Por que a ideologia da classe média é tão conservadora?

A ideologia da classe média se baseia no mito de que os não brancos e pobres são bárbaros, logo incapazes politicamente, cabendo-lhes obedecer uma ordem na qual o Mercado dita as regras.


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O que diferencia a classe média do pobre no Brasil? Segundo o banco Credit Suisse, apenas 11% dos brasileiros podem ser considerados de classe média. O critério utilizado pelo banco é o tempo que a pessoa pode ficar sem trabalhar e não passar necessidades – no caso, dois anos. Isso significa que, para o CS, a maioria esmagadora da população brasileira é formada por trabalhadores pobres, ou seja, trabalhadores que não se podem dar ao luxo de ficarem sem vender sua força de trabalho por muito tempo. Já para o PewGlobal, 21% da população brasileira poderia ser considerada de classe média, pois estariam dentro da régua de consumo do mundo desenvolvido.



Outros estudos apontam que a classe média brasileira seria de 15% da população, já outros mais dizem que não passariam de 10% dos brasileiros o número daqueles com real capacidade de consumo. De qualquer forma, vemos que o Brasil tem uma minoria que pode ser considerada como verdadeira classe média. Essa minoria fica entre 20 ou 42 milhões de pessoas.

Essa classe média nível Dinamarca desfruta de um padrão de vida muito superior à média dos brasileiros e sul-americanos em geral. Todavia, ao contrário do 1%, não são donos ou controladores de topo de hierarquia de grandes empresas. São pessoas que se diferenciam dos pobres do Brasil não por possuírem ou administrarem os grandes meios de produção e sim por conta do capital cultural, ou seja, da educação formal que possuem. Claro que existem aí pequenos comerciantes ou empresários, os quais não possuem educação superior, mas, de maneira geral, a classe média coloca como seu muro entre ela e os pobres a educação formal.

Todavia, nos últimos anos, o acesso à educação superior foi facilitado para os membros das classes inferiores da sociedade brasileira. Diversos programas estatais permitiram o acesso à faculdade de pessoas que nunca imaginariam ingressar na educação superior. Claro, muitos foram obrigados a entrar em faculdades de qualidade duvidosa e alguns cursos permaneceram, em grande parte, elitizados, mas o importante é que agora a classe média tradicional passava a ter concorrentes inesperados no mercado de trabalho qualificado. Isso mexeu com a mente de representantes de um setor social que só tinha a educação superior para os separar da “ralé”.

As origens do elitismo da classe média

O muro invisível do chamado capital cultural sempre foi um diferencial para a classe média brasileira. Desde o nascimento, crianças de classe média são estimuladas pelos pais ou pelo ambiente doméstico a se engajarem em atividades, as quais permitem o treino e desenvolvimento de seu aparelho cognitivo. Até mesmo a atenção e concentração são melhores estimuladas em jovens com condições financeiras mais favoráveis. Ou seja, os muros que separam a classe média da ralé são construídos desde o berço.

E desde o berço os representantes da classe média aprendem que a ralé brasileira existe para ser explorada a troco de pouco pão. De acordo com a visão de mundo dos privilegiados de berço, os pobres seriam como animais selvagens ou representantes de um mundo culturalmente inferior. Os costumes e gostos da ralé seriam, de acordo com a visão da classe média, a prova de sua inferioridade natural. Enquanto os pobres se comportariam e teriam gostos duvidosos, baixos, inferiores, os membros das castas média e superior provariam que merecem estar em sua posição por se comportarem de maneira humanamente mais adequada. Basicamente, o privilégio seria justificado pelo gosto mais refinado e pelo comportamento mais humano. Já o comportamento bestial, sem limites e de péssimo gosto da ralé só expressaria a sua inferioridade biológica.

Essa visão de mundo que coloca uma barreira de valor entre espírito e corpo faz parte da tradição ocidental. O espírito seria sublime, racional, prova da superioridade humana frente à natureza. Já o corpo físico traria em si o bestial, o desejo sem limites, a concupiscência. Quem nunca viu em filmes anglo-americanos por aí que brancos seriam mais aptos às ciências enquanto os negros seriam melhores nos esportes e latinos seriam sexualmente insaciáveis? Essa é uma separação clássica entre o superior – aquele que usa o espírito, a mente – e o inferior – que só é capaz de usar o corpo.

Quem nunca escutou o mito da negritude apta ao sexo contado nos tempos de colônia? O mito das negras sexualmente poderosas, que saberiam dar melhor prazer ao senhor de escravos do que as brancas, as quais seriam mais propensas a organizar a vida doméstica da casa grande. O mito dos negros sexualmente ameaçadores à pureza das brancas, os quais só saberiam se guiar pelos seus órgãos genitais. A senzala era o lugar do corpo bestial e a casa grande o lugar do espírito racional e puro.

Até hoje a sexualidade negra – e, nos EUA, a latina – causa horror e fascinação ao mesmo tempo. O caso de Saartjie Baartman, a Vênus Negra, levada à Europa como aberração sexual, se insere nessa tradição. Essa é uma das dicotomias mais profundamente enraizadas no pensamento moderno. Não diria Descartes que a alma é o lugar da razão e que o corpo era uma máquina?

Por trás da crença de que a salvação está no Mercado e o inferno na política e no Estado, se esconde uma concepção racista de mundo

Para a classe média, o brasileiro é um ser bestial, incapaz de ser o senhor do seu próprio destino. Ilustração de Rodrigo Pascoal.

