A Globo é conservadora ou progressista? Seu histórico de 50 anos responde

A Globo desagrada tanto a esquerda como setores conservadores da direita, o que gera uma discussão sobre o que de fato ela é politicamente, mas tal dúvida é facilmente esclarecida observando o histórico dessa emissora.

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O advento das redes sociais foi fato determinante no estabelecimento da intensa polarização política que estamos submetidos atualmente. Ambos fatores subsequentes, por sua vez, trouxeram à tona diversas discussões que ainda limitam-se ao campo da especulação. Uma das principais delas está relacionada ao viés ideológico das linhas editoriais jornalísticas dos conglomerados de mídia do país, em especial do mais influente deles: as Organizações Globo.

A direita, em especial a conservadora, diz que se trata de um veículo “esquerdista”, baseando-se em suas novelas que possuem temas progressistas nos costumes. Já a esquerda a acusa de ser reacionária, pelo seu apoio ao regime militar e à linha editorial do seu jornalismo, considerada pela esquerda como neoliberal. Afinal, quem tem razão? A Globo possui de fato um posicionamento político ou é mesmo imparcial, como costuma dizer quando confrontada com essas acusações? Uma breve viagem pela história do grupo da família Marinho irá esclarecer tais dúvidas que provocam debates acalorados na web.



A mão amiga da ditadura no nascimento da TV Globo

Roberto Marinho, Castello Branco e Manuel Bandeira (09/10/1964).

Na década de 1940, Roberto Marinho já era detentor da Rádio Globo e do jornal O Globo, o que garantiu ao seu periódico poder e alcance suficientes para, ao lado do O Estado de São Paulo e do Correio da Manhã, mover campanhas contra a nacionalização do petróleo, na década de 1950. O apoio da maioria das empresas jornalísticas e de radiodifusão à aliança conservadora foi, inclusive, fundamental na definição daquele período histórico.

Na década seguinte, o impacto da força do grupo carioca pôde ser notado por meio de sua conspiração para derrubar o governo de João Goulart. Ao lado de partidos políticos de direita, grupos militares, setores conservadores da Igreja Católica, empresários, além de outros órgãos de imprensa, como o jornal Folha de São Paulo, compôs uma frente contrária às reformas de base propostas por Jango e esteve atuante na campanha contra seu governo e as entidades de esquerda em geral.

A esta altura, apesar da grande influência perpetrada pelo conglomerado no cenário político do país, ainda faltava a peça central do aparato midiático da Família Marinho: um canal de televisão. Não obstante, após a queda de Jango, esse quadro logo mudaria de figura.

Logo da Time-Life e o arranha-céu da empresa ao fundo (à esquerda), em Nova Iorque.

Antes de ser consumado o golpe, em 1962, a Globo já havia, no entanto, assinado um contrato no valor de cinco milhões de dólares com a Time-Life, grupo estadunidense da linha mais retrógrada do Partido Republicano, exclusivamente interessado na instalação de bases anticomunistas em países periféricos, caso do Brasil. O conservadorismo da Time-Life chegava ao ponto de se opor ao presidente Franklin Roosevelt em plena Segunda Guerra Mundial, já que o grupo era contra os Estados Unidos entrarem na guerra contra Hitler.

Foi com esta empresa que a Globo se uniu para viabilizar a inauguração de sua emissora de TV. Contudo, a transação entre esses dois grupos de mídia, descumpria o artigo 160 da Constituição vigente, a qual, na época, proibia a presença de capital estrangeiro em mídia proveniente de concessão estatal. E foi justamente devido a essa ilegalidade que o tal contrato só entraria em vigor após a tomada do poder pelos militares.

A ditadura militar tinha interesse na expansão de pelo menos uma grande empresa de telecomunicações para a mesma legitimar ideologicamente o regime. Por isso, quando foi aberta, em 1965, a CPI que investigou as ligações Globo/Time-Life, na qual chegou até a surgir um parecer da Divisão Jurídica do Conselho Nacional de Telecomunicações (CONTEL), pedindo a cassação da Globo, o então presidente general Castelo Branco, não permitiu o CONTEL tomar a decisão que o próprio adotou. A CPI condenou a Globo, mas o marechal Costa e Silva a legalizou. Isto é, manteve o parecer favorável ao acolhimento da representação da Globo contra a decisão do CONTEL, já emitido para Castelo Branco que, por sua vez, concedeu o aval para a ilícita parceria entre conglomerado brasileiro e um grupo da extrema-direita estadunidense.

A partir daí a Globo assumia esse papel de relações públicas da ditadura, tão requisitado pelos generais. Contudo, para que a propaganda do regime alcançasse o objetivo esperado, era necessário um telejornal forte. Para tanto foi criado o Jornal Nacional, que nasceu e floresceu sob o signo da ditadura militar aos auspícios da logomarca do “Milagre Brasileiro”. Construiu, em sua imagem, um Brasil Novo, homogeneizado. A admiração do general Emílio Garrastazu Médici pelo telejornal era tão grande que certa vez chegou a declarar: “Sinto-me feliz, todas as noites, quando ligo a televisão, para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em vários países do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho.”

