“Civilização Ocidental Judaico-Cristã de Direito Romano” não passa de mito

O discurso contra os Direitos Humanos e minorias justificado pela defesa da tal "tradição judaico-cristã" não passa de uma ideologia, e das mais cínicas e intelectualmente desonestas, visando a cooptação das pessoas comuns para viabilizar e legitimar um projeto conservador de poder.

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Se lemos um livro que afirma que os leões são ferozes e depois encontramos um leão feroz ( estou simplificando, é claro), é provável que nos sintamos encorajados a ler mais livros do mesmo autor e a acreditar neles. Mas, se além disso, o livro do leão nos instrui sobre como lidar com um leão feroz e as instruções funcionam perfeitamente, o seu autor não apenas gozará de grande crédito como será também impelido a tentar a sorte em outros tipos de desempenho escrito. Existe uma dialética de reforço bastante complexa, pela qual as experiências dos leitores na realidade são determinadas por aquilo que leram, e isso, por sua vez, influencia os escritores a escolherem temas definidos antecipadamente pela experiência dos leitores.

Um livro sobre como lidar com um leão feroz poderia então causar toda uma série de livros sobre temas tais como a ferocidade dos leões, as origens da ferocidade e assim por diante. Do mesmo modo, à medida que o foco do texto se concentra mais estreitamente sobre o tema – não mais os leões, mas a ferocidade deles – podemos esperar que as maneiras pelas quais se recomenda que se lide com a ferocidade do leão irá na verdade aumentar esta ferocidade, forçá-la a ser feroz posto que é isso que ela é, e é isso que, essencialmente, sabemos ou só podemos saber sobre ela. (…)

Isso porque, em última análise, o *Orientalismo* era uma visão política da realidade cuja estrutura promovia a diferença entre o familiar (Europa, Ocidente, “nós”) e o estranho (Oriente, Leste, “eles”).

Edward Said em “Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente”.

Há um ditado bíblico que diz “aquele que julga estar de pé, vigie para que não caia”. Isso é muito proveitoso para chamar a atenção para todo tipo de chauvinismo, pessoal e social. Inclusive quando se julga que a configuração social do momento histórico é uma manifestação “natural” e definitiva. Assim é com o que se julga ser o “Ocidente”.

Uma das novas ondas de movimentos de direita ultraconservadora que nos deixam estarrecidos é a estratégia para incutir xenofobia e justificar aversão ideológica a lutas contra homofobia, machismo, racismo, lutas por justiça ambiental, pelos direitos dos povos indígenas e populações tradicionais, por equidade e direitos humanos (incluindo sociais). Sua narrativa é que há um “marxismo cultural islâmico gay” que engloba tudo isso, cabendo-lhes defender o “legado judaico-cristão de direito romano”, valores que teriam forjado o “Ocidente”, ou a “cultura ocidental”, como foi proclamada recentemente pelo terrorista Anders Breivik.

Para além da questão ética e moral nos meios e fins dessa argumentação, o mais absurdo é como ela se ergue a partir de um embaralhado com pouquíssimo nexo de consistência. Vamos aqui analisar se há quaisquer fundamentos nessa afirmação, tão recorrente e reverberada em alguns meios coléricos, para sabermos se há alguma coerência no que dizem ou se de fato existe tal legado. Porém, sem a ingenuidade de crer que isso realmente seja o mais importante para esses movimentos.


Ocidentalismo”: O “Ocidente” como invenção

O primeiro exemplo de como o “Ocidente”, na verdade, não tem nada de ocidental e de como as bases e princípios do seu pensamento atualmente se deve muito mais ao dito “não-ocidental” é um caso emblemático.

A chamada hoje “Revolução Copernicana” na verdade é menos copernicana do que se pensa. Copérnico lidava com impasses a respeito do equilíbrio da rotação dos planetas com a equalização do seu centro, o “problema do equante”, que afligia já os ptolemaicos europeus. Não foi sozinho que ele conseguiu transpor o sistema geocêntrico matematicamente para bases centradas no sol. Os teoremas que ele desenvolveu também não se deram a partir de escritos helênicos.

