7 vezes em que Mises refutou os (neo)liberais de Internet

Quando o economista da Escola Austríaca refuta os próprios fiéis seguidores da sua ideologia que vivem "refutando" na Internet.

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Nascido na Áustria, Ludwig von Mises (1881–1973) foi um economista liberal pertencente à corrente da Escola Austríaca. Tal corrente do pensamento econômico trata-se de um dos berços da doutrina ideológica que se tornou hegemônica nos dias atuais: o neoliberalismo. Hoje, Mises é citado como um dos maiores expoentes do liberalismo no Brasil e também é considerado o grande guru da nova direita tupiniquim.

Entretanto, caso você ainda não a conheça, identificar algum representante dessa nova direita é tarefa das mais simples. Uma de suas principais características é o uso de chavões e frases de efeito. Se, por exemplo, aparecer na sua Timeline do Facebook algum usuário replicando expressões do tipo “menos Marx, mais Mises” pode ter certeza que encontrou um legítimo (neo)liberal de internet.

Depois da identificação, e se você optar por estender esse primeiro contato, logo poderá perceber, por exemplo, que esse liberal não sabe que Mises foi conselheiro econômico do governo fascista de Engelbert Dollfuss, na Áustria. Perceberá também algo ainda mais curioso, que esse liberal não sabe que os slogans adotados por ele muitas vezes vão de encontro ao pensamento do “pai Mises”, como você pode conferir a seguir.


1. Mises refuta “Imposto é roubo”

“A manutenção de um aparato governamental de tribunais, polícias, prisões e forças armadas requer despesas consideráveis. Cobrar impostos para pagar estas despesas é inteiramente compatível com a liberdade que um indivíduo desfruta numa economia de livre mercado.”

Mises, Ação Humana, p. 6


2. Mises refuta “Nazismo é de esquerda”

“Georg Wilhelm Friedrich Hegel, o famoso filósofo alemão, deu origem a duas escolas — os hegelianos de ‘esquerda’ e os hegelianos de ‘direita’. Karl Marx era o mais importante dos hegelianos de ‘esquerda’. Os nazistas vieram da ‘direita’ hegeliana.”

Mises, O Livre Mercado e Seus Inimigos, p. 29


3. Mises refuta “Liberais são contra a discriminação e a favor da liberdade de expressão”

“O surgimento de uma classe numerosa desses frívolos intelectuais é um dos fenômenos menos desejáveis da era do capitalismo moderno. Sua atividade importuna impede a discriminação das pessoas. São uma praga. Seria desejável que algo fosse feito para refrear sua confusão ou, melhor ainda, eliminar totalmente suas rodas e grupos sociais.”

Mises, A Mente Anticapitalista, p. 78


4. Mises refuta “Liberais são contra ditaduras”

“Certamente, não se deve e não se precisa negar que há uma situação em que a tentação de se desviar dos princípios democráticos do liberalismo se torna verdadeiramente muito grande. Se homens prudentes veem sua nação, ou todas as nações do mundo, no caminho para a destruição, e se eles acham impossível induzir seus companheiros cidadãos a ouvir seu conselho, eles podem se sentir inclinados a pensar que é justo somente recorrer a qualquer meio, desde que seja viável e leve ao fim desejado, com o objetivo de salvar todos do desastre. A ideia de uma ditadura da elite, de um governo da minoria mantido no poder pela força e dirigido no interesse de todos, pode surgir e encontrar adeptos. Mas a força nunca é um meio de superar essas dificuldades. A tirania da minoria nunca pode perdurar a menos que ela consiga convencer a maioria da necessidade, ou de qualquer forma, da utilidade de sua direção. Mas então a minoria não precisa mais da força para se manter no poder.”

Mises, Liberalismo — Segundo a Tradição Clássica, p. 45

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“Não se pode negar que o Fascismo e movimentos similares visando o estabelecimento de ditaduras são repletos das melhores intenções e que suas intervenções têm salvado a civilização europeia até agora. O mérito que o Fascismo ganhou desse modo para si viverá eternamente na História.”

Mises, Liberalismo — Segundo a Tradição Clássica, p. 51


5. Mises refuta “O maior inimigo do fascismo é o liberalismo”

“As ações dos fascistas e de outros partidos que lhe correspondiam eram reações emocionais, evocadas pela indignação com as ações perpetradas pelos bolcheviques e comunistas. Ao passar o primeiro acesso de ódio, a política por eles adotada toma um curso mais moderado e, provavelmente, será ainda mais moderado com o passar do tempo.
Tal moderação resulta do fato de que os pontos de vista tradicionais do liberalismo continuam a exercer influência inconsciente sobre os fascistas.”

Mises, Liberalismo — Segundo a Tradição Clássica, p. 75


6. Mises refuta “Países desenvolvidos são liberais”

“Simplesmente não há outra escolha que não esta: ou abster-se de interferir no livre jogo do mercado, ou delegar toda a administração da produção e distribuição ao governo. Capitalismo ou socialismo: não há meio termo.”

Mises, Liberalismo — Segundo a Tradição Clássica, p. 79

Ou seja, para Mises não há meio termo, ou é livre mercado, ou socialismo. Considerando que os países desenvolvidos são e foram intervencionistas, ainda mais quando estavam em fase de industrialização, então eles não são países liberais. Segundo Mises, sequer a economia social de mercado, o ordoliberalismo, poderia ser considerada liberalismo, pois nada pode “interferir no livre jogo do mercado” numa economia autenticamente liberal.


7. Mises refuta “Intervenção estatal agrava crises econômicas”

“A economia não aprova e nem desaprova as medidas restritivas do governo. Cabe-lhe apenas esclarecer as consequências dessas medidas. A escolha das políticas a serem adotadas é de incumbência do povo. Mas, ao escolher, os cidadãos, se pretendem atingir os seus objetivos, deviam considerar os ensinamentos da economia. Existem certamente casos para os quais as pessoas podem considerar justificáveis certas medidas restritivas para defesa do cidadão contra a invasão violenta de sua pessoa e propriedade. Os regulamentos de prevenção de incêndios no mercado são restritivos e aumentam o custo de produção. Mas a diminuição da produção daí decorrente é o preço a ser pago para evitar um grande desastre. A decisão sobre cada medida restritiva deve ser tomada com base em meticulosa ponderação dos custos e dos benefícios. Nenhuma pessoa racional se oporia a isso.”

Mises, Ação Humana, p. 848


Conclusão

Após essa exposição de contradições existentes entre trechos extraídos dos livros de Mises e clichês liberais, fica claro que muitos daqueles que se dizem seguidores do teórico austríaco mal conhecem sua obra. Ao invés de se dedicarem à leitura, optam por ocupar suas vidas aprendendo e proferindo tais bordões, pois estes, de fato, se alastram mais facilmente, sobretudo entre os mais leigos. Portanto, caro amigo (neo)liberal, de agora em diante você tem apenas duas opções: começar a ler seus próprios panfletos ou procurar outro mentor intelectual para legitimar suas frases feitas e rasas.

Nota

O verbo “refutar” é utilizado de forma irônica no texto, numa clara referência aos seguidores de Mises, que ajudaram a vulgarizar esse termo nas discussões políticas de internet.

Referências

• Ação Humana (Ludwig von Mises)
• Liberalismo — Segundo a Tradição Clássica (Ludwig von Mises)
• O Livre Mercado e Seus Inimigos (Ludwig von Mises)
• A Mente Anticapitalista (Ludwig von Mises)

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