A revelação da crueldade por trás da indústria da carne aumenta a adesão ao vegetarianismo e pode ser revolucionária

Um modo de produção alternativo, que não necessariamente explore os animais para a extração de todo tipo de mercadoria, só é possível fora do capitalismo.


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Capa: foto de Fabien Nissels

O crescimento do vegetarianismo e as perspectivas para os movimentos contestatórios

Se você está lendo este artigo é muito provável que conheça alguém que seja vegetariano, ou, talvez, você mesmo o seja. Afinal, em 2012, existiam 15,2 milhões de adeptos à dieta no Brasil. Esses números provavelmente são ainda maiores hoje, visto que é uma pesquisa relativamente antiga. Mundialmente se constata um aumento crescente no vegetarianismo. No entanto, o objetivo desse texto não é discutir a validade dos argumentos a favor ou contra, mas sim analisar o papel destes no crescimento dos adeptos e compreender as possibilidades disto para o movimento de contestação do status quo.

Crescimento

Cada vez mais e mais pessoas estão se tornando adeptas à dieta vegetariana ou vegana ao redor do globo. Um estudo indica que no Reino Unido, nos 10 últimos anos, o número de veganos cresceu 360% (lembrando que o veganismo é mais que uma dieta, é todo um modo de vida que busca excluir todas as formas de exploração animal,  e tem menos adeptos que o vegetarianismo). Outro estudo aponta que, nos Estados Unidos, 36% dos consumidores estão aptos a adotar uma dieta que utilize produtos substitutos para a carne e para o leite.

As motivações para que uma pessoa se converta a dieta vegetariana ou vegana são bastante diversas. Um dos principais fatores mundialmente será desconsiderado nessa análise, que é a religião. Muitas religiões no mundo pregam dietas que vão desde restrições a certos tipos de carne, como no caso do Judaísmo e Islamismo, até restrições completas ao consumo, como no caso de algumas correntes do Budismo e do Hinduísmo, entre muitas outras. A adoção da dieta vegetariana por motivações religiosas será desconsiderada porque não é a que motiva o crescimento dos adeptos, e não abre muitas possibilidades para os movimentos contestatórios.

Passando para os outros fatores, diversos estudos apontam como a principal motivação para o vegetarianismo a empatia com o sofrimento animal no processo de produção. Outros aspectos importantes que motivam a mudança são a preocupação com o meio ambiente e os impactos gerados pela indústria pecuária, e também a opção por uma dieta mais saudável.

Tendo em vista esses motivos, um fator importante se torna evidente: a informação. Para que as pessoas mudem seus hábitos baseados nos fatores apresentados, é necessária uma grande quantidade de informações sobre o assunto e uma razoável difusão das mesmas. Para que exista empatia com o animal no processo de produção, é necessário que se tenha conhecimento do sofrimento proporcionado pelos métodos da indústria pecuária. Para que haja uma preocupação ambiental com os impactos causados pela pecuária, é preciso que se tenha conhecimento do tamanho destes impactos. E é evidente que esta quantidade de informação está de fato sendo apresentada: desde relatórios oficiais e estudos, aos vídeos extremamente gráficos que circulam as redes retratando o sofrimento animal na produção, até formas de mídia mais abrangentes, como os documentários A Carne é Fraca (2004) Earthlings (2005) e Cowspiracy (2014), que tiveram uma repercussão razoável. Voltaremos à questão da informação posteriormente.

Relação humana com o consumo da carne


Para entender como a empatia com os animais, tomada como o principal fator motivador para o vegetarianismo, pode levar as pessoas a mudar hábitos de consumo, é necessário analisar a relação humana com o consumo de carne. Carne aqui deve ser entendida como todos os tipos de carne, desde a carne bovina até peixes e moluscos. Psicólogos desenvolveram um conceito interessante para tratar desse assunto: o ‘paradoxo da carne’.

