Novos estudos sobre o Holocausto ajudam a entender melhor o extremismo político

Estudos de historiadores como Snyder sugerem que não estamos tão distantes assim do renascimento do fascismo. E o neoliberalismo tem muito a ver com isso.


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Introdução: o paradoxo do extremismo

Na pequena foto que o filho de Wanda J. guarda em seu apartamento de Varsóvia, ela irradia autoconfiança, qualidade que foi de muita valia durante a Segunda Guerra Mundial e a ocupação da Polônia pelos alemães. Ela perdeu o marido no fim da guerra, mas salvou os dois meninos do casal e a si mesma. Quando o gueto de Varsóvia foi criado, desafiou as ordens dos alemãs e impediu que a família fosse para lá. Denunciada no lado ariano de Varsóvia, usou de toda a sua lábia. Mudava os filhos de casa em casa, contando com a ajudar de amigos, conhecidos e estranhos. Quando as instituições foram destruídas ou distorcidas em decorrência da invasão alemã, quando o gueto e depois o resto da cidade de Varsóvia viraram cinzas, o que importava, segundo ela, era o instinto moral irrepreensível e a bondade humana elementar das pessoas que preferiram ajudar os judeus. (Timothy Snyder)



“A exigência de que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação”, dizia o filósofo Theodor Adorno poucos anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Desde então, o nazifascismo é um dos fenômenos políticos mais estudados ao redor do mundo. A despeito de ser muito estudado, possuindo uma miríade de explicações e aspectos a serem compreendidos, mas não de uma forma que chegue a formar uma unidade, dada a sua complexidade e relevância, ressignificadas ao longo dos anos, ele ainda é um tema difícil. Nada mais natural. Afinal, não é fácil entender como a Alemanha, um dos símbolos do iluminismo ocidental, sucumbiu ao obscurantismo do regime mais perverso do século XX. O paradoxo é evidente e difícil de explicar: a nação de Kant, Goethe e Schopenhauer é a mesma do Holocausto.

Adorno disse que a tarefa da educação é impedir que Auschwitz se repita, porém, a terra do Holocausto não era de iletrados obtusos. Muito pelo contrário. Se o Holocausto foi tão terrível, foi em função do nível técnico que o país havia alcançado. Portanto, para impedir que barbaridades desse tipo se repitam, é necessário, em primeiro lugar, entender como tragédias assim foram possíveis. Para isso, é necessário tirar Auschwitz do centro dos debates.

Entender o extremismo político não é tarefa simples. O problema se torna ainda mais complexo quando percebemos que visões equivocadas, simplistas continuam circulando e sendo estimuladas por motivos políticos e ideológicos. Nesse caso, não se trata apenas de uma leitura equivocada da história. Não perceber a dinâmica do radicalismo político acaba criando as condições para o seu florescimento.

Uma posição bastante difundida na internet é a da chamada “Escola Austríaca”. Essa corrente, que alimenta centenas de “think tanks” (instituições ou organizações que difundem ideologia) ao redor do mundo, é a principal responsável pela caricatura do totalitarismo. O totalitarismo, tal como tem sido criticado por estes intelectuais, seria estruturado por meio de um Estado forte, controlador e opressor. Seria a vitória total do governo sobre o indivíduo. Duvida que isso seja possível? Auschwitz está aí para lembrar-te deste risco. Já faz algumas décadas, porém, que os historiadores mostram o simplismo dessa tese.

Novos estudos sobre o Holocausto, como o inovador trabalho do historiador Timothy Snyder, tem demonstrado que não estamos tão distantes assim do mundo de Hitler. O perigo do extremismo é real, mas estamos olhando na direção errada. Há mais semelhanças entre o discurso ortodoxo da globalização e o nazismo do que pode parecer numa análise mais superficial. Nossa postura em relação ao Holocausto precisa ser revista, caso realmente desejemos que Auschwitz não se repita.

