Sabe aquele papo de que não havia corrupção na ditadura militar? É mentira (e das mais descaradas).

Durante a ditadura houve repressão brutal contra opositores e imperava a censura, o que tornou o Brasil um lugar perfeito para a prática de corrupção.

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Um boato muito difundido nas redes sociais é que supostamente haveria menos corrupção no antigo regime ditatorial do que nos dias de hoje. Qual é a base para essa afirmação?

É difícil entender como alguém é tão ingênuo para acreditar nessa afirmação. A ditadura dos generais tinha entre seus meios repressivos a censura prévia à mídia e produção cultural, assim como o financiamento público das mídias favoráveis aos governantes. Os juízes e Ministério Público tinham pouca ou nenhuma independência em relação ao governo federal. Congressistas podiam criar CPIs, mas os poderes absolutos da presidência, inclusive para fechar o Congresso e cassar congressistas, tornariam inútil tal iniciativa. As possibilidades de investigação criminal e divulgação jornalística dos casos de corrupção do regime ditatorial eram praticamente nulas.

E mesmo assim alguns casos acabaram emergindo. Entre 1982 e 1984, o jornalista e economista José Carlos de Assis publicou três livros, “A chave do tesouro”, “Os mandarins da república” e “A dupla face da corrupção”, relatando vários casos de corrupção na administração pública durante os Anos de Chumbo. Aparelhos repressivos clandestinos foram financiados por empresários, que em troca receberam favores econômicos dos ditadores. Ex-agentes militares e policiais da repressão política se tornaram os chefes do jogo do bicho no Rio de Janeiro e Espírito Santo, com a proteção dos governantes. Os métodos da repressão política se tornaram métodos do crime organizado.

Ponte Rio-Niterói: uma das obras faraônicas da ditadura militar com obras superfaturadas.

É verdade que os generais golpistas prometeram livrar o país da corrupção política. Imaginavam eles que a causa da corrupção é o corrupto apenas. Tinham uma visão moralista e individualista deste fenômeno. Assim, criaram uma Comissão Geral de Investigação, um tribunal administrativo subordinado à presidência da “república” para investigar casos de corrupção. O AI-5 dotou a CGI do poder de confisco de bens. Tudo isso foi inútil, porque a corrupção supõe, ao menos, um corruptor a um corrompido, um agente privado e um agente público, enriquecendo através de favores mútuos, às custas dos recursos públicos.

Vários grupos empresariais privados (nacionais, estrangeiros e mistos) apoiaram ativamente o golpe contra João Goulart e a instauração do Terrorismo de Estado. Este apoio empresarial foi recompensado com todo tipo de favorecimento econômico governamental para os grupos empresariais que financiavam a repressão política. Desta promiscuidade entre a burocracia ditatorial e os grupos empresariais privados, surgiram os “Filhotes da Ditadura”, que se tornaram os empresários e políticos mais ricos do país e donos de monopólios midiáticos, entre eles a família Marinho e o Senor Abravanel, mais conhecido como Silvio Santos.

A corrupção na ditadura beneficiou inclusive aqueles que chegaram a ser santificados por muitos brasileiros, como é o caso do Silvio Santos.

 Há quem diga que os generais que ocuparam a presidência da ditadura morreram pobres. Acho difícil, pois nenhum deles chegou pobre ao cargo, e pelo menos um deles, Ernesto Geisel, se tornou um magnata do setor petroquímico, ao lado do seu ministro, Golbery do Couto e Silva. O que importa é que, mesmo que não tenham enriquecido ilicitamente, comandaram um regime de terror e corrupção generalizados. Um regime ditatorial que enriqueceu, protegeu e favoreceu os seus aliados, enquanto perseguia, torturava e matava os opositores.

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