Capa: Alexandre, o Grande, no Templo de Jerusalém, de Sebastiano Conca.

De acordo com a História, qual seria a legitimidade do Estado de Israel?

Os defensores do Estado de Israel costumam apelar a um "direito histórico" para legitimar sua existência. Porém, será que os fatos históricos confirmam essa narrativa? Confira.

Quando surge a questão sobre a Palestina, algumas pessoas, ao serem confrontadas com a condição de ocupação por parte de Israel, costumam dizer que todas as condenações internacionais (de países e de organizações multilaterais) estão erradas; que Israel tem todo o direito de tomar aquelas terras, porque nunca houve um Estado Nacional da Palestina.



Contudo… também nunca houve um Estado Nacional de Israel antes de 1948. Diante deste fato, o que esses defensores do Estado de Israel costumam dizer? Que existe um direito histórico essencial legitimando a fundação de um Estado Étnico Judaico ali. A história chancela tal pretexto? Vejamos.

O Reino de Israel, que se conhece como “Antiga Monarquia Unida”, antes da separação com Judá, que é tão afamada e mencionada, não era absolutamente uma Nação Judaica – o que se infere pelo fato de se ter formado depois um “Reino de Judá”. [1] A antiga monarquia unida, que se desintegrou no reinado de Roboão, era uma caldeira multiétnica, cujas linhagens de identidade tribais se perderam na história após a conquista feita pelo Império Assírio, que promoveu uma deportação em massa em 720 a.C. Não incluía Jerusalém e outras terras sul-palestinas.

Posteriormente o pequeno Reino do Sul, judaico, ruiu em 586 pela tomada babilônica, e mesmo então, não havia se formado o que viria a ser conhecido como “judaísmo”; há que se ressaltar que apenas a elite havia sido deportada.

Até então vimos que não há como se reportar ao “antigo Israel” qualquer justificativa para o sionismo moderno.

Houve um restabelecimento judaíta (empregamos este nome para enfatizar o lado identitário não necessariamente se referindo a religião do judaísmo) no período da colonização persa (a Pérsia foi um império que sucedeu a Babilônia), desta vez não mais se constituindo como um reino, mas como uma província vassala de hierarquia política aristocrata-sacerdotal, dentro de um espaço de apenas 1.100 km². Nela houve mudanças sociais e econômicas substanciais: os clãs são desfeitos e a base social passa a ser constituída pela família nuclear; e a unidade econômica fundamental passa a ser a Satrapia persa, contudo não muito difundida com capilaridade na sociedade.

Decorreram depois as conquistas por parte de Alexandre, o Grande, instaurando uma política colonial relativamente tolerante com a cultura judaíta até a morte deste, em 332 a. C. Seguidamente se conflagrou um período de sangrenta disputa entre os sucessores helênicos de Alexandre, os “Diádocos”, até o domínio ptolemaico por 103 anos, quando Ptolomeu, em 312 a. C., tomou Jerusalém. Em seu reinado, um imenso número de judeus são deportados e passam a viver no Egito, com uma comunidade relativamente autônoma, dotada de um líder próprio, o “etnarca”. Outro governante sucessor da disputa, Selêuco, domina a “Síria Côncava”, abrangendo a Síria e a Fenícia, e a Palestina.

O sobrinho do sumo-sacerdote judeu Onias II, José, designado como chefe do povo, consegue obter do Rei Ptolomeu em 242 a.C o direito de recolher impostos na região.

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Em 167 a. C., explode a insurreição judaica da família dos Macabeus. Nesse ínterim, dentro da disputa de poder entre os judeus, um dos sucessores dos macabeus, Simão Hircano procede a judaização forçada da cidade helenística de Gazara e, em 141 a.C., obtém a província da Judeia, aliando-se logo depois com Esparta e Roma. Seu filho João prossegue com a judaização forçada das cidades palestinas de Mádaba, Samega, Siquém, Adora, Marisa, a Idumeia. Devido aos massacres e genocídios, ocorre a ruptura entre os judeus; entre saduceus, fariseus, hassidins – de onde descendeu posteriormente os essênios -, outros grupos menores e aristocracias volúveis. Alexandre Janeu, uma autoridade judaica pró-saduceu, depois é constituído rei e sumo sacerdote. A viúva Salomé Alexandra coopta os fariseus. Após massacres contínuos nas disputas ensandecidas por poder teocrático, Roma intervém e Pompeu impõe a “pax romana” em 63 a.C.

