feitas que contribuíram para o antissemitismo na Romênia (mesmo muito antes disso, o antissemitismo já era presente na população, quando os senhores de terra romenos se utilizavam de judeus para cobrar taxas e administrar suas propriedades)[55].

Após a primeira guerra, a Romênia encontrou-se em uma situação na qual seus territórios aumentaram, tornando-se um estado multiétnico, incorporando diversas novas etnias- húngaros, russos, ucranianos, etc. De acordo com estatísticas oficiais da época, 70% da população era de etnia romena, a segunda maior, de húngaros, com 9%, no norte da Transilvânia (região anexada após 1919); seguidos por judeus, com 5% do total e de alemães, com menos de 5% do total da população[56].

O sistema político romeno, antes de 1918, era dominado por dois partidos, no qual se intercambiavam no poder, ora Liberais, ora Conservadores. Extremamente corrupto, não atendia às demandas históricas dos camponeses, como a reforma agrária. Após 1918, houve algumas mudanças[57]. A demanda por reforma agrária seria parcialmente atendida em 1920, quando Averescu, primeiro-ministro do Partido Popular, tentou realiza-la — essa demanda dos camponeses é importante para entender o apoio de muitos ao fascismo nativo. Em 1923, foi promulgada uma constituição democrática, que permitiu, durante uma década, a formação de coalizões, tendo o partido dos Camponeses sido o único a governar em um período democrático antes de 1989.

Além disso, a Romênia fazia fronteira com a recém-constituída União Soviética, o que era percebido por muitos romenos tanto como uma ameaça a sua soberania, quanto também como uma potencial ameaça interna, já que muitos trabalhadores foram influenciados pela revolução bolchevique.

A Legião do Arcanjo Gabriel contra o demônio.

O ultranacionalismo e o fascismo romeno desenvolveram-se sob essas condições. Um dos primeiros movimentos ultranacionalistas que surgiu no início do século foi o Partido Nacional Democrata, fundado por Iorga e Cuza. Este era um professor de economia política da faculdade de Iasi. A solução dos problemas políticos do país para Cuza baseava-se na expulsão de judeus e estrangeiros do país. Cuza também era anti-liberal e antidemocrata, mas defendia a necessidade de uma reforma agrária[58]. Um de seus alunos foi Corneliu Codreanu, que seria o fundador da Legião do Arcanjo Gabriel, movimento fascista romeno mais forte no entre-guerras.

A Legião, que surgira em 1927 na Universidade de Iasi, sob a liderança de Corneliu Codreanu, era produto da cisão da Liga da Defesa Cristã Nacional, movimento direitista, antissemita e nacionalista, da qual faziam parte Codreanu, seu pai e Cuza. O programa da Liga, seguindo o pensamento de Cuza, era, fundamentalmente, a exclusão dos judeus do serviço público, do exército e das universidades, eliminação dos partidos, entre outras medidas extremamente autoritárias.

Assim, a Liga absorveu ao longo dos anos uma miríade de pequenos grupos fascistas que surgiam nas universidades[59]. A Legião no início era extremamente elitista, para poucos era permitido a entrada no movimento. Só que, para alcançar o poder, isso seria um empecilho. Então Codreanu fundou, com tal intenção, em 1930, a Guarda de Ferro, um movimento cuja finalidade era lutar contra “o comunismo judeu”[60], tendo a Legião como centro diretor de tal organização. Inicialmente, o movimento era muito pequeno, mas já na eleição de 1931 conseguiu 73.000 votos. A ideologia legionária era muito sedutora para uma massa de camponeses empobrecidos, desejosos de mudança e também infectados por um virulento antissemitismo.

A legião do Arcanjo Gabriel seguiria o projeto ideológico da Liga, radicalizando-o, mesmo que sem contornos claros. A ideologia do movimento era, de todo modo, uma mistura de um ultranacionalismo antiliberal e anticomunista, de um fundamentalismo (e misticismo) cristão-ortodoxo e de um antissemitismo virulento; por fim, era fundada em um mito de regeneração nacional com objetivo de criar um novo homem (omul nou em romeno)[61], que, em muito, apelava aos camponeses. A legião defendia a violência não só como meio, mas também como fim: o martírio pela pátria e pela Legião, mesmo que a custa da danação eterna na crença cristã, era a maior honra que um legionário poderia prestar ao movimento.