Pois esse é o mito fundador que separa os aptos a controlar a sociedade – ou seja, aqueles que saberiam como usar a mente – daqueles que precisam ser controlados e tutelados, pois só saberiam se entregar às perversões bestiais. Por acaso não é essa dicotomia que está presente nos discursos do “pobre não sabe votar”? O pobre, a besta, estaria para além da linha que separaria civilização e barbárie. Como as famosas linhas da amizade, que eram usadas para dividir a civilização europeia da barbárie e vale-tudo do Novo Mundo, há dentro das próprias sociedades linhas da amizade, as quais separam aqueles considerados como menos do que animais dos que, por seus gostos e refinamento, estariam aptos a ditarem os rumos da sociedade.

Nos últimos anos vimos essa linha se erguer com mais força do que nunca no discurso de uma classe média nervosa por sentir que estava perdendo seu poder dentro da sociedade brasileira. Ela veio com uma nova roupagem: os pobres (pardos e pretos) votam nos corruptos, pois são incapazes de entender a política, enquanto à classe média racional (e branca) cabia o papel de denunciar as mazelas da política nacional, pois mais apta a isso. O pobre, incapaz de usar a mente, votaria em corrupto. Por esse motivo, a classe média, formada por pessoas de mais razão e melhores gostos, deveria abrir os olhos da ralé selvagem, ou, quem sabe, retirar-lhes os direitos políticos.

E quando a ralé não escuta? Quando ela continua a apoiar “corruptos”, sem abrir os olhos para o que é melhor para o país? Bom, então nada mais resta do que abrir os olhos desses “animais selvagens” à força. São como cães: tenta-se primeiro com amor, mas, caso sejam bichos difíceis de domar, deve-se usar a coleira e o chicote. E para domar a ralé nada melhor do que um ditador. Um pai severo, que sabe colocar ordem e limites. Que sabe dar amor às crianças, mas que também sabe punir com justiça quando essas crianças não conseguem entender seu lugar. E a história do século XX está cheia de ditadores colocados no poder por uma classe média frustrada e com medo dos pobres. Hitler que o diga.

A classe média brasileira adora um pai severo, punidor. Que sabe usar o chicote para manter a ordem. Afinal, nada melhor para lidar com bichos do que um bom domador. A ralé deve ser treinada. Se não aprender, deve ser punida. Caso ainda queira sair do lugar que lhe é designado, caso queira sair da casa de cachorro e entrar na casa dos seus donos, deve ser sacrificada. Tiros na favela e UPPs violentas são necessários para que o pobre aprenda o seu lugar.

Aquele que não sabe seguir as regras da razão, mas, pelo contrário, só sabe se guiar por sentimentos e pelos desejos do corpo, não deve poder participar da política. Até porque não consegue se adaptar ao mundo democrático liberal. Como já nos dizia Sérgio Buarque, o modelo perfeito de como deveria se comportar o ser humano numa sociedade moderna é dado pelos germânicos e saxões. Esses saberiam respeitar as regras do jogo. Saberiam se adaptar e respeitar as leis e se guiar pela impessoalidade. Já os latinos, ao contrário, seriam sempre propensos ao compadrio, à corrupção, ao nepotismo, ao sentimentalismo, à selvageria.

O espírito superior do mundo germânico deveria ser o modelo. Já o mundo puramente animal de latinos, mestiços e negros deveria ser rejeitado. A racionalidade do Mercado é anglo-saxônica. A corrupção do Estado é latina. Mas, para nossa sorte, dirão alguns autores por aí, apesar da mestiçagem e latinidade serem nossas chagas, ainda é possível a uma casta superior, dentro da sociedade inferior, levar essa sociedade de bestas selvagens ao melhor que ela pode chegar. Nunca poderemos ser como os anglo-saxões, mas ao menos poderemos nos deixar guiar por eles e sua maior propensão natural a se deixar guiar pelas regras justas e impessoais do sagrado Mercado.

Conclusão

Contudo, é essa dicotomia entre selvagem x civilizado que deve ser combatida. Não, Buarque não estava certo. Os germânicos não são mais propensos a seguir regras impessoais, a não se deixarem levar pela corrupção e nepotismo. E não, os gostos e costumes dos privilegiados não são superiores. Até porque aquilo que é considerado selvagem e aquilo que é considerado civilizado, ou seja, próprio ao humano, muda conforme o tempo e o espaço nos quais estamos inseridos. O que dividiu o mundo e as sociedades entre pobres e ricos foram diversos fatores históricos e não algum tipo de superioridade e inferioridade naturais.

O que separa o mundo não é a dicotomia selvagens x civilizados e sim a dicotomia trabalhadores x patrões. Mas claro, entre os próprios trabalhadores existem aqueles que, por sua formação educacional, podem se dar ao luxo de negociarem sob melhores condições seus contratos e condições de trabalho. Podem se dar ao luxo de não terem urgência em precisar vender sua força de trabalho. Por outro lado, há os que estão aí “para o que der e vier”, os que não são capazes nem de planejar o ano por conta de sua pobreza e baixa qualificação formal. Que são obrigados a vender sua força de trabalho sob quaisquer condições e sem muita negociata contratual. Esses são o que se chama por aí de “ralé”. E sobre esses recaem todo tipo de violência física, psicológica e estrutural que a sociedade brasileira pode oferecer.

Para saber mais

• SOUZA, Jessé. A tolice da inteligência brasileira: ou como o país se deixa manipular pela elite. São Paulo, LeYa, 2015.
• SOUZA, Jessé. A Construção Social da Subcidadania. Belo Horizonte: UFMG, 2006.
• SOUZA, Jessé. A Modernização Seletiva: Uma Reinterpretação do Dilema Brasileiro. Brasília: UNB, 2000.

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