Apreço este justificável, pois nele Médici era tratado como um democrata e a tortura sequer existia. Sem falar na absoluta submissão à censura imposta pelo regime, à qual se sujeitou o veículo. Em seu livro de memórias, o ex-diretor-geral da emissora, Walter Clark, admite a proximidade entre a linha ideológica da ditadura civil-militar e o Brasil que se assistia nas telas da Globo.

Ao mesmo tempo, o veículo mais tradicional do grupo, o jornal O Globo, também reforçava a campanha de apoio à ditadura civil-militar. É o que atesta a análise das manchetes e dos editoriais de primeira página dos anos de 1969 e 1970, anos de maior autoritarismo do regime. Com a vigência do AI-5, o Congresso foi temporariamente fechado e houve o uso sistemático da tortura contra opositores políticos. No período, até os aniversários do golpe eram sempre comemorados pelo periódico.

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Nesta mesma época, além da esquerda, outro grande adversário de O Globo era constituído por aqueles que denunciavam a tortura no país. Também foram frequentes editoriais e manchetes de primeira página contra os grupos anti-tortura. É preciso observar que o jornal e os demais veículos das Organizações Globo afastavam-se da conjuntura vivida no país. Não havia participação política e claramente o regime não era “democrático”. Basta lembrar que o Congresso havia sido fechado em certas ocasiões e que os deputados de linha mais crítica tinham seus mandatos cassados. O AI-5 estava em plena vigência, dando amplos poderes ao presidente da República. Pequenas críticas poderiam significar prisões e tortura. Não por acaso, a “Worldmark Encyclopedia The Nations”, conhecida enciclopédia editada pela Worldmark Press Inc., classificou o O Globo como “órgão conservador subsidiado pelos Estados Unidos”.

Em 1979, após o Globo Repórter ter um documentário sobre a greve dos metalúrgicos do ABC vetado pelo próprio presidente da empresa e de uma cobertura parcial e tendenciosa do Jornal Nacional a respeito desse movimento, os personagens destas manifestações insurgiram-se contra os repórteres da emissora. Foi nesse contexto que surgiu o bordão “o povo não é bobo, abaixo a Rede Globo”.

Ocorreu também o Caso Proconsult. A Globo tentou fraudar o resultado eleitoral, de 1982, quando Brizola e Moreira Franco disputavam a governo do Rio de Janeiro. Um empregado da emissora, o matemático Osvaldo de Souza, conhecido nos anos 70 por fazer cálculos de probabilidade de acerto na loteria esportiva e que inicialmente apontou a vitória de Moreira Franco, diante das denúncias de Brizola recuou, mudando sua previsão para um empate. Brizola venceu com uma diferença de mais de 178 mil votos.

Depois, em 1984, as Organizações Globo ignoraram a campanha das Diretas Já até o penúltimo comício. O Jornal Nacional chegou a, inclusive, noticiar um dos atos que reuniu 300 mil pessoas como “festa de comemoração do aniversário de São Paulo”.

Herança maldita na Era Democrática

A ditadura chegava ao fim, mas isso não significaria um enfraquecimento do grupo da tradicional família carioca. As empresas de Marinho haviam ampliado sua influência política e ideológica durante o regime fardado e continuariam a ser o principal conglomerado midiático no “período democrático”.

Lula e Leonel Brizola, como líderes da oposição, não possuíam voz na Globo. Não podiam aparecer. Eram falados, mas não falavam. Durante o governo de José Sarney, quando a inflação batia o teto dos 80% ao mês, o Jornal Nacional conseguia produzir a legitimação do seu governo. Divulgava-a como rendimento da Caderneta de Poupança.

Logo na primeira eleição direta da Nova República, a Rede Globo exibiu uma edição fraudulenta do debate entre os candidatos Collor e Lula. Os melhores momentos do governador de Alagoas foram unidos aos piores do petista em uma manipulação grosseira. Isso, mais tarde, foi reconhecido e assumido por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho ou simplesmente Boni, discípulo de Walter Clark e considerado como o mais importante arquiteto da emissora carioca.