Por conta disso, mesmo para um movimento fascista, a legião era incrivelmente mórbida, praticamente um culto da morte[62]. Muito disso pode ser atestado nas palavras de Codreanu, quando ele relatava o início do movimento:

“esse grupo de jovens [em 1927] era o início da vida legionária. (…) ele tinha de ser colocado em chão sólido. [Mas] eu não construí um programa político novo, além dos outros dez presentes na Romênia. (…). Todos acreditam que o país está morrendo por falta de bons programas. (…) [na verdade] o país está morrendo por falta de homens, não de programas. É isso que eu penso. Portanto, não são programas que precisam ser criados, mas homens, novos homens. Pois da maneira em que homens hoje são sobrecarregados com politicagem e infestados pela influência judia, eles são destinados a comprometer programas políticos brilhantes. (…) . É por isso que o fundamento das legiões é o homem; não os programas políticos(…). Dessa escola dos legionários um novo homem deve aparecer, um homem com qualidades heroicas. Um gigante em nossa história que lutará e vencerá todos os inimigos da pátria, sua luta e sua vitória estendendo-se além, até os inimigos invisíveis, até o poder do Mal. As melhores almas que nossas mentes podem conceber, (…), os mais corajosos e mais empenhados que nossa raça pode produzir, isso é que as escolas legionárias devem produzir! Um homem no qual todas as possibilidades da grandeza humana que Deus semeou no sangue do nosso povo devem ser desenvolvidas até o máximo. (…)”[63].

Além disso, o Führerprinzip (princípio do chefe) era outra pedra fundamental na ideologia da Legião: Codreanu era o chefe, ao qual todos deviam obedecer cegamente. Seus Seguidores proclamavam: “ele, nós amamos; a ele, escutamos; estamos a suas ordens; Ele é a esperança e a esperança da Romênia de amanhã. Nós somos fortes através dele. Nós somos temidos através dele. Nós venceremos através dele”[64].

Assim, o movimento cresceu muito na década de 30, apesar de sua proibição e posterior retorno a legalidade, mesmo em um ambiente cada vez menos democrático. Em 1933 ela possuía 28.000 membros, chegando, no final de 1937, a 200.000 membros. De acordo com estimativas de historiadores, a maior parte de seus militantes, apesar de sua ideologia direcionada aos camponeses, eram estudantes e militantes de classe média, como burocratas estatais, profissionais liberais, etc[65]. Na eleição de 1937, em união com o partido dos Camponeses Nacionais, obtiveram, mesmo sendo uma eleição fraudada, 15,58% dos votos (posteriormente se soube que o percentual real era de 25%).

A legião tornou-se o terceiro maior partido do país obtendo votos de regiões agrárias e em que possuíam minorias étnicas, dado seu apelo xenófobo e antissemita direcionado ao campesinato[66]. O ambiente político mudou no país quando o rei Carol dissolvera o parlamento e todos os partidos políticos em fevereiro de 1938, criando também, na tentativa de cooptar muitos fascistas, o Front do Renascimento Nacional. Codreanu dissolveria a Legião logo em seguida.

No entanto, a Legião sofreria um grande golpe em 30 de novembro de 1938, quando Codreanu e outros 13 chefes foram executados pelo governo, sob a alegação de terrorismo e de cooperação com inimigos externos. Muito sangue correu, em ambos os lados, sendo que alguns legionários se exilaram na Alemanha.

Mas a Legião não perderia força, mesmo sob a ditadura do rei Carol. O seguinte fato contribuiu para isso: devido a perda da Transilvânia para a Hungria, a cessão da Bessarábia e outras região à URSS, e outros territórios à Bulgária, por determinação alemã, em 1940, o governo do rei Carol, derrotado pela desmembramento do país, cairia, tendo o rei e sua família deixado o país poucos dias depois. Um novo governo foi estabelecido, chefiado por Antonescu, um ultranacionalista radical e germanófilo. O governo ditatorial foi exercido com apoio da legião, agora liderada por Horia Sima, em uma espécie de diarquia entre o movimento e o próprio Antonescu. Apesar de não ser a maioria no governo, a influência da Legião seria extensa.

No entanto, nesse ínterim, muitos militantes enxergaram aí a oportunidade para acertos de contas pessoais e para “arrecadar” fundos para uso pessoal. A polícia dos legionários matou e torturou muitas pessoas, confiscando suas propriedades e obrigando-os a vendê-las aos próprios legionários a preços irrisórios. Esse tipo de conduta, e a cada vez maior fricção entre Horia Sima e Antonescu, levaria a um inevitável conflito[67]. Em 21 de janeiro de 1941, Horia Sima ordenou que Antonescu se retirasse do cargo e lhe entregasse em seguida, provocando uma revolta liderada pelos legionários. A luta durou dois dias e a Legião foi dizimada pelas tropas governamentais. Antonescu agora possuía plenos poderes e seguiu como aliado de Hitler.