As promessas não cumpridas da modernidade como antecedente do extremismo.

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Da segunda metade do século XVIII até 1929 o liberalismo fora a ideologia predominante no esforço de explicar e justificar a realidade. Os economistas E. K. Hunt e J. Sherman dividem o credo liberal em três esferas: psicológica, econômica e política.

O credo psicológico, por sua vez, é agrupado em quatro pressupostos:

1) o homem é egoísta por natureza;
2) ele é frio e calculista;
3) ele é essencialmente inerte;
4) é atomista.

Os liberais adotaram o conceito de Hobbes sobre o ser humano, o qual ele dizia ser essencialmente egoísta, baseando-se na situação da guerra civil inglesa que ele vivenciou.  Os liberais também viam o indivíduo como um ser unicamente racional, sua busca pela autossatisfação seria a atitude esperada de um ser pensante que está no mundo sem um objetivo pré-determinado. Na literatura, o romance de Robinson Crusoé é uma expressão idealizada desse mesmo homem. O que acontece é que os liberais olham a própria sociedade, o próprio homem que é produto dessa sociedade, e vêem ele como natural, e não como alguém socialmente formado para ser egoísta, perseguir a autossatisfação, etc.; falta empiria, sobra abstração nos liberais.

A ética utilitarista é resultado dessas convicções. Para autores como Bentham a Mill, o homem estaria submetido a duas autoridades soberanas: dor e prazer. A ação individual, pois, seria resultado de um cálculo lógico em que o sujeito busca maximizar seu prazer e mitigar suas dores.

Da moral utilitarista nasce a noção do homem como inerte. Ou seja, caso não houvesse estímulos exteriores como “dor” e “prazer”, ele simplesmente não agiria. Outros afetos como altruísmo, solidariedade, piedade, compaixão ou misericórdia ficam em segundo plano.

O atomismo é o último traço da psicologia liberal. O homo economicus seria a única realidade fundamental. Noções como “sociedade, classe, nação, gênero” etc, seriam apenas abstrações. “Não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos.”  (Margareth Thatcher).

Desses pressupostos éticos, sobretudo em relação ao egoísmo, é que nascem as concepções econômicas. Neste aspecto, os liberais deram um salto em relação às teorias de Hobbes. Para autores como Adam Smith, a condição egoísta humana seria benéfica à sociedade em geral. O padeiro, por exemplo, faria o pão pensando no lucro conquistado com a venda do alimento. Isso seria uma atitude individualista.

Porém, as consequências seriam o aumento do bem estar geral. O padeiro garantiria uma renda para o seu sustento e o consumidor saciaria sua fome. Todos sairiam ganhando. Assim, quanto maior o desejo por um produto, maior seria a demanda. Maiores também seriam os estímulos para suprir essas necessidades. A perspectiva de lucro proporcionaria um incremento na oferta daquela mercadoria, que, por sua vez, empurraria os preços para baixo. Ou seja, a atividade econômica, caso realizada num ambiente de liberdade, seria a responsável por alocar os recursos onde estes fossem mais necessários. A economia seria gerida pela “mão invisível do mercado” e caminharia para o equilíbrio natural. Por este motivo, os liberais clássicos afirmavam que quanto menor a intervenção do Estado na economia, melhor ela se desenvolveria.

Por último, o credo político. Ora, se o livre mercado seria capaz de alocar os bens da forma mais eficiente, seria de se esperar que o papel do Estado fosse reduzido. Este é justamente o credo político. Segundo Adam Smith, o governo teria apenas três funções: defesa contra invasores externos, defesa do indivíduo contra injustiças e manter obras públicas de infraestrutura. A possibilidade do Estado ir além faz o Leviatã de Hobbes ser temido. Suas ações poderiam levar à opressão, caso ultrapassasse de suas funções essenciais. O Estado seria no máximo um mal necessário e precisaria ser mantido sempre sob controle.

