Será que a Ditadura Militar foi apenas militar? Entenda por que esse termo é insuficiente.

Longe de ser apenas militar, a ditadura, do período de 64 a 85, contou com o apoio de parte da sociedade civil e com o financiamento do empresariado.

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Ditadura Militar. Será que é correto definir um regime autoritário, que contou com o apoio de parte da sociedade civil e do empresariado, apenas de Ditadura Militar? Em uma das questões do ENEM de 2016, sobre a Operação Condor, a expressão Ditadura Civil-Militar apareceu para descrever o período ditatorial que vivemos entre 64 e 85, e isso não foi pouca coisa, considerando que durante todo o ensino médio, as provas do ENEM são usadas como parâmetro central de ensino dentro das salas de aulas.

Apesar dessa questão provocar uma longa discussão na Academia, é cada vez mais aceito que o termo “Ditadura Militar” pouco explica o período.



Por que o termo “Ditadura Militar” é insuficiente?

O termo “Ditadura Militar” não explica muita coisa, pois colocar todo o processo ditatorial na conta dos militares nos dá a impressão de que o exército saiu dos quartéis por conta própria, tomou o poder e impôs um regime cruel e violento a toda a sociedade, como se por meio dos canhões eles tivessem sequestrado o Brasil. Isso é uma inverdade, já que, apesar dos militares terem formado a linha de frente da ditadura, ela foi amplamente articulada, financiada e implementada pela elite civil brasileira, apoiada por parte da classe média e fortemente influenciada por setores do governo dos EUA.


Os principais atores Civis do Golpe

A Imprensa

Carro de entregas da Folha de São Paulo que serviu à ditadura.

O Globo, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, principais jornais da época, passaram o último governo do João Goulart, dia após dia, criando um clima de terrorismo em relação ao seu governo. O jornal dos Marinhos era o mais radical: em seus editoriais dizia que Jango pretendia implantar uma República Sindicalista no Brasil, que o governo era formado por comunistas ligados à URSS, além das habituais acusações de corrupção. Aproveitando-se do clima de Guerra Fria da época, a imprensa brasileira (colonizada pelos EUA) conseguiu se valer do discurso Macartista para demolir um governo nacionalista.

Para saber mais

• MACHADO, Juremir – Golpe Midiatico-Civil


A Igreja Católica (1)

Confira também
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Padre Payton, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo.

A Igreja Católica brasileira, assim como o exército, era um campo de luta de tendências politicas das mais variadas vertentes (típico do clima efervescente da época). O “baixo clero”, formado principalmente de Freis e Padres, eram influenciados pela Teologia da Libertação (corrente anticapitalista católica) e formavam movimentos de luta radicais contra o capitalismo/imperialismo. Destacam-se a Ação Católica, JUC e a JEC; em contrapartida o “alto clero” brasileiro era conservador e boa parte dele anticomunista ferrenho, mas a CNBB evitou se envolver em questões politicas até 1963, quando desembarcava no Brasil o Padre Patrick Payton.

Payton era um agente da CIA e organizou as Marchas com Deus pela Liberdade. Como se sabe hoje, Payton veio ao Brasil para criar a impressão de uma “Base Social”, na tentativa de legitimar o regime ditatorial então vigente. E conseguiu! (2)

Para saber mais

Sobre a relação da Igreja com o Golpe:

• Frei Betto – Igreja Católica e o Golpe de 1964

• Sobre a atuação do Padre Payton no golpe:
Jornal GGN – A relação de Patrick Peyton com a ditadura militar


Os Empresários (3)

Itaú, Bradesco, Ultragaz, Listas Telefônicas Brasileiras, Light, Cruzeiro do Sul, Refinaria e Exploração de Petróleo União, inúmeras empreiteiras, entre outras parcelas da burguesia brasileira, apoiaram e foram amplamente beneficiados pela Ditadura Militar (Itaú e Bradesco, por exemplo, tornaram-se esses monstros financeiros que são hoje muito em função das benesses que receberam durante a ditadura).

Boilesen no centro, financiador da ditadura; e Delfim à direita, signatário do AI-5.

O caso mais conhecido de empresários ligados à ditadura foi o do presidente do grupo Ultra, Albert Hening Boilesen. O grupo Ultra foi um grande beneficiado da ditadura, recebendo incentivos fiscais e vantagens em vendas governamentais, para que o grupo, nos dias de hoje, praticamente monopolizasse a distribuição de gás doméstico no Brasil. Mas a relação do grupo com a Ditadura foi além, o seu presidente era figura conhecida nos porões da ditadura, conferindo pessoalmente torturas e assassinatos de presos políticos durante o regime.


Conclusão

Mais do que nunca, o uso do termo Ditadura Civil-Militar é importantíssimo nos dias de hoje. Vivemos um processo de golpe de Estado, no qual praticamente os mesmos atores civis de 64 estão presentes. O futuro é incerto, podemos estar a caminho de uma ditadura nos moldes de 64 sem a liderança dos militares, porém com os mesmos personagens civis de 64.

Para saber mais

• Sobre os empresários da ditadura:
História Viva – A face civil da ditadura militar
• Vídeo (Youtube): Documentário Cidadão Boilesen

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