Ciência islâmica em ação.

A geometria que dava fundamentação para o movimento lunar e demais astros, aparece em documentos árabes do século XIX, trabalhados pelo astrônomo damasceno Ibn al-Shatir. Este, por sua vez, compilava trabalhos do astrônomo islâmico Nasir al-Din al-Tusi, que viveu três séculos antes (e que nos legou o conhecido “par de Tusi”, resolvendo o problema de como movimentos circulares geram movimentos lineares). Também hoje se sabe que Copérnico se valeu, para construir seus teoremas dos trabalhos, de Mu’ayyadal al-Din al’Urdi, da primeira metade do século XIII. Os pontos geométricos que o europeu usou eram idênticos às notações da grafia do árabe.

Um livro pode ser escrito só a respeito de como os estudos geométricos árabes proporcionaram revoluções científicas. Séculos antes de William Harvey delinear a forma do sistema circulatório humano nos fins do primeiro terço do século XVII, já havia se atestado em documentos da primeira metade do século XIII o conhecimento geométrico do sistema no mundo árabe, inclusive apontando a passagem do sangue pelos pulmões antes de chegar ao coração. Coisa que a medicina grega, remontando a Galeno, desconhecia[1].

É bem estabelecido que se deve à assimilação da filosofia aristotélica o renascer da antiguidade clássica, da geometria, da aritmética, etc. – nos tempos finais da assim chamada “Idade Média” européia – ao mundo cultural do islã, seus depósitos, registros, cultivos e transmissão de artefatos culturais. Sabe-se hoje que as bases para a reforma no “commom law” inglês, nos séculos XII-XIII, ao contrário do que se poderia pensar, foram influenciadas pela Sharia por meio do mundo islã normando[2].

Mas ainda não é de conhecimento do grande público o quanto o que chamamos de “Iluminismo”, propriamente, foi também beneficiado por esse sistema-mundo, e o quanto deve a ele:

  • O “Penso, logo existo”, de René Descartes, fundamental para a subjetividade moderna, veio de Ibn Sina, ou Avicena[3].
  • A crítica de David Hume , no sentido de que percepções de sucessões constantes não são o bastante para provar relação causal, aparece no sunita Abud Hamid al-Ghazali[4].
  • A ideia da “maioridade do homem”, o processo de se esclarecer, que de Kant passou a ser tão essencial na forma da modernidade ver a si mesma, aparecia em um poema do Sufi Rumi[5].
  • O que se concebe como a fundação da ciência econômica moderna como disciplina própria, tem em Adam Smith o pioneiro a despontar dos fisiocratas. Mas o mesmo extraiu muito da base de seu pensamento, como a “mão invisível” do mercado, a divisão do trabalho, a racionalidade humana do cambismo, de pensadores econômicos persas. Na sua biblioteca continha várias traduções latinas de pensadores persas, como Tusi (13º século) e Ghazali (11° século), plagiando deste último seu famoso exemplo da fábrica de alfinetes, ilustração considerada o marco da ideia de Divisão do Trabalho, após Francis Bacon[6].

A bem da verdade, pode-se inferir que quando alguém fala da “tradição da civilização ocidental”, deve, por questão de honestidade, incluir o sistema-mundo islâmico medieval como parte essencial dessa tradição, em grau maior do que de muitas regiões europeias.

Poderíamos apontar muitos outros exemplos, que abundam. Estes trataram de um dos principais espantalhos e bodes-expiatórios que o chauvinismo contemporâneo invoca, o islã. Também poderíamos tratar de casos a respeito dos legados chineses como a bússola, o papel e a impressão, os antibióticos, princípios das leis do movimento antes de Isaac Newton, bem como muito de sua astronomia, análises químicas quantitativas e estudo dos fósseis. Também poderíamos tratar do legado ariano sânscrito (na Índia), incas, maias, etc. Mais longe ainda, as raízes do conhecimento grego nos egípcios (do qual deriva mais de 20% do vocabulário grego), fenícios e cananeus[7].