Todos esses princípios eram vistos como fundamentais para o progresso e a prosperidade. Tais concepções, contudo, tinham uma falha fundamental. Elas partiam de uma interpretação abstrata do homem e da sociedade, sem fundamento empírico, histórico ou antropológico. Nem mesmo a ideia smithiana de que a economia progride do escambo para a troca monetária é empírica, mas abstração, fruto de um engenhoso raciocínio dedutivo. Segundo essa narrativa, as tensões iriam se dissolver, as contradições seriam reconciliadas. A humanidade caminharia para o equilíbrio. Tudo perfeito. Eles só se esqueceram de combinar suas abstrações com o concreto.

A realidade mostrou-se mais complexa que a ilusão do homo ecomonicus. No século XIX emergem os Estados Nacionais. Os cidadãos passaram a ver a si mesmos como franceses, ingleses ou alemães. Eles faziam parte de uma “comunidade imaginada”, nas palavras de Benedict Anderson. As empresas agiam livremente no mercado, mas, ao contrário do esperado, foram se fundindo e formando as chamadas Sociedades Anônimas (AS). Os grandes oligopólios, com poder de intervir no mercado e influir na formação dos preços e na produção, enterraram qualquer resquício de livre-mercado. A competição internacional fundiu governos e empresas transformando a expansão econômica em política nacional. Com o advento do imperialismo, o espírito empreendedor do empresário foi associado aos potentes exércitos na tarefa da expansão econômica.

A economia capitalista também demonstrou não ser autorregulável. Ao contrário do que se pensava no século XIX, os mercados não eram perfeitos. No âmbito da macroeconomia, a desregulamentação financeira produzia crises cíclicas que, caso levadas ao limite, poderiam impossibilitar o funcionamento do próprio capitalismo. Na esfera da microeconomia, a busca do lucro produzia danos com os quais as empresas não poderiam arcar. As chamadas externalidades negativas.

As ilusões liberais ficaram ainda mais evidentes com a Primeira Guerra Mundial e a Crise de 1929. A guerra havia mostrado o lado sombrio da modernidade e da ideia de progresso. Os avanços tecnológicos que, esperava-se, trariam bem estar, estavam sendo usados nos campos de batalha para exterminar pessoas. O racionalismo político levou a um paradoxo: no lugar do indivíduo racional, a Europa foi tomada por soldados dispostos a matar ou morrer em nome da nação. O equilíbrio foi conquistado. Mas ele não era econômico, e sim militar. Tal equilíbrio não trouxe prosperidade, mas deixou soldados agonizando durante anos nas trincheiras da frente ocidental.

A civilização europeia se revertia em barbárie. Pior, o martírio não acabou com o fim do conflito. Impérios estavam estilhaçados, populações inteiras foram brutalizadas e os governos encontravam-se fracos demais para impor a ordem.

A emergência do extremismo nazifascista

O recrudescimento do radicalismo nacionalista foi um dos efeitos mais devastadores do pós-guerra. O neocolonialismo, do século XIX, havia criado uma hierarquia entre a Europa e o resto do mundo com seu poderio militar e econômico. O velho continente era o centro da modernidade e os demais foram relegados à periferia. Esse sistema era justificado por uma suposta hierarquia entre as raças. O homem branco seria superior. Tal raciocínio poderia ser facilmente “comprovado” olhando para o padrão civilizatório que os países europeus haviam conquistado

A Primeira Guerra Mundial subverte essa ordem e traz o “colonialismo” para o centro da Europa. A Alemanha, após o conflito, é declarada a única culpada pela destruição do continente e é obrigada a assinar o famoso Tratado de Versalhes. A antiga potência imperial viu seu território ser mutilado e ainda se comprometeu a arcar com as reparações financeiras aos países vitoriosos.