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Este paradoxo analisa duas tendências contraditórias. Por um lado, seres humanos de todas as culturas são ensinados à se importar com os animais e aprecia-los, e de fato isso acontece. É quase impossível encontrar uma pessoa que diga: “Não gosto de animais”. Sendo assim, como os seres humanos podem se importar com os animais, e ainda assim mata-los e come-los? Isso gera uma situação de stress psicológico que é experimentada pelos humanos em muitas situações: a dissonância cognitiva (sentimento de desconforto quando o indivíduo possui crenças e atitudes contraditórias). Para resolver essa contradição, os seres humanos usam estratégias de dissociação, o que implica em encontrar justificativas para as práticas. Na sociedade ocidental, isso se dá principalmente de duas formas. A primeira se dá objetivamente sobre a mercadoria da carne. O processo industrial distancia o produto do animal que forneceu este produto, e também da realidade da produção, inclusive da parte humana de criação de valor. Isso se manifesta de diferentes formas. A mais evidente é a maneira como a carne é comercializada no mundo ocidental. Já é toda cortada, limpa, embalada e muitas vezes moída, processada, congelada, chegando a formas totalmente dissociadas, como o hambúrguer. No ocidente, o animal raramente é vendido inteiro, com rosto, olhos, rabo, patas. Isso é acompanhado de uma forma mais sutil de dissociação, na qual os nomes dos produtos são distanciados dos animais, como o próprio hambúrguer ou nuggets, ou então são representados nas embalagens e propagandas dos produtos, animais esteticamente estilizados, normalmente sorrindo e com traços humanizados. É um processo físico de desanimalização do produto de origem animal. A segunda principal forma de dissociação que justifica o consumo é moral. Os animais, na maior parte do mundo, são enxergados como sendo inferiores aos humanos. Essa visão não se limita ao ocidente, estendendo-se ao mundo todo. O humano não aplica seus valores morais para os animais, e para isso são dadas justificativas biológicas, como a de que a humanidade estaria no topo da cadeia alimentar e seria justo se alimentar de animais. Estes também são normalmente vistos como incapazes de sofrimento e especialmente de consciência, o que contribui para a visão de sua inferioridade moral. A causa disso se dá em grande parte pelo fato de certos animais serem classificados como comida em primeiro lugar. É um ciclo: pelo fato de o animal ser comida, ele é visto como inferior, o que facilita a aceitação de tê-lo como alimento. Todas essas práticas ajudam a construir um profundo laço cultural com o consumo da carne. Lembrando que a descrição feita se aplica principalmente a sociedade ocidental, outras culturas evidentemente têm outras formas de construir sua relação cultural e resolver esse paradoxo. Visto que a humanidade consome carne a milênios, esta pratica já está bem naturalizada e arraigada em todas as culturas.

Desencantamento


No último trecho foi destacado especificamente o consumo de carne, sem mencionar outros produtos derivados de animais. Isso se dá pelo fato de que a carne possui algumas peculiaridades em sua forma. Aos outros produtos derivados de fontes animais podem ser aplicadas as mesmas características descritas, elevadas a um nível muito maior. Entre o queijo e a vaca que o produziu existe um abismo. Os animais também não são abatidos em certos processos de extração de produtos. Mas neste trecho será analisado o que leva a mudança na percepção para que estas mudem seus comportamentos.

O que acontece, evidentemente, é um processo de desencanto. É uma espécie de quebra de fetiche. Fetiche no mesmo sentido que Marx usou para tratar-se do fetiche da mercadoria (que não é o fetiche como “desejo” ou “ostentação”, saiba mais aqui). Embora seja um equívoco dizer que esse processo de elucidação seja uma quebra do fetichismo da mercadoria, acho interessante estabelecer um paralelo com o conceito marxista. Esse desencantamento se dá quando, ao tomar conhecimento da realidade do processo de produção da carne e derivados, a mercadoria perde seu distanciamento desse processo. Quando o indivíduo toma consciência da crueldade e sofrimento que o animal sofre durante a produção, ou com os severos impactos ambientais decorrentes da indústria agropecuária, alguns aspectos da produção se tornam evidenciados na mercadoria. Por que então não se pode chamar isso de uma quebra de fetiche da mercadoria? Porque esse desencantamento não se dá sobre o processo de criação de valor na produção, mas sim sobre a transformação da matéria decorrente daquela. O fator da produção evidenciado não é o trabalho social humano, mas sim a exploração dos animais durante o processo produtivo, os impactos ambientais decorrentes e outros fatores que não são centrais à produção, como é o trabalho humano. Ainda assim, é de certa forma um processo de quebra de fetiche, pois aspectos da produção se tornam evidentes no produto. Assim que essa elucidação acontece, a dissonância cognitiva se eleva a níveis altíssimos, e muitos indivíduos optam por abrir mão do consumo de carne e outros derivados de animais.

A carne também possui certas peculiaridades que facilitam essa elucidação em relação às outras mercadorias. Sua origem animal é a responsável por isso. Como já foi dito antes, os humanos são ensinados a se importar com os animais. Inclusive é comum termos animais de estimação, os quais consideramos membros da família, construímos intensas relações afetivas e cuidamos durante uma vida inteira. A própria forma material da carne inclusive tem um papel nisso. Segundo estudo, algumas pessoas apresentam uma tendência a sensações de repulsa com a forma da carne, associando o sangue, a cor e a textura à morte. Essa tendência é principalmente observada em mulheres jovens, grupo em que se concentram a maior parte dos vegetarianos (59% é mulher e 42% tem de 18 a 34 anos, nos EUA).

Vamos arriscar aqui o uso de outro conceito de Marx que pode ser útil para explicar este fenômeno: a reificação. Resultado do modo de produção capitalista, a reificação é o processo em que as relações sociais são transformadas em relações entre mercadorias. Origina-se no trabalho, onde o trabalhador é reduzido ao seu valor-de-troca, mas se estende por todas as esferas da sociedade, se instalando na consciência das pessoas. O conceito foi mais desenvolvido no trabalho de Georg Lukács, principalmente em sua obra “Reificação e a consciência do proletariado”, parte de um livro maior.