Mas, para nossos propósitos, é suficiente para desconstruirmos um dos fundamentos da reivindicação chauvinista, que reclama a “tradição do Ocidente”. Apontamos que sua representação é falsa. Passemos para outros erros deste tipo de discurso do novo “politicamente tosco”.

Essas são as tendências de desdobramento histórico das tradições, nunca sendo prontas, acabadas, pré-moldadas. Porém, algumas pessoas pouco bem-intencionadas cometem a temeridade de comparar com “mercado de ideias” no sentido da economia moderna. É uma grosseria equivalente. As culturas, ideias, símbolos e pensamentos não se desdobram na história como mercadorias. Na economia moderna, as características que transformam um bem em um recurso de mercado necessitam ser “excluíveis”, ou poderem ser propriedade de alguém de forma exclusiva e assim ter poder sobre o acesso ao recurso por outros. Isso é assegurado por instituições modernas.  Precisam ser “rivais”, ou seja, a utilização por alguém impacta na quantidade e qualidade do recurso disponível para outro utilizar.

Nada disso é aplicável à história das tradições, que não são objeto de patenteamentos. Logo, é desonesto usar a analogia com um “mercado de ideias”.


“Civilização judaica-cristã”, mas baseada em qual judaísmo, cara pálida?

Detalhe do Arco de Tito, que descreve os romanos levando despojos de Jerusalém – por Tom Elliott (1988). Publicado pelo Instituto para o Estudo do Mundo Antigo

Quando lê-se este bordão, “civilização judaico-cristã”, ainda tentando ligar o apelo com o “direito romano”, tem que se respirar fundo para lidar com ideias tão infundadas, sem o menor sentido.

O judaísmo é um fenômeno e tradição religiosa essencialmente “não-ocidental”, se tomarmos as convenções conceituais dos discursos públicos. Seu despontar remonta a processos de centralização monárquica no antigo reino de Judá, engendrado pela corte real (com o registro especial das cerimônias de coroação em que o rei se “semidivinizava”, adotado por YHWH, então deus guerreiro das tempestades, passando a ser membro da corte divina).

Com base nas tradições orais dos antigos israelitas que viviam na região canaanita, no século XIII a.C., bem como as tradições dos chamados povos ugaríticos, que também herdaram tradições egípcias, caldeias, sumérias, etc.; com base em tradições engendradas do tempo da chamada “monarquia unida” e do Reino do Norte – sobre o qual não sabemos muito, justamente por termos ficado mais com o legado e as versões contadas no reino de Judá, do sul. Com base em tradições religiosas de todo o meio circundante, inclusive síria, fenícia, aramita, assíria, etc., etc., a tradição religiosa judaica remonta à formação da bíblia hebraica a partir da monarquia do rei Ezequias, no século VIII a.C. (quando viveu também o profeta Isaías). Passou então por períodos especiais de configuração, respondendo a desafios de cada tempo.

A urbanização de Jerusalém e a exploração dos camponeses, a rixa com os “irmãos” do reino do Norte, o império assírio, o debater-se para forjar uma identidade própria, a “globalização” da economia, a formação de um aparato burocrático, a extensão do letramento para além dos círculos restritos aos aristocráticos no século VII a.C., a “reforma de Josias” – um período especial de organização do Estado que moldou os contornos da Torah e formatou muito de suas tradições -, os confrontos entre profetas (que já não eram os adivinhos de séculos atrás) e sacerdotes, confrontos no interior do ambiente sacerdotal e entre profetas, deportação para Babilônia, formação de uma província vassala sob o império Persa… nova constituição de um reinado sacerdotal, conquista helênica, aculturação sob Alexandre, o Grande; confronto vital com governantes das guerras helênicas e insurreições, confrontos entre partidários dos helênicos e resistentes, vitória dos resistentes, rixas e massacres internos, conquista romana… ufa!…

Assim chega-se nos hoje chamados “séculos I a.C. – I d.C.”. Nesta época, não se dá para dizer qual era “o” judaísmo. Essa tradição religiosa possuía várias feições, movimentos, perspectivas, expressões.

