Achar que conservadorismo é sinal de maturidade é um grande engano

Até mesmo na economia, dominada pelo mainstream conservador, existem exemplos que invalidam a crença de que ficamos conservadores a medida que envelhecemos.

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Muitos de vocês já devem ter escutado a frase erroneamente atribuída a Winston Churchill que diz “quem tem menos de 30 anos e não é de esquerda não tem coração, quem tem mais de 30 anos e é de esquerda não tem cérebro”. Nesta frase, provavelmente de autoria do político francês François Guizot[1] (em sua frase ele se refere aos republicanos: “Não ser republicano aos 20 anos é prova de falta de coração; ser um com 30 anos é prova de falta de cérebro.”) fica subentendido que ser de direita é um sinal de maturidade, que é uma tendência natural do ser humano se tornar conservador à medida em que envelhece.

Erroneamente atribuída a Churchill, a famosa frase que relaciona conservadorismo com maturidade é de autoria de François Guizot (1787-1874).

Muitos exemplos de líderes políticos e intelectuais acabaram confirmando essa frase, ajudando-a a se consolidar como um fato pouco questionável. No Brasil, os casos mais notáveis de políticos que estiveram na esquerda quando jovens e na direita quando velhos são os do PSDB: Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Aloysio Nunes Alberto Goldman são alguns exemplos. Há políticos mais antigos que seguiram esta tendência, como Carlos Lacerda. Ex-trotskistas fizeram ou fazem parte da direita jornalística brasileira: Paulo Francis, Reinaldo Azevedo e Demétrio Magnolli. No mundo inteiro, são frequentes os casos de baby boomers que foram hippies na década de 1960 e viraram yuppies na década de 1980. E ainda há exemplos bem mais antigos de ex-esquerdistas que viraram direitistas, como Benito Mussolini e Ronald Reagan. Porém, por mais que tantos exemplos notórios confirmem tal estereótipo, dizer que se trata de uma regra é uma demonstração de imensa ignorância sobre a história de líderes políticos e intelectuais. Ainda mais pelo fato de que também há inúmeros exemplos de pessoas que fizeram o caminho oposto à medida em que envelheceram.

Não estou falando apenas de líderes que eram de direita e passaram a ser de esquerda. Estou falando, de forma genérica, de líderes que moveram-se para a esquerda à medida em que envelheceram. Inclui também quem passou da esquerda moderada para a esquerda radical, ou quem passou da direita radical para o centro.

Desconstruindo o estereótipo “conservadorismo é uma questão de maturidade”

1. Na Economia

O economista norte-americano John K. Galbraith: cada vez mais à esquerda conforme a idade avançava.

Podemos começar por um exemplo duas vezes inusitado, economistas e nascidos nos Estados Unidos, o país mais citado pelos conservadores como referência de capitalismo que “deu certo”. John Kenneth Galbraith sempre foi progressista, mas durante grande parte de sua vida foi apenas uma parte do braço progressista do establishment norte-americano, chegando a participar da administração de John Kennedy. No final de sua vida, era extrema-esquerda dentro do espectro político norte-americano, ou seja, bem à esquerda do Partido Democrata.[2]

Paul Krugman era um economista bem mainstream na década de 1990, para a surpresa dos seus haters, especialmente os (neo)liberais tupiniquins.[3] Ao longo da década de 2000, Krugman passou a fazer fortes críticas ao mainstream do pensamento econômico, do qual antes era representante, criticando suas ideias conservadoras, como a de que a tecnologia era o principal causador da desigualdade, a de que salário mínimo alto aumentava desemprego e a de que só rigidez de preço causava equilíbrio sem pleno emprego. Em 2016, teve uma recaída, quando fez fortes críticas ao democrata considerado de esquerda radical Bernie Sanders.