Essas imposições fermentaram o nacionalismo radical. O Darwinismo Social, base do colonialismo, foi radicalizado e trazido para o coração do continente. Doravante, não será mais o “fardo do homem branco” na África ou na Ásia. Mas os arianos, raça superior, que precisaria se livrar da influência nefasta de outros povos para atingir a supremacia que lhe estava destinada. O fantasma do racismo científico se voltava contra seus inventores.

Como vimos anteriormente, praticamente todos os credos liberais foram sendo desfeitos. O atomismo foi substituído pelo nacionalismo. O livre mercado pelo imperialismo, etc. Mas um dos pressupostos liberais, o do indivíduo egoísta, ao contrário, parecia estar sendo corroborado pelos fatos. Para uma geração forjada na dureza do campo de batalha, o homem poderia ser tudo menos caridoso. A experiência das pessoas que viveram o início do século XX era a da destruição. Porém, não era uma guerra hobbesiana, de todos contra todos, mas uma batalha entre nações. Tais conflitos provocam um movimento duplo. Se, por um lado, eles afastam aqueles que são diferentes; por outro, ele aproximam e criam laços de solidariedade entre iguais. O homem não era apenas egoísta, pois ele fazia parte de uma coletividade. Uma irmandade. E estava disposto a morrer para salvar seus semelhantes. A experiência da Primeira Guerra Mundial permitiu que a essência do comportamento moral, marcado pelo egoísmo, fosse transportada para a noção de raça. O que determinava a conduta individual era a raça, ou o povo que determinado indivíduo pertencia.

O mundo, por sua vez, seria dividido segundo essas raças e, por tal motivo, estaria condenado à luta eterna, ao conflito. A guerra seria o estágio natural dos povos. As nações seriam a expressão política das comunidades raciais e, portanto, também estariam imersas nessa luta de vida ou morte por recursos escassos. Essas são as bases intelectuais do nazismo.

A visão a respeito dos recursos econômicos é bem interessante para perceber essas transformações. Os liberais do século XIX viveram numa época de grande crescimento econômico. Assim, eles também viam os recursos como escassos, mas acreditavam ser possível o aumento indefinido da economia. Ou seja, os bens, aos poucos, deixariam de ser insuficientes para saciar a vontade humana. Era um jogo de soma positiva. A prosperidade de um era também o progresso do outro. Com o nazismo essa visão muda radicalmente. Os recursos passam a serem vistos como finitos e devem ser disputados entre as nações. Trata-se de uma necessidade de sobrevivência.

Essas são, em linhas gerais, a forma de pensar do extremismo nazista. Olhando para tais pressupostos, pode parecer que o homem do século XXI está a salvo dos riscos de uma radicalização desse tipo. Categorias como raça soam arcaicas e preconceituosas. Espaço vital, num mundo globalizado, parece um delírio. Guerra entre nações pela sobrevivência alimentar então, nem se fala. Porém, infelizmente as coisas não são tão simples quanto possam parecer. Novos estudos sobre o Holocausto tem jogado luz em algumas características do extremismo que mostram que o mundo atual é mais parecido com o de Hitler do que se imaginava.

Como entender o extremismo político?

Olhar apenas para o discurso nazista pode levar a alguns equívocos. Radicais sempre existiram na história. Mas os casos em que eles obtiveram êxito em conquistar o poder são raríssimos. Portanto, mais importante do que prestar atenção naquilo que os extremistas falam, é perceber como as pessoas ouvem suas mensagens.

Se só é possível compreender o surgimento do nazismo partindo da Primeira Guerra Mundial, o seu triunfo é compreensível apenas considerando os efeitos da Crise de 1929. Até o Crash da Bolsa de Nova York, o nazismo era um movimento que vinha crescendo, porém, estava restrito a um grupo social: os jovens. Segundo pesquisa da historiadora americana Debórah Dwork em parceria com o historiador holandês Robert Van Pelt, em 1928, cerca de dois terços dos entusiastas do partido nacional-socialista tinham menos de 40 anos. Em algumas regiões, como o distrito de Oschatz-Grimma, 84% dos filiados estavam abaixo da linha dos 40 anos. Com uma base social tão restritiva, seria esperado que o partido se entrincheirasse num gueto político.