No mínimo era muito plural – com fortes tensões internas -, ou mesmo, nas palavras de um dos maiores estudiosos do judaísmo na história, Jacob Neusner, haviam “judaísmos”. Sabemos muito pouco sobre os moldes das ideias do judaísmo da aristocracia sacerdotal daquele tempo, os “saduceus”. Ao que parece, eram partidários de uma cooptação e acomodação sob o poder romano, se não no arcabouço teórico, certamente na expressão pragmática.

Todas as outras expressões judaicas se caracterizavam por fortes ressentimentos contra Roma e sua ideologia imperial, com expectativas de que um dia seu Deus lhes vindicariam. Algumas expressões pregavam que deviam agir já para concretizar esta vindicação. Alguns eruditos judeus tentavam compatibilizar a cultura helênica com suas tradições, até mesmo destacando o que consideravam como fundamentos comuns, como o famoso Filo de Alexandria, que fazia críticas veladas ao império ao mesmo tempo que exortava à paciência.

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Outros foram mais além e capitularam, como Flávio Josefo, que teve por sua vez que registrar o amplo antagonismo de seu povo em relação à ideologia e às estruturas romanas.

Após as chamadas “guerras judaicas”, dos fins da década de 60 d.C. e da década de 30 do século II, com os morticínios promovidos pelas tropas romanas e desolação em Jerusalém, prevaleceu no judaísmo aquela que era uma de suas feições, remontando aos Prushins, os fariseus que surgiram nos meados do século II a.C. e possuíam também suas subdivisões. Desenvolveram seu corpo religioso a partir de tradições orais e de 39 livros das escrituras reverenciadas pelos judeus, e com com as tradições escritas da Mishna, Talmud de Jerusalém e Talmud da Babilônia, formaram o judaísmo pós-rabínico. Este se desenvolveu também em grande tensão e oposição à tradição religiosa da que vamos tratar um pouco agora, a cristã.

Ou seja, que é isto de falar da “tradição judaico-cristã ocidental”?? É simplesmente insustentável.[8]


Civilização baseada em Cristianismo e no Direito Romano? Mas eles são excludentes

O cristianismo remonta a um movimento provocado por uma figura que saiu dentre o povo comum na província imperial da Galileia, sob jugo de Roma[9]. Uma província de cultura judaica[10] em suas variadas expressões, como já tratamos brevemente acima, a qual passava por um período de urbanização promovido pelo governante vassalo, ao mesmo tempo ostentando uma exuberância econômica combinada com espoliação das camadas mais pobres, ciclos de dívida, violência, desintegração, perdas de terras por parte dos camponeses e acúmulo por parte de latifundiários não-residentes nas propriedades. 

Por lá passara um pregador judeu bem pitoresco, mas com uma forte mensagem chamado João (Yochanan) anunciando que a divindade estava para promover um grande ato de juízo. Após, veio seu sucessor, Jesus de Nazaré, ou rabi Yeshua bem Yossef (filho de José).