Tal regime, uma ditadura de direita autoritária, mas não fascista, aliado da Alemanha nazista, promoveu um genocídio em terras romenas: 200.000 a 300.000 judeus foram exterminados por soldados e policiais romenos. A ditadura de Antonescu também chegou a enviar tropas para combater os soviéticos, contudo ela desmoronou quando a URSS invadiu a Romênia.

Referências

[55] CARSTEN, 1980, p 181
[56] IDEM
[57] PAYNE, 1995, p. 135
[58] CARSTEN, 1980, p. 1982
[59] IDEM, p. 184
[60] IDEM, p. 187
[61] PAYNE, 1995, p.281.
[62] IDEM, p. 280
[63] CODREANU, p. 168-9 IN WEBER, 1964,
[64] WEBER, 1965, p. 532
[65] BARBU, 1980, p. 390
[66] IDEM, p. 392
[67] CARSTEN, 1980 p. 190-1

TCHECOSLOVÁQUIA

O eslovaco Alexander Mach, comandante da Hlinka, e o alemão Wilhelm Frick, Ministro do Interior, em um encontro na Alemanha (1942).

A Tchecoslováquia, no período entre guerras, era uma democracia razoavelmente consolidada e uma nação formada por três etnias: os tchecos, os eslovacos e os alemães. Estes residiam em sua maior parte na fronteira com a Alemanha (os Sudetos), uma região anexada à Tchecoslováquia devido aos tratados de paz no pós-primeira guerra. Sob tais condições, desenvolveram-se (ou não) movimentos e partidos fascistas.

Na Eslováquia, a região rural mais pobre do país, formou-se um partido inicialmente reacionário católico, o Partido do Povo Eslovaco de Hlinka, formado em sua maioria por camponeses e integrantes do clero eslovaco, que era apoiado pela burguesia das pequenas cidades. Conseguiu ter 30 % dos votos na região eslovaca em 1936.[68]

Um pouco antes da invasão da Alemanha, em 1938, a ala fascista do partido tomara o poder e, “fascistizando” o partido, entregou-se o poder ao padre Monsenhor Tiso. Tal partido governou a Eslováquia como um governo subordinado à Alemanha nazista. Durante a segunda guerra, após a partição da Tchecoslováquia, a constituição do estado reconhecia sua base na “lei divina” e declarava ser parte da “comunidade cristã nacional ”[69].

O regime formado na Eslováquia é considerado por estudiosos do fascismo[70] como clérico-fascista, com similaridades aos regimes de Franco e Salazar[71], pois aqui o clero participava do governo: o presidente era um padre e seu politburo era formado por muitos membros do clero. Padres e freis chefiavam organizações estatais estudantis e de jovens, coordenavam indústrias e firmas, além de interferirem politicamente na questão dos costumes, como na questão sobre o casamento. Cada setor do regime era composto por padres, freis, bispos, etc. Tal governo contribuiu tanto para os esforços de guerra contra os aliados quanto para o holocausto.

Já na parte alemã, vários grupos, movimentos e organizações fascistas surgiram na década de 20, sendo que o mais importante foi o Partido dos Sudetos Alemães (região fronteiriça com a Alemanha), abertamente nazista (Goebbels discursou, em 1930, em um encontro do partido, em Praga[72]) que chegou a obter 85% dos votos na região em maio de 1938 . O partido foi incorporado ao NSDAP após a invasão alemã.

Por fim, na região tcheca, os movimentos fascistas não tiveram tanto sucesso, como foi o caso do Campo Nacional Tcheco (Vlajka), inspirado pelo fascismo italiano e pró-nazista, que obteve uma votação de 2% em 1932 e chegou a ter 30.000 membros por volta de 1939; ou também o NOF, Liga Fascista Nacional, liderado pelo general Gajda, antinazista, anticomunista, mas também antissemita. Sua finalidade era destruir o comunismo e formar um estado pan-eslavo, do qual também uma eventual Rússia não comunista poderia fazer parte[73]. O insucesso deveu-se ao desenvolvimento econômico da região tcheca e de forte apoio à democracia nessa parte do país .

Referências

[68] PAYNE, 1995, p. 402-3
[69] IDEM, p. 403
[70] JELINEK, 1980, p.367-70
[71] PAYNE, 1995, p. 402
[72] HAVRÁNEK, 1970, p. 53
[73] PAYNE, 1995, p. 309

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