Porém, como podemos observar no gráfico acima, após 1929 o número de eleitores dispara. Eles avançam justamente no antigo eleitorado conservador, formado pelos estratos mais velhos da sociedade. Nas eleições de 1930, os nazistas conquistaram 107 cadeiras no Reichstag, contra 77 dos comunistas. Em 32 o ápice: 230 cadeiras passaram a serem controladas pelos nacionais socialistas, tornando o partido nazista o maior da Alemanha. Finalmente a barreira etária havia sido vencida. O nazismo agora era um movimento nacional e estava presente em todos os grupos sociais. Acreditamos que entender os motivos que levaram a esta impressionante e meteórica expansão seja fundamental para percebemos como o radicalismo é disseminado.

Colocar a Crise como a causa desse crescimento é correto, mas insuficiente. Por que logo os nazistas? Se os alemães estavam insatisfeitos com os rumos políticos, seria natural que mudassem seu voto, mas esse redirecionamento não iria naturalmente para a extrema-direita. Havia alguma coisa no discurso nazista que atraía as pessoas que não acreditavam mais nos políticos tradicionais. Mas que elemento seria esse?

Recentemente, o historiador americano Timothy Snyder, num dos trabalhos mais originais sobre o Holocausto, ajudou a elucidar essa questão. Segundo ele, o fascínio que os nazistas exerciam num momento de crise só pode ser entendido caso compreendamos o duplo sentido da expressão Lebensraum.

Espaço Vital, American Dream e o extremismo como defesa de um estilo de vida

Lebensraum é normalmente traduzido para o português como “espaço-vital”. Essa tradução é correta, porém como mostra Snyder, ela não consegue reproduzir a ambivalência da língua materna. Lebensraum pode ser “espaço vital” no sentido de habitat, ou seja, local necessário para a sobrevivência de uma espécie. Ou “sala de estar”. Sala de estar era a síntese do desejo humano pelo conforto e segurança. Ou seja, enquanto o espaço vital garantiria a sobrevivência, a sala de estar traria a qualidade de vida. “Lebensraum é a junção da necessidade com o desejo (..). Unindo essas duas paixões numa só palavra, Hitler misturou estilo de vida com vida. A visão de um povo com a despensa cheia avalizaria a luta sanguinária pela terra de outro povo”.

A promessa de um futuro de abundância era a mesma daquela feita pelos liberais do século XIX. Mas o método era radicalmente diferente. No primeiro caso, a prosperidade viria do progresso e do trabalho árduo. No segundo, por meio da guerra. A Crise 29 tornou o liberalismo inviável, restou a segunda opção.

Os dois sentidos Lebensraum, portanto, abrem novas perspectivas para entendermos o radicalismo político. Não foi a Primeira Guerra Mundial a responsável pela chegada do extremismo ao poder na Alemanha. Foi a crise. Logo, não precisamos de outro conflito para temer o fanatismo, mas de outra crise. Isso nós já temos. O radicalismo é disseminado no momento em que boa parte da população percebe que sua posição social está ameaçada. Seja na esfera econômica ou simbólica.

O “totalitarismo” não advém do suposto agigantamento do Estado. O fascismo é um fenômeno que vem de baixo, das massas. Não é o governo que cresce até se tornar totalitário, mas o movimento que se espalha até tomar as rédeas da política. E isso ocorre no momento em que os homens percebem a sua fraqueza frente às vicissitudes da história. O atomismo deixa o indivíduo vulnerável ao discurso fascista. A validade dessa afirmativa pode ser observada claramente no caso alemão. Os nazistas receberam um expressivo número de votos dos trabalhadores. Porém, diversas pesquisas têm demonstrado que os operários que haviam ingressado no nacional-socialismo eram justamente aqueles que não estavam sindicalizados e, portanto, mais vulneráveis aos efeitos negativos da crise econômica. Nos locais em que havia organização sindical estruturada, a resistência ao extremismo foi maior.