Considerando a impressão que esta figura deixou em seus seguidores devotos, vemos registros impressionantes em termos socioculturais para analisarmos sua interação com a estrutura ideológica romana. O primeiro livro a lhe registrar, conhecido como “Evangelho segundo Marcos”[11], por exemplo, começa com o anúncio “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus”. O termo “evangelion” – boas novas – era um termo-chave para as proclamações de vitórias, conquistas, feitos e “beneplácitos” do imperador, desde César. Confiram o que diz esta inscrição de Priene, datada de 9 a.C., um ano próximo aos que os estudiosos aventam como de provável nascimento de Jesus (entre 7 e 4):

A providência que ordenou toda a nossa vida, mostrando interesse e zelo, ordenou a mais perfeita consumação da vida humana dando-a a Agusto, enchendo-o de virtude para fazer a obra de um benfeitor entre os homens e, para enviar nele, por assim dizer, um Salvador para nós e para os que virão depois de nós, para fazer cessar a guerra, para criar ordem por toda parte(…). O nascimento do deus [i.e., o imperador Augusto] foi para o mundo o início da boa-nova (evangelion) que veio para os homens por meio dele.[12]

Os ecos são evidentes. Vão muito além do emprego da expressão “evangelion”. O nascimento do Salvador, que traz paz ao mundo, a pax romana, vindo para os homens, e um tema fulcral na proclamação cristã posterior. Como no anúncio da chegada de Jesus ao mundo no belo e ornamentado texto do autor que se chama de “Lucas”. Ali vemos paralelos retóricos explícitos com a proclamação romana dos césares como Salvador, vindo aos homens, muitas também comemorando seu nascimento que traria paz ao mundo, anunciando que um deus caminharia na Terra em carne e osso. “[…] eu vos anuncio a Boa-Nova de uma grande alegria que será para o povo todo: Para vós, neste dia, nasceu na cidade de Davi um Salvador, que é Messias e Senhor” (Lc 2,10-11).

A hipótese de que ‘neste dia, nasceu […] um Salvador’, de Lucas (2,11) é alegação cristã contrária à propaganda imperial associada à celebração do aniversário de Augusto, que é realçada pelas descobertas em Roma que mostram o cuidado empregado na observância do dia do imperador: os cálculos da direção dos raios do Sol naquele dia tinham um papel importante no alinhamento dos monumentos relacionados a Augusto na cidade, a saber, o obelisco em Montecitorio, o Ara Pacis e o mausoléu[13].

A partir do imperador Tibério, atribuíam-lhes títulos como “Kyrious” – Senhor (Kyrios Kaisaros “Senhor César”) -, “Huios tou Theon” – Filho de Deus -, que se tornaram características marcantes para Jesus no movimento cristão, presentes nos evangelhos e nos escritos paulinos.

Grafite anti-cristão do segundo século de Roma, mostrando um homem crucificado, com uma cabeça de burro; sob este, um escárnio rabiscado: “Alexamenos adora o seu Deus”.

Um aspecto central na proclamação de Jesus como retratada nas tradições, que é reportado como muito provavelmente fidedigna em termos históricos, é o papel do “Reino de Deus” como algo que emergia e que chegaria a um ápice de consumação.

Não há registros de paralelos dessa centralidade em alguma tradição judaica até então. O registro mais próximo estaria na oração judaica conhecida como “Kadish”, “(…) Que estabeleça Seu Reino, em nossa vida e em nossos dias e na vida de toda a Casa de Israel, pronta e brevemente (…)”. Toda a literatura registra a tensão que esta proclamação apontava em relação a ideologia da “pax romana” e sua retórica sociopolítica.

Um episódio que ilustra esta tensão de forma muito vívida é o tradicionalmente chamado de “Entrada Triunfal”, em que na perigosa ocasião da festividade da Páscoa, a qual rememorava a tradição da libertação dos israelitas do império egípcio, com autoexplicativos potenciais para desencadear manifestações de revolta e conseguintes repressões por parte do império.

