E se a América nunca tivesse sido invadida pelos europeus?

A chegada dos europeus na América interrompeu o processo civilizatório de várias etnias nativas locais. Como esses povos e os ecossistemas desse continente estariam hoje sem essa brutal interferência?

13.059

Muitos não sabem, mas a América foi descoberta há milhares de anos, algo entre 15 e 18 mil anos, sendo que este número ainda não é consenso, pois existem evidências de atividades humanas na América há 48 mil anos.

Alguns acreditam que o primeiro contato veio com a passagem pelo estreito de Bering, outros dizem que os Aborígines Australianos – muito provavelmente de barco – vieram antes através do Oceano Pacífico, isso com base no estudo da linhagem de parentesco dos ameríndios.

Apesar de tantas teorias sobre o assunto e nada muito conclusivo, é um fato que os europeus não foram aqueles quem descobriram o continente. Apenas milhares de anos depois, eles vieram e tomaram o espaço, modificando a cultura, a política, a fauna e flora. Fica a dúvida de como seria a América se nada disso tivesse acontecido.

Impacto na natureza

Puma Concolor do Leste está oficialmente extinto nos EUA.

Uma das maiores consequências da invasão na América foi sem dúvida o impacto natural que as matas e fauna tiveram durante os últimos 500 anos. Os nativos, diferente do povo europeu, tinham uma grande ligação espiritual com a natureza material, tanto com os animais quanto com a mata, para eles, a harmonia do universo dependia do equilíbrio da fauna como um todo. Por isso boa parte das tribos era nômades ou seminômades, não viviam sempre em um único local, exatamente para não prejudicar aquele ambiente, a crença de não sobrecarregar os lugares e utilizar deles só o necessário a subsistência da tribo.

Hoje em dia boa parte da fauna de toda América está comprometida, provavelmente um desastre irreparável. Logo após a invasão houvera grandes políticas de desmatamento que só foram ser reconhecidas como prejudiciais ainda recentemente com o avanço de movimentos ambientais. Se não tivesse acontecido invasão, com as medidas que os indígenas tomavam sobre a natureza, provavelmente teríamos bem mais de 12,5% da mata Atlântica que restou hoje. Muito disso pode estar relacionado ao agronegócio, que em uma única década, foi capaz de desmatar pelo menos 70% das florestas da América Latina.

Além do impacto na mata, também sofreram os animais que aqui viviam, como o lendário Puma concolor do leste e a Araraúna. Sabe-se que a América Latina teve a maior perda de espécies nas últimas décadas, cerca de 80% das espécies totais de peixes, aves, mamíferos, anfíbios e répteis, as maiores causas estão ligadas a caça excessiva e ao deterioramento do seu habitat – por vezes ligado mais uma vez ao agronegócio.

O respeito que os nativos tinham pelos animais também era uma forma de manter os animais fora de qualquer tipo de perigo, boa parte dos animais eram sagrados, alguns chegando a serem totens de determinadas culturas.

Uma grande gama diversa de espécies de animais, foi trocada por milhões de cabeças de gado (ultrapassando em número a própria população humana de determinadas regiões, como o Brasil) que não são capazes nem de alimentar o próprio povo.

Demografia nativa

[masterslider id=”12″]
A grande Tenochtitlan, de Diego Rivera

Hoje em dia se estima a existência de cerca de 45 milhões de ameríndios segundo a ONU, sendo que no Brasil atualmente existem cerca de 900 mil. Mas quanto era esse número antes da invasão?

Confira também
1 de 16

Existem muitas controvérsias quanto aos números, entretanto há um consenso de que existiam cerca de 100 milhões de indígenas por todo território americano. No Brasil que se estimava cerca de 5 milhões, hoje restam apenas 1/5 deste total. O maior genocídio indígena provavelmente aconteceu nos Estados Unidos, onde cerca de 23 milhões de nativos foram exterminados na famosa “Marcha para o Oeste”, e hoje só restaram 2 milhões. A maior concentração está na América central com cerca de 17 milhões no México.

Pouco antes da chegada dos europeus, na cordilheira dos Andes vivia uma das maiores civilização do mundo na época, com de pelo menos 14 milhões de pessoas. Para se ter uma ideia, na mesma época a Inglaterra tinha uma população de 3,5 milhões de habitantes, só no século XIX que ela atingiria a mesma marca que os Incas.

Apesar de nos parecer distante, o genocídio indígena ainda não acabou, muitos ainda são assassinados a sangue frio, ou ainda por pressões políticas e mudanças culturais. Como já vimos aqui no artigo “Anomia Social”, a forma como a sociedade se organiza pode causar doenças como depressão, ansiedade e estresse, levando o sujeito ao suicídio por vezes. Essa é a realidade para muitos ameríndios brasileiros, que ao contrário da tendência mundial do crescimento da expectativa de vida, no caso deles, há na verdade um decrescimento, só entre 1993 e 1995, a expectativa de vida dos índios no país diminuiu 5,6 anos. A Organização das Nações Unidas já manifestou-se a respeito do assunto, mostrando que deve ser levado com extrema seriedade.

A sociedade e cultura ameríndia

Muitos não sabem mas existiam acontecimentos, conflitos e guerras entre os povos indígenas antes da chegada dos europeus. Como por exemplo a Guerra dos dois irmãos, Huascar e Atahualpa pelo domínio do Império Inca. Também se sabe que os Maias e os Astecas viviam envoltos de conflitos e guerras. Eventos como estes, se tivessem continuidade, poderiam ter mudado todo o rumo da história desse continente.

Existem vestígios de que os Incas muito provavelmente estiveram no Brasil, um destes vestígios é o Caminho do Peabiru, que são espécies de trilhas com 1,4 metros de largura pavimentadas com pedra, que ligava Cusco(Peru) a Florianópolis(Brasil). Essa rota teve grande importância para as migrações indígenas e na circulação de mercadorias. Segundo o arqueólogo Heinz Budweg, a forma como as pedras foram talhadas, indicam que foram trabalhadas com ferramentas de metal, o tipo de tecnologia que não era usada pelos indígenas brasileiros, mas era algo que os Incas dominavam muito bem.

[masterslider id=”11″]
O Caminho de Peabiru

Recentemente foi encontrado também o que se acredita ser um “altar Inca” em Roraima, alguns pesquisadores dizem que o local era um antigo santuário. Também foi possível encontrar monumentos e artefatos semelhantes como crianças mumificadas em território argentino.

O Caminho de Peabiru e outros artefatos e monumentos mostra como o Império Inca estava em expansão grande por toda a América. Em meados de 1430, o Império Inca não passava de 70 km², em 1533(na sua dissolução) esse território tinha aumentado 27 vezes. Para se ter uma ideia, a cada 10 anos os Incas expandiam um território do tamanho do estado do Paraná. Se continuasse no mesmo ritmo, chegaria no Brasil ainda no século XIV, e no século XVIII já teria boa parte do território Brasileiro. Esse sucesso se dá pela organização do seu exército de 12 mil guerreiros bem treinados e especializados, diferente dos demais exércitos que não tinham a guerra como uma vocação.

Caso esse sucesso do Império tivesse continuado por mais tempo, muito provavelmente o impacto entre essas diversas culturas ameríndias teria um resultado bem diferente do que vemos hoje em dia.

Arte de JJasso
Deixe o seu comentário