Em 47 a.C., na Síria, César confere o título de etnarca a Hircano II, sumo-sacerdote, sobre a Judeia; Antípater, torna-se procônsul. Fasael estratego de Jerusalém e Herodes, da Galileia. De 37 a 4 a.C., a Palestina e seus povos, entre eles os judeus, passam a ficar sob o jugo da dinastia dos asmoneus e Herodes governa a Judeia. Com sua morte, Herodes Antipas – por 43 anos – governa a Galileia e Pereia, Arquelau Tetrarca – por 12 anos -, Judeia e Samaria. Arquelau é deposto por Augusto em 6 d.C. e a região passa a ser comandada por procuradores romanos.

Do período entre 66 d.C. até 73, ocorre a revolta judaica contra a Roma do imperador Vespasiano, a qual foi dominada e dispersada pelo general Tito. Entre 115 até 117 d.C. eclode outra revolta contra a Roma de Trajano, dando origem à Guerra de Kitos. Os revoltosos são derrotados pelo general Lúsio Quieto. Entre 130-135, mais uma revolta ocorre, desta vez contra a Roma de Adriano, também massacrada pelo General Julio Severo. Adriano desde então “desjudaiza” Jerusalém de vez. Em regiões dos arredores, judeus senhores de terra reorganizam a identidade judaica em torno de um dos núcleos da identidade que existia antes, o núcleo farisaico.

Destruição do Templo de Jerusalém por Tito, de Francesco Hayez.

A partir do século IV depois de Cristo, a Palestina torna-se terra bizantina. Judeus conviveram na região, ainda que não em condições de cidadania plena; até que, tendo apoiado a invasão persa no início do século VII com promessas de maior status posterior, judeus foram em sua maioria expulsos e grande parte foi para a Pérsia.

Décadas depois o califa Omar conquista a região, dividindo-a em Jordânia e a Palestina (Filastin), tendo Ramallah como capital no século VIII. Perto do ano 1000 os cruzados tomam Jerusalém; pouco mais de 400 anos depois, os otomanos conquistam toda a Palestina.

Quando os europeus finalmente retomaram as regiões ibéricas que estavam sob domínio muçulmano e o povo de Al-Andalus foi embora, com eles foram os judeus, assim como os cristãos ortodoxos-orientais, nestorianos, monofisistas, etc., por ali serem aceitos e poderem viver em paz, o que não ocorria na Europa “judaico-cristã”. A reconquista cristã de Andaluz levou à destruição das comunidades judias que haviam se estabelecido por lá. Istambul e outras cidades do Império Otomano receberam sobretudo sefaraditas, e o mais criativo centro de pensamento místico judeu foi Safed, na Palestina. Isaac Luria, no século XVI, foi um grande pensador que formou escolas da Cabala. Por séculos essa região da Palestina abrigou muitos cristãos e também judeus fugidos de perseguições antissemitas.

O antigo reino judaíta não se confunde com o antigo reino de Israel

As comunidades judaicas e as cristãs pagavam a captação e possuíam seus próprios sistemas legais de lei pessoal, desde que assegurando lealdade ao governo. Este reconhecia, nas províncias e na capital, um chefe espiritual de cada comunidade como tendo certa jurisdição legal e responsável pela coleta do jizva e pela manutenção da ordem. Não possuíam os mesmos direitos políticos que tinham os muçulmanos, porém eram protegidos pelo estatuto da Dhmmis; pagavam proporcionalmente um pouco mais de tributos, mas podiam ascender. Judeus eram importantes no serviço financeiro, administravam fazendas fiscais, muitos eram artesãos e negociantes de metais preciosos.

No fim do século XVII, os gregos tornaram-se os intérpretes principais no gabinete do grão-vizir e no de governadores de algumas províncias, além de atuarem no comércio marítimo. Os armênios, no de seda persa. Já os cristãos eram importantes como intermediários e distribuidores no comércio com a Europa, e os coptas eram contadores, administradores de funcionários e donos de fazendas fiscais no Egito. Judeus e cristãos pertenciam a “cemaats” dos espaços públicos, das artes e do comércio.

