EUA regridem e maioria de sua população já vive no subdesenvolvimento

O novo livro do economista Peter Temin mostra que os EUA não são mais um país, mas um mundo político-economicamente separado.


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Por Lynn Parramore

Você provavelmente já ouviu que o coração pulsante da América do pós-guerra, conhecido como classe média, está agora “sobrecarregado”, “espremido” ou “prestes a morrer”. Talvez você tenha ouvido menos sobre o que exatamente está surgindo em seu lugar.

No novo livro The vanishing middle class: predudice and power in a dual economy, Peter Temin, professor emérito de Economia no MIT, retrata a nova realidade de forma assustadora e indelével: os EUA não são mais um único país. Ele está se partindo em dois, cada um com recursos, expectativas e destinos muito diferentes.

Dois caminhos divergentes

Em um desses países vivem os membros do que Temin chama de “setor FTE” (que significa finanças, tecnologia e eletrônicos, as indústrias que suportam predominantemente seu crescimento). São vinte por cento dos estadunidenses que desfrutam de educação superior, têm bons empregos e vão para a cama sabendo que eles têm dinheiro não apenas para encarar os desafios de suas vidas, como também redes de contatos para assegurar seus sucessos. Têm pais que leem livros para eles, tutores para auxiliar nos exercícios escolares e uma plenitude de fontes de estímulos e lugares para frequentar. Os cidadãos desse país estão cercados de crescimento econômico por todos os lados e têm possibilidades empolgantes para o futuro. Eles fazem planos, influenciam políticas e se consideram sortudos por serem americanos.

Os cidadãos do FTE raramente visitam o país onde oitenta por cento dos estadunidenses vivem: o setor de baixa renda. Aqui, as possibilidades estão encolhendo, às vezes dramaticamente. As pessoas estão cheias de dívidas e ansiosas a respeito de seu trabalho sem segurança – quando têm um. Elas se contentam com o transporte público sucateado e com carros que têm dificuldade para pagar. A vida familiar é incerta aqui: as pessoas frequentemente não têm relacionamentos duradouros, mesmo quando têm filhos. Se vão à faculdade, eles a financiam se endividando pesadamente. Elas não pensam a respeito do futuro, pois estão preocupadas em sobreviver no presente. O mundo em que elas vivem é bem diferente do que lhes foi ensinado a acreditar. Enquanto os membros do primeiro país protagonizam suas vidas, a essas pessoas é dito o que fazer.

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Os dois setores, observa Temin, têm sistemas financeiros, moradia e oportunidades educacionais completamente diferentes. Situações muito diferentes ocorrem quando eles adoecem ou interagem com as leis. Eles se movimentam de maneira independente um do outro. Existe apenas um caminho para cidadãos do país de baixa renda entrarem no país abastado, e esse caminho está repleto de obstáculos. A maioria não tem saída.

A economia mais rica do mundo, afirma Temin, está adquirindo uma estrutura política e econômica mais próxima de um país em desenvolvimento. Entramos em uma fase de regressão e uma das maneiras mais fáceis de observar isso está em nossa infraestrutura: nossas estradas e pontes se parecem mais com as da Tailândia e da Venezuela do que as da Holanda e do Japão. Mas a situação é muito mais profunda. É por isso que Temin usa um modelo econômico famoso criado para entender os países em desenvolvimento para descrever o quanto a desigualdade avançou nos Estados Unidos. O modelo é do economista W. Arthur Lewis, a única pessoa descendente de africanos a ganhar um prêmio Nobel em economia. Pela primeira vez, o modelo foi aplicado com precisão sistemática aos EUA.

O resultado é profundamente perturbador.

No modelo de dupla economia de Lewis, a maior parte do setor de baixa renda tem pouca influência nas políticas públicas. Confere. O setor abastado manterá baixa a renda do outro setor para que ele lhe forneça mão de obra barata para os negócios. Confere. O controle social é usado para evitar que o setor de baixa renda desafie as políticas que favorecem o setor abastado. Confere. Encarceramento em massa – confere. O objetivo principal dos integrantes ricos do setor abastado é diminuir impostos. Confere. Baixa mobilidade social e econômica. Confere.

Nos países em desenvolvimento estudados por Lewis, as pessoas tentam passar de um setor a outro migrando das áreas rurais para as cidades à procura de emprego. Algumas vezes, funciona. Mas, frequentemente, não. Temin afirma que hoje, nos EUA, a saída é a educação, o que é difícil por duas razões: é preciso gastar dinheiro por um período muito longo, e o setor FTE está tornando esses gastos cada vez mais intensos ao encolher o orçamento das escolas públicas e implementar políticas que aumentam os débitos estudantis.

Conseguir uma boa formação, observa Temin, não diz respeito apenas ao diploma superior. Ela precisa começar na primeira infância, e você precisa de pais que possam gastar tempo e recursos durante todo o percurso. Se você tem a intenção de ir à faculdade e sua família não dispõe de recursos para lhe dar durante o curso, boa sorte. Mesmo com um diploma, você provavelmente vai se dar conta de que empregos de alta remuneração vêm de redes de contatos e de parentes. O capital social, assim como o capital econômico, é crítico, mas devido ao longo histórico de racismo dos EUA e aos obstáculos que ele criou, pessoas negras com diploma universitário conseguem empregos apenas na educação, na assistência social e no governo em vez de empregos de maior remuneração como tecnologia ou finanças – algo que a maioria das pessoas brancas não se dá conta. Mulheres também são prejudicadas por um longo histórico de machismo e os encargos, cada vez mais pesados, do cuidado e da falta de acesso aos serviços de saúde.