A defesa do “american dream” também pode ser apontada como uma das principais causas da vitória de Donald Trump nos EUA. O slogan de governo “faça a América grande de novo” pode ser traduzido como “proteja a cultura consumista da crise econômica e da entrada de imigrantes”. Por isso a vitória de um empresário. Da mesma forma como o racismo não explica o crescimento do nazismo, a xenofobia também não serve como justificativa para a vitória do republicano. Trump venceu em estados que eram historicamente redutos democratas. Muitos desses locais haviam dado larga vitória ao democrata Barack Obama, primeiro presidente negro da história americana, nas duas últimas eleições. Será que essas pessoas se tornaram intolerantes nesses oito anos? Difícil acreditar. Seria mais lógico crer que o governo anterior falhou na tarefa de construir políticas públicas que protegessem esses trabalhadores num contexto de globalização, crise e precarização da vida dessas pessoas. Hilary seria mais do mesmo. Trump, a aposta no novo. Na Alemanha nazista a população também não se tornou antissemita no réveillon de 1928. O holocausto é o resultado de um longo processo de radicalização. O genocídio não se iniciou com a chegada dos nazistas ao poder. As primeiras medidas contra os judeus foram extremamente tímidas. Antes era preciso preparar o povo alemão. O caminho que levaria ao extermínio começou a ser percorrido com o esforço do Estado para recuperar os empregos perdidos com a crise. Após esse passo, o segundo seria a conquista do espaço vital. Os alemães tinha emprego, porém, para que a prosperidade fosse duradoura, seria necessário expandir as fronteiras. A população estava pronta para aceitar novas guerras em nome da sobrevivência. Mas ainda era cedo para o genocídio. O último passo, a eliminação total dos judeus, foi consequência da incapacidade do exército alemão de invadir a URSS. A vitória sobre os soviéticos era um elemento fundamental para a construção o Terceiro Reich, quando isso não ocorreu, os semitas começaram a ser apontados como os culpados. Pior, passaram a ser identificados como aqueles que estariam dificultando a criação do Lebensraum, nas duas acepções. O conflito entre raças passa, então, a ser um conflito pela sobrevivência. Inicia-se a “solução final”.

O Estado de bem estar social não é o caminho para o totalitarismo, mas um anteparo necessário ao radicalismo. “A Áustria, terra natal de Hayek, praticava um capitalismo obediente à ortodoxia do livre mercado na época, e em consequência disso a ressaca econômica foi forte e aparentemente sem fim. A opressão dos judeus Austríacos começou não quando o Estado crescia, mas em 1938, quando ele afundava” (Snyder). O historiador também nos lembra que nunca houve na história um “Estado democrático que tenha construído um sistema de bem estar social para logo sucumbir ao fascismo”. Durante muito tempo acreditou-se que o fascismo não havia prosperado nos EUA, epicentro da Crise de 29, pela forte tradição liberal do país. Como as últimas eleições mostraram, nada mais equivocado. O radicalismo foi contido na sociedade americana graças à rápida resposta dado pelo governo. Se os laços socais haviam sido desfeitos, seria preciso um novo acordo. Roosevelt percebeu o perigo e propôs o New Deal. Com ele, o governo tranquilizava o trabalhador americano e trazia para si a responsabilidade de resgatar o país da crise. Não havia o que temer, a não ser o próprio medo, dizia o presidente americano. Sem medo, não há fascismo. E foi a construção desse novo acordo, de responsabilidade mútua, que impediu o surgimento de soluções radicais, de um “Fuhrer” que guiasse a população rumo ao precipício.

