O fracasso (neo)liberal do governo Macri em seu primeiro ano

Em seu primeiro ano de mandato, Macri aplicou medidas que exigiram um alto custo social, com a promessa de que isso traria melhoras para a economia, o que não se concretizou.

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No último dia 10, o presidente argentino Mauricio Macri completou seu primeiro ano de mandato. Quando Macri assumiu a presidência, a maioria dos analistas (simpáticos ao seu programa de governo) e de seus eleitores esperava que seu governo obtivesse triunfos na economia, pois ele se definia como um gestor pouco preocupado em abraçar compromissos ideológicos, numa tentativa de contrastar entre os políticos tradicionais.

Sua ideia era derrubar as medidas protecionistas do kirchnerismo e "voltar ao mundo", como costumava dizer em sua campanha, fazendo alusão a um retorno ao mercado internacional, do qual de fato a Argentina esteve afastada desde o "default" de 2002. No entanto, o que se viu até agora foram medidas que vão do aumento das tarifas de serviços básicos (água, gás e energia elétrica) ao corte de despesas com programas sociais, além de outros ajustes que levaram ao aumento do desemprego, da inflação e também dos níveis de pobreza.

Os dados sobre a situação social e econômica argentina impressionam: 375% de aumento do preço da água; 300% de aumento do gás; 440% de aumento da luz; 100% de aumento do transporte; 40% de inflação; 29% de aumento da cesta básica; 40% de desvalorização do peso argentino; empréstimos que geraram aumento da dívida pública em cerca de US$ 200 bilhões (R$ 647 bilhões), o que representa quase 30% do PIB (Produto Interno Bruto), cuja projeção é negativa em -2% para este ano; aumento galopante do desemprego, sendo que, desde que assumiu, Macri já provocou demissões de mais de 100.000 trabalhadores dos setores público e privado; cortes na educação, ciência e tecnologia, e em programas sociais de assistência a crianças, idosos, pessoas em situação de rua, jovens, etc; 32,6% de aumento da pobreza (1.400.000 novos pobres e mais 350.000 indigentes); além da repressão violenta desde o início do ano contra as manifestações populares, como as ocorridas em La Plata, Cresta Roja, Tierra del Fuego, Santiago del Estero, Mendoza, entre outras.

Suas medidas impopulares e desastrosas para a economia argentina vieram acompanhadas de investimentos e descontos bilionários em impostos para o agronegócio, a mineração e o consumo de artigos de luxo. O déficit fiscal, agora sim, deverá superar os 7% atribuídos ao governo anterior pelo ministro Prat Gay, que em seus cálculos havia incorporado as consequências das medidas tomadas pelo governo Macri, ao incluir, por exemplo, o que o Estado deixou de arrecadar ao eliminar ou diminuir os tributos sobre a exportação de minérios, carnes e grãos. Esses setores exportadores foram um dos grandes beneficiados do novo governo. Em compensação, vislumbra-se uma quebradeira geral de pequenas e médias empresas, as mais afetadas pelo “círculo virtuoso”.

Em consequência dessas e de outras medidas, houve uma brutal transferência de renda dos setores sociais médios e baixos para as grandes corporações vinculadas ao setor financeiro e à exportação de commodities. Uma das principais medidas macristas que provocaram a escalada dos preços argentinos e uma das mais contestadas pela população chegou a implementar um aumento de 1000% até ser barrada pela Corte Suprema. Trata-se da tarifa de gás, cuja distribuidora é a empresa privada Metrogas, maior beneficiária deste "tarifazo", com o qual sua fatura média teve alta de 285%.

Essa hiperinflação, inclusive, fez a carne desaparecer da mesa dos argentinos. Tentando driblar a alta do custo de vida, somente em julho, 12 mil hermanos estiveram em Porto Mauá, cidade da Região Noroeste do Rio Grande do Sul atrás de preços menos abusivos. Já em outubro, os nossos vizinhos fizeram fila de 15 km para comprar mais barato no Chile.

Argentinos fazem fila para fazer compras no Chile, causando engarrafamento na fronteira.

A insatisfação popular com as políticas de Macri conseguiu unir até mesmo algumas entidades com diferenças históricas, especialmente entre as centrais sindicais. Centenas de milhares de pessoas foram às ruas contra o plano econômico macrista. Essas marchas (violentamente reprimidas) foram convocadas por mais de 100 organizações sociais diferentes que ameaçaram decretar greve geral.

Para agravar ainda mais a crise política que ronda a Casa Rosada, um juiz federal ordenou que sejam investigadas as supostas contradições nas declarações de bens feitas pelo presidente, na repercussão do escândalo mundial dos “Panama Papers”, e a oposição denunciou Macri penalmente por uma decisão a respeito da política cambial do país que provocou enormes prejuízos econômicos ao Estado nacional por ter liberado o dólar — que estava sob controle do governo —, gerando, assim, uma desvalorização de mais de 30%.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Management & Fit para o jornal Clarin, 43,1% da população julga a atual gestão ruim ou muito ruim, enquanto 25,9% a consideram positiva ou muito positiva. Além disso, mais da metade (51,6%) acredita que o presidente não está cumprindo suas promessas de campanha.