Retrata a entrada de Jesus na cidade, com aclamações que eram popularmente dirigidas para a chegada dos devotos peregrinos, mas ali com fortes conotações de proclamações reais, e em uma figura nada majestosa, montada em um jumento. Nessas ocasiões da Páscoa era costume que, do outro lado tendo o Templo como referência, a autoridade romana, no caso Pilatos, entrasse cerimonialmente com muita pompa em carruagens de cavalos, saudado por sua corte como a autoridade de Roma sobre os judeus. A sátira que Jesus montou fica evidente com isso em mente.

E o apogeu trágico se deu na crucifixão sob o veredito de conspiração política para subverter a ordem do poder. Ta fica explícita na inscrição do veredito “Rei dos Judeus”, algo que é amplamente reputado pelos especialistas como muito provavelmente factual.

Além disso, é independentemente atestado como razão da execução, como pode visto, no título colocado sobre a cruz de Jesus, que ele se auto proclamou Rei dos Jesus (Marcos 15:26 e João 19:19). Não somente é uma tradição multiplamente atestada e contextualmente crível, como também satisfaz o critério da dissimilaridade. Pois se este não era um título que os cristãos utilizavam para Jesus, porque os relatos afirmam que ele foi executado por reivindicar esse título ? Evidentemente, este foi o resultado do julgamento[14].

A combinação de ditos atribuídos a Jesus a respeito da expressão do “Filho do Homem”, com os ensinamentos sobre o Reinado de Deus, analisados à luz de expressões da fé judaica da época retratadas em materiais como “Apocalipse das Semanas de Enoch”, “As Similitudes de Enoch” e tradições que remontam ao livro de Daniel (de cerca da primeira metade do século II a.C.) trazem elementos suficientes para depreender que o movimento de Jesus e as comunidades cristãs ligada ao círculo de seus discípulos lhe atribuíam o papel da figura que exerceria o Juízo de Deus.

Em uma expectativa de que nesse Juízo, exercido pelo Salvador, tomarão parte os comissionados de Deus (aí entra os ‘Doze’, simbolizando as doze tribos de Israel), e nesta consumação da História se daria o julgamento, a deslegitimação e subversão das estruturas, discursos e lógicas de dominação do mundo arquitetadas ali na ideologia romana.

Em um importante registro deixado sobre as crenças dos primórdios do cristianismo, o missionário Paulo fala a um público da comunidade cristã na cidade de Tessalônica, usando um paralelo instigante para iluminar a expectativa deles da chegada deste Reinado de Deus. Ele emprega aí o famoso termo cristão “Parusia”. Tal termo era usado quando das ostentadoras chegadas do Imperador às cidades, cheio de pompa e esplendor. Uma delegação vinha para cumprimentá-lo e os súditos vinham em festa para o acompanhar o cortejo imperial. Os arautos soavam as trombetas. O slogan do Império Romano era Pax et Securis, Paz e Segurança. Se dizia que o Império trouxera o ápice da civilização, dando estabilidade, harmonia e coesão.

Em uma passagem do livro conhecido como “Atos dos Apóstolos” (capítulo 17,4-7) é retratada uma acusação contra os cristãos: a de que estavam “sublevando” o mundo. Fala-se em “homens que sublevaram o mundo inteiro”, “(…) agem contra os editos do imperador (…)”. O verbo anastatów também quer dizer “agitar”, “tumultuar”, podendo ser traduzido também como “revolucionar”, como na Bíblia de Jerusalém. Remete à acusação do rei Acabe ao profeta Elias, em I Reis 18,17, uma mosca na sopa dos tiranos: “Tu és o perturbador de Israel”. Que sintonia civilizacional, não?

Na carta conhecida como I Tessalonicenses, Paulo afirma que tal estado das coisas estava, na verdade, precedendo algo como um trabalho de parto no qual tudo seria sacudido e o verdadeiro Rei viria para estabelecer uma ordem diferente e mais legítima. E, ao contrário do Império, que se firmava por meio do alegado e vangloriado poder de impor a morte e abreviar a vida, a aurora do Reinado de Deus virá com a ressurreição e a vitória sobre a morte do “deus crucificado” como subversivo ao império[15].