Enquanto isso, no Rio de Janeiro, a rivalidade entre Brizola e o Roberto Marinho se acirrava. Em 1992, Brizola fora acusado num editorial do O Globo de estar em “declínio da saúde mental” e em “deprimente inaptidão administrativa”, por ter se oposto ao monopólio da Globo na cobertura do Carnaval carioca como resposta ao boicote da emissora à Passarela do Samba. Brizola recorreu judicialmente e, em 15 de março de 1994, conseguiu um direito de resposta no telejornal de maior audiência da Globo e do Brasil, o Jornal Nacional. A resposta de Brizola foi lida pelo âncora do jornal da época Cid Moreira, tendo que dizer, visivelmente constrangido, que “Tudo na Globo é tendencioso e manipulado. Não reconheço à Globo autoridade em matéria de liberdade de Imprensa, e, basta, para isso, olhar a sua longa e cordial convivência com os regimes autoritários e com a ditadura, de 20 anos, que dominou o nosso país”.

Em 1994, conforme o então ministro Rubens Ricúpero declarou em suas famosas confissões, o apoio à candidatura de Fernando Henrique Cardoso era dado de forma indireta, por meio da promoção do novo pacote anti-inflacionário do governo, o Plano Real. E em 1998 a TV Globo colaborou para a reeleição de FHC, eliminando a campanha de seus noticiários – em especial do Jornal Nacional, o mais importante deles –, o que ia ao encontro da estratégia oficial de esvaziamento do debate público, de negação da existência de alternativas e de transformação do pleito em um simples ritual de recondução do presidente ao cargo.

Quatro anos depois, em 2002, o principal noticiário da Rede Globo, de fato, avançou na direção de um tratamento mais equânime dos diversos candidatos, sobretudo, em comparação com as eleições anteriores. Contudo, a eleição passou da quase invisibilidade para a visibilidade quase absoluta. Foi realizado um debate com os quatro principais candidatos logo antes do primeiro turno e outro com os dois finalistas, às vésperas do segundo, ao passo que, em 1998, não foi realizado nenhum debate televisionado com os postulantes à Presidência da República.

Recentemente, em 2013, o comentarista Arnaldo Jabor chegou a declarar no Jornal da Globo que os manifestantes do Movimento Passe Livre eram burros, rancorosos e que sequer sabiam “pelo que lutar”. Concluiu que não valiam “nem 20 centavos”. Porém, quando percebeu que as manifestações poderiam ser cooptadas pela direita, prontamente se retratou e passou a endossá-las. É possível também constatar a influência da emissora carioca na cobertura dos protestos envoltos ao impeachment de Dilma Rousseff. Os atos favoráveis à deposição da presidente recebiam cobertura maciça, enquanto os que se manifestavam contrariamente eram, simplesmente, ignorados. Como já é de praxe, o jornal O Globo, por sua vez, defendeu o impeachment por meio de seus famigerados editoriais. Já neste ano, até no editorial que reivindicou a renúncia de Michel Temer, o periódico da família Marinho deixou claro sua posição favorável às reformas do peemedebista que atacam os direitos dos mais pobres e dos trabalhadores.

Conclusão

Arte de Mark Bryan.

O esforço da Globo para garantir a expressão dos interesses de seus proprietários, entretanto, não impede que nela se manifeste uma série de processos difíceis de controlar integralmente, como o espírito crítico do jornalista, do radialista, do artista, enfim, dos diversos profissionais que lá trabalham. Seja por uma questão de mercado, seja pela combatividade dos profissionais, a Globo é obrigada a tolerar, ou mesmo a engolir, certas ocorrências que contrariam a filiação ideológica de seus proprietários. Isso explica por que na Globo passam filmes política e ideologicamente importantes e por que em certas notícias, ou até mesmo em certas novelas, surjam momentos de contradição. Mas é preciso reconhecer que, num sentido global  aproveitando o trocadilho  o que predomina, o que transparece na Globo, é a ideologia das classes dominantes.

Referências

ARÊAS, J. B. As Organizações Globo e a Ditadura Civil-Militar. Comissão da Verdade. Rio de Janeiro.
CONTATO, A. C. F. As transformações do telejornalismo brasileiro e a influência da ditadura militar na televisão nas décadas de 1960 e 197O. ENCOI. Londrina: UEL, 2014.
FILHO L. L. Quarenta anos depois, a TV brasileira ainda guarda as marcas da ditadura. Revista USP. São Paulo: 2004.
HERZ, D. A história secreta da Rede Globo. Rio Grande do Sul: Tchê!, 1989.
MIGUEL, L. F. A eleição visível: a Rede Globo descobre a política em 2002. 2003, vol.46, n.2
RAMOS, R. J. e FREITAS F. L. Rede Globo de Televisão: 50 anos – a integração cultural e ideológica. Revista Altejor. Porto Alegre: PUC, 2015
Globo News – Boni confessa manipulação do debate Lula x Collor
Noblat – Não faltam provas para o impeachment de Dilma
O Globo – Editorial: A hora de Temer
O Globo – Apressar impeachment não fere direito de defesa
O Globo – Editorial: A Renúncia do Presidente
Arnaldo Jabor – Duas faces de Arnaldo Jabor sobre as manifestações

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