Em contrapartida, no período dos Kirchner, a dívida externa diminuiu de forma significativa, como nunca antes havia ocorrido, ao mesmo tempo em que a economia foi reativada após o colapso de 2001. O PIB cresceu a taxas superiores a 8% até 2008, quando o ritmo diminuiu em razão da crise econômica mundial, mas o país continuou crescendo. No último ano do governo de Cristina Kirchner (2015), a “presidente desenvolvimentista”, nas palavras do economista Bresser-Pereira, o PIB cresceu 2,1%, contrariando assim as previsões para baixo do FMI. A pobreza diminuiu desde 2003 de forma significativa e o salário mínimo, em reais, era o segundo maior da América Latina (atrás somente da Venezuela) em 2015. Nesse mesmo ano, a inflação (inferior a 30%) vinha caindo, simultaneamente ao desemprego, que havia atingido cifras superiores a 20% da população ativa em 2002, no governo Kirchner estava em torno de 6% e vinha diminuindo. O déficit fiscal, assunto controverso entre o atual e o anterior governo, encerrou a “Era Kirchner” em torno de 5% do PIB. Esse percentual, inferior ao de vários países considerados desenvolvidos, é questionado pelo atual ministro da Fazenda.

Em síntese, a economia do país cresceu de forma acentuada no período dos Kirchner, inclusive no último ano. A inflação, ainda considerada alta, vinha caindo ao lado da pobreza, do desemprego e da dívida externa, que também diminuíram de forma significativa. Tudo isso desmistifica a “pesada herança” de um país supostamente arruinado economicamente, alegada pelo governo Macri e a mídia hegemônica. Uma bomba pronta a explodir, segundo eles, gerada por uma crise que, na verdade, nunca existiu, apesar das diversas investidas desestabilizadoras ao longo de 2015 em um país que certamente precisava reorientar a sua política econômica como admitiam os próprios kirchneristas, mas que estava longe da crise que tanto quiseram criar.

Aqui no Brasil, Michel Temer, por sua vez, também se aproveita do pretexto da “herança maldita” – de um governo cuja chapa presidencial era integrante, diga-se de passagem – para implementar cortes em direitos trabalhistas e programas sociais, privatizações e sucateamento de serviços públicos, diminuição do peso do Estado na economia, maior abertura comercial e alinhamento da política externa com os Estados Unidos, medidas estas que nos levariam a trilhar o caminho do desemprego, inflação galopante, fuga de capitais e retorno ao FMI, como ocorre na Argentina. Tendo isso em vista, logo notamos que a rivalidade com os hermanos vai além do futebol: existe também uma competição incessante para ver qual governo, Macri ou Temer, traz mais prejuízos para seu respectivo país.

Fontes:

• G1 - Pesquisa indica que aprovação de governo Macri está em queda
           Disparada no número de pobres gera debate acalorado na Argentina
           Macri corta subsídios e conta de luz deve disparar na Argentina
           Pobreza atinge 34,5% da população na Argentina em 2016, diz estudo
Inflação leva argentinos às compras em cidades do Rio Grande do Sul
'Era K' acaba após 12 anos; veja o legado dos Kirchner na Argentina
PIB da Argentina cresceu 2,1% em 2015, segundo dados oficiais
• El País -  Governo Macri dobra o preço do transporte na Argentina
                  Destruição de emprego, um problema cada vez maior na Argentina
                  Macri começa a despedir milhares de servidores contratados pelo kirchnerismo
Promotor argentino quer investigar Macri por sua empresa nas Bahamas
No Chile, crítica aos excessos policiais; na Argentina, repressão sob Macri
• O Globo - Argentina anuncia fim de impostos sobre exportação mineradora
Argentina divulga inflação acumulada em 2015 de 26,9% em Buenos Aires
                    Oposição argentina denuncia Macri à Justiça por política cambial
• Estadão - Com inflação superior a 40% em 12 meses, carne é vaga lembrança
Pobreza diminui na Argentina, destaca El Clarin
• La Nacion - Mauricio Macri, sobre la situación de pobreza en la Argentina: "Hoy el Indec puso la verdad sobre la mesa"
El déficit fiscal primario llegó al 5,4% del PBI el año pasado, el mayor desde 1988
• Infobrisas - Bacman: "Macri tiene más de un 50% de desaprobación de su gestión"
• InNews - Argentina: Macri’s Popularity Keeps Falling Amid Inflation and Corruption Accusations
• InfoMoney - Macri faz novo aumento de tarifas e gás e água sobem até 375% na Argentina
• Valor Econômico - Supremo argentino barra alta da tarifa de gás e impõe derrota a Macri
• NEXO - O que mudou na Argentina após 1 ano de Mauricio Macri
• UOL Economia - Quanto cresceu a dívida da Argentina na gestão Macri --e por que isso pode ser seu calcanhar de aquiles...
• Estadão - Argentina acaba com gratuidade de 160 remédios distribuídos para aposentados
• Sputniks - De acordo com pesquisas divulgadas hoje (4) por agências de estatística da Argentina, desde dezembro de 2015, quando Mauricio Macri assumiu a presidência, o país registrou mais de quatro milhões de novos pobres.
• ANDES - Argentinos protestam contra corte em Ciência e Tecnologia e exigem reajuste salarial
• Folha - Desemprego na Argentina atinge 9,3% no segundo trimestre de 2016
• El Comercio - Argentina tiene 32,2% de pobres y 6,3% de indigentes
• Correio do Brasil - Trabalhadores argentinos ameaçam decretar greve geral contra Macri
• Estudos Avançados/USP - Crescimento e inflação na Argentina nos governos Kirchner
• Clarín - Un año de Macri: el 43% de la gente hace un balance negativo de la gestión y el 26% la ve bien
• Index Mundi - Histórico do PIB da Argentina (1999 - 2013)
• Trading Economics - Taxa de Desemprego na Argentina

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