Um libelo de radical oposição à ideologia romana é o conhecido como Apocalipse. Talvez por isso, um dos livros mais arduamente debatidos se seria reconhecido como de autoridade e incorporado no “Cânon” pela igreja romana séculos posteriores. Enfrentou grande rejeição e por muito pouco não ficou de fora. O livro remete a um autor que, a partir de algumas experiências visionárias, compilou e editou uma série de imagens tiradas de literaturas conhecidas como “apocalípticas” que eram produzidas já há poucos séculos por escritores judeus, que aludiam a ascensão e queda de grandes potências.

Cristãos jogados às feras pelo direito romano, para preservar a “paz e a ordem”

Através de alusões, metáforas e símbolos, o livro produz uma forte crítica da opressão romana e aponta que esta ordem política – que se via como “natural”, “de origem divina” e “perene” – iria ser subvertida e desabar. Dele vem a famosa e aterradora expressão do “número da besta”, o 666, que é um código cifrado com numerações do alfabeto hebraico aludindo às expectativas do retorno de um imperador como Nero. 666 = Nero César[16].

Cristãos foram espancados, encarcerados, decapitados, esquartejados, eviscerados, crucificados, jogados aos leões e ao óleo fervente pelo direito romano. Enquanto hoje, pessoas com a mentalidade seguindo uma logica de valor pessoal oposta a que eles abraçavam, lhes instrumentalizam em prol de Roma. Tudo isto como ferramenta cínica para cooptar pessoas comuns.


Considerações finais

O que constatamos com esse balanço?

  • A dita “modernidade ocidental”, um recorte social e histórico artificial e ideológico, deve imensamente a águas que jorraram de legados ditos “não-ocidentais”. Destaca-se especialmente neste momento as realizações intelectuais de sistemas-históricos islâmicos.

  • O judaísmo é uma tradição essencialmente “não-ocidental”, com sistemas simbólicos “não-ocidentais”, e que o processo cujo desenvolvimento desencadeou no judaísmo, cuja linhagem perpassou pela Europa não tem alinhamento com o cristianismo, antes esteve diante de si uma forte tensão com o mesmo, tendo-se desenvolvido em confronto e resistência para com o ideário cristão.

  • O cristianismo despontou – enquanto um sistema simbólico “oriental” – como um sistema de apelos religiosos em oposição frontal com a ideologia do império romano, desde seu fundador aos primeiros seguidores e comunidades. A visão de mundo que moldava era antitética aos valores da ordem social romana.

Logo, a tríade “tradição judaico-cristã-romana” na retórica chauvinista é falsa. Os sistemas de pensamento e instituições que se processaram historicamente com elementos destas culturas, também se processaram com elementos de outras culturas e, ainda assim, aquelas foram retrabalhadas, reconfiguradas e manifestaram-se em diversas formas.

A grande questão hoje é que o problema não está simplesmente no ato de que essas reivindicações são insustentáveis e que é possível demonstrar que são falsas. Mas no momento crítico em que para os seus defensores, isto não importa. O que importa é o “insistir para colar”. Conseguiram criar uma narrativa insólita em que estão envolvidos no levante contra uma conspiração contra o “marxismo cultural”, termo que engloba toda atmosfera e acúmulo intelectual diferente do deles e, assim, blindam-se contra toda a exposição crítica. E podem “soltar suas feras”, liberando mentalidades colonialistas, chauvinistas, todo o podre despudorado que sentiam que estava sendo constrangido pelo “politicamente correto”.

A batalha hoje não é por se chegar à verdade, mas à propaganda. Que usa cortinas de fumaça e manipulações de clima de opinião para dominarem as mentes das pessoas comuns em prol de uma ordem de poder hierárquica, excludente, em que ódios xenofóbicos, preconceituosos, obscurantistas não causem constrangimentos.