Nele, Lukács afirma que:

“Assim como o sistema capitalista se produz e reproduz economicamente a uma escala cada vez mais alargada, também, no decurso da evolução do capitalismo, a estrutura da reificação penetra cada vez mais profundamente, fatalmente, constitutivamente, na consciência dos homens”

Essa relação porém é uma via de mão dupla: a relação entre as mercadorias passa a ser percebida como uma relação entre sujeitos e, portanto, em última análise, as mercadorias passam a ter status de pessoas. Resumindo, os objetos são percebidos como pessoas, e vice-versa. Aplicando isso ao caso dos produtos de origem animal, fica evidente que, sendo mercadorias que já possuem esse status elevado pela reificação, e somando isso com as peculiaridades apresentadas anteriormente, o animal acaba recebendo um status humano ou até sobre-humano no processo de desencantamento experimentado pela pessoa que pode se tornar vegetariana/vegana.

Perspectivas

Vistos os fatores que podem influenciar a percepção humana sobre os produtos de origem animal, fica claro porque o desencantamento destas é mais fácil em relação a uma quebra real do fetichismo da mercadoria. O desencantamento se dá devido às percepções na transformação da mercadoria e nas externalidades do processo produtivo (impactos ambientais, etc). Para uma real quebra do fetiche da mercadoria, a percepção deve ser direcionada no núcleo do processo de criação de valor do capitalismo: a exploração humana. Sem a percepção do trabalho e das relações sociais embutidas nas mercadorias, não pode haver uma quebra do fetichismo. Isso se mostra uma tarefa muito mais difícil do que parece. O próprio processo produtivo do capitalismo é quem cria o fetichismo para se ocultar de forma que sua natureza de exploração não fique em evidência. Além disso, fica mais difícil se solidarizar com o ser humano quando esse é reduzido a objeto. É corriqueiro em nossa sociedade observarmos diversas expressões disso. Desde grupos de pessoas que pedem pena de morte para crimes contra a propriedade, que praticam linchamentos quando se deparam com tal situação, até países que de fato penalizam esse tipo de crime com mutilações e morte, os exemplos são inúmeros. Quando se trata da exploração, a alteridade é quase impossível. Mesmo em casos extremos, como a extração de cacau realizada por crianças escravas em países africanos como a Costa do Marfim ou a famosa fábrica da Foxconn que instalou redes anti-suicídio para seus trabalhadores, ainda assim é muito difícil que esse trabalho seja percebido na mercadoria.

Mesmo com todas essas dificuldades, o caso do crescimento do vegetarianismo demonstra o poder que uma elucidação da realidade da produção tem sobre as pessoas. Formas de mídia com alto alcance, como os documentários citados anteriormente, ajudam bastante nisso. É claro que estas necessitam de muitos recursos, e existem muitas dificuldades envolvidas, mas a informação é um dos principais meios de se conseguir qualquer mudança de comportamento. As redes sociais podem se mostrar uma ferramenta importante nisso também. Até agora, ela já se mostrou capaz de mobilizar grandes quantidades de pessoas para as mais diferentes causas. O vegetarianismo/veganismo tem um papel importante dentro dos movimentos contestatórios ao capitalismo também. Movimentos pela libertação dos animais, anarquistas veganos, eco socialistas, entre outros, têm uma percepção que pode ser importante para os vegetarianos e veganos em geral. A percepção de que um modo de produção alternativo, que não necessariamente explore ferozmente os animais para a extração de todo tipo de mercadoria, mesmo que mantendo o consumo desses produtos de uma maneira respeitosa e que também seja ecologicamente sustentável, só é uma perspectiva realista fora do capitalismo. A luta por uma produção sustentável e respeitosa está necessariamente atrelada à luta anticapitalista, e essa talvez seja uma perspectiva interessante a ser passada para os vegetarianos em geral, visto  84% dos vegetarianos e veganos abandonem a pratica em algum momento, muitas vezes pelo abandono da crença mas também pela dificuldade de manutenção da dieta. De qualquer forma, a criação de conteúdo crítico de qualidade é essencial em uma era que a informação circula em uma velocidade altíssimas. A mesma velocidade que circula a desinformação.

Referências:

The Telegraph – Number of vegans in Britain rises by 360% in 10 years
• Nick Fox, Katie Ward – “Health, ethics and environment: A qualitative study of vegetarian motivations”
• F. Philips – “Vegetarian Nutrition”; British Nutrition Foundation
• Mathew B. Ruby; Steven J. Heine – “Meat, Morals and Masculinity”; University of British Columbia
• D.J. Troy, J.P. Kerry – “Consumer perception and the role of science in the meat industry”
• Loughnan, S.; Bastian, B.; Haslam, N – “The psychology of eating animals”
• Fábio Luiz Tezini Crocco – “GEORG LUKÁCS E A REIFICAÇÃO: TEORIA DA CONSTITUIÇÃO DA REALIDADE SOCIAL”
Psychology Today84% of Vegetarians and Vegans Return to Meat. Why?
IbopeDia Mundial do Vegetarianismo: 8% da população brasileira afirma ser adepta do estilo

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