Conclusão: O neoliberalismo como caminho para o extremismo

O capitalismo ideal vislumbrado pelos defensores do livre-mercado depende de virtudes socais e de uma sabedoria política que ele não cria por si mesmo. Na forma específica de capitalismo gerada pela política alemã e vivida pelos judeus e seus salvadores durante o Holocausto, toda relação de troca envolvia confiança pessoal, pois em qualquer transação a outra parte poderia trair e matar. Numa versão extrema do utopismo do mercado, que o próprio Hayek condena, a Escola de Viena coincide com o pensamento de Ayn Rand. Ela acreditava que a competição era o próprio significado da vida; Hitler dizia coisa muito parecida. Tal reducionismo, embora engenhoso e tentador, é fatal. Se nada a não ser a competição tem importância, é natural eliminar as pessoas que resistem a ela e as instituições que a atrapalham. Para Hitler, essas pessoas eram os judeus, e essas instituições, os Estados. (Timothy Snyder).

No dia 20 de março de 2003 uma coalizão militar liderada pelos EUA invadiu o Iraque para “salvar” a população civil do despotismo do ditador Sadam Hussein. O nome da operação, “liberdade duradoura”, deixava claro quais eram as promessas que animavam os jovens militares a arriscarem a vida. Segundo algumas estimativas, os números de mortos pela Guerra ao Terror podem passar da casa dos milhões. Os gastos militares, dos trilhões. Em contrapartida, os números de ataques terroristas dispararam. Se a população do Iraque sofria com os desmandos de Sadam Hussein, é improvável que ela esteja melhor tendo de conviver com o Estado Islâmico.

Os erros sucessivos do combate ao terrorismo foram causados por uma concepção simplista da sociedade. O liberalismo vulgar olha o mundo partindo da dicotomia “Estado x indivíduo”. O primeiro seria a fonte da opressão, o segundo da liberdade. Seriam pares antitéticos. Se o governo Iraquiano oprime, derrube-o. Porém, o poder se constitui nas relações entre as pessoas e atua em rede. Destruir as instituições não é uma forma de combater o autoritarismo. Muito pelo contrário. Como também nos lembra Snyder, o Holocausto se iniciou, e foi mais brutal, no leste-europeu. Justamente nos locais em que as instituições haviam sido destruídas pelo Exército soviético. Quando os nazistas chegaram encontraram uma população que eles julgavam inferiores, os eslavos, totalmente desorganizados e sem qualquer resquício de cidadania. Os fanáticos das SS tinham liberdade total para agir. Homens que tiveram sua personalidade formada pelo cultivo do ódio e pela guerra estavam frente a frente com aqueles que eles julgavam inferior. Assim, valas e mais valas foram preenchidas com corpos de judeus brutalmente assassinados. Essa é a origem do Holocausto. Curiosamente, o genocídio teve início em locais em que não havia Estado. Snyder também mostra que até na Alemanha Nazista, com as instituições tomadas pelo radicalismo, era mais fácil para um judeu sobreviver que nos locais em que não havia governo. Os judeus alemães não foram as principais vítimas do Holocausto, mas os eslavos.

É isso que o historiador chama de “paradoxo de Auschwitz”. O campo de extermínio mais famoso da história virou metonímia para o Holocausto. O próprio Adorno usou esta figura de linguagem para defender uma educação mais humanista. Porém, tal recurso linguístico parte de uma falsa premissa histórica. Os campos de concentração mais famosos – Teblinka, Belzec, Sodibor e Chelmno  – ficaram conhecidos em função dos relatos dos sobreviventes e da conveniência política. Se houve muitos relatos é porque houve muitos sobreviventes. Quando esses locais foram construídos a grande maioria dos judeus já estavam mortos. Há poucas memórias dos massacres no Leste-europeu, justamente porque há poucos sobreviventes. A propaganda em torno de Auschwitz foi conveniente para os alemães, pois apagava a participação ativa deles nos massacres e colocava a culpa na “burocracia”. Foi interessante também para os soviéticos, pois desse modo esquecia-se o fato do genocídio ter sido iniciado nos locais invadidos pelo Exército vermelho. E foi atraente para aqueles que queriam demonizar e culpar o Estado. De conveniência em conveniência, a memória das valas repletas com cadáveres no leste-europeu ficou na sombra da história. E, com ela, as verdadeiras causas do Holocausto. É preciso tirar Auschwitz do centro dos debates para que ele não se repita.