Como os EUA chegaram neste ponto?

Cerca de 20% das crianças vivem na pobreza nos EUA.

O que aconteceu com a classe média americana, que cresceu triunfante nos anos do pós-guerra, impulsionada pelo G. I. Bill, pelas vitórias sindicais e pelos programas que concederam aos trabalhadores e suas famílias saúde e seguridade social?

A economia dupla não aconteceu da noite para o dia, afirma Temin. A história começou apenas alguns anos após o Verão do Amor, de 1967. A partir de 1970, a produtividade dos trabalhadores começou a se dividir a partir de seus salários. O advogado corporativo e, posteriormente, juiz da Suprema Corte Lewis Powell motivou o empresariado a fazer lobby vigorosamente a favor de seus interesses. A Guerra à Pobreza do presidente Johnson foi substituída pela Guerra às Drogas de Nixon, que levou muitos membros do setor pobre, desproporcionalmente negro, à prisão. Os políticos, cada vez mais influenciados pelo setor FTE, migraram do universalismo público para o individualismo de livre mercado. À medida que a política orientada pelo dinheiro avançou (fenômeno explicado pela Investment Theory of Politics, como assinala Temin), líderes do setor FTE ficaram cada vez mais propensos a ignorar as necessidades do setor de baixa renda, ou até mesmo a atuar ativamente contra elas.

O racismo subjacente dos Estados Unidos tem um impacto distorcido contínuo. O setor de baixa renda é composto majoritariamente por brancos, com o restante de negros e latinos, mas os políticos aprenderam a falar como se o setor pobre fosse majoritariamente negro, pois isso lhes permitiu apelar ao preconceito racial, o que é útil para manter a estrutura da economia dupla – e prejudicar todos do setor pobre. Temin observa que “o desejo de preservar o status inferior dos negros motivou políticas contra os membros de todo o setor de baixa renda”.

Temin ressalta que a corrida presidencial de 2016 revelou e ampliou a fúria do setor pobre com esse desequilíbrio crescente. Brancos de baixa renda, invisíveis para as políticas públicas até recentemente, abandonaram o desespero silencioso para serem ouvidos. Infelizmente, as tendências atuais não apenas continuam, como também agravam seus problemas, aprofundando a economia dupla.

Como os EUA poderiam reverter esse processo?

Poster do filme Estrelas Além do Tempo.

Estamos cavando nossa própria cova há mais de quarenta anos, mas Temin afirma que sabemos como parar de cavar. Se gastássemos mais tempo em atividades domésticas do que militares, a classe média não desapareceria tão rapidamente. Os efeitos da globalização e das mudanças tecnológicas poderiam ser modificados por ações políticas. Poderíamos restaurar e expandir a educação, deslocando recursos de políticas como encarceramento em massa para a melhoria do capital social e humano dos estadunidenses. Poderíamos melhorar a infraestrutura, perdoar a dívida hipotecária e educacional no setor de baixa renda, rejeitar a ideia de que a iniciativa privada deve substituir governos democráticos no direcionamento da sociedade e nos concentrar em abraçar um povo integrado. Poderíamos taxar não apenas os rendimentos dos ricos, como também seus ganhos de capital.

O custo de não fazer isso, alerta Temin, é incalculavelmente alto, e até mesmo os ricos acabarão sofrendo as consequências:

“Repare o filme Estrelas Além do Tempo: ele conta uma história muito dramática sobre três afro-americanas condenadas a uma vida de baixa remuneração dando aulas em escolas para negros, e seus destinos foram alterados quando foram convidadas pela NASA para contribuir com a exploração o espaço. Hoje, estamos perdendo a capacidade de encontrar pessoas daquela forma. Temos uma estrutura que predetermina vencedores e perdedores. Não estamos colhendo os benefícios de todas as pessoas que poderiam contribuir para o crescimento da economia, para avanços medicinais e científicos que poderiam melhorar a qualidade de vida de todos – incluindo alguns dos ricos ”

Ao lado de Thomas Picketty, cujo O Capital no Século XXI examina a desigualdade histórica e a moderna, o livro de Temin fornece uma enorme bandeira vermelha, ilustrando a trajetória que continuará a se agravar à medida que se permita que os vinte por cento integrantes do setor FTE operem um país dentro das fronteiras dos Estados Unidos somente em nome de seus interesses, em detrimento da maioria. Sem uma classe média robusta, os Estados Unidos não apenas regridem ao status de país em desenvolvimento, como também ficam cada vez mais vulneráveis a uma séria turbulência social que não se vê há várias gerações.

Uma economia dupla separou os EUA da ideia do que a maioria de nós pensava que o país deveria ser.

Postado originalmente em 27 de abril de 2017 no Institute for New Economic Thinking.

Traduzido por Edson Cunha.

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