A tendência também se verifica entre os “isentões”. Joseph Stiglitz, no início de sua carreira acadêmica, era um pesquisador quase neutro. Fazia modelos matemáticos sobre mercado de trabalho. Stiglitz entrou no ativismo de esquerda quando envelheceu.[4]

Jeffrey Sachs ficou famoso com sua sugestão de plano de estabilização austero para a Bolívia na década de 1980. Nas décadas seguintes, inclinou-se mais para a esquerda.[5]

2. Na Política

Barry Goldwater com George Bush (pai): era da ala extrema-direita do Partido Republicano e se tornou um dos maiores críticos desse partido.

Passando da economia para a política, podemos falar de uma pessoa com bastante evidência na mídia atualmente: Hillary Clinton. Quando estudante de high school em 1964, apoiou Barry Goldwater, o candidato ultraconservador republicano.[6] Não votou porque ainda não tinha idade. Já na faculdade, em 1968, se tornou democrata.

O próprio Goldwater é outro exemplo. Foi o ícone do movimento para puxar o Partido Republicano para a extrema-direita na década de 1960, quando este partido ainda tinha políticos moderados. Depois que a guinada para a extrema-direita ocorreu, Goldwater passou a ser crítico do rumo tomado.[7]

Democratas do sul são exemplos de políticos que começam a carreira política defendendo ideias conservadoras, talvez para agradar a base, e depois se tornam mais progressistas depois que envelhecem. Isso pode ser dito de Lyndon Johnson, Jimmy Carter, Bill Clinton e Al Gore. E isto não se restringe ao sul. A senadora democrata do Massachusetts Elizabeth Warren é uma das vozes mais à esquerda do partido. Foi republicana até 1996.[8] O democrata de Massachusetts Robert Kennedy foi outro que defendeu posições mais progressistas quando mais velho do que quando era um jovem político.[9]

3. E no Brasil?

Vinícius de Moraes chegou a ser integralista quando jovem.
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Agora passemos para o Brasil. Na década de 1930, alguns famosos integralistas foram Santiago Dantas[10]Vinícius de Moraes[11] e Helder Câmara[12]. Posteriormente, o primeiro foi ministro das relações exteriores e da fazenda de João Goulart, o segundo foi afastado do Itamaraty pela ditadura civil-militar, e o terceiro defendeu muitos perseguidos políticos pela ditadura.

Há também exemplos de políticos mais recentes. Teotônio Vilela, parlamentar alagoano, foi por muito tempo membro da UDN e da Arena. No final da década de 1970, mudou para o MDB e passou a ser um forte defensor da redemocratização.[13]

Plínio de Arruda Sampaio iniciou sua carreira política no Partido Democrata Cristão. Já era esquerdista, defensor da reforma agrária, mas ainda bastante moderado. Na década de 1980, foi uma das vozes moderadas do PT. Foi cogitado para ser Ministro da Economia, caso Lula fosse eleito em 1989, justamente porque era um dos petistas que tinha melhor relação com os empresários. No final de sua vida, foi uma das vozes mais radicais do PSOL.

Mino Carta foi fundador da conservadora revista Veja.

O fundador da Veja Mino Carta atualmente é o redator chefe da revista Carta Capital[14]. A Veja, no tempo de Carta, não era igual ao que a Veja é hoje, mas também não era igual à Carta Capital.

O economista Luís Carlos Bresser Pereira era um símbolo do neoliberalismo na década de 1990[15] (embora sempre tenha rejeitado este rótulo) e atualmente é um dos mais conhecidos críticos do neoliberalismo entre os economistas brasileiros.

Se Delfim Netto tivesse sofrido um ataque cardíaco ou um acidente até 2014, poderia entrar na lista deste texto. Mas parece que pelo que fez nos últimos meses, não pode mais…

Não podemos deixar de lembrar do Ciro Gomes, que começou sua carreira política no PDS[16] e, atualmente, é um dos maiores críticos da direita brasileira. Tal mudança fez tanto Bresser como Ciro se tornarem hoje alvos dos ataques da jovem “nova direita” neoliberal, a qual, baseando-se numa falácia do espantalho tosca do keynesianismo, os acusa de defender a impressão de dinheiro, portanto tratam-se de “inflacionistas”.