Pilhas de mortos no leste-europeu.

A emergência do Estado Islâmico ocorreu de modo muito parecido ao Holocausto. A Guerra ao Terror cultivou o ódio entre populações arrasadas. A promessa de um novo “califado” em muito se assemelha à do Lebensraum, nas duas acepções. O modo de vida daquelas populações estava em perigo, bem como a sua sobrevivência. As instituições em pedaços. Populações inteiras estavam destituídas de cidadania e eram acordadas diariamente com o barulho de bombas explodindo em sua terra natal. O caminho estava aberto para o ódio e para a intolerância.

O outro perigo do liberalismo radical é a sua insistência na essência humana egoísta e na competição irrestrita. O estímulo à competição permanente está na base da chamada Escola de Chicago. O conceito de “capital humano”, de Gary Backer, é um dos mais potentes e mais repetidos das últimas décadas. O problema é que, em épocas de abundância e de crescimento, os riscos de extremismo ficam mascarados. Mas como uma população, orientada pela competição, reagiria num ambiente de escassez de recursos? Tal situação não poderia reanimar o fascismo? O “pânico ecológico” foi o impulsionador do radicalismo alemão. Não estamos livres dele. Há escassez de água e o aquecimento global já é uma realidade. O neoliberalismo incentiva as pessoas a competiram para entrarem no mundo do consumo, na falta dele, o que impediria que esses homens passassem a competir uns contra os outros pela sobrevivência?

Resgatar a cidadania talvez seja a única maneira de nos afastarmos da barbárie. A ênfase exagerada dos liberais na “liberdade” está deteriorando a esfera pública e levando a uma competição que pode se tornar insustentável. Precisamos pensar o mundo por meio da óptica da pluralidade. Pluralidade de objetivos, de liberdades e de direitos. Quando os Estados estão ausentes nenhuma dessas condições podem ser asseguradas. Discutir o tamanho do governo é um falso problema. A questão central é pensar maneiras de intervenção capazes de avalizar o exercício da cidadania e da liberdade. “Afirmar que ordem é liberdade ou que liberdade é ordem acaba em tirania. Afirmar que liberdade é a falta de ordem pode acabar em anarquia”. (Snyder) Não precisamos fazer a América “grande de novo”, mas necessitamos de pessoas mais tolerantes. De mais pluralidade de ideias, direitos e objetivos. Enquanto isso não acontecer estaremos caminhando no mesmo terreno de Hitler e não há motivo para acreditarmos que não possamos cometer os mesmos erros.

A memória daqueles que padeceram vítimas da barbárie deve ser uma luz a nos orientar nesse mundo que caminha para o desconhecido. Quando o passado é desconhecido e o futuro incerto, o peso recai sobre o presente e este se torna instável. Só a experiência humana acumulada no tempo é capaz de nos orientar em momentos de turbulência. Mas, para isso, é preciso aprender com os erros. “Talvez seja verdade que salvar a própria vida é salvar o mundo. Mas a recíproca não é verdadeira: salvar o mundo não restitui uma única vida perdida” (Timothy Snyder).

Referências

• Hunt e Sherman = História do Pensamento econômico
• Hunt,E. K. – História do Pensamento Econômico: Uma Perspectiva Crítica
• Mar Mazower – O Continente das Trevas e o Império de Hitler
• Deborah Dwork e Robert Jan – Holocausto: Uma História
• Timothy Snyder: Terra Negra
• Michel Mann – Fascistas

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