A maioria dos judeus no mundo se compõe de descendentes de povos semitas da região da antiga Canaã, mas há um número significativo com ascendência do leste europeu, que têm parentesco com os Khazars, descendentes dos Unos, e não semítica; inclusive muitos tem como idioma natal o Ídiche. Também há os que descendem de convertidos do reino de Hymar, no atual Iêmen; de povos do Magreb e nômades bérberes.

Na metade do século XIX, houvera os movimentos sionistas modernos, se dividindo mais ou menos entre o Sionismo Político, Sionismo Trabalhista ou de esquerda, Sionismo Cultural e a subdivisão Espiritual. Não havia consenso algum sobre como, onde e por que se constituiria um estado judaico, como se definiria ao certo a identidade e quais seriam as feições, mas todos concordavam que devia haver uma pátria judaica. Por muito tempo não se sabia o nome, Israel não era o mais comum a ser proposto, como o era “Sião”.

O jornalista Theodor Herzl

Um dos pioneiros na liderança do moderno movimento político sionista, Theodor Herzl, em 1896 escreveu em “O Estado dos Judeus” algo que deixava a arbitrariedade exposta:

“Vamos escolher a Palestina ou a Argentina? Devemos aceitar o que nos for dado, e o que for selecionado pela opinião pública judaica”. [2]

Na época, no VI Congresso Sionista, além da Argentina, houve um debate sobre a forte possibilidade de ser Uganda, mas prevaleceu a posição de aceitar a proposta britânica de colonização no leste africano. A ideia de ser na Palestina cresceu com a compra de terras por parte de proprietários turcos ausentes, que queriam se livrar de encrenca com a Grã-Bretanha.

Sobre este processo, Ahad Ha’am, judeu líder da vertente do sionismo conhecida como “espiritual”, após uma visita à Palestina em 1891, declarou:

“Do exterior, estamos acostumados a acreditar que Eretz Israel hoje em dia é quase totalmente desolada, um deserto inculto, e que qualquer um que deseje comprar terra lá pode chegar e comprar tudo o que quiser. Mas, na verdade, não é assim (…) Do exterior estamos acostumados a acreditar que os árabes são todos uns selvagens do deserto, como jumentos, que não veem nem entendem o que se passa ao redor. Mas isso é um grande erro. Os árabes, como todos os filhos de Sem, têm um intelecto aguçado e são muito astutos.

(…) se chegar o dia em que a vida de nossa gente em Eretz Israel desenvolver-se a ponto de usurpar a população nativa, eles não vão entregar o lugar facilmente. (…) Devemos tomar cuidado para não despertar a raiva de outros povos contra nós por conduta repreensível. O quanto mais devemos tomar cuidado, portanto, com nossa conduta em relação a um povo estrangeiro entre o qual viveremos de novo, para convivermos com nosso amor e respeito, e, desnecessário dizer, justiça e retidão?

E o que fazem nossos irmãos em Eretz Israel? Exatamente o contrário! Eram escravos na terra de seu exílio e, de repente veem-se com liberdade ilimitada. (…) Essa mudança súbita gerou neles um impulso para despotismo, como sempre acontece quando ‘um escravo torna-se rei’, e vejam que se portam com hostilidade e crueldade com os árabes, usurpando-os de modo injusto.” [3]

Referências:

[1] Cognitive Perspectives on Israelite Identity 
[2] The Jewish State, Dover Publications, 1988, p. 95 
[3] Much ado about little: Ahad Ha’am’s Truth from Eretz Israel, zionism and the Arabs, Alan Dowty. Israel studies, 5:2(2000), pp.161-75.

Para saber mais

DA SILVA, A. J. Os instrumentos da helenização. Estudos Bíblicos, Petrópolis, n. 61, p. 23-37, 1999.
DONNER, H. História de Israel e dos Povos Vizinhos I-II. 6. ed. São Leopoldo: Sinodal/EST, 2014.
FINKELSTEIN, N. Zionist orientations, Scandinavian Journal of Development Alternatives. Stockholm. 9 (March 1990) 1. p. 41-69
FISK, R. A Grande Guerra pela Civilização. Rio, Planeta, 2007.
LEWIS, D. L.. O Islã e a formação da Europa, de 570 a 1215. Barueri: Amarilys, 2010.
MAZAR, A. Arqueologia na terra da Bíblia: 10.000 – 586 a.C. São Paulo: Paulinas, 2009.
SMALLWOOD, E. (2001). The Jews Under Roman Rule: From Pompey to Diocletian : A Study in Political Relations. Brill Academic Publishers.

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