4. E no mundo?

Vamos citar, agora, exemplos de outros países. Um deles trata-se de uma celebridade bastante presente na mídia: o Papa Francisco. No tempo em que ele era o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, ele era bem mais conservador, inclusive tendo ligações com a ditadura militar da Argentina. [17]

O Papa João Paulo II também pode ser mencionado como exemplo. Na primeira década do seu pontificado, que ocorreu durante a Guerra Fria, ele era um anticomunista ferrenho. Depois do fim do bloco comunista, João Paulo II passou a defender posições mais progressistas.

O ex-presidente da França François Mitterrand (1981-1995) teve uma longa carreira política no Partido Socialista. Mas quando era jovem, na década de 1930, militava na extrema-direita. O importante político alemão Heiner Geissler, que já foi secretário geral da União Democrata Cristã (CDU), e chegou a chamar os social democratas de “quinta coluna dos soviéticos”, tornou-se um forte crítico do neoliberalismo depois do fim da Guerra Fria e passou a fazer parte da Attac.

Por fim, o político trabalhista britânico Tony Benn foi um moderado durante a maior parte de sua carreira política, e moveu-se para a extrema-esquerda quando ficou velho.

Conclusão

Exemplos de personalidade que eram de direita ou moderadas quando jovens e qu se tornaram de esquerda ou mesmo de extrema-esquerda quando mais velhos são tantos, que não tem como falar sobre todos aqui. Quem ficar curioso por alguns especificamente, pode pesquisar mais sobre a biografia (não apenas na Wikipédia).

Quem repete a afirmação “quem tem menos de 30 anos e não é de esquerda não tem coração, quem tem mais de 30 anos e é de esquerda não tem cérebro” tem cérebro, porque nenhum ser humano vive sem cérebro por muito tempo, mas utiliza muito mal este órgão. E, talvez, é contra o direito ao aborto até mesmo para o caso de acefalia.

Quem acha que ser de esquerda quando jovem e ser de direita quando velho é sinal de sensatez, será que consideraria Benito Mussolini uma pessoa sensata?

Agora, falando de pessoas do meu convívio, e não de pessoas famosas, eu tenho a oportunidade de acompanhar pelo Facebook o que meus ex-colegas de colégio e de faculdade pensam. Alguns eram de direita e continuaram assim. Outros eram de esquerda e continuaram assim. Outros moveram da esquerda para a direita. Outros fizeram o caminho oposto.

Referências

[1] SHAPIRO, Fred R.; EPSTEIN, Joseph – The Yale book of quotations (pág. 327)
[2] SCIELO – Sobre o legado de John Kenneth Galbraith
[3] Encyclopædia Britannica – Paul Krugman
[4] Nobel Prize – Joseph E. Stiglitz
[5] Universite Sthendal – JEFFREY SACHS, THE EVOLUTION OF AN AMERICAN ECONOMIST
[6] FactCheck.Org – Hillary Worked for Goldwater?
[7] Washington Post – Barry Goldwater’s Left Turn
[8] Think Progress – Why Elizabeth Warren Left The GOP
[9] Biography.com – Robert Kennedy
[10] Câmara dos Deputados – Biografia San Tiago Dantas
[11] Revista Bula – A última entrevista de Vinicius de Moraes
[12] Revista Permanência – Dom Helder Câmara – uma retrospectiva de fatos
[13] Folha – Biografia aponta como Teotônio Vilela saiu da Arena para oposição à ditadura
[14] Porta Vermelho – Mino Carta: De Veja à CartaCapital, um olhar sobre comunicação
[15] Revista Piauí – HÍFEN NÃO É DETALHE
[16] UOL Educação – Ciro Gomes
[17] O Globo – Teólogo jesuíta diz que Bergoglio é conservador e desconcertante

 

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