Referências

[1]
• George Saliba – Islamic Science and the Making of the European Renaissance
.
[2]
Mahmoud A. El-Gamal – Islamic Finance: Law, Economics, and Practice
.
[3]
Peter Heath – Allegory and Philosophy in Avicenna (Ibn Sina)
.
[4]
• Al-Ghazali, T.J.Winter On Disciplining the Soul
.
[5]
Rumi (Jalāl ad-Dīn Muḥammad Balkhī)
.
[6]
• Hamid Hosseini  Seeking the Roots of Adam Smith’s Division of Labor in Medieval Persia
.
[7]
• Martin Bernal Black Athena: The Afroasiatic Roots of Classical Civilization
.
[8]
• Ben C. Ollenburger  Zion, the City of the Great King: A Theological Symbol of the Jerusalem Cult
• Normam K. Gottwald Introdução socioliterária à Bíblia hebraica
• Mark S. Smith – O memorial de Deus: História, memória e a experiência do divino no Antigo Israel
• Erwin Ramsdell Goodenough – An Introduction to Philo Judaeus
• William M. Schniedewind – Como a Bíblia tornou-se um livro
• Jacob Neusner – The Rabbinic Traditions About the Pharisees Before 70, Part I: The Masters
• David Flusser – Coleção: Judaísmo e as origens do cristianismo
.
[9]
• Para explicações a respeito de como as tradições sobre Jesus e o despontar do movimento cristão convergem a uma fonte comum de impactos da pregação e feitos de uma pessoa, ver especialmente:
• James D. G. Dunn Jesus Remembered: Christianity in the MakingBeginning from Jerusalem: Christianity in the Making
.
[10]
• Até poucas décadas atrás muitos estudiosos pensavam que a região estava amplamente helenizada com alguns poucos focos judaicos sob influência de emissãrios da Judeia. Hoje, contudo, o acúmulo da pesquisa aponta que era uma região de cultura e devoção judaica mesmo nos núcleos mais urbanizados como Séforis e Tibérias – de onde Jesus desponta no evangelho de Marcos na pregação ao lago -, diferentemente de Cesareia, essa sim helenizada. Ver A Wandering Galilean: Essays in Honour of Seán Freyne
.
[11]
• Não temos como saber com segurança o nome dos autores dos livros conhecidos como evangelhos, havendo fortes debates a respeito. Dentre as teorias já discutidas sobre origem e composição dos mesmos, predomina hoje amplamente que este livro de Marcos foi o primeiro e serviu de fonte para os de “Mateus” e “Lucas”. Para saber mais a respeito, confira Raymond E. Brown – Introdução ao Novo Testamento e/ou Philipp Vielhauer –  História da Literatura Cristã Primitiva: Introdução ao Novo Testamento
.
[12]
• Dittenberger – Orientis Graeci Inscriptiones Selectae [OGIS]
.
[13]
• Raymond E. Brown O nascimento do Messias: comentário das narrativas da infância nos evangelhos de Mateus e Lucas pg. 297
.
[14]
• Bart D. Ehrmann – Jesus: Apocalyptic Prophet of the New Millennium 222-223.
• Fernando Bermejo-Rubio – Why is the Hypothesis that Jesus Was an Anti-Roman Rebel Alive and Well?
• John Dominic Crossan e Marcus J. Borg – A Última Semana: um relato detalhado dos últimos dias de Jesus
.
[15]
• William Horbury Messianism Among Jews and Christians: Biblical and Historical Studies
• Delbert Burkett – The Son of Man Debate: A History and Evaluation
• Richard A. Horsley  – Paulo e o império Religião e poder na sociedade imperial romana
.
[16]
• John Joseph Collins – A imaginação apocalíptica Uma introdução à literatura apocalíptica judaica
• J. Nelson Kraybill – Culto e comércio imperiais no apocalipse de João
• Pierre Prigent – O Apocalipse

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